“Sem os meus seguidores eu não sou nada”

jessy-taylorSer youtuber, instagrammer e influencer de sucesso: eis um modo de vida alternativo que atrai cada vez mais jovens. Uma das profissões ditas “do século XXI”, que tanto apela às “novas literacias” como se faz dependente das omnipresentes tecnologias da informação e das redes sociais.

Mas muitos destes percursos de sucesso assentam em bases muito frágeis, algo que se vai percebendo quando nos deparamos com a vacuidade, superficialidade e mediocridade da maior parte dos conteúdos que estes gurus da modernidade vão colocando online. E quando as coisas correm mal – por exemplo, quando em vez de seguidores começam a acumular detractores e os likes vão sendo substituídos por denúncias anónimas e mensagens de ódio – todo o mundo virtual em que assenta a sua vida pode desabar subitamente.

Foi o que sucedeu a Jessy Taylor, uma jovem estadunidense que depois de diversos fracassos na vida académica e profissional, construiu uma rápida carreira de sucesso no Instagram. Mas as sucessivas denúncias e encerramentos da conta acabaram por levar a jovem ao desespero. No vídeo que publicou no Youtube, a jovem, banhada em lágrimas, não consegue disfarçar a frustração e o desespero de quem, não tendo habilitações nem se sentindo talhado para cumprir um horário “das 9 às 5”, vê ruir a vida aparentemente fácil e despreocupada de uma influenciadora digital, vendendo produtos e ilusões, modas e tendências, aos seus milhares de seguidores.

“A minha conta de Instagram foi eliminada. Estou a tentar recuperá-la e a pedir ajuda a toda a gente, não sei porque é que não está a funcionar. Eu não sou nada sem os meus seguidores, não sou nada sem os meus seguidores”, diz a bloguer no vídeo, que tem cerca de 188 mil visualizações desde que foi publicado, na terça-feira.

“Eu quero dizer a toda a gente que me está a reportar para pensar duas vezes, porque está a arruinar a minha vida. Eu ganho todo o meu dinheiro online e não quero perder isso. Sei que as pessoas gostam de me ver em baixo e que seja como 90% delas, que trabalham das 9 às 17 horas, mas eu não sou. Não estou em Los Angeles para ser assim (…) Trabalhei muito para chegar onde estou e tirarem-me isso é a pior sensação do mundo”, continuou.

Na mensagem, Jessy admite ter sido prostituta no passado e ter trabalhado num restaurante McDonalds antes de se dedicar às redes sociais, sublinhando que não quer regressar a nenhum desses momentos da sua vida. Arranjar outra ocupação não está em cima da mesa. “O que alguns de vocês têm de perceber é que eu não tenho capacidade. Tenho 20 mil dólares em dívida à Universidade por isso nem poderia estudar mesmo que quisesse”.

“Antes de ter tudo o que tenho, era uma falhada”, rematou.

Em tempo de pausa lectiva, julgo estar aqui matéria para reflexão sobre os devaneios que andamos, colectivamente a incutir nas novas gerações. Quantos miúdos sonham hoje, por todo o mundo, com uma vida fácil, divertida, ganhando dinheiro sem esforço, a fazer e a promover aquilo de que gostam nas redes sociais? Quantos acham já hoje que não precisam de estudar porque a internet, que hoje lhes dá o entretenimento, amanhã lhes irá dar também o sustento?

E o duro choque com a realidade, como o irão suportar?…

Solidão entre “amigos”

telemoveisNão é o primeiro estudo, e não será seguramente o último, a evidenciar a relação entre o tempo excessivo que os jovens passam online e o sentimento de solidão. Mesmo quando se tem milhares de “amigos” nas redes sociais, com os quais se interage regularmente, parece haver componentes importantes do relacionamento humano que se perdem. E que só o contacto presencial consegue satisfazer.

Até agora, estes estudos associavam geralmente o sentimento de solidão com as horas excessivas passadas na internet, que não deixava tempo para sair, conversar e conviver com os amigos de carne e osso. Afinal, haverá algo na própria natureza das redes sociais, que leva os jovens a sentirem-se sozinhos, mesmo quando têm milhares de supostos amigos, reais e virtuais, disponíveis e à distância de um clique…

“O nosso estudo sustenta que há qualquer coisa na comunicação online que causa a solidão, que é a forma como a comunicação acontece online que cria esse sentimento”, resume ao PÚBLICO o investigador do ISPA Rui Costa. “Nas raparigas, em particular, o sentimento de solidão não se explicava por passarem menos tempo com os amigos. Foi uma das questões que nos chamou a atenção.”

As conclusões foram publicadas na revista académica International Journal of Psychiatry in Clinical Practice. O estudo, em que foram inquiridos 548 jovens em Portugal (dos 16 aos 26 anos) entre 2015 e 2016, mostra que as redes sociais eram de longe a actividade preferida dos jovens quando estão na Internet. Os participantes foram avaliados quanto à percepção de solidão, ao ambiente familiar, e se têm um “uso problemático da Internet”. Foi questionado o grau de identificação com afirmações como “A interacção social online é mais confortável do que frente-a-frente”, e “Faltei a compromissos sociais devido ao meu uso da Internet”.

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Para os investigadores do ISPA, o motivo pode estar associado à evolução da espécie humana, durante a qual a vida em sociedade foi necessária para a sobrevivência. Como tal, os mecanismos cerebrais aprenderam a reconhecer a satisfação em interacções sociais apenas quando há informação sensorial suficiente a acompanhar. 

“A hipótese que colocamos agora é que a comunicação online não tem a mesma riqueza sensorial que a comunicação offline”, explica Rui Costa. “Quando falamos da Internet, não há informação a nível do olfacto, por exemplo, e a forma das pessoas falam é diferente.”

É uma opinião partilhada pela psicóloga clínica Raquel Carvalho, que trabalha com adolescentes e crianças na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Diz que é comum os jovens que acompanha (especialmente, a partir dos 13 anos) falarem em sentimentos de solidão, mesmo que não seja o motivo principal que os leva às consultas. Um dos motivos é que é nesta idade que se começam a afastar da família e a “tentar criar vínculos afectivos com os pares”.

“Nota-se que com o mundo digital os jovens se refugiam muito na tecnologia e, por isso, as interacções com os pares são mais pobres. É com relacionamentos cara a cara que se desenvolvem capacidades como a empatia e a cooperação”, diz Raquel Carvalho. […]

O Facebook pôs mais um menino de castigo

facebook-censor-protect-from-reality.jpgSe bem percebo, mais do que um post, foi bloqueada a minha ligação ao Fbook, impedindo a publicação de qualquer link do meu blogue, como se fosse pestífero ou fonte de fake news, quando sempre me bati pelo inverso.

Vou tentar esclarecer o que se passa, mas parece que fui inserido no caixote de spam da “rede social” com base em denúncias de utilizadores (basta digitar o endereço do blogue para me impedir a publicação de qualquer texto ou ligação), mas, não é nada que me espante numa aliança de bufos que tudo o que escape à formatação irrita…

Compreendo a indignação do Paulo Guinote e dos seus seguidores na blogosfera e nas redes sociais contra a censura e ao banimento, ao que parece temporário, do Facebook. Mas devo acrescentar que o que aconteceu não me surpreende.

Ao contrário do pensamento dominante – as redes sociais são uma coisa muito boa, alguns utilizadores é que coiso e tal – sempre me desagradou aquele moralismo censório que não me parece acidental: faz parte do ADN do próprio Facebook. A rede social que sempre se recusou a colocar, ao lado do “Gosto”, o botão do “Desgosto”, como seria natural, transparente e democrático, prefere incentivar os seus utilizadores a tornarem-se denunciantes daquilo que lhes desagrada. Desrespeita-os e infantiliza-os, tratando pessoas adultas como se estivesse a castigar meninos mal comportados.

Há uns meses atrás também estive de castigo: durante um fim de semana fiquei impedido de partilhar links do meu blogue nos grupos em que estou inscrito. Sem qualquer justificação concreta para o castigo nem hipótese de apelação, apenas aquela alegação genérica de que poderei ter violado os “padrões da comunidade”. Não foi coisa que me perturbasse, na altura, até porque sempre tentei manter as minhas interacções com o Facebook no mínimo indispensável. Mas confirmou a minha ideia acerca da natureza profunda do livro das mil caras. E do velho espírito pidesco, cobarde e persecutório que, ao fim de quase meio século de democracia, dormita ainda nalguns concidadãos.

Espantosamente, este sistema dos bufos e das denúncias, dos utilizadores banidos e dos links bloqueados, das listas negras para onde resvalam os utilizadores politicamente incorrectos, convive muito bem com os perfis falsos, as campanhas de ódio e as fake news. Mas claro que tudo isto subsiste, e prospera, em última análise, graças à popularidade do Facebook, dada pela preferência dos seus milhões de utilizadores.

As pessoas deixam-se seduzir com aquela aparência de igualdade, informalidade e democracia: todos se podem exprimir, publicar, interagir. Na verdade, nem todos são iguais e as regras que regem o sistema são tudo menos democráticas. A liberdade dos utilizadores está sempre subordinada ao interesse superior dos donos da plataforma, que é maximizar o número de utilizadores e a quantidade e qualidade da informação pessoal que é recolhida de cada um.

Mas, apesar dos defeitos evidentes, a grande maioria dos utilizadores mais velhos continua a recusar-se a considerar o uso de outras redes sociais alternativas, algumas das quais certamente mais amigáveis. Pelo que o grande desafio que se coloca é como usar o Facebook sem se ser usado e manipulado por ele. A maioria ainda não estará ciente desta necessidade.  Mas é uma ideia que se percebe bem, se tivermos presente a velha máxima: quando não pagas para usar o produto, tu és o produto…

O fiasco dos coletes amarelos

coletes-amarelos.jpgQuando os planos da realização televisiva se abrem, a realidade aumenta. Em plano fechado, vêm-se caras, ombros, olhos com raiva. Quando as câmaras mostram o contexto – por exemplo, a Praça do Marquês do Pombal, em Lisboa, com a sua estátua e as duas rotundas – vê-se melhor a situação. Trinta ou quarenta cidadãos, vestindo coletes amarelos, tentam cortar o trânsito. Uns sentam-se no chão, outros empurram a polícia, outros gritam “vergonha”.

À volta desta manifestação, o dobro, ou o triplo, de polícias, de mãos dadas, observam o protesto que prometia “parar Portugal” mas não chegou a ter expressão, em nenhum dos 25 lugares escolhidos pela organização.

À manifestação dos activistas das redes sociais, da comunicação social e da extrema direita faltou o elemento fundamental para que uma acção pública de protesto possa ser bem sucedida: teve falta de povo!

De facto, a generalidade da população, preocupada com a ida para o trabalho ou com os afazeres da quadra natalícia, ignorou olimpicamente o grandioso protesto que, desde o início da semana, andava a ser anunciado.

E, no entanto, o fiasco era previsível. Desde logo, porque o movimento, longe de ser a uma genuína expressão de massas, tentou recriar em Portugal algo semelhante ao que aconteceu em França. Incapazes de fazer uma oposição à altura, sectores da direita e da extrema-direita tentaram cavalgar o protesto. E certa comunicação social, a mesma que por vezes ignora grandes manifestações e protestos organizados por sindicatos ou partidos de esquerda, aderiu à causa. Pondo de lado a objectividade e isenção próprias do jornalismo, colaboraram activamente na promoção do evento que, diziam-nos, estava a ser preparado através das redes sociais.

Ora eu frequento pouco as ditas redes – basicamente, sigo cerca de meio milhar de contas no Twitter, de gente geralmente bem informada e assertiva naquilo que escreve – mas do que li posso garantir: o cepticismo e a desconfiança em relação às manifestações dos coletes amarelos eram generalizados. Notava-se a escassa mobilização e a infiltração de elementos da extrema-direita, das claques do futebol junto de organizadores e apoiantes. Previa-se o fracasso mais que evidente.

Quanto ao activismo das redes sociais, também já vamos percebendo as suas óbvias limitações: sendo tão fácil estar comodamente no conforto do lar a lançar posts e mensagens incendiários, a fazer likes e a garantir presenças, o momento de sair à rua torna-se para muitos demasiado penoso: é preciso enfrentar o frio, o desconforto, a perda de tempo, o risco do fracasso. A grande maioria acaba por prosseguir a sua rotina normal de todos os dias…

Para terminar em beleza, deixo um resumo, ao estilo de Benny Hill, do que foram as movimentações de manifestantes e polícias na Rotunda do Marquês.

Penso, logo existo…

…nas redes sociais!

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© Henricartoon

E se o 25 de Abril fosse planeado hoje?

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Em circulação numa rede social…

As pessoas são livres de deixar o Facebook

facebookdislike.jpgOs utilizadores do Facebook podem escolher sair a qualquer altura. A ideia foi frisada pelo próprio Mark Zuckerberg, durante uma longa audição no Congresso norte-americano. “A decisão é deles”, disse Zuckerberg, que não parecia convencido com a ideia avançada pelos congressistas de uma rede social em que tudo é privado à partida.

Estou longe de ser um fã do Facebook. Reconheço nesta rede social um enorme potencial para promover a comunicação entre as pessoas mas desagrada-me o domínio avassalador que adquiriu nos últimos anos. Detesto especialmente a facilidade com que se propagam mentiras, calúnias, preconceitos e “fake news”. Aborrece-me a futilidade, a superficialidade, o preconceito, o “achismo” irreflectido e a ignorância convencida de muitos que por lá andam. Desgosta-me o moralismo dos censores facebookianos, sejam humanos ou virtuais e, acima de tudo, o sistema quase pidesco das “denúncias” que coloca os utilizadores a vigiarem-se mutuamente.

Dito isto, acho que o criador do Facebook tem razão nalgumas coisas que afirmou perante o Congresso dos EUA: as pessoas são tão livres de entrar como de, a todo o momento, sair do Facebook. São elas que devem decidir o que querem partilhar e com quem. Podem regular o nível de exposição com o qual se sentem confortáveis. E, acima de tudo, têm de ter consciência de que não há almoços grátis: o uso de uma plataforma com as potencialidades de que o Facebook dispõe nunca é verdadeiramente gratuito – se não é pago de uma forma, paga-se de outra. A questão é, como será sempre, saber se as pessoas pretendem colocar o Facebook ao serviço dos seus próprios objectivos – sejam eles contactar com os amigos, promover um negócio, divulgar as suas opiniões ou exibir a sua vida social – ou deixar que o Facebook ou os outros utilizadores façam o uso que entenderem da informação pessoal que despreocupadamente vamos publicando.