Concursos: da fartura à falta de professores

professoresCerca de 20 dos 8600 professores contratados que foram colocados nesta sexta-feira estão à beira de fazer 60 anos. Neste grupo existem pelo menos dois docentes que estão há mais de 30 anos a dar aulas, sempre a contrato. E vários outros têm entre 18 e 20 anos de aulas em cima.

Português, História, Filosofia e Informática são os grupos de recrutamento (disciplinas) com maior concentração de colocados com esta idade. O concurso de contratação inicial, destinado a professores contratados, registou cerca de 47 mil candidaturas.

Como os professores podem concorrer para dar aulas a mais do que uma disciplina, o número de candidaturas não é igual ao de candidatos, que deve andar à volta de 34 mil. Por agora ficaram colocados 8600 professores a contrato, dos quais 5400 em horários completos (22 horas de aulas por semana).

Com uma média de quatro candidatos para cada vaga – ou seja, três quartos dos opositores ao concurso não obtiveram, para já, colocação – parece que a falta de professores que se antevê a médio e longo prazo não é ainda uma realidade.

Na verdade, não é bem assim. O que as colocações na contratação inicial demonstram é que, em todo o país, não faltam candidatos a horários completos e anuais. As dificuldades irão surgir mais tarde, tal como sucedeu nos anos anteriores, quando se tratar de preencher os horários incompletos e temporários que venham a surgir. Todos os trabalhadores, e os professores não são excepção, valorizam a estabilidade profissional e estarão pouco dispostos a trabalhar para aquecer. Pelo que, conhecedor desta realidade, deveria o ME esforçar-se por colocar o maior número possível de horários a concurso no início do ano.

Não é seguro que o tenha feito. Assim como, nota a Fenprof, também os quadros de muitas escolas e agrupamentos estarão subdimensionados em relação às reais necessidades de docentes. Pelo que o brilharete conseguido com a antecipação da publicação das listas não garante que os problemas com as colocações ao longo do ano estejam resolvidos…

Para a Fenprof, as colocações conhecidas nesta sexta-feira confirmam também que “os quadros das escolas/agrupamentos estão subdimensionados”. Uma das provas disso, acrescenta, é o facto de se registar “um aumento, em relação a 2018, de cerca de 2600 contratações para horários completos (mais 86,6% em relação ao ano passado)”.

Colocações a 16 de Agosto: novo normal ou ano eleitoral?

concursos.JPGColocar os professores a tempo e horas deveria fazer parte da rotina de lançamento de cada novo ano escolar, de forma a que o assunto não tivesse de, por más ou por boas razões, ser todos os anos chamado às manchetes dos jornais.

Da parte do Governo, que conseguiu a aparente proeza de ter as listas de colocação publicadas a meio de Agosto, até se percebe que tente puxar dos galões e, num gesto simpático mas evidentemente calculista, procure repartir o mérito com outros intervenientes.

Já a subserviência da associação dos professores contratados em relação aos governantes tem o seu quê de indecoroso, embora também esteja longe de constituir novidade.

Quanto à Fenprof, é claro que tem razão: um governo apostado em ampliar a votação do PS até ao limiar da maioria absoluta não iria correr o risco de ter problemas com as colocações docentes em vésperas de eleições. Depois de, com a recusa da recuperação dos 9-4-2, já terem perdido tudo o que tinham a perder com os professores, a estratégia agora será encetar a difícil missão de tentar recuperar votos entre a classe docente…

Ao longo dos anos, os professores contratados têm sabido em que escola vão ficar praticamente nas vésperas do arranque do ano escolar, a 1 de Setembro, sendo que muitos deles podem ser colocados a centenas de quilómetros do estabelecimento escolar em que deram aulas no ano anterior. Por isso a ANPC considera que se viveu nesta sexta-feira um “dia histórico na colocação de professores”.

Em resposta ao PÚBLICO, o Ministério da Educação refere que a antecipação na divulgação as listas “foi possível graças ao inexcedível empenho e trabalho das escolas e do Ministério da Educação, por ser ano em que não houve nem concursos extraordinários, nem concurso interno, e por não ter havido outras vicissitudes perturbadoras do procedimento”. No ano passado foram sete os concursos de colocação de professores que decorreram em simultâneo.

Já a Federação Nacional de Professores (Fenprof) tem outra leitura: “A esta antecipação não é alheio o facto de o ano lectivo abrir em plena campanha eleitoral o que demonstra que, para o Ministério da Educação/Governo, contam mais as eleições do que o interesse dos professores e das escolas”.

Na América de Cima, só números amaricanos

numeros.jpgJá sabíamos que nos EUA continuam a não querer nada com o sistema decimal usado em praticamente todo o mundo. Agora ficámos também a saber que, a crer nesta sondagem, a maioria também prescinde dos números, se estes forem… árabes…

O resultado pode ser interpretado como um reflexo da proverbial ignorância e preconceito do cidadão comum nos EUA. Mas confirma uma outra ideia, bem mais interessante e esclarecedora: em qualquer inquérito ou sondagem, as respostas que obtemos dependem significativamente da forma como se faz a pergunta.

Neste caso, a formulação estava perfeitamente ajustada aos fins em vista. Mas quantas vezes não são os questionários intencionalmente manipulados com o objectivo, não de se saber o que as pessoas realmente pensam, mas de se obterem os dados estatísticos mais convenientes para os fins em vista?

O sistema de numeração árabe é o sistema de numeração standard do mundo – foi inicialmente desenvolvido na Índia antes de se alastrar ao mundo árabe e à Europa – mas a sua designação deixou desconfiada a maioria dos 3.624 inquiridos na sondagem “As escolas na América deviam ensinar os números árabes como parte do seu currículo” levada a cabo pela empresa de estudos de mercado americana Civic Science que… não explicava o significado de “numeração árabe”. E sim, a ideia era mesmo explorar o preconceito em relação à palavra “árabe”.

Vamos, então, às respostas: 56% das pessoas (2020) que responderam consideram que não, que tal coisa não deve ser ensinada às crianças. A percentagem aumenta quanto se tem em conta apenas os indivíduos republicanos – 72 por cento, contra 40% dos democratas.

Do total de inquiridos, 29% concordam que estes números devem ser ensinados nas escolas dos EUA e 15% não têm opinião.

Estes resultados representam “o testemunho mais triste e engraçado da intolerância americana que alguma vez vimos nos nossos dados”, resume John Dick, responsável executivo da Civic Science.

O socialismo funciona?

Discussão_Socialismo.jpgO fracasso inevitável do socialismo é uma daquelas falsas evidências que o pensamento neoliberal tenta tornar consensual.

É inegável a derrocada do “socialismo real” da URSS e do Leste Europeu. É verdade que a China está hoje plenamente convertida ao capitalismo, embora mantenha quase intacto o regime ditatorial herdado do maoísmo. E relíquias do passado como a Coreia do Norte tornaram-se caricaturas dos ideais da Revolução Socialista.

Ainda assim, há um socialismo que parece funcionar: mais conhecido como social-democracia, é aquele que, respeitando as regras democráticas, fortaleceu o Estado social e usou a fiscalidade para promover políticas eficazes de redistribuição de riqueza, reduzindo as desigualdades sociais.

O socialismo nórdico – ou como lhe queiram chamar – parece ser dos que mais confundem e embaraçam a fluência do discurso neoliberal…

Imagem daqui.

Música para os 50 anos do Festival de Woodstock

“Não confiem em ninguém com mais de 30 anos”

O DN publica uma excelente evocação daquele que terá sido o maior percursor dos grandes festivais de Verão. Muito marcado pela música rock, o movimento hippie, o consumo recreativo de drogas e o pacifismo – com os EUA envolvidos em pleno na Guerra do Vietname – Woodstock foi um ponto alto de afirmação da cultura juvenil dos anos 60 e do que podemos chamar uma contracultura contestatária que abalou, na altura, o conformismo e o consumismo das sociedades ocidentais. E que tinha tido um outro ponto alto, no ano anterior, nos confrontos do Maio de 68 francês…

Um razoável acordo – e duas objecções

fectrans-antram.JPGO processo de negociação de revisão do Contrato Colectivo de Trabalho Vertical (CCTV) do sector de transportes de mercadorias foi acelerado a fundo na quarta-feira, com a intermediação do Governo, como forma de pressionar os sindicatos grevistas a desconvocarem a paralisação em curso. No memorando de entendimento saudado pelo primeiro-ministro António Costa e apadrinhado pelo ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, estão previstas diversas alterações laborais, entre todas um aumento salarial global de 120 euros, bem como a definição mais clara do pagamento das horas extraordinárias.

Os sindicatos em greve – Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) – já desvalorizaram os termos do acordo, depois de terem rompido as negociações que decorriam desde Maio precisamente por exigirem aumentos salariais mais pronunciados e um pagamento mais abrangente das horas extraordinárias.

Esta manhã, a Fectrans divulgou os termos genéricos do acordo assinado com os patrões, que resolve, sublinha, algumas das “questões nucleares” dos trabalhadores e que será agora discutido com os dirigentes sindicais e trabalhadores de forma a retomar as negociações em Setembro, para que possa entrar em vigor já em Janeiro do próximo ano.

Apesar de não serem ainda inteiramente claros os moldes do acordo ontem anunciado com pompa e circunstância, desejo sinceramente que a acção da Fectrans traga ganhos efectivos a todos os camionistas.

Contudo, há aqui duas coisas que me desagradam.

Uma é a continuada prática dos memorandos de entendimento – acordos genéricos e pouco explícitos nas matérias mais polémicas em discussão – que suspendem greves, aliviam a pressão e remetem a negociação final para um timing que favorece objectivamente o Governo e o patronato. Que é aqui o caso: o previsível engonhanço negocial marcado para Setembro pode facilmente arrastar-se até às eleições de Outubro, evitando desta forma qualquer perturbação no calendário eleitoral.

Mas há outra coisa que me desgosta ainda mais, que é ver a CGTP a apressar acordos com os patrões quando há trabalhadores do sector envolvidos numa dura greve. Claro que a Fectrans tem o direito de se demarcar de uma luta que não aprova ou não considera adequada aos fins em vista. Mas ao sabotar desta forma a acção dos outros sindicatos está a copiar as piores práticas da UGT e do chamado sindicalismo amarelo que tantas vezes criticou.

Tiago Brandão Rodrigues nunca desilude

time-tbrO ministro perceberá hoje de Educação quase o mesmo que sabia quando entrou para o ministério. Mas as manhas de político medíocre, parece tê-las aprendido todas. E nota-se o incómodo com essa chatice da prestação de contas, um dos deveres mais importantes dos governantes em democracia.

Se a prosa esclarecedora do Fumaça no Twitter apenas confirmou, de Brandão Rodrigues, que continua igual a si próprio, deu-me por outro lado oportunidade para espreitar o trabalho de um projecto jornalístico independente que merece ser apoiado.

Em julho, o Fumaça marcou uma entrevista com o ministro da @Educacao_PT, Tiago Brandão Rodrigues, para analisar a sua ação enquanto membro do governo e questionar as políticas de educação dos últimos 4 anos. Ia acontecer no Festival Paredes de Coura. Mas já não vai.

Foi publicamente anunciada para dia 16 de agosto, no Palco Jazz na Relva, no Festival Paredes de Coura. Infelizmente, há cerca de duas semanas, a entrevista foi cancelada.

O governante está de férias esta semana, em Paredes de Coura. Mas não está disponível para falar sobre as suas decisões e responsabilidades governativas. Mostrou-se, no entanto, favorável a falar sobre outros temas.

Uma conversa sobre o percurso profissional e extrapolítico do ministro, natural de Paredes de Coura, não faria sentido. No Fumaça, temos pouco interesse em narrativas sobre os feitos do “filho da terra”, quando nos propomos a escrutinar quem detém cargos de Poder.

Assim, no mesmo dia e à mesma hora, falaremos com o escritor @valterhugomae, que aceitou falar connosco sobre cultura e política cultural. Apareçam, pelas 17h, dia 16 de agosto (sexta-feira), no Palco Jazz na Relva.

PS: Para que fique claro, a explicação para a recusa da entrevista deveu-se, segundo a assessoria de imprensa do ministro, a um “mal entendido” entre o ministério e a produção do festival sobre o tema da conversa.