O regresso às greves

greve_lusa_fneA intransigência do Governo, a falta de apoio efectivo por parte dos parceiros de coligação do PS e o impasse em que mergulhou a ILC não deixam aos professores muitas alternativas para a continuação da sua luta: a proposta sindical passa por uma semana de greves regionais e, aproveitando o feriado ao quinto dia, uma manifestação nacional.

A avaliar pelos plenários sindicais que têm decorrido nas escolas, há uma vontade generalizada de continuar a luta: a proposta da plataforma sindical tem obtido apoio unânime dos participantes. Resta apenas saber se os ausentes – pois já lá vai o tempo em que as reuniões sindicais que paralisavam as escolas – subscrevem com o mesmo entusiasmo as acções anunciadas.

Tinham ameaçado e vão cumprir. Na sexta-feira as organizações sindicais de professores entregam o pré-aviso de greve “em mão, no Ministério da Educação”, faz saber um comunicado tornado público nesta quarta-feira. A greve será já “na primeira semana de Outubro”.

“Os professores e educadores exigem que o Governo honre o compromisso que assumiu, cumpra a lei e respeite a Assembleia da República”, lê-se num comunicado publicado no site da Federação Nacional de Professores (Fenprof).

O pré-aviso de greve terá validade de 1 a 4 de Outubro e foi redigido de forma a que todos os professores possam aderir ao protesto em cada um dos quatro dias. No entanto, a Fenprof vai apostar numa mobilização maior por regiões em cada um dos dias. Ou seja, no dia 1 o foco da greve está em Lisboa, Santarém e Setúbal; no dia seguinte, no Sul; seguindo-se o Centro e o Norte e Açores. No dia 5 de Outubro, feriado nacional e dia mundial do professor, está marcada uma manifestação nacional em Lisboa.

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Aprender em casa

ensino-domestico.jpgA escola que temos e aquela que queremos: eis um tema que, sobretudo nesta altura do ano, está quase sempre presente no debate público. E as queixas contra uma escola aborrecida, rotineira, desfasada no tempo, vão subindo de tom.

Mas a contestação manifesta-se com frequência em registos contraditórios. Há quem diga que os alunos aprendem pouco, e as médias baixas de resultados dos exames nacionais do secundário parecem demonstrá-lo. Mas também há quem defenda o contrário, que a escola debita programas demasiado extensos, atafulhando os cérebros dos alunos com conhecimentos que, quase todos, lhes serão inúteis.

A reforma curricular em curso reforça aquilo a que se vem chamando “educação para a cidadania”, enfatizando um conjunto de competências sociais e emocionais que nos garantem ser absolutamente vitais no futuro. Quando tantas famílias abdicam de transmitir regras de convivência, atitudes e valores necessários à vida em sociedade, é difícil não exigir à escola que tenha, cada vez mais, uma intervenção nessa área. Mas esta opção é criticada pelos pais que não prescindem da responsabilidade de educar os próprios filhos e não querem ver a escola a intrometer-se nas competências da família.

No centro da polémica estão, naturalmente, os professores. Pelo que fazem ou deixam de fazer, por não seguirem desde o primeiro momento todas as modas educativas nem correrem desalmadamente atrás de toda e qualquer novidade pedagógica. Por não terem a formação adequada ou, pelo contrário, por estarem demasiado formatados por pedagogias desactualizadas. Por não estarem disponíveis 25 horas por dia para atender as solicitações dos pais, dos directores ou das autoridades educativas. E ainda, e esse parece ser o seu maior pecado, por terem nascido no século XX: estão passados da validade, as crianças e jovens que andam hoje nas escolas são cidadãos digitais nascidos já no século XXI…

Neste vai e vem de críticas e acusações, surgidas de todo o lado – governantes e académicos, empresas e fundações, encarregados de educação e autarcas – há contudo quem não se limite ao papel de treinador de bancada. Ao contrário daqueles que exigem a Lua mas esperam que sejam outros a alcançá-la, há pais e mães que resolveram ser coerentes com a ideia de educação que querem para os filhos. E que, perante uma escola que não corresponde às suas expectativas, optaram por se organizar de forma a proporcionar aos filhos uma educação alternativa no ambiente familiar.

Pense-se o que se pensar da opção destes pais pelo ensino doméstico, numa altura em que o debate educativo parece dominado por oportunistas e demagogos, há algo que deve ser desde logo reconhecido em relação a estes pais que se sacrificam pelo que acreditam ser o melhor para os filhos: merecem respeito!

Evan andou na creche por pouco tempo quando tinha 3 anos. “Ele ficava triste e muitas vezes choramingava. Eu ficava com o coração apertado”, lembra a mãe, Anastasia. Não precisou de muito mais para tomar a decisão de ficar em casa com os filhos e ser responsável pelo seu ensino. “No início os dias pareciam enormes, não sabia o que fazer com eles e achava que tinha de estar sempre a fazer alguma coisa. Mas isso não é verdade. Não temos de estar sempre a fazer coisas e não temos de fazer tudo com eles. Temos de deixá-los explorar a imaginação. E depois eles crescem e tornam-se cada vez mais autónomos.”

Cinco anos depois, Anastasia e Pedro não poderiam estar mais felizes e convictos de que tomaram a decisão certa. O filho do meio, Tristan, tem 5 anos e já leu todos os livros de Harry Potter. Aprendeu a ler sozinho quando ainda não tinha 3 anos, mas a sua verdadeira paixão é a matemática. Evan e Tristan não sabem o que são metas curriculares e nunca fizeram um teste mas sabem fazer pão, falam e leem em português (a língua do pai), russo (a língua da mãe) e inglês, jogam xadrez melhor do que muitos adultos. O irmão mais pequeno, Artur, tem 2 anos e para já parece mais interessado em brincar e pintar.

“O mais importante é que aprendam a pensar”, diz Pedro, que é gestor e é o único na casa que tem horários a cumprir. “Queria que eles não perdessem a curiosidade”, acrescenta Anastasia. “Todas as crianças são curiosas, é uma coisa natural. Nós não temos de fazer nada. É só estar com eles e responder quando nos fazem perguntas. E se não sabemos, procuramos. E ensinamo-los a procurar as respostas.” A palavra ensinar não se aplica aqui. As aprendizagens são feitas à medida dos interesses e das curiosidades de cada um. Com muitos livros (mas não manuais escolares), viagens, brincadeiras, conversas e experiências – essa é a base de tudo. Depois ainda há as atividades “geralmente chamadas extracurriculares”, como a música, as artes marciais, os escuteiros. “E dois dias por semana temos encontros com outras famílias do ensino doméstico. O nosso recorde é oito horas a brincar no parque!”

Sobre o Prós e Prós dedicado à Educação

pros.JPGSeguindo a mesma linha de sempre – a construção de falsos consensos destinados a legitimar as políticas e os interesses que se impõem nas diversas áreas da economia e da sociedade – o programa de ontem lá tentou reinventar a santa aliança entre governo, empresários e famílias rumo à Educação do século XXI.

Do conjunto de participantes, destaco a intervenção irrepreensível de Paulo Guinote, que era, bem vistas as coisas, o único que verdadeiramente sabia do que estava a falar.

Pois é muito fácil, olhando a escola a partir de fora, elaborar teorias acerca dos seus malefícios actuais e do que deveria ser. É fácil dar largas à imaginação, sabendo que não se irá ser confrontado, no terreno, com a concretização dos miríficos projectos.

Contudo, se invertermos a lógica da coisa, à maneira das flipped classrooms agora na moda, e exercitarmos nós, professores, a observação clínica destes pedagogos instantâneos, também conseguiremos perceber, com relativa facilidade, ao que é que eles andam.

A educação é uma potencial área de negócio e as oportunidades no sector surgem essencialmente de duas formas. Uma, relativamente benigna, convencendo os decisores a comprar determinados zingarelhos indispensáveis à educação do futuro. A outra, verdadeiramente maligna, degradando a qualidade da escola pública até que esta chegue a um nível tão baixo que crie por si só o mercado para os projectos educativos diferenciados que actualmente não se conseguem impor.

Pelo meio disto tudo, há uma ideia perigosa que vai fazendo o seu caminho: a ilusão de que as aprendizagens devem ser fáceis e divertidas, que as crianças não precisam de se esforçar para serem boas naquilo que fazem, não devem ser contrariadas e só precisam de estudar aquilo de que gostam. O embate com a realidade vai ser terrível – já está a ser – para muitos jovens criados nesta redoma de facilitismos e proteccionismos.

Uma palavra ainda para os senhores directores que marcaram ontem presença e que comprovaram uma vez mais que é mais fácil estar do lado dos decisores, a impor toda e qualquer reorganização curricular, do que do lado dos professores que a terão de executar. O entusiasmo com que defendem os projectos não os leva a largar os gabinetes da direcção para serem seus executores no terreno.

Finalmente, o secretário de Estado: confirmou a ideia que tinha dele, um demagogo hábil e insinuante. O que, tendo em conta as ideias que defende e a gente de que se rodeia, não augura nada de bom para os próximos tempos. A João Costa têm sido apontadas nos últimos tempos as estreitas ligações à OCDE. Pois bem, talvez a ambicionada carreira internacional nessa organização nos libertasse dos excessos de flexibilidade que ameaçam pôr de rastos a martirizada Educação portuguesa.

Regresso às aulas

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A anormalidade normal

escola-fechadaTodos os anos nisto. O ME anuncia o arranque do ano lectivo com inteira normalidade. Os directores escolares denunciam, um pouco por todo o país, a falta de pessoal auxiliar necessário ao funcionamento das escolas. E a imprensa lá vai descobrindo os casos mais graves e flagrantes.

Três escolas em Évora não abriram por falta de funcionários

A Escola Básica e Secundária Fontes Pereira de Melo, no Porto, iniciou hoje o ano letivo com a normalidade possível, tendo em conta que faltam funcionários

Falta de funcionários impede início do ano lectivo no Conservatório de Braga

Escola da Póvoa de Varzim adia início do ano letivo devido à falta de funcionários

Poupar-se-á assim tanto dinheiro protelando a colocação de umas centenas de funcionários? Fazem isto só para chatear as pessoas ou esperam que as escolas se acomodem à situação, prejudicando os alunos? Ou será apenas, à antiga portuguesa, uma manifestação de incompetência, misturada com alguma prepotência?

E mais: será que no próximo ano, com as aulas a abrirem a poucos dias das eleições, se atreverão a repetir a brincadeira?…

A falta que faz uma gravata

Muito modernas e progressistas, mas às vezes dão nisto: há uma quase histeria entre alguns frequentadores das redes sociais pela publicação desta foto do primeiro-ministro, vestido informalmente, na recepção oficial com que teve início a sua visita oficial a Angola.

Todos gabam o à-vontade dos governantes nórdicos que vão de transporte público para o trabalho ou dos anglo-saxónicos que não perdem tempo a tratarem-se por senhor doutor. Mas a calça de ganga de António Costa e a falta de gravata afiguram-se um crime de lesa majestade e um golpe irreparável nas relações luso-angolanas.

Eu não faço ideia de qual terá sido o percalço ocorrido com o fatinho de cerimónia ou que voltas terá dado a mala em que seria transportado. Não é preciso ser muito viajado para saber que estas coisas sucedem esporadicamente, e pelos vistos nem um primeiro-ministro está livre de tais contratempos.

Mas fico perplexo com a facilidade com que ainda se julgam as pessoas pela roupa que trazem vestida. A quantidade de vigaristas e trafulhas de fato e gravata que têm passado pelos bancos, pela advocacia dos negócios, pelas empresas do regime e pela política, e ainda há quem ache que é a fatiota que confere seriedade, dignidade, honestidade, ou o que quer que seja, a quem a veste.

Alunos…

Depois da inspirada colecção de professores, faltava a dos diferentes tipos de alunos, representados através de cenas e personagens de filmes de animação.

Publicação original na conta Twitter Dilo en voz alta, onde podem ser vistos mais alguns bonecos.

 

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A alunos e professores, a Escola Portuguesa deseja um bom regresso às aulas.