Pode ser que rebente de vez…

maconaria.pngMas não me parece. Solidamente ancorada nos partidos do centrão e influente em muitas das grandes negociatas do regime, interessa que a Maçonaria se mantenha viva, activa e poderosa, apesar das tricas ocasionais e das sórdidas lutas pelo poder. Que o que vamos sabendo pela comunicação social, acredito que seja apenas a ponta do véu…

Há muito tempo que a maçonaria não vivia tempos tão conturbados. O atual grão-mestre e recandidato ao cargo, Fernando Lima, classifica o próximo ato eleitoral, no sábado, como um «momento decisivo» para a história da maçonaria. Ao ponto de, numa mensagem que escreveu esta semana aos maçons a traçar as diferenças entre a sua candidatura e a do professor universitário Adelino Maltez, afirmar que «nunca no passado, como no momento presente, o povo maçónico se deparou com uma decisão tão fundamental, estando perante duas alternativas tão antagónicas entre si».

As sociedades secretas tiveram um papel histórico muito importante na construção das sociedades contemporâneas, baseadas na liberdade, na igualdade de direitos e na democracia. Fazia sentido a existência de organizações secretas onde os seus membros podiam divulgar e discutir livremente ideias proibidas, ou conspirar contra monarcas autocratas e absolutistas, no tempo em que essas acções eram punidas com a tortura, a forca ou longos anos de prisão.

Mas em sociedades livres, onde todos podem exprimir o seu pensamento e juntar-se em partidos, sindicatos, igrejas, associações recreativas, culturais, desportivas, caritativas, etc, para prosseguir os seus objectivos comuns, não faz sentido que continuem a existir organizações pautadas pelo secretismo e pela opacidade, que pretendam influenciar a vida colectiva sem ser através dos mecanismos da democracia plenamente instituída.

Além de injustificado à luz dos valores que os maçónicos dizem defender, este secretismo tem servido para promover a corrupção, a fraude, o tráfico de influências, o nepotismo e de uma forma geral todos os fenómenos de captura do poder político a favor de interesses particulares. Basta olhar, aliás, a longa lista de maçónicos envolvidos em casos mediatizados, alguns deles condenados pelos tribunais, para perceber que a Maçonaria está muito longe de ser a escola de virtudes que os seus adeptos proclamam.

A rede tentacular de uma organização que se considera a ela própria, e aos seus membros, superiores ao resto da sociedade, que mantém secreta a filiação da maioria dos “irmãos”, enquanto eles próprios se reconhecem entre si e se favorecem mutuamente, é uma ameaça clara ao Estado de direito e à democracia.

Como associação que assume objectivos e práticas potencialmente criminosas, a Maçonaria deveria estar sob vigilância permanente dos serviços de informações. Em vez disso, é com extraordinária complacência que vamos sabendo, de tempos a tempos, da nomeação ou da infiltração de maçons no SIS.

Claro que tudo o que escrevi a respeito da Maçonaria se aplica aos seus diversos ramos e a todas as restantes organizações secretas, ou discretas, como algumas gostam de se afirmar, incluindo a mui católica Opus Dei.

 

Há viagens grátis?

almoco_gratis.pngAinda a propósito das viagens dos secretários de Estado ao Euro pagas pela EDP, escreve hoje Pedro Marques Lopes no DN:

Claro que não há almoços grátis, claro que não se oferece uma viagem de um dia ou dois para um jogo de futebol sem a intenção de, pelo menos, gerar simpatia. Mas, se acreditamos que um decisor, um jornalista ou um opinion maker se vendem por tão pouco, a questão deixa de ter que ver com a oferta mas sim com o carácter de quem a recebe.

Perguntar-se-á onde é que se deve traçar a linha. Ou seja, em que altura uma oferta extravasa os limites das práticas normais da amabilidade, da cortesia. Uma viagem do tipo da que, concretamente, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais aceitou não é aceitável? Será aceitável um jantar de um político com alguém que se admira, por quem se tem autêntica devoção, e que trabalha para uma empresa com quem se tem um contencioso? Uma viagem num jato privado, com estada num qualquer hotel de luxo? Umas garrafas de Barca Velha pelo Natal?

Ora bem, eu acho que tenho uma solução simples para estas momentosas questões.

Não é aceitável, para um governante, aceitar presentes que não possa ou não queira retribuir.

Claro que para os jornalistas, e atendendo à crise no sector, os critérios poderão ser um pouco mais flexíveis, tendo em conta que já hoje há notícias e reportagens que nunca seriam feitas se não existissem os inevitáveis patrocínios. Convém é que não se esqueçam de referir que o jornalista viajou a convite de… ou que determinado conteúdo é patrocinado por…

A monarquia angolana

06eff04ca691f70a9d7473187fddea331.jpgO inamovível presidente angolano parece estar finalmente a preparar a sua sucessão na chefia do Estado e do MPLA. E a sucessora será a própria filha, Isabel dos Santos, a empresária do regime, a mulher mais rica de África, numa solução política digna das boas práticas do regime norte-coreano.

Segundo notícia avançada pelo “Expresso” deste sábado, a assunção da presidência do Conselho de Administração da petrolífera angolana Sonangol por Isabel dos Santos, detentora de uma das maiores fortunas de África, pode ser “o trampolim” para a filha de José Eduardo dos Santos chegar ao topo do MPLA e, consequentemente, do país, quando o presidente abandonar o cargo, em 2018.

O jornal cita um alto dirigente do partido, segundo o qual José Eduardo dos Santos pode incluir a filha no Comité Central por determinação própria. “Colocada a seguir no bureau político, poderá fazer dela, no congresso de agosto, a segunda figura da lista de deputados e, consequentemente, sua substituta em 2018”. Por outro lado, fontes governamentais confirmam que o Presidente confia apenas na filha e “presta muita atenção aos conselhos dos assessores portugueses” de Isabel dos Santos.

Antes do petróleo, a empresária já controlava as áreas dos diamantes, da banca, do cimento e das telecomunicações. “O que move o pai para a colocar na Sonangol não é apenas o dinheiro, mas a blindagem do poder político”, diz um observador citado pelo “Expresso”. Para dar o lugar à filha, José Eduardo dos Santos deu o “chuto para cima” ao antigo presidente da Sonangol, nomeando-o vice-presidente da República. “Sem alterar a constituição, o Presidente está a instalar aqui uma monarquia”, diz o jornalista angolano Graça Campos.

Base de dados dos Panama Papers vai ser publicada

No dia 9 de maio, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) vai abrir ao público uma base de dados com grande parte da informação que integra a investigação dos Panama Papers. Disponíveis ficarão dados sobre mais de 200 mil entidades sedeadas em paraísos fiscais.

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Ao ritmo a que o semanário do regime tem andado a divulgar a informação relativa aos portugueses envolvidos nos Papéis do Panamá, nem daqui a um ano saberíamos algo de relevante para além da implicação dos suspeitos do costume: gente ligada ao BES e ao GES, ao off-shore da Madeira e… a José Sócrates.

Assim, é de saudar esta decisão do consórcio de jornalistas que resolveu colocar online, muito em breve, os dados corporativos de todos os envolvidos, depois de expurgados de informação pessoal, como números de telefone ou de contas bancárias ou correspondência privada.

Pode ser que, perante a perda eminente do exclusivo jornalístico, a próxima edição do Espesso se alongue, na revelação de novos e significativos elementos, mais do que tem sido habitual.

Quanto à divulgação da totalidade da base de dados que está a ser elaborada, agora anunciada para 9 de Maio, será feita aqui.

Os papéis do Panamá

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Uma gigantesca fuga de informação, feita a partir dos arquivos de uma empresa de advogados sediada no Panamá e especializada em evasão fiscal e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, permitiu ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação divulgar, numa extensa reportagem global, os contornos de uma imensa rede dedicada a esconder património e fortunas, lavar dinheiro sujo, corromper e fugir ao pagamento de impostos. Em Portugal, julgo ter sido o Expresso a lançar a bomba jornalística, mas hoje todos os jornais falam do assunto.

Para o cidadão minimamente informado, os papéis panamianos agora divulgados talvez não tragam grande surpresa em relação ao cancro da economia global que são os paraísos fiscais, esses pequenos países ou territórios autónomos que abrigam empresas-fantasma, onde impera a opacidade e o secretismo e que funcionam como placas giratórias para a circulação de dinheiro que todos os dias é retirado da economia real e dos bolsos dos cidadãos para engrossar fortunas privadas e alimentar a especulação financeira e a criminalidade organizada à escala global.

O que pode surpreender, isso sim, é a dimensão dos negócios que passavam por este escritório de advocacia e, sobretudo, os nomes sonantes que a eles aparecem associados, oriundos não só do mundo da alta finança mas também da política, do futebol e do espectáculo. O rei da Arábia Saudita, o presidente da Argentina, os primeiros-ministros da Islândia e do Paquistão, familiares ou testas-de-ferro do primeiro-ministro britânico, do rei de Espanha e dos presidentes da Rússia, China, Ucrânia e Azerbaijão. Mas também Lionel Messi, Michel Platini, Jackie Chan, Pedro Almodóvar, estão entre os muitos envolvidos. Assim como um português, um tal Idalécio Oliveira, também ligado ao processo de corrupção Lava-Jato no Brasil. E haverá mais, pois foi anunciado que a lista completa será apenas divulgada em Maio.

A amplitude desta mega-reportagem jornalística, que já se diz ser superior ao famoso Wikileaks, demonstra, para quem ainda tivesse dúvidas, que enquanto não forem desmantelados os paraísos fiscais e controladas as transacções financeiras internacionais estaremos sempre à mercê de milionários gananciosos, políticos corruptos e criminosos de colarinho branco e das ligações perigosas entre o dinheiro e todos os tipos de poder.

Se queremos continuar a viver em democracia, temos de fazer prevalecer a política sobre a economia, não permitindo, como já hoje sucede, que o poder do dinheiro se sobreponha às leis nacionais e às escolhas democráticas dos cidadãos.

Avaliar os colégios?

Free-Open-Book-PSD[1]Paulo Guinote não é nada meigo a pedir…

Uma avaliação externa independente aos colégios com contrato de associação, em vez do anunciado “Livro Branco” com que se pretendem auto-avaliar?

Avaliação externa independente é a que é feita pela IGEC, de modo regular, às escolas públicas, com resultados que estão à vista de toda a gente.

Às privadas vão só de longe em longe, quando muito instados, e os relatórios das muitas irregularidades que por lá consta serem cometidas acabam fechados a sete chaves.

Segredos de Estado, presumo.

Também não avaliam os serviços centrais e regionais e autónomos do ministério, que não convém descobrir os podres que por lá há, mas isso são contas de outro rosário.

Entendamo-nos numa coisa: os colégios privados com contrato de associação são, na maioria dos casos, empresas com fins lucrativos que prestam serviço público de educação. O contribuinte paga, por isso, não só o serviço educativo que prestam mas também os lucros dos patrões dessas escolas, que se materializa, nalguns casos que se vão conhecendo, em vivendas de luxo, contas bancárias recheadas ou colecções de automóveis antigos que andamos todos a financiar.

Saber como é gerido este dinheiro público entregue a privados deveria ser uma obrigação assumida desde que foi assinado o primeiro contrato de associação. Na verdade, isso nunca foi feito, pois o modelo destes contratos não tem subjacente qualquer racionalidade económica ou preocupação com a boa gestão da coisa pública: tratou-se sempre de fazer vingar um princípio ideológico de favorecimento de negócios privados que, onde não encontram uma clientela natural, recorrem aos amigos no aparelho do Estado ou no Governo para captar o dinheiro do contribuinte.

E quando antigos decisores políticos que favoreceram grupos privados de educação se tornam sócios, administradores ou directores pedagógicos dessas mesmas empresas, acho que, para bom entendedor, está tudo mais do que avaliado.

 

Ganda nóia!

[Marques Mendes] intercedeu pela atribuição da nacionalidade portuguesa a duas cidadãs estrangeiras, tendo-se disponibilizado, num dos casos, para falar sobre a questão com o ministro da Economia, António Pires de Lima. Também aproveitou para resolver um problema que a sua filha tinha com o cartão de cidadão, ultrapassando os procedimentos burocráticos a que a grande maioria dos portugueses tem de se sujeitar. Por outro lado, a isenção do pagamento de 1,8 milhões de euros de IVA por uma empresa a que estava ligado outro arguido do processo, Jaime Gomes, amigo do então ministro da Administração Interna Miguel Macedo, num negócio relacionado com o tratamento, em hospitais portugueses, de doentes líbios, contou igualmente com algum envolvimento por parte de Marques Mendes. Detido em Novembro de 2014, juntamente com outros arguidos, Jaime Gomes foi sócio do social-democrata numa segunda firma, de fraldas descartáveis.

MarquesMendesConselheiro01[1]As escutas a António Figueiredo, presidente do Instituto dos Registos e Notariado, no âmbito do processo dos vistos gold revelam uma faceta do ex-líder do PSD e actual comentador televisivo Marques Mendes de que o seu ar de personalidade influente e sempre bem informada já dava para desconfiar.

O comentador do regime mostra-se, nas conversas telefónicas com Figueiredo, perfeitamente à-vontade para pedir tratamentos de favor e até, sendo preciso, dar uma palavrinha a este ou àquele ministro para conseguir o que pretende. Mas é na transcrição de um breve diálogo com o seu sócio Jaime Gomes, a propósito de uma negociata em torno de feridos de guerra que deveriam ser transportados da Líbia, que Marques Mendes mostra verdadeiramente aquilo que é:

“Quantos mais feridos houver, mais oportunidades existem. Não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra”, diz o empresário. “Só convém que não morram”, anui Marques Mendes, acrescentando: “Se os gajos ficarem assim um bocado tortos, isso até dá jeito”.