Metas curriculares: e não se pode exterminá-las?

rapaz-a-ler.gifAs metas curriculares do primeiro ciclo do ensino básico estão a deixar pais, professores e alunos à beira do abismo. Há crianças a ser medicadas para défice de atenção, “quando na maior parte dos casos, a medicação é desadequada”.

“Eu oiço muitos pais, professores e crianças e vejo como está a ser difícil mobilizar o interesse das crianças para aderir a um programa que me parece muito complicado. A situação na escola das crianças pequenas está muito complicada”, disse ao site da RTP o psicanalista João Seabra Diniz.

O médico especialista alerta ainda para o facto das crianças não estarem motivadas na escola. “Não estão atentas, são classificadas como crianças instáveis, com défice de atenção e então passam-nas para um médico que lhes dá drogas para estarem mais concentradas, o que me parece desadequado, na maior parte dos casos”.

“As metas têm erros científicos, são desadequadas às competências a desenvolver no 1º ciclo de escolaridade (…) Existe uma carga emocional, social, cultural, política sobre os professores. Se os meninos tiverem bons resultados, os professores têm boas avaliações e as escolas até têm crédito para terem mais horas de apoio aos meninos, isto é um jogo que se faz”, disse ao site da RTP Filomena Viegas, da Associação dos Professores de Português.

Já na matemática, por exemplo, um aluno do 2º ano deve saber “utilizar corretamente os termos segmento de reta, extremos do segmento de reta e pontos do segmento de reta”.

“É impossível cumprir estas metas. Os professores estão a ignorá-las porque é uma coisa intratável”, disse ao site da RTP Lurdes Figueiral, da Associação de Professores de Matemática (APM), sobre os programas e metas curriculares do 1º ciclo do ensino básico.

Os excertos que se transcrevem não são recentes, mas continuam actuais. Na verdade, foram retirados de uma notícia com quase três anos – estava ainda Nuno Crato à frente dos destinos da Educação – e dão conta de quão desajustadas e inexequíveis são as metas curriculares impostas aos alunos do 1º ciclo.

De então para cá mudou o governo, adoptaram-se diferentes orientações políticas, prometeram-se “aprendizagens essenciais” mas as metas continuam em vigor. Parece que, abolidos os “exames da quarta classe”, deixou de haver pressão para as cumprir e assim pudemos entrar alegremente naquele jogo do faz-de-conta com que tanto nos comprazemos: o governo evita os custos políticos de reverter uma má decisão do seu antecessor, não sendo assim acusado de promover o facilitismo, as escolas fingem cumprir o que todos sabem ser, para a maioria dos alunos, inalcançável e os pais deixam de se queixar do nível de exigência dos programas, entretanto atenuado.

Entretanto, o ministério que não faz o que deve ser feito – rever ou revogar as metas curriculares – entretém-se com o que ninguém lhe pediu: promover a disparatada flexibilidade curricular, ignorando todas as críticas e, numa verdadeira fuga para a frente, tentando simular em torno do projecto um entusiasmo colectivo que está longe de existir e uma vaga de fundo que sustente a sua generalização apressada e irresponsável a todas as escolas.

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Uma escola só para ciganos

escola-meaes.jpgO destaque da notícia vai para a situação de aparente discriminação de que serão vítimas 19 alunos de etnia cigana:

Deputados do PS questionaram o Governo sobre uma escola em Vila Nova de Famalicão frequentada “só por alunos de etnia cigana”, querendo saber que “soluções” pretende o Ministério da Educação encontrar perante aquela realidade “que viola a legislação”.

Em comunicado enviado à agência Lusa, os deputados Nuno Sá e Maria Augusta Santos dão conta de uma visita feita por uma comitiva socialista à Escola Básica de 1º ciclo de Meães, que pertence ao Agrupamento de Escolas D. Sancho I.

Saber-se de uma escola frequentada apenas por crianças ciganas faz soar de imediato os alarmes da discriminação e da segregação. Contudo, a realidade raramente é a preto e branco. Lendo o resto da notícia, percebe-se que a escola presta a estes alunos um serviço educativo adequado e atende às suas necessidades. Nota-se também que as crianças estão nesta escola porque é a mais próxima do local em que residem. E que outros alunos, não ciganos mas residentes nas proximidades, não frequentam esta escola porque as suas famílias as inscreveram noutros estabelecimentos de ensino.

Perante isto, o que fazer? Impor a integração à força, obrigando as crianças não-ciganas a frequentar a escola de Meães? Ou fechar esta escola e espalhar os miúdos de etnia cigana por outras escolas do concelho, em nome dessa mesma integração que na teoria todos pretendem, mas na prática frequentemente desejam que seja feita, sim, mas com os filhos dos outros?

A integração das comunidades ciganas é um problema persistente e complexo, que continua a não ser tratado com a seriedade, a honestidade e o sentido de responsabilidade devidos. No caso em concreto, o levantar da lebre assume claros contornos de demagogia político-partidária. Duvido, para não ir mais longe, que se a câmara não fosse do PSD os deputados do PS viessem levantar esta questão.

Quanto à essência do problema, creio que a maior discriminação nem está no facto de haver uma escola frequentada por crianças ciganas, que ali estão por livre vontade das suas famílias. A questão de fundo, que a notícia do DN não esconde, parece-me estar antes por aqui:

Os deputados explicam ainda que enviaram uma missiva à secretaria de Estado da Habitação a questionar sobre se o Governo tem conhecimento do Acampamento da Comunidade Cigana em Meães, junto à escola.

Os parlamentares registaram que existem 17 casas em condições extremamente precárias, sem condições para habitabilidade e com graves riscos para as pessoas.

“São casas sem saneamento básico, sem eletricidade, sem acesso à rede de água e sem segurança onde vivem vários agregados familiares, estimando-se que ali habitam entre 80 a 100 pessoas”, explana o texto.

A verdadeira discriminação é a que existe na sociedade e nas persistentes desigualdades que continuam a subsistir e, em muitos casos, a aumentar. Quando se manifesta também na escola, é porque quem teria capacidade para intervir e resolver os problemas de base há muito se demitiu de o fazer.

Discriminação e racismo numa escola de Portimão?

group_animated[1]A acusação à Escola Básica Major David Neto parte da associação SOS Racismo:

Em nota enviada à agência Lusa, a associação SOS racismo dá conta das denúncias efetuadas por vários encarregados de educação de alunos de uma turma do 4.º ano daquela escola, entre as quais alegadas agressões verbais e físicas por parte de funcionários e discriminação de crianças de outras etnias.

De acordo com as denúncias dos pais, a escola “tem uma turma onde colocou todas as crianças de etnia cigana, crianças com deficiências e crianças de raça negra, e crianças de ‘raça branca’ que são transferidas de outras escolas”, situação que classificam de “maior absurdo, porque a mistura racial e cultural enriquece a todos”.

Segundo os pais, a situação toma mais relevância, ao tomarem conhecimento de que as crianças de etnia cigana comem de pé, alguns deles colocados estrategicamente ao pé do caixote do lixo”.

Se as coisas se passam exactamente da forma que é descrita, então será evidente a atitude discriminatória em relação aos alunos referidos. Também é certo que educar exige  uma atitude pedagógica dos educadores: não é expectável que a dar maus exemplos aos alunos mal comportados eles aprendam a respeitar os outros ou se tornem melhores pessoas.

Em todo o caso, esperar que a escola, ao mesmo tempo que ensina, integre e socialize todas as crianças, resolvendo problemas complicados de origem social e familiar, exige um conjunto de meios e de condições, humanas e materiais, que geralmente não estão disponíveis. Isto não serve de desculpa para o indesculpável, mas ajuda a compreender que há situações em que as soluções ideais não existem e as decisões que se tomam são quase sempre em busca do mal menor.

Para que se perceba melhor: quando se juntam numa só escola um número apreciável de alunos pertencentes a uma minoria étnica ou cultural com dificuldades de integração, isso significa que, antes de a escola fazer alguma coisa, já a sociedade os “guetizou”. Não conheço o caso em concreto da escola de Portimão, mas se eventualmente as crianças que se apresentam como problemáticas estivessem distribuídas pelas diversas escolas da cidade, a sua integração seria certamente mais fácil.

No entanto, falta saber o que os responsáveis da escola e do agrupamento, bem como a autarquia, responsável pelas refeições escolares, terão a dizer sobre o assunto. Aguardemos, com serenidade, os indispensáveis esclarecimentos.

PIRLS 2016 – as reacções

pirls.JPGA descida dos resultados dos testes internacionais de literacia aplicados aos alunos do 4º ano em 2016, comparativamente com a avaliação anterior, de 2011, é indesmentível. Mas os números podem ser lidos de diversas maneiras e suscitar diferentes interpretações. Vejamos o que se tem escrito, entre ontem e hoje, sobre a matéria.

O governo, pela voz de João Costa, não perdeu tempo em culpar o seu antecessor e em particular as mudanças introduzidas por Nuno Crato no 1º ciclo:

O secretário de Estado da Educação, João Costa, considerou nesta terça-feira que a descida dos resultados dos alunos do 4.º ano de escolaridade na literacia em leitura se deve “às medidas tomadas entre 2012 e 2015” pelo então ministro Nuno Crato.

“Desde o início temos uma prática regular de trabalho com as escolas e foram muitos os directores e professores que nos reportaram preocupação com o 1.º ciclo, com os alunos a serem treinados para um momento de avaliação específica [exames] e uma baixa preocupação com os processos” de aprendizagem.

Ao que Nuno Crato respondeu prontamente:

“Uma coisa é certa para já: provas realizadas num ambiente de facilitismo, em que as avaliações não servem para nada, em que se propaga que as metas devem ser menos ambiciosas e que o ensino não deve ir tão longe não têm dado bons resultados”, afirmou Nuno Crato.

É difícil negar as evidências: uma prova aplicada a alunos que em 2016 estavam a concluir um 1º ciclo feito nos moldes definidos pela equipa de Nuno Crato, avalia antes de mais essa política, assente em metas e descritores curriculares prescritivos, com um maior foco na leitura do que na compreensão do que se lê e com exames finais a condicionar a evolução das aprendizagens. Não me parece que um novo governo, entrado em funções há apenas dois meses, tivesse influído significativamente num trabalho que vinha a ser desenvolvido, pelo governo anterior, desde 2012.

Mas noto um certo esconder da mão que atira a pedra: neste eduquês de meias-tintas de que tardamos em livrar-nos, João Costa também não se sente muito à-vontade para criticar as metas curriculares que considera terem sido prejudiciais, pois a verdade é que elas continuam, ainda hoje, em vigor. E se quase todos concordam que objectivos mecanicistas como “ler 95 palavras por minuto” contribuem pouco, quer para a compreensão do que se lê, quer para fomentar o prazer da leitura, falta a coragem política para revogar o que não serve. Será que querem conservar a “pesada herança” para continuarem a ter um bode expiatório sempre que algo corra mal?

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Alunos portugueses lêem pior

Saíram os resultados do PIRLS 2016, o teste internacional que avalia as competências de leitura dos alunos do 4º ano de escolaridade.

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Em linhas gerais:

  • Portugal regista uma descida acentuada no ranking de países, passando de 19º a 30º num grupo de 50;
  • Ainda assim, a pontuação obtida – 528 – é estatisticamente superior ao valor médio de referência da escala PIRLS – 500 – e é igual ou superior ao obtido por países como Espanha, França ou Bélgica;
  • Desapareceu a tendência, notada na generalidade dos países e também entre nós, em 2011, de o desempenho das raparigas ser significativamente superior ao dos rapazes.

Seguir-se-ão as análises, as opiniões e as reflexões sobre um assunto que ocupará a actualidade educativa nos próximos dias e ao qual, certamente, voltarei.

Para já, apenas uma nota importante para balizar o jogo de acusações e de culpas que costuma acompanhar este tipo de debates: os alunos participantes nestes testes realizados em 2016 foram as cobaias do modelo educativo implementado por Nuno Crato, com as metas de aprendizagem e os seus múltiplos descritores a formatar a prática lectiva e avaliativa e tendo os exames finais do 4º ano como corolário.

A avaliação PIRLS 2016 é, em larga medida, a avaliação da política educativa do governo PSD/CDS no que diz respeito à leitura, à compreensão e ao domínio da língua.

 

Resposta certa, errada ou assim-assim?

O exercício era simples, até para uma criança de sete anos: escrever usando algarismos números escritos por extenso.

E o miúdo sabia fazê-lo, como se depreende pelas respostas que deu. No entanto, a sua “interpretação” da pergunta foi diferente do que era pretendido pela professora, que considerou as respostas erradas. Mas o pai da criança teve dúvidas e acabou, como conta o DN, por colocar o assunto à consideração superior. No Twitter…

Será que a expressão “os seguintes números” pode entender-se como “os números seguintes”?

Será a pergunta suficientemente ambígua para permitir a possibilidade de responder de duas formas diferentes, ambas correctas?

Deveria a professora valorizar a capacidade de raciocínio do aluno e considerar certo o exercício?

Ou estamos precisamente perante um raciocínio incorrecto, que induziu o aluno em erro, embora acabando a fazer algo até mais difícil do que o pedido?

Ou ainda: o que temos aqui é uma expressão de criatividade, algo que a escola deve valorizar e estimular nos alunos, ou já o embrião de um vício demasiado frequente nos adultos, a mania de complicar?

Como se vê, são mais importantes as dúvidas e as reflexões que este caso suscita – o tweet original tem já mais de cinco mil respostas – do que a resposta definitiva para a questão colocada.

Em todo o caso, e se quisermos uma posição que possa servir de voto de qualidade, talvez o tweet da Real Academia Española, instada a pronunciar-se, possa servir a esse fim. Os académicos não têm dúvidas: “tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam com algarismos os números que se citam a seguir“. E não haveria, pergunta ainda alguém, uma forma mais clara de colocar a questão? Sim, responde a Academia, o mais claro seria escrever “estes números”.

Entretanto Ignacio Bárcena, o pai da criança, perante a repercussão de um tweet que rapidamente se converteu num quase julgamento público da professora do seu filho, sentiu também a necessidade de esclarecer: da sua parte, foi apenas uma brincadeira. E gosta muito da professora do seu filho.

“O primeiro ciclo também pensa”

alunos-abc.pngManter durante uns anos um blog razoavelmente visitado,  não é tarefa fácil.

Muitas vezes pensei em desistir. Uma delas foi quando uma página anónima “Quem se preocupa com os professores do primeiro ciclo” me acusou de plágio. Sempre que os citava usava aspas, e a identificação possível, pois trata-se de um página eternamente anónima. O que prova que há medo entre alguns professores do primero ciclo, ou que têm alguma coisa a esconder. Hoje em dia sobrevivem do que alguns blogues publicam, e perderam o fulgor editorial de outros tempos.

Há medo no 1º ciclo, como sugere o Duilio Coelho, um resistente que continua, através do seu blogue PRIMEIRO CICLO, a intervir na blogosfera docente? Ou serão apenas a descrença, o desânimo e a exaustão a falar mais alto?

Sendo inteiramente verdade que o primeiro ciclo também pensa, todos ganharíamos com uma maior presença destes colegas no espaço de discussão pública dos temas e dos problemas da educação.

Pois pensando juntos, pensamos melhor.