O namoro no século XXI

Tá-se fixe, tá-se bem…

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Print de autor desconhecido, em circulação nas redes sociais.

O beijo aos avozinhos

beijos.jpgQuando a avozinha ou o avozinho vão lá a casa a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho, isto é educação e estamos a educar para a violência no corpo do outro.

Estou a dizer que obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa, com obrigação coerciva, é uma pequena pedagogia… E agora vem o Foucault, com as microfísicas do poder… É uma pequena pedagogia que depois cresce e depois vemos os estudos em que 49% dos jovens adolescentes acham aceitável que o namorado ou a namorada lhes controle os telemóveis”.

As afirmações foram feitas no último “Prós e Prós”, desta vez dedicado ao tema dos abusos sexuais, a que o movimento de denúncia MeToo trouxe justificado mediatismo. Embora o discurso possa soar estranho e o exemplo ser pouco feliz, o argumento de Daniel Cardoso parece ter alguma lógica, pelo menos na parte inicial. Já a relação entre o “abuso” de ter de beijar os avós na primeira infância e o de controlar o telemóvel do/a namorado/a parece-me  um perfeito disparate…

Reflectindo um pouco na questão, que se tornou tema de debate nacional, parece-me antes de mais que o activismo fundamentalista de DC o leva a cometer pelo menos dois erros de base. Um, é o de teorizar sobre a expressão dos afectos de um bebé ou de uma criança pequena como se estas fossem adultos em miniatura. Outro, é o egocentrismo exacerbado cada vez mais típico da cultura urbana hedonista e individualista que parece estar a tornar-se o novo normal do século XXI. Tão cheia de grandes princípios, liberdades absolutas, causas politicamente correctas, activismo de redes sociais, quanto carente em relação aos valores que verdadeiramente unem as pessoas e cimentam as famílias e a sociedade.

À maioria destes novos doutrinadores das relações sociais não passa sequer pela cabeça a hipótese de ter um filho e de assumir a responsabilidade de lhe dar uma educação à altura dos seus elevados princípios. Mas estão na linha da frente para dizer aos outros o que devem fazer a esse respeito. Deviam ser talvez um pouco mais contidos na manifestação atrevida da sua ignorância. E falarem-nos, de preferência, daquilo que sabem.

Na verdade, não me lembro de alguma vez ter “obrigado” os meus filhos a beijarem ou a tratarem afectuosamente os avós. Retribuíam, com naturalidade, o amor, o carinho, as atenções que os avós lhes davam. E, como julgo que sucederá com a grande maioria das crianças, nunca viram os avós como umas visitas “que vão lá a casa”.

Pelo que, no caso da criança, evocada por DC, que não quer beijar os avós, eu pergunto em primeiro lugar o que estará a falhar na educação que lhe está a ser dada. Transmitimos à criança, desde bebé, que não há regras nem limites, que pode fazer tudo o que quer? Que todos à sua volta lhe darão para sempre amor incondicional e ilimitado, sem que ela deva mostrar reconhecimento e retribuir?

Não sou especialista em psicologia infantil, mas sei bem que todos os bebés gostam, instintivamente, de agradar a quem os rodeia e os trata bem. Encantam-nos com os seus sorrisos, muito antes de saberem falar. À medida que crescem, deverão aprender aos poucos a exprimirem esses afectos, de acordo com os hábitos sociais e familiares. Chama-se a isto educar, e continuo a pensar que uma boa educação é, a par da protecção, do afecto e dos cuidados de saúde e higiene, o melhor que os pais podem fazer pelos seus filhos.

Posto isto, há outras coisas que é preciso ter em atenção. Sabemos que nem todos os adultos, mesmo fazendo parte da família, têm a mesma empatia com as crianças. Obrigá-las a mostrar afecto a um familiar com quem nunca teve uma relação próxima pode ser mutuamente constrangedor. Aqui, impõe-se o bom senso, mais do que fundamentalismos num ou noutro sentido.

Há ainda os casos, relativamente raros mas preocupantes, de adultos que molestam sexualmente crianças. Dizem-nos as estatísticas que a maior parte dos casos de pedofilia ocorrem com familiares ou amigos da família da vítima. Se uma criança dá sinais de perturbação perante a aproximação de determinada pessoa, isso deve constituir um sinal de alerta para pais e outros cuidadores. Mas nada disto se deve confundir com o receio infantil de beijar uma tia desconhecida que um dia apareceu lá em casa. Ou de se picar na barba do avô…

O consolador

Não resisti a estes bonecos, publicados na conta Twitter de André Carneiro, que elevam as campanhas consolatórias do nosso presidente dos afectos a um nível insuspeitado…

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A escola no cinema: O Ódio Que Gerou o Amor

O Ódio Que Gerou o Amor

Título original: To Sir, With Love, 105m, Reino Unido, 1967.

to-sir-with-love.jpgUm filme britânico dos anos 60 cujo argumento se constrói em torno da chegada de um novo professor a uma escola suburbana de Londres, recheada de alunos problemáticos e desmotivados. O recém-chegado, engenheiro de formação, abraça o desafio de ensinar uma turma de alunos difíceis.

O filme pode parecer hoje um pouco datado, mas essa característica torna-se interessante porque nos permite comparar a escola secundária de há 50 anos com a dos nossos dias. Se a irreverência juvenil é intemporal, já as expectativas e preocupações dos jovens daquele tempo são bastante distintas: os rapazes e raparigas retratados no filme querem tornar-se adultos rapidamente: ter uma profissão, casar e constituir família, o que contrasta com a prolongada adolescência que hoje se vai estendendo até perto dos 30 anos.

Sidney Poitier interpreta bem o papel de um improvável professor que rapidamente se vê envolvido pelas dificuldades e desafios da nova profissão e dividido perante o dilema de regressar à actividade em que se formou ou retomar o trabalho, no ano seguinte, com um novo grupo de alunos…

 

A escola no cinema: A Família Bélier

A Família Bélier

Título original: La famille Bélier, 106m, França, 2014.

familia-belier.jpgEsta é a história de uma família invulgar: um casal de agricultores e dois filhos adolescentes. São todos surdos, com excepção de Paula, a filha mais velha do casal, que funciona como elemento de ligação da família com o mundo exterior.

A vida corre feliz e sem problemas até à entrada em cena de um novo protagonista, Thomasson, o professor de Música que descobre em Paula um invulgar talento para o canto. Que, contudo, a sua família é incapaz de apreciar.

O filme explora a intensa e nem sempre fácil relação pedagógica entre Paula e o seu professor e leva-nos, pelo meio de uma catadupa de vivências e emoções típicas da adolescência, a acompanhar o dilema de uma jovem dividida entre continuar a dar à sua família o apoio essencial ao dia-a-dia ou seguir a sua vocação.

 

Leituras: Matilde Rosa Araújo – A Fita Vermelha

fita-vermelha.JPGEu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas, Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida.

Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez em quando.

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.

Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.

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Recados para uma avó

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…que vai ficar com os netos alguns dias em Agosto

  • A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.
  • Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
    Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
  • Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
  • Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
  • Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
  • O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
  • Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
  • O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.

O texto inspirado do jornalista Paulo Farinha diverte-nos ao mesmo tempo que nos convida a uma reflexão amena, como convém a uma tarde de Verão, sobre as novas tendências na educação dos filhos. Para continuar a leitura, clicar aqui.