Enviado do meu andrade

Criatividade sempre em alta, nas justificações de falta enviadas por alguns encarregados de educação…

E também nos cartoon bem dispostos da Txitxa!

Não foi às aulas e ficou aprovado

O caso sucedeu numa escola secundária espanhola e reúne um conjunto de elementos que se vão tornando habituais na escola do século XXI: pais que querem substituir o dever de educar os filhos pelo direito de mandar na escola, directores tão prepotentes com os seus subordinados como temerosos dos inspectores, professores vulneráveis a pressões, critérios de avaliação e de transição de ano cada vez mais complexos mas que, no final, não interessam para nada, porque qualquer pretexto serve para concluir que a passagem de ano é a medida que melhor serve “os interesses do aluno”. Mesmo que este não tenha ido às aulas e para o passar seja preciso alterar oito classificações.

Claro que a excepcionalidade da pandemia ajuda à festa. Embora por cá não se tenha ainda, julgo eu, chegado ao extremo que aqui é relatado, a verdade é que já faltou mais…

A escola secundária Félix Rodríguez de la Fuente, em Sevilha (Espanha), está envolta em polémica depois de o jornal EL Mundo ter revelado que os professores de oito disciplinas decidiram mudar, subitamente, as notas de um aluno que iria ser reprovado. O aluno acabou assim por passar às ditas disciplinas sem sequer ter ido às aulas.

Segundo conta a publicação, a mudança de notas aconteceu depois de a mãe do aluno ter apresentado uma queixa em que acusava a instituição de ter negligenciado a educação do filho.

Por medo de uma inspeção, a diretora da escola acabou por persuadir os professores a retificar a situação e a mudar as notas.

Segundo documentos a que o jornal teve acesso, a mulher terá alegado que o filho era asmático e que não fora às aulas por receio de ser infetado, dado que era um doente de risco. Contudo, em momento algum apresentou um atestado médico confirmando a doença do filho. A mãe acusava ainda a instituição de não dar atenção ao aluno.

Os alunos desaparecidos

abandono-escolarEm Lisboa, no agrupamento de escolas Manuel da Maia, que serve os bairros de Campo de Ourique e do Vale de Alcântara, o diretor Luís Mocho conta que ainda não chegaram ao ponto de enviar a polícia a casa de nenhum aluno, mas estão a fazer uma listagem de todos aqueles que ainda não deram sinais de vida.

“O ensino à distância é um oásis para os alunos que nunca quiseram saber da escola. No presencial, mesmo que não fossem às aulas, andavam por ali, estavam à vista, no recreio. Agora não. Há famílias que não atendem o telefone, não respondem a emails, nada. Nem o aluno, nem o encarregado de educação”, conta o diretor.

Para já, estão a terminar um ficheiro com o nome de todos os alunos que deixaram de dar notícias para tentar perceber como vão conseguir chegar a cada um deles. “Eu sei quem é cada um destes alunos, o que não estamos a conseguir é chegar a todos. Alguns aproveitaram para ‘fugir’ da escola”, conta Luís Mocho, esclarecendo que irá avisar as CPCJ se necessário, embora esteja a tentar evitá-lo.

Como era de esperar, a escola não presencial está a favorecer o absentismo escolar. Estes alunos que não gostam da escola – ou simplesmente não gostam das aulas – já pouco ou nada cumpriam, em casa, dos seus deveres escolares. A muito custo, combatendo uma ancestral cultura de desvalorização da escola e dos saberes académicos que ainda subsiste nalgumas franjas da sociedade, foi-se impondo e consensualizando a ideia de que ir à escola é uma obrigação das crianças e dos jovens. Mas agora, com as escolas fechadas, incutir a noção de que, durante a pandemia, a escola continua em casa, está a revelar-se tarefa muito complicada.

Da minha ainda escassa experiência no admirável mundo do ensino à distância, retiro a confirmação do que já antes vaticinava: os alunos tendem a dividir-se, grosso modo, em três categorias principais: os que estão a abraçar este desafio com entusiasmo, aderindo às actividades propostas, participando nas sessões síncronas, enviando os trabalhos, mostrando até por vezes alguma impaciência, porque querem fazer ainda mais.

Depois a maioria, que vai cumprindo com moderado entusiasmo o que lhes vamos pedindo. Estão presentes nos momentos em que a turma se reúne, mas participam pouco no colectivo, passando despercebidos com alguma facilidade. E captar-lhes a atenção com um olhar ou uma interacção subtil, como tantas vezes fazemos na sala de aula, é complicado tendo os aparatos tecnológicos de permeio.

Finalmente, os desaparecidos de que fala o director Luís Mocho. Não respondem aos emails, não fazem as tarefas, não correspondem às solicitações. Consomem ingloriamente o tempo dos professores, eternamente divididos entre a vontade de corresponder às solicitações dos que querem avançar e a preocupação de não deixar ninguém para trás.

Enquanto alguns preferem entreter-se com a análise crítica das aulas da telescola ou as vicissitudes da arte de bem videoconferenciar em toda a plataforma, a mim preocupam-me mais estes alunos que, quase sem se dar conta, vão desaparecendo do radar…