Um positivo em cada mil testes

O ministro da Educação disse esta sexta-feira que os testes à covid-19 feitos ao pessoal docente e não docente para o arranque do ano letivo revelaram “cerca de um positivo” em cada mil, tendo sido testadas no total 140 mil pessoas.

“Temos 99% do pessoal docente e não docente vacinado, temos já uma grande percentagem de alunos entre os 12 e os 17 anos vacinados, temos um conjunto de protocolos muito positivos nas nossas escolas, que diminuem o risco, mas de forma importante e no reporte que tínhamos ontem de manhã, posso dizer que em 140 mil docentes e não docentes tivemos uma positividade de cerca de 0,12%.”, referiu Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, no Porto.

Na abertura do ano lectivo, a testagem em massa da população escolar a partir dos 12 anos cumpre o seu papel. O ministério apresenta os valores residuais que reforçarão a narrativa de que as escolas são lugares seguros. Os laboratórios de análises facturam o serviço, apesar de saberem que testes rápidos de antigénio são altamente ineficazes na detecção de infectados assintomáticos.

Em relação aos alunos mais novos, a reabertura das aulas é acompanhada de uma grande incógnita: sabendo-se empiricamente da maior transmissibilidade da variante delta também entre as crianças, corremos o risco de serem elas, futuramente, os maiores disseminadores do vírus: não estão vacinadas, não serão testadas e com menos de dez anos nem sequer são obrigadas a usar máscara.

Contudo, enquanto se aplicam testes em massa à população saudável e vacinada, continua a sujeitar-se os infectados e os contactos de risco às mesmas regras que vigoravam no início da pandemia. Um suspeito de ter sido infectado, mesmo sem sintomas e nunca tendo testado positivo, continua a ter de ficar duas semanas em isolamento. E se há gente que já nasceu cansada e não se incomoda nada de aceitar a benesse, outros anseiam por voltar à sua vida normal e deveriam poder fazê-lo. Mas vivem no país que prefere promover o absentismo forçado para poupar alguns milhares de euros em testes PCR.

Greve do STOP, segundo dia

Um sindicato de profissionais da Educação marca uma greve coincidente com a abertura do ano lectivo. Abrangerá, na melhor das hipóteses, apenas um ou dois dias de aulas efectivas. Não é normal isto suceder e, embora não faltem razões para protestar, a oportunidade desta greve será sempre uma questão a vir à baila.

Contudo, há pelo menos, dois motivos importantes que podem justificar esta decisão do STOP. Em primeiro lugar, a marcação de uma greve coloca as reivindicações dos grevistas na agenda informativa. Para quem a convocou, esta é uma oportunidade de fazer chegar os problemas da Educação a uma comunicação que, nesta altura do ano, costuma andar mais ocupada a servir de pé de microfone a ministros e secretários de Estado, reproduzindo acriticamente a propaganda governamental em torno da normalidade no regresso às aulas. Contrariar e desconstruir este discurso insidioso e demagógico, de quem prefere esconder e ignorar os problemas em vez de os resolver, é sempre um bom serviço que se presta à Educação portuguesa e aos seus profissionais.

Outra forte razão que legitima o recurso a uma forma de luta que muitos consideram, nesta fase, demasiado radical é o sistemático desrespeito, diria mesmo o desprezo que os responsáveis políticos do ME demonstram perante os sindicatos de professores. Todos têm razões de queixa a este respeito, mas julgo que o STOP ainda mais do que todos, ao ser sistematicamente ignorado e, até, excluído de alguns processos negociais. Se não querem falar connosco, pensarão com razão os dirigentes do STOP, hão-de ouvir-nos de outra forma…

“Já enviámos emails e reunimo-nos com responsáveis sete vezes neste primeiro semestre do ano e não se dignam a responder diretamente quando o fazemos. É uma dupla desconsideração em relação aos profissionais da educação. Vimo-nos obrigados, com a legitimidade de um plenário e de uma sondagem, a avançar com esta greve para assinalar alguns dos principais problemas que este ano letivo terá”, esclarece, começando por elencar os antigos, como a falta crónica de pessoal não docente e os seus salários de “miséria”, a existência de uma avaliação “injusta e totalmente artificial” do pessoal docente e não docente ou a constituição de turmas muito numerosas.

“Este ponto é mau por causa da pandemia e da aprendizagem, sendo que o Governo faz grandes narrativas sobre esta recuperação, mas como é que um professor pode dar um atendimento minimamente personalizado a centenas de alunos?”, questiona, referindo que “há uma desumanização e, obviamente, muitos deles, no final do ano letivo, nem sequer sabem os nomes de todos os alunos”.

Também o envelhecimento é considerado outro problema crónico do setor pelo STOP que defende o regime de aposentação especial sem penalização a partir dos 60 anos de idade e direito a uma pré-reforma digna.

Mas não fica por aqui. O excesso de trabalho burocrático é outro dos fatores que espelham a precariedade da profissão e “o concurso de docentes foi injusto porque há colegas que estão muito longe de casa e “não têm qualquer ajudas de custo”, lamentando que seja esta a realidade do pessoal docente, diferente da dos magistrados e dos deputados. “Se a educação é estruturante, temos de modificar estes e outros aspetos. Há professores que não conseguem acompanhar os filhos pequenos nem os pais acamados por estarem tão longe de casa”, nota André Pestana da Silva.

“Além destes problemas mais antigos que já levavam a um bloqueio negocial, e por isso é que somos obrigados a fazer algo diferente, também existem os novos”, destaca o líder do sindicato formado há três anos, recordando a questão da municipalização porque 66% dos municípios não estão de acordo. “Há a falta de cultura democrática deste Governo, mas determinou que os municípios que não avançaram vão ter de concluir a municipalização até 31 de março de 2022”, diz, explicando que “ninguém nos garante que, se depois desta primeira fase de municipalização sem grandes protestos, o Governo não pretenderá incluir também a gestão do pessoal docente nos municípios. Ou lutamos agora ou será muito mais difícil travar este processo no futuro”.

Música para o regresso às aulas

I will survive! – garante Tiago Brandão Rodrigues. Já para quem dá o corpo ao manifesto, as coisas não são tão fáceis.

Uma performance tão hilariante quanto improvável do nosso primeiro, numa área em que as potencialidades das novas tecnologias parecem não ter limites…

Clicar na imagem para ver e ouvir, pois o WordPress anda cada vez mais esquisito em matéria de partilha de conteúdos.

Problema de muitos…

Saúda-se o regresso inspirado dos bonecos de Anita, a Professora.

Um ano lectivo preso por arames

O tweet do candidato presidencial do PCP aponta o dedo a uma realidade incómoda, mas cada vez mais evidente: houve muita determinação, mas pouca ambição, no lançamento do novo ano lectivo em regime inteiramente presencial.

Com turmas mais pequenas – não era preciso parti-las ao meio, bastaria terem a dimensão adequada para caberem, distanciados, numa sala de aula -, algum investimento na contratação de alguns milhares de professores e funcionários em falta e, pontualmente, apoio às escolas na aquisição de acrílicos e carteiras individuais, estariam criadas condições substancialmente diferentes, não só para reabrir as escolas em segurança, mas para o fazer de forma sustentada.

Apostando em cumprir os mínimos e confiar na sorte, tudo fica efectivamente preso por arames, à mercê da primeira contrariedade que imponha o fecho de escolas. E obrigue a novas quarentenas e confinamentos.

A máscara é fundamental

Com ou sem máscara, o humor de Antero Valério a começar o ano da melhor maneira…

Confusão e protestos na abertura do ano lectivo

distanciamento

Um grupo de pais e encarregados de educação bloquearam, na manhã desta quinta-feira, o Jardim-de-Infância e Primeiro Ciclo do Bárrio, em Roriz, Barcelos, com troncos de madeira, num dia em que os alunos recomeçavam as aulas presenciais depois do confinamento, avança o ‘Jornal de notícias’.

Em causa está o encerramento de uma das salas de aula, com o qual os pais não concordam, bem como a adopção de turmas mistas, ideia que também não agrada aos encarregados de educação e que por isso levou ao boicote, segundo a mesma publicação.

«Temos quatro salas para o primeiro ciclo e este ano, pela primeira vez, decidiram fazer turmas mistas. Temos os meninos do primeiro e do segundo anos juntos, num total de 22 crianças. Como se explica que isto aconteça em ano de covid-19 e quando o ano passado os meninos tiveram muito menos aulas e precisam agora de mais acompanhamento?», explicam os pais ao ‘JN’.

Os responsáveis acrescentam ainda: «Para além disto, os alunos, porque são muitos, dividem a carteira, que tem uma fita vermelha no meio, como se os miúdos fossem cumprir e não passar para o lado do colega», continuam. «Queremos apenas ser ouvidos. Temos o mesmo número de alunos do ano passado e pela primeira vez fazem isto nesta escola», concluem.

Na escola que hoje é notícia em todo o lado, o ME seguiu a receita que todos os anos aplica em milhares de escolas por todo o país: face à descida do número de alunos matriculados – uma inevitabilidade, tendo em conta o declínio demográfico – reduz proporcionalmente o número de turmas. E faz ressurgir uma realidade que muitos julgavam já pertencer ao passado: as turmas mistas no 1.º ciclo, integrando alunos de mais de um ano de escolaridade.

Aqui, a revolta é maior porque a decisão de juntar os dois primeiros anos vai impedir o distanciamento físico dos alunos, obrigando a sentá-los dois a dois, sem máscara, partilhando a mesma mesa. Enquanto ao lado está uma sala de aula vazia…

Agrada-me ver que os pais vão finalmente abrindo os olhos para a realidade que andou meses a ser (mal) preparada e para a qual os professores, repetidamente, foram alertando. Claro que quando eram apenas os professores a falar, a reacção quase automática, vinda de diversos quadrantes, era a de que andavam a arranjar pretextos para não ir trabalhar. Ora aí têm a dura realidade.

Aos ajuntamentos na sala de aula some-se a confusão ainda maior, e notória neste primeiro de dia de escola para quase todos, nas entradas e saídas das escolas, com alunos e pais em despreocupado incumprimento da regra de distanciamento.

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E acrescente-se, embora isso não esteja a ser falado na comunicação social, que há escolas com professores e funcionários em isolamento ou de quarentena e que só abrirão, se tudo correr bem, na próxima semana.

Está lindo, e ainda a procissão vai no adro…

António Costa fala verdade?

fact_check-errado1x1“(…) e esta organização especial em que a escola vai ter de funcionar, como que criando caixas estanques entre cada turma, para que cada sala seja só para uma turma, cada carteira seja só para um aluno, que os lugares sejam sempre os mesmos (…)”

Entusiasmando-se com as suas próprias palavras – o que é compreensível num optimista nato – ou querendo enganar quem o houve – o que já não é aceitável – o primeiro-ministro garantia, no início da semana, a existência de condições seguras para o regresso às aulas. Mas será que quem o houve pode confiar nas suas palavras?

Tendo em conta o decréscimo de natalidade das últimas décadas, haverá hoje menos escolas sobrelotadas do que há dez ou vinte anos atrás. Nesse sentido, garantir uma sala fixa para cada turma será um objectivo exequível na maioria dos estabelecimentos. Mas também é verdade que, nas escolas onde se sabe existirem mais turmas do que salas – e por isso as turmas terão de ir rodando por salas diferentes – pouco ou nada se fez para alterar essas condições.

Quanto às mesas individuais, julgo que pouquíssimas escolas as poderão garantir para todos os alunos, por uma razão muito simples: as escolas são, regra geral, equipadas com mesas duplas, em número insuficiente para uma utilização individual. Mas também aqui, se houvesse vontade, poderiam ter-se criado condições, como se foi feito em Itália, onde se adquiriram mais de dois milhões de mesas individuais.

O Observador resolveu fazer, como agora está na moda, o fact check das declarações de António Costa, confrontando o seu optimismo com a realidade concreta das escolas, transmitida pelos representantes dos directores. A conclusão é óbvia: a maioria das escolas não garante aos seus alunos mesas de uso individual e em muitas delas nem sequer é possível impedir que não mudem de sala várias vezes ao dia. O PM anda a enganar os Portugueses…

“Claro que não é possível. Na grande maioria das escolas não é possível ter caixas estanques, quando nem sequer há mesas individuais. Percebo a intenção do primeiro-ministro, ela está correta, mas ele também sabe que as escolas são todas diferentes. No meu caso, que tenho mais turmas que salas, não consigo ter aquilo a que chamamos sala-mãe para cada grupo de alunos”, esclarece Manuel Pereira.

Já Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas, acredita que conseguir uma sala por turma não é impossível, mas acha improvável que as escolas consigam ter uma carteira por aluno.

[…] “Quanto às carteiras, penso que será difícil ter uma por aluno, e às vezes é mesmo impossível, porque a maioria das escolas tem mesas duplas e as salas de aula não aumentam de tamanho”.

A descoberta do dia

distanciasDepois de semanas a engolir a propaganda governamental em torno do regresso seguro às aulas, a comunicação social parece finalmente reparar que a realidade da maioria das escolas está muito longe das condições ideais que são apresentadas nos documentos oficiais.

A SIC foi a uma escola onde é impossível cumprir o metro de distância entre alunos.

Nunca foi cabalmente explicado porque é que os 1,5 a 2 metros que são a regra geral de distanciamento se reduzem a um metro no interior das salas de aula.

Não se diz que mesmo esse metro de distância não se conseguirá muitas vezes cumprir porque nem as salas aumentaram de tamanho (o que é impossível) nem as turmas foram reduzidas (o que seria uma possibilidade, liminarmente descartada em nome de critérios economicistas).

Dá-se a entender que cada aluno terá uma mesa só para si, quando se sabe que a generalidade das salas de aula estão equipadas com mesas duplas, que não chegarão para todos se usadas individualmente.

Ainda assim, não está tudo perdido. Começa-se pelo menos a falar dos dificuldades reais da reabertura das aulas, dando-as a conhecer aos alunos, pais e sociedade. Reconhecer e enfrentar os problemas é sempre o primeiro passo para os tentar resolver.

As orientações incoerentes da DGS

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O documento da Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre a forma como as escolas devem actuar perante casos suspeitos ou confirmados de covid-19 saiu na sexta-feira, e, desde então, várias associações já se manifestaram sobre as regras para o regresso às aulas. As opiniões não são unânimes. A Fenprof acusa a DGS de “incoerência” por validar normas do Executivo que vão contra as suas próprias directrizes. Para a FNE, o referencial da DGS para as escolas “não traz nada de inovador”. Filinto Lima, presidente da Associação de Directores de Escolas Públicas, considera que as indicações da DGS clarificam algumas situações. Já as confederações de pais destacam como positivo o encerramento de escolas apenas em casos excepcionais.

As novas instruções da DGS para a reabertura das escolas confirmam o que já se esperava, e é nesse sentido a FNE refere a falta de novidade. A Fenprof vai um pouco mais longe e sublinha a incoerência: regras de isolamento e distanciamento que noutros contextos são consideradas imprescindíveis, nas escolas passam à categoria de facultativas. É como se o vírus, ao passar os portões das escolas, se tornasse menos virulento…

Contudo, sabemos bem que, apesar do intenso trabalho que houve nas escolas durante os meses de Verão, as medidas mais importantes não foram tomadas. Não se desdobraram turmas. Não se investiu em mesas individuais, separadores de acrílico ou outros meios de protecção, nem se reforçaram os orçamentos das escolas para que estas o pudessem fazer de acordo com as suas necessidades. Pelo que resta alimentar a ilusão de que o uso da máscara e do gel, os circuitos de circulação ou o desfasamento parcial de horários irão operar o milagre da não multiplicação do vírus no ambiente escolar.

A verdade é que, do lado do governo, existe a convicção de que o funcionamento pleno das escolas é condição essencial para o retorno a uma normalidade do tecido económico e social que tarda em chegar. E a grande maioria dos pais, com os filhos há quase meio ano metidos em casa, também já não vêem a hora em que os poderão finalmente ver a caminho da escola.

No entanto, das intenções à realidade, a distância é significativa. Basta olhar a histeria colectiva que grassou esta semana pelos media a propósito da festa do Avante. Se uns milhares de visitantes num espaço de 30 hectares, com condições exemplares de distanciamento e segurança, provocam toda a celeuma que se viu, que haverá a dizer da mobilização de mais de um milhão de alunos, professores e funcionários para o recomeço das aulas?

Ainda assim, a ordem vai no sentido de, não só reabrir as escolas, para todos os alunos e a tempo inteiro, mas também mantê-las abertas. O que significa que os casos isolados da doença não deverão determinar o encerramento das escolas, mas apenas a quarentena dos possíveis infectados. Estas situações serão avaliadas caso a caso pelas autoridades locais de saúde e serão estas, e não os directores, a ter a última palavra quanto a um possível encerramento.

Parar, dizem em uníssono directores e pais, não é solução. Mas não é menos verdade que não se fez tudo o que se poderia e deveria ter feito para um regresso seguro. Há muito voluntarismo, mas poucas garantias de que a pretendida normalidade escolar venha a ser segura e consistente. A pouco mais de uma semana do recomeço, crescem as dúvidas e as apreensões…