De pantufas na sala de aula

De Inglaterra, chega mais uma descoberta importante para todos os que persistem na senda do sucesso educativo: os alunos aprendem melhor se calçarem, na escola, os chinelos ou as pantufas que usam em casa. A investigação parece demonstrar que os alunos ficam mais calmos e concentrados nas aulas.

guardian.JPG

Como acertadamente comenta, no Twitter, o nosso colega Javier, isto da inovação educativa é um poço sem fundo…

Anúncios

O regresso das turmas mistas

As turmas mistas – as que, no primeiro ciclo, juntam alunos de mais do que um ano de escolaridade – já foram consideradas em vias de extinção. A política de construção de centros escolares, a par do encerramento das escolas pequenas da maior parte das aldeias, favoreceu a concentração dos alunos, permitindo constituir turmas onde todos os alunos estão no mesmo ano de escolaridade.

alunos.jpg

Além de constituírem muitas vezes uma sobrecarga de trabalho para os professores, as turmas mistas costumam ser associadas ao insucesso escolar, pelo que o seu desaparecimento gradual tem sido consensual nos últimos anos. Contudo, o “Inverno demográfico” que assolou o nosso país com a entrada da troika e os anos de austeridade está agora a fazer sentir os seus efeitos nos primeiros anos de escolaridade: o número de alunos diminui de ano para ano e cada vez mais escolas se vêem confrontadas com um sério dilema: ou regressam às turmas mistas ou deixarão de ter alunos suficientes para continuar em funcionamento.

A reportagem do DN dá a volta ao país e encontra, mesmo às portas das grandes cidades, uma realidade que até aqui era comum sobretudo no interior desertificado e envelhecido. Vale a pena ler…

De um lado da sala, as crianças praticam a escrita da letra T acabado de aprender, pouco depois de terem ficado a conhecer uns sinais matemáticos em forma de cruz e de travessão. As somas e subtrações virão apenas mais tarde. Do outro lado, os colegas tentam resolver uma já complexa conta de dividir escrita na ardósia. Pode parecer estranho, mas estamos a falar de alunos da mesma turma e nem sequer de uma escola do interior do país: estamos na Moita, a 40 quilómetros de Lisboa. As chamadas turmas mistas, que juntam alunos de vários anos na mesma sala, começaram por ser notícia por serem um fenómeno relativamente raro, mas hoje passaram a ser a norma em muitas escolas do 1.º ciclo para fintar a quebra da natalidade.

Todas as escolas do interior contactadas pelo DN reconhecem que têm de recorrer a esta solução, que também já é usada junto a grandes cidades e que o antigo presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) David Justino classificou de “chaga social” e um dos maiores problemas para o sucesso escolar. E mesmo as que ainda não têm turmas multinível sentem já os efeitos do inverno demográfico, em especial com a chegada neste ano das crianças nascidas em 2012, quando pela primeira vez, desde que há registos, o país desceu abaixo dos 90 mil nascimentos (89 841, uma queda abrupta de sete mil nascimentos em relação ao ano anterior, que marcou a chegada da troika).

Novas pedagogias – O método global

abc.pngNos últimos anos tem-se criticado muito o ensino tradicional e a escola dita do século XIX, procurando abrir espaço para a adopção de “novas pedagogias” – a maior parte delas não tão novas assim – que supostamente permitiriam uma aprendizagem mais activa, dinâmica e significativa por parte dos alunos.

Mas será que as teorias pedagógicas que nos apresentam como inovadoras realmente funcionam? Demonstraram já a sua eficácia, na prática, em relação às metodologias tradicionais?

Um interessante trabalho publicado num site espanhol de divulgação científica vem justamente tentar esclarecer, baseando-se em evidências, esta problemática: quais as pedagogias que provaram que funcionam?

Dentro de uma temática que revisitaremos, vejamos por agora o que sucede com o método global para aprender a ler.

Com este método, em vez de se ensinar as letras e a sua correspondência com sons, parte-se de textos e palavras que se apresentam ao aluno partindo do princípio de que ele aprenderá por si mesmo o alfabeto. Os defensores do método global dizem que a aprendizagem se faz de uma forma mais natural e interessante para o aluno. Mas, nos casos em que corre mal, pode atrasar a aprendizagem da leitura.

O que a investigação demonstrou é que o método mais eficaz para ensinar a ler todas as crianças – incluindo os que são capazes de aprender sozinhos e por isso qualquer método lhes serve – é o alfabético. Quando se aplica o método global muitas aprendem a ler igualmente bem, mas uma parte não. Estas podem chegar ao 3º e 4º anos de escolaridade e continuam sem descodificar bem e não conseguem compreender o que lêem. Isto vai-se reflectir nas restantes aprendizagens e “arrastar-se ao longo de toda a escolaridade, com consequências catastróficas”.

Adaptado daqui.

Fake news

O problema da falta de vagas na rede pública de educação pré-escolar é real, afectando sobretudo a zona da Grande Lisboa.

Problema igualmente grave, mas menos falado, é o das crianças que fazem os seis anos entre 15 de Setembro e 31 de Dezembro e que são forçadas a ficar mais um ano no jardim de infância sempre que o ME não abre turmas suficientes para receber estes alunos no 1º ano. Ora a transição destes alunos, sendo facultativa, deveria ser decidida com base em critérios estritamente pedagógicos e não condicionada por critérios administrativos e economicistas.

Posto isto, é de lamentar a forma manipulatória e sensacionalista como estes assuntos continuam a ser tratados por alguma imprensa, veiculando informação falsa e colocando-se ao serviço de estratégias político-partidárias. Estiveram mal o Público e a jornalista Clara Viana, neste caso denunciado pel’Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Primeiro, inventa uma mentira e forja dados. Depois, perante a denúncia, mantém-na. Entretanto, um partido toma uma iniciativa com base na mentira. Por fim, faz notícia dessa iniciativa, sublinhando orgulhosamente que ela assenta na mentira original. É o Público.

truques.jpg

Questionam-se os leitores: mais do dobro é quanto? Em que é que se traduz este aumento de 100% a que se refere o Público? Segundo a mesma notícia, mais abaixo, este ano já se terão queixado de problemas de colocação no pré-escolar… 20 pessoas, um número manifestamente baixo no universo de pais e crianças para tirar qualquer ilação sobre variações.

Mas o problema mais grave é, sem dúvida, outro: o número de queixas apontado é falso. Sendo que as queixas submetidas no Portal da Queixa são abertas e visíveis por qualquer pessoa que aceda ao Portal, é fácil de verificar que apenas foram submetidas 13 queixas (e não 20) relativamente ao período de inscrições de 2018.

Como se não bastasse, também o número de queixas relativas a 2017, através do qual se chega à conclusão sobre o aumento de 100%, é falso. Não foi de 10 (como se deduz pela notícia), mas sim de 14.

Ou seja, a “onda de reclamações” que supostamente decorria de aumento de 100% (de 10 para 20), afinal, é uma redução do número de queixas, igualmente desprezível, de 14 para 13. É – digamos – uma onda em maré vaza.

Os concursos de professores em números

conc2018A partir das listas provisórias de ordenação dos candidatos, e partindo desta notícia do Público e das análises habituais do blogue de referência nestas matérias, que é o do Arlindo, é possível assinalar algumas características dos concursos deste ano. Claro que, em resultado dos processos de reclamações, desistências, exclusões e rectificações de dados, os números finais poderão diferir ligeiramente dos que agora é possível apurar.

…foram aceites 96.044 candidaturas quando as vagas existentes para os professores contratados entrarem na carreira são apenas 3486.

Contudo, o número real de candidatos é inferior, pois muitos, por terem habilitação para tal, candidatam-se a mais do que um grupo de recrutamento. Quanto às vagas disponíveis, distribuídas pelos diferentes grupos de recrutamento, elas são 1236 para o concurso “normal” e 2084 para o extraordinário.

...no que respeita ao concurso externo extraordinário […] foram apresentadas 39.299 candidaturas, quando no ano passado, para o mesmo tipo de procedimento, se tinham registado 9911. Já no que respeita ao concurso externo ordinário foram apresentadas 56.745 candidaturas, um número que, embora superior, está próxima da média (cerca de 50 mil) registada noutros anos para este concurso.

A grande maioria dos docentes concorre às vagas do grupo de recrutamento em que lecciona. Mas há fluxos estatisticamente significativos de professores que procuram, através do concurso, conseguir colocação noutro grupo, sendo aqui de destacar o que parece estar a suceder no 1º ciclo e no mais numeroso dos três grupos da Educação Especial:

O maior fluxo de tentativas de mudança acontece nos docentes do grupo 110 – 1.º Ciclo. Existem 1.381 docentes do quadro do grupo 110 que pretendem mudar para outro grupo de recrutamento. É para o grupo 910 que mais pretendem mudar (404) seguindo-se para o 260 – Educação Física com 373 tentativas de mudança.

Neste momento já existem 144 docentes dos quadros do grupo 910 que pretendem mudar novamente para o seu grupo de origem. Sinal que o 910 não foi a melhor escolha para uma boa parte destes docentes que vincularam no 910.

A fuga à docência no 1º ciclo será provavelmente uma tendência que vem para ficar, se não forem revertidas as medidas discriminatórias que têm sido tomadas contra os docentes que leccionam neste nível de ensino. Se nada for feito, poderá repetir-se a falta de professores que se verificou no sector, há duas a três décadas atrás, quando estes colegas eram discriminados a nível remuneratório. Uma vez mais, repetem-se os erros, em vez de aprender com eles.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Procuradoria dá razão aos professores

A questão estava pendente no processo negocial do descongelamento das carreiras: devem os professores que ingressaram nos quadros durante o período do congelamento ver contado todo o tempo de serviço prestado anteriormente?
Para os professores e seus representantes sindicais, a resposta só poderia ser uma: evidentemente que sim, pois é isso que está previsto na lei e essa prática sempre foi respeitada por sucessivos governos. Mas o ME, mais interessado nas poupanças…
topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: A confusão instalada nas provas de aferição

A substituição dos chamados “exames da quarta classe” por provas de aferição a realizar no final do 2º ano de escolaridade foi saudada pela maioria dos professores e de outros especialistas e interessados nos temas educativos. Replicar, no 1º ciclo, o modelo de avaliação externa do final do básico e do secundário foi uma má opção do anterior governo, com evidentes efeitos negativos na dinâmica das práticas pedagógicas e da organização das aprendizagens neste nível de ensino. Contudo, o modelo maximalista e demasiado complicado das actuais provas de aferição também não parece ser ajustado, nem aos fins pretendidos, nem à idade dos alunos, nem à especificidade do 1º ciclo.

Educação alimentar em cuvetes de plástico

escola-maria-barroso.JPGNa escola do 1º ciclo mais moderna de Lisboa, conta o Público, os alunos comem comida aquecida e servida em recipientes de plástico. Segundo parece, a escola básica Maria Barroso não foi dotada de infraestruturas eléctricas que suportem o funcionamento da cozinha nem a utilização regular do sistema de aquecimento. Na velha tradição portuguesa, não se planeia adequadamente e só depois da inauguração com pompa e circunstância, ao surgirem os problemas, é que se pensa em remediá-los.

Pelas contas da recém-formada associação de pais, desde o início do ano lectivo já foram gastos 432 quilos de plástico desnecessariamente. “Venderam-nos esta escola fantástica, mas pouco tempo depois do início das aulas começámos a saber que os alunos comiam em pratos de plástico. Disseram-nos que era uma situação pontual, que demoraria um mês ou mês e meio a resolver-se”, explica Catarina Ramalho, presidente da associação de pais.

No entanto, a situação não deve ser ultrapassada antes do Verão. “O cabo de electricidade que serve a escola é o mesmo que servia a obra”, explica o vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Ricardo Robles. A escola funciona no edifício do antigo Tribunal da Boa-Hora, no Chiado, que também é usado pelo Instituto de Registos e Notariado. Para que a escola tenha um quadro eléctrico próprio, “o posto de transformação tem de ser alterado”, diz Robles.

Percebe-se que, para além da óbvia negligência dos serviços da Câmara de Lisboa – as instalações escolares do 1º ciclo e do pré-escolar são competências camarárias -, há um outro factor que amplifica o descontentamento dos pais destes alunos: aliciaram-nos com a ideia de que os seus filhos iriam ter a melhor e a mais moderna escola da cidade. Prometeram-lhes que iria ser desenvolvido um projecto pioneiro de alimentação saudável. E afinal nem os requisitos básicos da alimentação escolar – refeições confeccionadas no local e servidas em recipientes apropriados – se conseguiram cumprir.

E aqui está também um ponto onde continuamos a falhar demasiadas vezes, e que ainda há dias era sublinhado entre nós pela ministra finlandesa da educação: o importante não é ter projectos e instalações de referência nesta ou naquela escola, é garantir que há padrões de qualidade que são atingidos e mantidos, de forma consistente, em todas as escolas.