Ainda o calendário escolar

universitario.pngFilinto Lima lamentou […] que o calendário do próximo ano lectivo continue “refém da Páscoa”, o que leva a que exista um primeiro período “gigantesco” e um terceiro período “diminuto”, situação que vem mais uma vez pôr em cima da mesa a necessidade de se “avançar para uma organização semestral” das aulas, conforme tem sido defendido pelos directores.

Quando as pessoas engatilham uma determinada cassete, torna-se complicado.

No próximo ano lectivo, e segundo o calendário escolar já publicado, o 3º período “diminuto” terá 8 semanas e meia no 9º, 11º e 12º, 10 semanas nos restantes anos do 2º e 3º ciclos e secundário e 11 semanas no 1º ciclo e no pré-escolar.

Claro que o 1º período continua a ser enorme, mas isso nada tem a ver com a Páscoa. É o resultado de se insistir em não introduzir, a meio, uma pausa lectiva, como existe no 2º período e como se faz na generalidade dos países europeus.

Mas pela insistência já se percebeu que, pelo menos na semestralização do ano lectivo, os senhores directores querem mesmo ser colocados em pé de igualdade com os senhores reitores do ensino superior.

Desevolução

A teoria da evolução vai deixar de ser lecionada na Turquia porque é um assunto controverso, passível de debate e demasiado complicado para os estudantes. A ideia foi defendida por Alpaslan Durmus, responsável pelo Conselho de Educação turco, num vídeo publicado no site do Ministério da Educação. “Acreditamos que o tema vai para lá da compreensão deles [dos estudantes]”, afirmou.

O responsável acrescentou que um capítulo sobre a evolução ia ser removido dos livros de Biologia do nono ano. Adicionalmente, outra mudança no currículo poderá envolver uma redução do tempo que os estudantes passam a estudar o secularismo e aumentar o tempo de estudo da religião.

Habituado a encarar o laicismo do Estado fundado por Ataturk sobre as ruínas do Império Otomano como um dado adquirido, é com apreensão que o Ocidente vai registando as evidências do avanço do fundamentalismo religioso e do autoritarismo político na Turquia.

Seguindo o exemplo de alguns estados norte-americanos afectados pela praga do criacionismo, também agora na Turquia se decidiu não perturbar as delicadas cabecitas dos estudantes do 9º ano com a complicada teoria da evolução. Aqui têm, aqueles que criticam a “escola do século XIX” sem muitas vezes saberem bem do que estão a falar, um bom exemplo do que é um indiscutível regresso ao passado escolar oitocentista.

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E no entanto, o evolucionismo tem mais de 150 anos e está hoje na base de quase todos os modernos desenvolvimentos das ciências da vida, incluindo a vida humana e a evolução da nossa própria espécie. Ainda assim, continua a ser, como no tempo de Darwin, a teoria científica mais combatida, caluniada e silenciada pelos fundamentalistas de diversas religiões.

Esperemos que a cruzada anti-evolucionista não se propague para outros lados e que, dentro e fora da Turquia, um vigoroso coro de protestos possa ainda levar o governo de Erdogan a reverter a lamentável decisão.

Atracção pelo centro

buraco-negro.gifA formação de uma nova força política à direita do PS está a ser ponderada e o tema vai ser servido à mesa de um jantar que por estes dias decorrerá em Coimbra e para o qual foi convidado um número restrito de pessoas. O país político está concentrado nas eleições autárquicas, mas há cidadãos “inquietos” com a situação política nacional e querem juntar-se para discutir de “forma livre” a possibilidade de se construir uma nova força politica à direita do PS, que englobe pessoas do centro direita ao centro esquerda.

“Há 700 mil votos à solta, que não são de ninguém, e ninguém parece ter uma mensagem para eles. Para além disso, há muita gente que vota no partido A ou no partido B por falta de alternativa e nós queremos construir essa alternativa”, declara ao PÚBLICO um dos organizadores do encontro, que recusa ser identificado. Assume “tratar-se de uma iniciativa descomprometida e livre, mas consequente com uma sociedade civil mais interventiva” e defende a criação de uma nova força política, “centrada na participação das pessoas, em propostas concretas e que tenha uma visão de médio e longo prazo para o país”.

Todos os projectos políticos com ambição de poder tentam, melhor ou pior, posicionar-se nesse lugar de atracção irresistível que é o centro político. Nem à esquerda nem à direita, podendo ir buscar votos a ambos os lados, mas sem se comprometer demasiado com qualquer deles. Além, naturalmente, de tentar captar o eleitorado flutuante, ideologicamente indefinido mas politicamente moderado, que ora se abstém ora entrega o seu voto ao partido que melhor o convencer.

Em Portugal, o entrincheiramento ideológico do PSD de Passos Coelho na direita neoliberal e a coligação do PS com os partidos à sua esquerda parece ter aberto algum espaço para a ideia, nascida num grupo de académicos, de formar um novo partido no espaço político entre o PS e o PSD.

A iniciativa não é nova – em Portugal, o exemplo mais significativo, embora fugaz, foi o do PRD, o partido fundado pelo General Eanes quando deixou a presidência, e que basicamente cumpriu a função natural deste tipo de projectos: transferir votos da esquerda para a direita, ajudando esta a penetrar em eleitorados difíceis de seduzir pelos partidos tradicionais. No caso do PRD, o posterior esvaziamento eleitoral e a dissolução do partido serviram o objectivo maior de ajudar a construir a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, permitindo ao PSD recolher quase todos os votos do eleitorado renovador.

Aqui ao lado, em Espanha, encontramos algum paralelismo no partido Ciudadanos, uma direita de cara lavada que pretende apelar a valores “modernos” como o da cidadania e distanciar-se da corrupção política do PP de Mariano Rajoy. A sua existência é um dos mais poderosos factores que impediram, no país vizinho, uma solução governativa semelhante à geringonça portuguesa. Mas o Ciudadanos, remetido à condição de quarta força política, já não terá, passado o efeito da novidade, grandes perspectivas de crescimento eleitoral e afirmação política.

Mas o exemplo mais actual e certamente mais inspirador será o do Emmanuel Macron, que precisamente nesta área ideologicamente indefinida do centrão ergueu o seu movimento político, o qual acabou, em prazo recorde, não só por eleger o presidente como por se tornar politicamente hegemónico em França.

Para que este sucesso se repita em Portugal faltam, contudo, duas coisas essenciais: ao contrário do PS francês que se pulverizou eleitoralmente, seu congénere português governa o país e lidera nas intenções de voto. E à direita, o PSD e o CDS podem estar a atravessar uma má conjuntura política, mas não sofrem a pressão de um forte movimento de extrema-direita populista e xenófoba, como sucede em França.

Calendário escolar 2017/18

Foi ontem publicado no Diário da República – Despacho n.º 5458-A/2017 – juntamente com o calendário de exames e provas finais. Segue o modelo esgotado e todos os anos criticado, mas que sucessivos governos se mostram incapazes de alterar ou renovar: um longo 1º período de 14 semanas sem interrupções, os outros condicionados, na sua extensão relativa, pela mobilidade da Páscoa. Este ano calhou que nem ficassem muito desequilibrados…

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A escola do século XXI continua, afinal de contas, a reger-se pelas luas, tal como o calendário religioso vindo dos primórdios do Cristianismo.

Como nada disto é decidido por professores retrógrados e conservadores, mas sim por secretários de Estado esclarecidos e muito à frente, tá-se bem!…

Greve de zelo?

greve-professores-1.jpgDepois de uma greve “chocha” como a que tivemos anteontem, Alexandre Henriques propõe um modelo diferente para a luta dos professores: a greve de zelo. E explica a razão de ser da sua proposta:

Pelo simples motivo que os professores dão muito mais do que aquilo que recebem. Esqueçam fins de semana de trabalho, atendimento a pais fora das horas de expediente, trabalho de direção de turma além das horas previstas, preparação de aulas até às tantas, correção de testes enquanto a família relaxa, fichas, relatórios, atendimento a alunos, etc, etc…

Tudo isto e muito mais sai do “corpinho” do docente, acabar com o trabalho de bastidores irá afetar de forma direta todo o processo de ensino.

Julgo que percebi a ideia: as greves tradicionais, sobretudo se forem prolongadas, causam fortes rombos no ordenado mensal, e a maioria dos professores, que proporcionalmente ganham hoje  menos e têm mais despesas do que há dez anos atrás, estarão pouco ou nada disponíveis para esse tipo de lutas laborais. Por outro lado, também já se percebeu que o modelo clássico da greve ocasional de um ou dois dias, para “marcar posição” ou “mostrar o descontentamento”, há muito que deixou de ser eficaz.

Manifestações, marchas, concentrações são também formas de luta que tiveram o seu tempo áureo nas grandes lutas de 2008 e, embora estas não nos reduzam o salário, saem-nos do corpo. Os professores estão hoje muito mais descrentes e desgastados por anos de luta com escassos ou nulos resultados, pelo que, para lá dos habituais activistas sindicais, poucos se mostrariam receptivos se os sindicatos tentassem reeditar agora a dinâmica das mega-manifestações que fizeram tremer, na altura, a ministra favorita do socratismo.

Mas voltemos à greve de zelo. A definição que dela dá o Alexandre não me parece muito precisa, e gostaria de clarificar o seguinte: uma acção deste tipo é sempre uma greve de excesso de zelo. Ao contrário de uma greve normal, que suspende a relação de trabalho, durante a greve de zelo o trabalhador encontra-se sujeito a todos os seus deveres profissionais. Não pode simplesmente dizer que não faz isto ou aquilo porque o tempo não lhe chega. Tem de demonstrar que, cumprindo zelosamente todos os procedimentos e obrigações a que está obrigado, não tem tempo para fazer tudo o que lhe está determinado. Isto é mais difícil de cumprir do que as tarefas de um dia de trabalho habitual. Mas se não for feito desta forma, o trabalhador estará apenas a ser negligente ou incompetente e arrisca-se a ser alvo de um processo disciplinar.

Tenho dúvidas de que isto, enquanto forma de luta, seja eficaz. Mas não duvido de que há muito tempo que todos os professores, sobretudo aqueles que se queixam de cansaço, burnout e outras mazelas provocadas pela overdose laboral, deveriam ter adoptado esta regra simples que é adequar o seu trabalho ao tempo que lhe dão para o fazer.

Correndo o risco de ser politicamente incorrecto, e sem querer desculpar o excesso de burocracia escolar exigido por muitos senhores directores, direi que todos os anos vejo colegas deprimidos e extenuados pelo excesso de trabalho que impõem a si próprios.

Porque ainda têm de ver mais isto e aquilo para aquela aula. Porque insistem em levar para casa, todas as semanas, montanhas de trabalhos de alunos para avaliar. Porque fazem testes demasiado extensos e de correcção difícil e demorada. A verdade é que, regra geral, nem o ministério, nem a direcção da escola nem tão-pouco os alunos e as suas famílias agradecem este tipo de esforço.

Greve de zelo, ou simples estratégia de sobrevivência numa profissão cada vez mais ingrata e desgastante: em qualquer dos casos, apoio a ideia de que os professores recusem, sem pôr em causa o seu profissionalismo, tudo aquilo para que não lhes é dado tempo, nem condições, para fazerem. Que o façam saber publicamente, com toda a clareza, e que – talvez a parte mais difícil – o assumam depois diariamente, sem vacilações, perante as numerosas solicitações da sua profissão.

A vaga incendiária na comunicação social

A par das falhas na coordenação do combate aos fogos de Pedrógão Grande, da insuficiência ou ineficácia dos meios usados, do completo desleixo em relação a medidas preventivas que pudessem ter evitado ou minimizado o sucedido e de outros erros e negligências que os já anunciados inquéritos irão apurar, há um facto demasiado evidente: a comunicação social também não esteve bem.

Não digo que seja fácil cobrir um acontecimento com a carga destruidora e emotiva que uma tragédia desta dimensão inevitavelmente terá. Mas houve órgãos de comunicação que, na ânsia do sensacionalismo, passaram diversas linhas vermelhas da ética e deontologia da sua profissão. E, pior do que isso, chamados à atenção, houve aqueles que, em vez de corrigirem os excessos, reagiram com a arrogância de quem não aceita críticas, não ouve bons conselhos e não respeita sequer os direitos e os sentimentos das vítimas dos trágicos acontecimentos.

A postura reprovável dos media, ao arrepio das boas práticas da profissão, tornou-se especialmente evidente no episódio de fake news da queda do avião. Um após outro, jornais, rádios e televisões foram escorregando na casca de banana de um acidente aéreo que nunca existiu. Mas que, percebe-se, daria imenso jeito que tivesse acontecido…

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Oportuno e sempre inspirado cartoon de Antero Valério, retirado daqui.

Fraudes, suspeições e calúnias

Ouçamos antes de mais a gravação: uma estudante não identificada comentou numa rede social o que iria ser avaliado no exame de Português a realizar daí a dois dias. E acertou.

aluna.jpgO áudio é interessante porque os tiques de linguagem permitem desde logo perceber, em termos geográficos e sociais, de onde é que isto vem: classe alta ou média alta na zona da Grande Lisboa. E gente com acesso a explicadores caros, dos que têm, ou alegam ter, conhecimentos privilegiados, e por isso cobrarão mais pelos seus serviços. Aquele Alberto Ca-ae-irú não engana ninguém…

Quanto à mensagem propriamente dita, ela funciona, em termos da sua divulgação pública, a dois níveis.

Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo e só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. E pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória…

O primeiro, e mais evidente, são as suspeitas de fraude que já motivaram a abertura de um inquérito e a participação ao Ministério Público. O segundo é a lama na ventoinha que é lançada sobre os sindicatos de professores e, indirectamente, sobre toda a classe profissional.

Antes de mais, convém esclarecer-se que, tanto quanto nos é dado saber, não haverá dirigentes de topo de sindicatos de professores, sejam “comunas” ou não, envolvidos na elaboração de provas de exame, muito menos com acesso integral às mesmas. Poderá existir, isso sim, envolvimento das associações de professores, mas ao nível de consultoria, não na feitura directa das provas.

De qualquer forma, bastará a cada um de nós dar a sua voltinha pelas redes sociais no dia de hoje e não terá dificuldade em deparar-se com os habituais justiceiros da net tomando suspeitas como verdades e fazendo as habituais generalizações caluniosas, metendo professores e explicadores, sindicalistas e “comunas”, tudo no mesmo saco de gente desonesta.

A bem da verdade, é bom que tudo isto seja devidamente esclarecido nos próximos dias.