Primeiro ciclo desmascarado

criancas-covid.PNG5 – A obrigação de uso de máscara ou viseira nos termos do presente artigo apenas é aplicável às pessoas com idade superior a 10 anos, exceto para efeitos da alínea c) do n.º 1, em que a obrigação do uso de máscara por alunos apenas se aplica a partir do 2.º ciclo do ensino básico, independentemente da idade.

Decreto-Lei n.º 39-A/2020, ontem publicado, vem mais uma vez alterar o quadro das medidas excepcionais e temporárias relativas à pandemia. Entre novas determinações, aproveitou-se para clarificar a regra que determina a obrigatoriedade do uso da máscara a partir do 2.º ciclo.

Os alunos do 1.º ciclo estão dispensados, apesar de bem sabermos que outras regras de distanciamento físico e social são, nestas idades, mais difíceis de cumprir.

Também estão excluídas à partida outras medidas compensatórias como a redução ou o desdobramento das turmas, assim como tudo o que vá para além da curiosa teoria da “bolha” que vem sendo enunciada pelos (ir)responsáveis ministeriais – contagiem-se uns aos outros, sim, mas apenas dentro da vossa bolha!

Com tanto facilitismo e imprudência juntos, é pertinente questionar se o contágio pelo vírus da covid-19 fará parte das experiências pedagógicas a implementar no 1.º ciclo. A incluir futuramente, quem sabe, nas aprendizagens essenciais…

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Para docentes do 1.º ciclo e da educação pré-escolar…

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Pensar fora da caixa

thinking-outside-the-box.jpgIndo além das numerosas contingências e sacrifícios que nos vai impondo, o combate à pandemia poderia ser uma oportunidade de mudança na Educação. Recentrando a escola, não nos preconceitos, nos dogmas e nas ambições pessoais dos governantes e dos seus medíocres conselheiros, mas no que é realmente importante e estruturante para a formação escolar, social e pessoal dos alunos.

Precisaríamos, claro, de decisores que não fossem tão quadrados no pensamento e na acção, capazes de pensar fora da caixa, sacudindo de vez as teias mentais que tolhem o passo em direcção às mudanças realmente necessárias.

E não é muito difícil encontrar soluções simples, eficazes e não necessariamente muito mais dispendiosas para continuar a aprender na escola presencial. Se são ignorantes nestas matérias – como o ministro, cada vez que abre a boca, faz questão de demonstrar – ou não encontram ajuda e inspiração entre a sua corte, deveriam ter a sensatez a a humildade de ouvir quem sabe – nomeadamente os professores que estão no terreno, que trabalham diariamente na sala de aula e que nunca abandonaram os seus alunos em busca de outros desafios.

Leiam por exemplo a proposta do nosso colega Duilio Coelho, que explica com clareza o que poderia ser alterado no primeiro ciclo, em alternativa à salgalhada curricular em que sucessivas e insensatas reformas o transformaram.

Os alunos do 1.º ciclo deveriam ter apenas aulas no periodo da manhã, deixando as tardes para:
– Atividades Extra-Curriculares;
– Estudo;
– Atividades Desportivas;
– Atividades Culturais;
– Atividades Musicais;

Não tenho qualquer dúvida em afirmar que a aprendizagem dos alunos seria bem superior, os níveis de motivação e concentração de manhã são muito superiores ao periodo da tarde.
O segundo aspeto era reduzir a gordura curricular, pois o atual currículo é reconhecidamente desadequado para a maioria dos alunos, não dando tempo para trabalhar consistentemente os aspetos mais importantes do desenvolvimento do aluno.

A continuação do trabalho do professor poderia ser de forma remota, de tarde, para os alunos com dificuldades de aprendizagem, que recebiam lições extra em casa ou na escola acompanhados de adultos.

Este horário permitia acionar mais facilmente um plano de emergência “COVID” sem os sobressaltos da última interrupção lectiva presencial. Reduzia os tempo de presença de alunos e professores nas escolas e diminuía o risco de contágios, quer da gripe quer do Covid e outros problemas relacionados com permanência excessiva em ambiente escolar.

Ouvir os miúdos

Ouvir o que nos dizem os alunos, mesmo os mais novinhos, é importante. É um erro pensar-se que, porque são pequenos, não têm opiniões e não pensam nas coisas.

Pelo contrário: por vezes demonstram um sentido reflexivo e crítico que alguns dos mais velhos, amorfos e alienados, já perderam.

E olhem que eles são capazes de nos surpreender.

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Retirado daqui.

Municipalização da Educação… Física

educacao_fisicaPode a Educação Física, uma componente curricular obrigatória no 1.º CEB, ser leccionada por alguém que, tendo embora uma prestigiada carreira como atleta de alta competição, não possui habilitações científicas nem pedagógicas nesta área?

Pode a actividade lectiva no âmbito da EF ser substituída por uma espécie de animação desportiva, feita por uma ex-atleta que assume não ser professora?

Pode a prática física e desportiva nas escolas ser confundida com uma actividade de angariação de talentos para as escolas e clubes desportivos locais?

É uma situação demasiado nebulosa a que envolve o ensino da Educação Física aos alunos do 1.º ciclo de Viana do Castelo, que motiva o protesto dos professores da disciplina e que a Câmara não se esforça por esclarecer. E uma antevisão de uma realidade que poderá ganhar escala pelo país inteiro, quando todo o ensino não superior estiver entregue às autarquias e às “forças vivas” locais…

«Na nossa qualidade de professores de Educação Física, para manifestar a nossa indignação com as práticas de desmedido desrespeito pela nossa atividade profissional, que vemos acontecer na nossa cidade (Viana do Castelo) e na nossa área de trabalho» – assim começa o documento enviado à Comunicação Social.

«A realidade é que Manuela Machado possui o 12º ano, que empenhadamente obteve aos 35 anos nas “Novas Oportunidades” (dados fornecidos pela própria nas redes socias). Não tem, nem nunca teve, o curso de treinadora de Atletismo. Mas é ela que lecciona Atletismo no âmbito do programa do ensino da modalidade, dando aulas de 15 em 15 dias ou de 3 em 3 semanas (nos outros dias a aula é dirigida por outro funcionário da Câmara, provavelmente licenciado em desporto, mas que, quanto nos é dado saber, também não tem qualquer formação no ensino da Educação Física)» – pode ler-se no documento.

E acusam: «O grave da situação é que este processo decorre em todas as escolas do concelho de Viana do Castelo, na aula curricular de Expressão e Educação Física Motora. Compreende-se por isso que, na sua humildade, Manuela Machado peça aos alunos que não lhe chamem professora. Ela sabe que não o é».

No entanto garante, segundo os subscritores, que para a ex-atleta “o facto de 1800 crianças estarem a aprender Atletismo é uma enorme mais-valia para os clubes e para o concelho”. Faltou-lhe dizer que é ‘dona’ de um desses clubes – os Cyclones/Sanitop, a Escola de Atletismo Manuela Machado – e que está colocada no local ideal para escolher os alunos que melhor poderão servir os interesses desse clube», pelo que lhes «parece ser ainda mais caricato é que a campeã nacional de Maratona (veteranos/50 anos) vai às escolas brincar com os alunos, na aula curricular de Expressão e Educação Físico-Motora… Está correto?»

A vida difícil dos professores do 1.º ciclo

duilio.JPGSe não é fácil ser professor no Portugal do século XXI, leccionar no primeiro ciclo pode ser um desafio profissional ainda mais duro e desgastante.

Estes professores formam a base do sistema educativo, construindo com os seus alunos, todos os dias, os alicerces de todas as aprendizagens futuras. Um trabalho sem dúvida motivador e gratificante para quem exercem a profissão com gosto e vocação.

É certo que a monodocência permite que se tenham habitualmente menos alunos do que noutros ciclos de ensino. Mas a maior carga horária e a inflexibilidade dos horários colocam uma carga demasiado pesada aos ombros destes nossos colegas. 

Como constata, na primeira pessoa, o Duilio Coelho…

Aos 62 anos de idade consegui finalmente ter uma tarde livre

No primeiro ciclo é assim…muitas horas letivas mais. Disponíveis para todos os atropelos à lei e maltratados quando demonstram rebeldia.

Mal representados em todas as instituições escolares, mas peças fundamentais no sistema educativo.

Visita paroquial

padre2.gifUm padre visita regularmente uma escola básica pública do concelho do Seixal para falar, nas aulas, sobre a religião católica. A mãe de uma das crianças queixou-se e a solução que a escola encontrou foi obrigar o menino a sair da sala, sempre que o pároco entra.

Muito estranha, mas nem por isso menos revoltante, a história que nos é contada na notícia da Visão. Um padre que visita a escola do 1.º ciclo e vai às salas de aula falar de céu, inferno e idas à catequese. Sem que tal esteja oficialmente enquadrado no currículo ou no plano de actividades, nem sequer tenha sido pedida a devida autorização aos encarregados de educação.

Não é preciso ser entendido em leis para perceber que, num Estado laico, estas visitas paroquiais não só não têm qualquer cabimento pedagógico como atentam contra direitos constitucionalmente protegidos. E tão ou mais grave do que a permissividade com que os docentes e o coordenador da escola contemporizam com a situação, parece-me ser o lavar de mãos irresponsável da DGEstE e da direcção do agrupamento.

E que dizer da forma como trataram a mãe reclamante, fazendo-a sentir-se uma “ave rara”, como se estivesse a inventar um problema inexistente, como se os princípios da laicidade e da liberdade religiosa pudessem ser impunemente desrespeitados, uma vez que “mais ninguém se queixou”?

Consultando o site do agrupamento, a perplexidade adensa-se: aparentemente, não existem aulas de EMRC no primeiro ciclo,  algo que a legislação em vigor permite. Se há esta vontade de fazer doutrinação religiosa às criancinhas e famílias que o desejam livremente, porque não criam a disciplina e abrem a sua frequência aos interessados?

O que não é aceitável é o proselitismo religioso no contexto das actividades curriculares do 1.º ciclo, algo que não faz parte dos programas nem se coaduna com os princípios do ensino não confessional a que todas as escolas públicas se encontram obrigadas. E, por maioria de razão, que se mandem sair as crianças “ateias” da sala de aula para que o padre possa, sem constrangimentos, pastorear o resto do rebanho…

A escola metida num contentor

escola-godinho.pngDezenas de pais de alunos da Escola Básica do Godinho, em Matosinhos, protestaram, este sábado de manhã, contra a instalação de contentores no espaço do recreio para acolher alunos da escola privada, Scholé, que se situa em frente. Em causa está a falta de licenciamento da Scholé para dar aulas aos alunos do primeiro ciclo já inscritos.

A instalação dos contentores no recreio Escola Básica do Godinho, em Matosinhos, estava prevista para este sábado de manhã e os pais dos alunos só foram informados na sexta-feira. Indignados e revoltados, cerca de 40 pais estavam desde as 7 horas em frente à escola para impedir a entrada dos contentores, tendo fechado os portões a cadeado.

António Correia Pinto, vereador da Educação e do Ambiente da Câmara de Matosinhos, explicou que “esta necessidade [de instalar contentores na escola do Godinho] resultou do facto de a Scholé ter apresentado junto da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) um pedido de licenciamento para a oferta de primeiro ciclo nas suas instalações e esse processo, depois de ter sido analisado pelos serviços, ter sido rejeitado”.

Já há dias tinha escrito sobre este caso, paradigmático na forma como a “liberdade de escolha” na educação rapidamente descamba, quando surgem dificuldades, no apelo ao Estado, esperando que seja este a resolver problemas e a assumir responsabilidades que cabem por inteiro aos “empreendedores”.

Também é reveladora a facilidade com que certas autarquias se dispõem a afectar recursos públicos à satisfação de interesses privados. Muitas vezes com uma solicitude que não conseguem ter perante as necessidades das escolas da rede pública. Que no 1.º ciclo são, essas sim, de total responsabilidade autárquica.

Na base de tudo, está uma escola privada resolveu admitir alunos do 1.º ciclo sem ter um espaço adequado para os receber. Perante o pedido de ajuda endereçado à câmara, esta não encontrou melhor solução do que roubar parte do recreio de uma escola pública vizinha para aí instalar, num contentor, os alunos da escola privada.

Comprovou-se também que, nestas situações, não devem os lesados calar a sua voz. Perante a ocupação do espaço pelos pais dos alunos da Escola do Godinho, as máquinas não avançaram. E e o vereador da Educação vem agora apelar ao diálogo…

Pelas 9.30 horas, quando os pais se preparavam já para fazer um cordão humano e impedir a entrada das estruturas, o vereador anunciou que a instalação dos contentores estava suspensa e que a Câmara não vai tomar nenhuma decisão antes de reunir com os pais. Nesse sentido, a Autarquia convocou uma reunião para a próxima terça-feira entre a DGEstE e a associação de pais da Escola Básica do Godinho, com cerca de 200 crianças, para analisar a melhor solução para os 42 alunos da Scholé.

Brincadeira obrigatória

041700a[1]As crianças portuguesas brincam e mexem-se pouco, passam pouco tempo ao ar livre, estão demasiado tempo entretidas com aparelhos electrónicos e não convivem o suficiente com outros miúdos da sua idade. Eduardo Sá faz um diagnóstico certeiro do mal que as sociedades “do século XXI” estão a fazer às novas gerações.

Criámos a escola a tempo inteiro e, depois dela, as actividades extracurriculares para que as crianças possam estar sempre ocupadas. Fechamo-las em casa para as protegermos do frio, da chuva, do calor e e dos perigos, reais ou imaginários, que correm ao brincar no exterior. Ou, simplesmente, por mera comodidade dos adultos, que assim ficam com mais tempo para si próprios.

E no entanto, brincar é das coisas mais importantes que uma criança pode e deve fazer. Roubar-lhes a brincadeira na infância é comprometer irremediavelmente o seu futuro, como algumas investigações científicas vão começando a demonstrar. O início da escola não pode ser o fim do tempo e do espaço para brincar, como Eduardo Sá explica magistralmente…

A partir do momento em que a escola se tem vindo a transformar no “trabalho infantil” do século XXI, temos cada vez mais famílias a fazer com que os seus filhos entrem nela mais tarde – aos 7 – para que tenham direito a mais um ano de infância(!). Ou seja, no século XXI a infância parece terminar aos 6! Se, dantes, a escola se caracterizava como “O” indicador mais inequívoco das crianças com direito à infância, hoje, até porque todas elas vão (felizmente!) à escola, aquilo que distingue as crianças que têm infância daquelas que não a “têm” é o brincar. O tempo e a qualidade do brincar diários que os pais reservam para os filhos.

Como as crianças têm menos tempo de infância, menos irmãos e famílias menos alargadas, menos actividade física, menos recreio, menos convívio e menos relação com o ar livre, receio que tenhamos crianças cada vez mais quietas, mais apáticas e mais caladas. Crianças que não crescem aprendendo com o corpo mas contra o corpo. Crianças que convivem com famílias muito pequenas. Que não brincam tanto como deviam. Que vivem espartilhadas em compromissos escolares e confinadas a espaços reduzidos. Que, muitas vezes, mandam muito mais nos pais do que deviam. Que, por isso, se vão transformando em “novos chefes de família”. E que são tratadas como adultos de tamanho “S”. Restam-lhe os amigos. E os jogos! Até porque (já repararam?) as lojas de brinquedos vão morrendo, aos bocadinhos. 

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Uma escola do século XXI?

escola-varzea.PNGEscola sem turmas, salas de aula, toques de campainha, alunos alinhados naquilo que agora deram em chamar “modelo do autocarro” ou, em versão menos inspirada, “escola do século XIX”.

O modelo organizacional e pedagógico que entre nós vem sendo divulgado, desde há muitos anos, pelo Movimento da Escola Moderna, não inspirou apenas a Escola da Ponte. Pelo país, vão-se conhecendo outros projectos que tentam criar uma escola mais autónoma e democrática, na qual os alunos aprendem de uma forma mais livre, criativa e com um maior protagonismo na construção do seu próprio conhecimento. Como é o caso do que se desenvolve, há mais de uma década, na Escola Básica da Várzea de Sintra.

Alguns excertos da extensa reportagem do Observador em visita a esta escola despertam a nossa curiosidade e interesse. E se é um pouco forçado falar em inovação pedagógica quando nos referimos a metodologias que já se praticam há muitas décadas, a verdade é que a sua aplicação continua a ser rara. Apesar do entusiasmo com que os seus adeptos as defendem, a larga maioria dos professores portugueses ainda não se deixou convencer.

Ficam alguns excertos da referida reportagem e uma ideia: é importante avaliar, em todas as suas dimensões, de forma isenta e objectiva, estes projectos. Perceber até que ponto eles se tornam viáveis apenas em pequenas comunidades educativas com características muito específicas – que tem sido o cenário habitual da sua implantação – ou se serão escaláveis para outros contextos educativos. Avaliar as vantagens deste ensino aparentemente mais criativo e participativo, mas também os inconvenientes e limitações deste modelo. Distinguir entre o que são aprendizagens significativas, sólidas e estruturadas que distintos métodos pedagógicos podem proporcionar e a caricatura que deles anda a ser feita por outros lados, onde o facilitismo e o folclore educativo estão a ser adoptados como receita para o sucesso. Um sucesso fictício – que é o que menos nos deveria interessar…

“Mesmo depois de eu tirar as portas, em 2003, ainda havia alunos que chegavam à ombreira, paravam, batiam na madeira e perguntavam se podiam entrar. Não é isso que queremos. Queremos áreas abertas. Nós não aprendemos só porque estamos fechados… Quando falamos nas paredes estamos a falar na pedagogia do espaço, em não ter os alunos sentados em comboio, cada um na sua sala, na sua turma, com o seu professor”, continua o professor António, que regressou à escola o ano passado depois de a vida familiar o ter levado durante alguns anos para o Alentejo.

“No início do ano letivo, perguntamos aos alunos o que é que é importante aprenderem e dialogamos com eles. No princípio, têm dificuldade em escolher e o professor ajuda: ‘O que é que os pais perguntam se aprenderam?’ ou ‘O que é que está nos manuais?’” Começam a pensar e fazem as suas listas de objetivos. No final, o professor cruza tudo com os objetivos de aprendizagem e faz uma proposta dialogada. Os alunos sentem aqueles objetivos como seus, porque foram parte integrante do projeto de construção.”

“Eles estão todos em diferentes níveis da leitura e da escrita. Aprendem através do método natural, ou seja, partimos de uma novidade contada no início da semana. A partir daí trabalhamos a frase, a palavra, a sílaba. Raramente chegamos à letra, a não ser quando é necessário desenhá-la”, explica Marta, que juntamente com a professora Sofia Padrão trabalha com 43 alunos. Nesta sala, um enorme espaço aberto, com as mesas a formar ilhas, as paredes que tanto maçam o professor António já foram deitadas abaixo. De outra forma, os 45 ocupantes não caberiam todos no mesmo espaço.

Da mesma forma que as turmas tradicionais não existem — são desenhadas no papel, existem administrativamente porque o Ministério da Educação assim o exige, os alunos agrupam-se das mais diversas formas — na escola básica também não há anos de escolaridade. Quando chegam à sala das professoras Marta e Sofia, os alunos de 5 e 6 anos, em vez de entrarem para o 1.º ano, entram para o núcleo de iniciação. Depois segue-se o núcleo de consolidação e, por último, o de desenvolvimento. A diferença não está apenas nos nomes, está em todo o modo de funcionamento.

“Qualquer um pode transitar em qualquer momento para o núcleo seguinte se tiver feito todas as aprendizagens. Mas isso só não basta e muitas vezes espera-se. Para além da aprendizagem, é preciso olhar para a questão relacional — como é que aquela criança se relaciona com o grupo — e é preciso que o aluno tenha autonomia e maturidade para poder transitar”, explica a professora Marta do núcleo de iniciação.

“São alunos muito mais motivados, mais empenhados, mais felizes na escola e ganham competências ao nível da responsabilidade e da autonomia. Quando comecei a dar aulas afligia-me algumas perguntas que me faziam: ‘É para fazer a lápis ou a caneta?’, ‘Nesta linha ou naquela?’ Eram muito mais dependentes de nós. Claro que, às vezes, as decisões que eles tomam custam-nos muito. Se um aluno escolhe fazer desenhos todos os dias da semana, temos de nos conter para não dizer nada. Só no final da semana é que perguntamos: ‘O que fizeste?’ Quando chegam a essa parte de análise, dizem logo que não correu bem, que só fizeram atividades livres. Chegam àquela conclusão e refletem sobre o que fizeram. Isto é muito importante”, sustenta a professora Isabel. Se o professor tivesse intervido, o aluno não teria feito aquela aprendizagem.