Novas pedagogias – O método global

abc.pngNos últimos anos tem-se criticado muito o ensino tradicional e a escola dita do século XIX, procurando abrir espaço para a adopção de “novas pedagogias” – a maior parte delas não tão novas assim – que supostamente permitiriam uma aprendizagem mais activa, dinâmica e significativa por parte dos alunos.

Mas será que as teorias pedagógicas que nos apresentam como inovadoras realmente funcionam? Demonstraram já a sua eficácia, na prática, em relação às metodologias tradicionais?

Um interessante trabalho publicado num site espanhol de divulgação científica vem justamente tentar esclarecer, baseando-se em evidências, esta problemática: quais as pedagogias que provaram que funcionam?

Dentro de uma temática que revisitaremos, vejamos por agora o que sucede com o método global para aprender a ler.

Com este método, em vez de se ensinar as letras e a sua correspondência com sons, parte-se de textos e palavras que se apresentam ao aluno partindo do princípio de que ele aprenderá por si mesmo o alfabeto. Os defensores do método global dizem que a aprendizagem se faz de uma forma mais natural e interessante para o aluno. Mas, nos casos em que corre mal, pode atrasar a aprendizagem da leitura.

O que a investigação demonstrou é que o método mais eficaz para ensinar a ler todas as crianças – incluindo os que são capazes de aprender sozinhos e por isso qualquer método lhes serve – é o alfabético. Quando se aplica o método global muitas aprendem a ler igualmente bem, mas uma parte não. Estas podem chegar ao 3º e 4º anos de escolaridade e continuam sem descodificar bem e não conseguem compreender o que lêem. Isto vai-se reflectir nas restantes aprendizagens e “arrastar-se ao longo de toda a escolaridade, com consequências catastróficas”.

Adaptado daqui.

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Fake news

O problema da falta de vagas na rede pública de educação pré-escolar é real, afectando sobretudo a zona da Grande Lisboa.

Problema igualmente grave, mas menos falado, é o das crianças que fazem os seis anos entre 15 de Setembro e 31 de Dezembro e que são forçadas a ficar mais um ano no jardim de infância sempre que o ME não abre turmas suficientes para receber estes alunos no 1º ano. Ora a transição destes alunos, sendo facultativa, deveria ser decidida com base em critérios estritamente pedagógicos e não condicionada por critérios administrativos e economicistas.

Posto isto, é de lamentar a forma manipulatória e sensacionalista como estes assuntos continuam a ser tratados por alguma imprensa, veiculando informação falsa e colocando-se ao serviço de estratégias político-partidárias. Estiveram mal o Público e a jornalista Clara Viana, neste caso denunciado pel’Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Primeiro, inventa uma mentira e forja dados. Depois, perante a denúncia, mantém-na. Entretanto, um partido toma uma iniciativa com base na mentira. Por fim, faz notícia dessa iniciativa, sublinhando orgulhosamente que ela assenta na mentira original. É o Público.

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Questionam-se os leitores: mais do dobro é quanto? Em que é que se traduz este aumento de 100% a que se refere o Público? Segundo a mesma notícia, mais abaixo, este ano já se terão queixado de problemas de colocação no pré-escolar… 20 pessoas, um número manifestamente baixo no universo de pais e crianças para tirar qualquer ilação sobre variações.

Mas o problema mais grave é, sem dúvida, outro: o número de queixas apontado é falso. Sendo que as queixas submetidas no Portal da Queixa são abertas e visíveis por qualquer pessoa que aceda ao Portal, é fácil de verificar que apenas foram submetidas 13 queixas (e não 20) relativamente ao período de inscrições de 2018.

Como se não bastasse, também o número de queixas relativas a 2017, através do qual se chega à conclusão sobre o aumento de 100%, é falso. Não foi de 10 (como se deduz pela notícia), mas sim de 14.

Ou seja, a “onda de reclamações” que supostamente decorria de aumento de 100% (de 10 para 20), afinal, é uma redução do número de queixas, igualmente desprezível, de 14 para 13. É – digamos – uma onda em maré vaza.

Os concursos de professores em números

conc2018A partir das listas provisórias de ordenação dos candidatos, e partindo desta notícia do Público e das análises habituais do blogue de referência nestas matérias, que é o do Arlindo, é possível assinalar algumas características dos concursos deste ano. Claro que, em resultado dos processos de reclamações, desistências, exclusões e rectificações de dados, os números finais poderão diferir ligeiramente dos que agora é possível apurar.

…foram aceites 96.044 candidaturas quando as vagas existentes para os professores contratados entrarem na carreira são apenas 3486.

Contudo, o número real de candidatos é inferior, pois muitos, por terem habilitação para tal, candidatam-se a mais do que um grupo de recrutamento. Quanto às vagas disponíveis, distribuídas pelos diferentes grupos de recrutamento, elas são 1236 para o concurso “normal” e 2084 para o extraordinário.

...no que respeita ao concurso externo extraordinário […] foram apresentadas 39.299 candidaturas, quando no ano passado, para o mesmo tipo de procedimento, se tinham registado 9911. Já no que respeita ao concurso externo ordinário foram apresentadas 56.745 candidaturas, um número que, embora superior, está próxima da média (cerca de 50 mil) registada noutros anos para este concurso.

A grande maioria dos docentes concorre às vagas do grupo de recrutamento em que lecciona. Mas há fluxos estatisticamente significativos de professores que procuram, através do concurso, conseguir colocação noutro grupo, sendo aqui de destacar o que parece estar a suceder no 1º ciclo e no mais numeroso dos três grupos da Educação Especial:

O maior fluxo de tentativas de mudança acontece nos docentes do grupo 110 – 1.º Ciclo. Existem 1.381 docentes do quadro do grupo 110 que pretendem mudar para outro grupo de recrutamento. É para o grupo 910 que mais pretendem mudar (404) seguindo-se para o 260 – Educação Física com 373 tentativas de mudança.

Neste momento já existem 144 docentes dos quadros do grupo 910 que pretendem mudar novamente para o seu grupo de origem. Sinal que o 910 não foi a melhor escolha para uma boa parte destes docentes que vincularam no 910.

A fuga à docência no 1º ciclo será provavelmente uma tendência que vem para ficar, se não forem revertidas as medidas discriminatórias que têm sido tomadas contra os docentes que leccionam neste nível de ensino. Se nada for feito, poderá repetir-se a falta de professores que se verificou no sector, há duas a três décadas atrás, quando estes colegas eram discriminados a nível remuneratório. Uma vez mais, repetem-se os erros, em vez de aprender com eles.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Procuradoria dá razão aos professores

A questão estava pendente no processo negocial do descongelamento das carreiras: devem os professores que ingressaram nos quadros durante o período do congelamento ver contado todo o tempo de serviço prestado anteriormente?
Para os professores e seus representantes sindicais, a resposta só poderia ser uma: evidentemente que sim, pois é isso que está previsto na lei e essa prática sempre foi respeitada por sucessivos governos. Mas o ME, mais interessado nas poupanças…
topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: A confusão instalada nas provas de aferição

A substituição dos chamados “exames da quarta classe” por provas de aferição a realizar no final do 2º ano de escolaridade foi saudada pela maioria dos professores e de outros especialistas e interessados nos temas educativos. Replicar, no 1º ciclo, o modelo de avaliação externa do final do básico e do secundário foi uma má opção do anterior governo, com evidentes efeitos negativos na dinâmica das práticas pedagógicas e da organização das aprendizagens neste nível de ensino. Contudo, o modelo maximalista e demasiado complicado das actuais provas de aferição também não parece ser ajustado, nem aos fins pretendidos, nem à idade dos alunos, nem à especificidade do 1º ciclo.

Educação alimentar em cuvetes de plástico

escola-maria-barroso.JPGNa escola do 1º ciclo mais moderna de Lisboa, conta o Público, os alunos comem comida aquecida e servida em recipientes de plástico. Segundo parece, a escola básica Maria Barroso não foi dotada de infraestruturas eléctricas que suportem o funcionamento da cozinha nem a utilização regular do sistema de aquecimento. Na velha tradição portuguesa, não se planeia adequadamente e só depois da inauguração com pompa e circunstância, ao surgirem os problemas, é que se pensa em remediá-los.

Pelas contas da recém-formada associação de pais, desde o início do ano lectivo já foram gastos 432 quilos de plástico desnecessariamente. “Venderam-nos esta escola fantástica, mas pouco tempo depois do início das aulas começámos a saber que os alunos comiam em pratos de plástico. Disseram-nos que era uma situação pontual, que demoraria um mês ou mês e meio a resolver-se”, explica Catarina Ramalho, presidente da associação de pais.

No entanto, a situação não deve ser ultrapassada antes do Verão. “O cabo de electricidade que serve a escola é o mesmo que servia a obra”, explica o vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Ricardo Robles. A escola funciona no edifício do antigo Tribunal da Boa-Hora, no Chiado, que também é usado pelo Instituto de Registos e Notariado. Para que a escola tenha um quadro eléctrico próprio, “o posto de transformação tem de ser alterado”, diz Robles.

Percebe-se que, para além da óbvia negligência dos serviços da Câmara de Lisboa – as instalações escolares do 1º ciclo e do pré-escolar são competências camarárias -, há um outro factor que amplifica o descontentamento dos pais destes alunos: aliciaram-nos com a ideia de que os seus filhos iriam ter a melhor e a mais moderna escola da cidade. Prometeram-lhes que iria ser desenvolvido um projecto pioneiro de alimentação saudável. E afinal nem os requisitos básicos da alimentação escolar – refeições confeccionadas no local e servidas em recipientes apropriados – se conseguiram cumprir.

E aqui está também um ponto onde continuamos a falhar demasiadas vezes, e que ainda há dias era sublinhado entre nós pela ministra finlandesa da educação: o importante não é ter projectos e instalações de referência nesta ou naquela escola, é garantir que há padrões de qualidade que são atingidos e mantidos, de forma consistente, em todas as escolas.

Violência entre alunos numa escola do 1º ciclo

padrao-da-legua.JPGUm grupo de pais de alunos da escola básica do Padrão da Légua, em Leça do Balio, Matosinhos, manifestou-se esta segunda-feira em frente à escola contra a “insegurança” no estabelecimento devido a “casos de violência” entre alunos.

De acordo com fonte da Associação de Pais daquele estabelecimento, os pais reclamam que as medidas preventivas e disciplinares previstas por lei sejam aplicadas na escola.

“Precisamos de mais psicólogos, animadores, assistentes sociais, o que for preciso. Precisamos que nos ajudem a ter uma escola normal, sem indisciplina”, disse.

Questionada pelos jornalistas sobre o que tem acontecido dentro da escola, a responsável afirmou que “há alunos a entrar e a sair das aulas sem controlo, há insultos a professores e agressões a miúdos nos recreios”, por exemplo.

A Associação de Pais referiu também que já manifestou preocupação e o descontentamento junto da direção escola, contudo, a resposta foi a de que “estas medidas disciplinares não são aplicadas no ensino básico”.

“Não é essa a interpretação que fazemos do regulamento”, sublinhou, referindo ainda que “há crianças com medo de ir à casa de banho sozinhas”.

A concentração de pais foi marcada na sequência de uma agressão de um encarregado de educação a um funcionário, na semana passada, disse, acrescentando, contudo, que esse não é motivo da manifestação, apenas foi “a gota de água para os pais se juntarem e manifestarem contra a indisciplina que existe” no estabelecimento de ensino.

A notícia, superficial, obriga-nos a espreitar os comentários para tentar perceber o que se estará a passar nesta escola…

Nas traseiras desta escola existe a comunidade cigana do Seixo. Está aqui a origem dos problemas. Mas isso não se pode dizer porque é racismo.

Não é racismo, não senhor, é falar dos problemas reais que existem e não se devem escamotear. Há efectivamente um sério problema de integração social de muitas comunidades ciganas no nosso país, algo de que todos, ciganos ou não, nos deveríamos envergonhar. Afinal, trata-se de uma etnia que se fixou no nosso país há mais de 500 anos. E está mais do que demonstrado que o principal problema do racismo à portuguesa é a forma como tentamos esconder a realidade debaixo do tapete, não falando clara e abertamente dos problemas que permanecem por resolver.

E, como é evidente, quando ainda há dias alguns bem-pensantes criticavam, em nome do princípio da inclusão, o facto de haver em Portugal uma escola pública onde todos os alunos são de etnia cigana, casos como o que hoje foi noticiado levam-nos forçosamente a reflectir nas razões pelas quais os outros meninos, não ciganos, não querem ir para lá…

Mas esconder que são de etnia cigana os miúdos que incumprem de forma sistemática as regras da escola e os seus deveres dos alunos ou arranjar desculpas para não os castigar nem responsabilizar os pais pela péssima educação que dão aos filhos não é solução: pelo contrário, agrava o problema e aumenta, aí sim, a eficácia de um discurso potencialmente racista, porque encontra fundamento na realidade vivida e sentida por quem se vê envolvido nestas situações. Que, curiosamente, é raro sucederem com filhos de políticos ou de activistas anti-racismo…

São precisamente os ciganos que aterrorizam as crianças mais novas. São os ciganos que roubam a comida das crianças brancas. São os ciganos que batem nas crianças brancas. São os ciganos que roubam os telemóveis das crianças brancas. Etc, etc, etc. Falam em psicólogos. Mas alguém imagina o seu filho a ser vitimizado diariamente por essa corja de selvagens? Crianças com grande potencial que começam a perder o interesse pela escola devido ao terror a que são sujeitas diariamente. Mas alguém pensa nos traumas destas crianças que tiveram a “infelicidade de nascer brancas”. Alguém se preocupa com os “não ciganos”? Alguém se preocupa com os filhos daqueles que pagam as casas aos ciganos. Alguém se preocupa com os filhos daqueles que pagam os subsídios aos ciganos?

E não são só os filhos. Uma agressão é um crime, e deixar que se instale o sentimento de impunidade é apenas um convite a novas e mais graves agressões.

Quarta feira passada um cigano galgou o muro desta escola e foi espancar um funcionário da mesma.

Como nota final, acrescento que não é habitual, por aqui, transcrever comentários às notícias online. Se desta vez abri uma excepção, correndo o risco de estar a dar voz a algum exagero ou pormenor factualmente menos correcto, é porque me parece importante alertar para o risco de um jornalismo que, receoso do politicamente incorrecto, aceite a imposição de temas-tabu e abdique de informar com objectividade e rigor, abrindo caminho à boataria, à demagogia e aos excessos das redes sociais.

Metas curriculares: e não se pode exterminá-las?

rapaz-a-ler.gifAs metas curriculares do primeiro ciclo do ensino básico estão a deixar pais, professores e alunos à beira do abismo. Há crianças a ser medicadas para défice de atenção, “quando na maior parte dos casos, a medicação é desadequada”.

“Eu oiço muitos pais, professores e crianças e vejo como está a ser difícil mobilizar o interesse das crianças para aderir a um programa que me parece muito complicado. A situação na escola das crianças pequenas está muito complicada”, disse ao site da RTP o psicanalista João Seabra Diniz.

O médico especialista alerta ainda para o facto das crianças não estarem motivadas na escola. “Não estão atentas, são classificadas como crianças instáveis, com défice de atenção e então passam-nas para um médico que lhes dá drogas para estarem mais concentradas, o que me parece desadequado, na maior parte dos casos”.

“As metas têm erros científicos, são desadequadas às competências a desenvolver no 1º ciclo de escolaridade (…) Existe uma carga emocional, social, cultural, política sobre os professores. Se os meninos tiverem bons resultados, os professores têm boas avaliações e as escolas até têm crédito para terem mais horas de apoio aos meninos, isto é um jogo que se faz”, disse ao site da RTP Filomena Viegas, da Associação dos Professores de Português.

Já na matemática, por exemplo, um aluno do 2º ano deve saber “utilizar corretamente os termos segmento de reta, extremos do segmento de reta e pontos do segmento de reta”.

“É impossível cumprir estas metas. Os professores estão a ignorá-las porque é uma coisa intratável”, disse ao site da RTP Lurdes Figueiral, da Associação de Professores de Matemática (APM), sobre os programas e metas curriculares do 1º ciclo do ensino básico.

Os excertos que se transcrevem não são recentes, mas continuam actuais. Na verdade, foram retirados de uma notícia com quase três anos – estava ainda Nuno Crato à frente dos destinos da Educação – e dão conta de quão desajustadas e inexequíveis são as metas curriculares impostas aos alunos do 1º ciclo.

De então para cá mudou o governo, adoptaram-se diferentes orientações políticas, prometeram-se “aprendizagens essenciais” mas as metas continuam em vigor. Parece que, abolidos os “exames da quarta classe”, deixou de haver pressão para as cumprir e assim pudemos entrar alegremente naquele jogo do faz-de-conta com que tanto nos comprazemos: o governo evita os custos políticos de reverter uma má decisão do seu antecessor, não sendo assim acusado de promover o facilitismo, as escolas fingem cumprir o que todos sabem ser, para a maioria dos alunos, inalcançável e os pais deixam de se queixar do nível de exigência dos programas, entretanto atenuado.

Entretanto, o ministério que não faz o que deve ser feito – rever ou revogar as metas curriculares – entretém-se com o que ninguém lhe pediu: promover a disparatada flexibilidade curricular, ignorando todas as críticas e, numa verdadeira fuga para a frente, tentando simular em torno do projecto um entusiasmo colectivo que está longe de existir e uma vaga de fundo que sustente a sua generalização apressada e irresponsável a todas as escolas.