Dúvidas éticas

joao-costa.jpgSerei só eu a ver algo estranho na escolha de um governante em funções para presidir a um órgão directivo da OCDE?

Ex-diretor da NOVA FCSH e atual Secretário de Estado da Educação preside agora a um conselho que reúne especialistas de 45 países.

João Costa, diretor da NOVA FCSH entre 2013 e 2015, foi eleito presidente do Conselho de Direção do Teacher and Learning International Survey (TALIS), um dos órgãos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Atualmente a desempenhar funções como Secretário de Estado da Educação no governo português, o docente do departamento de Linguística ocupará o cargo durante três anos. O TALIS é o primeiro inquérito internacional que permite dar voz aos professores e diretores dos estabelecimentos escolares.

Não é que tenha grandes ilusões acerca da isenção ou da independência dos estudos, dos inquéritos e dos conselhos da OCDE aos governos dos vários países.

Também não duvido da competência técnica para o cargo, em face do currículo e da experiência profissional e política do actual secretário de Estado.

Mas quando, na organização e gestão das escolas portuguesas, se levantam impedimentos à possibilidade de um professor pertencer, em simultâneo, ao conselho pedagógico e ao conselho geral, somos tentados a pensar que as incompatibilidades são questões éticas levadas a sério no mundo da Educação.

E a ser assim, algo está mal quando entre os que promovem o estudo e o aconselhamento acerca do que chamam as “políticas públicas” se colocam pessoas que decidem os assuntos sobre os quais deveriam reflectir, estudar e aconselhar.

Não tinham mais ninguém disponível?

Ou será daqueles casos em que, sendo dada oportunidade a um português de ocupar um cargo de relevo numa organização internacional, não se pode criticar?…

O bom aluno da OCDE

tiagobrandaorodrigues-leiria“Claro que há muitos professores e directores que ouvem os seus estudantes diariamente. Mas quando se trata de o fazer de forma estruturada, com o objectivo de incorporar os seus contributos na definição das políticas e práticas educativas, ainda é um fenómeno raro”, explicou ao PÚBLICO o director do Departamento de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher.

O Ministério da Educação apelidou a iniciativa como “A Voz dos Alunos”. O encontro decorreu em Leiria, em Novembro, e reuniu dezenas de alunos do 1.º ciclo ao ensino secundário, de vários pontos do país. Agora, a OCDE pretende replicar o projecto noutros países e, com esse objectivo, vai promover nesta terça-feira o seu lançamento internacional em Lisboa, durante a sessão de abertura de mais um encontro dos peritos da organização no âmbito do programa Educação 2030. Esse programa tem como objectivo conceber novos currículos escolares de modo a responder a um mundo em constante mudança e à aquisição de competências consideradas indispensáveis “para a formação dos cidadãos do século XXI”.

O que defenderam os alunos reunidos, por iniciativa do ME, para discutirem a revisão curricular, foi em larga medida aquilo que já se aguardava que dissessem, e que veio ao encontro das intenções reformistas do ministério: mais aulas práticas, trabalhos de grupo, experimentação e visitas de estudo, mais atenção à cidadania e às artes, maior flexibilidade nos currículos e menos compartimentação nas áreas de estudo. Os alunos querem também turmas mais pequenas e professores mais atentos às necessidades e motivações de cada um.

A OCDE integrou a audição dos alunos nas boas práticas previstas no seu programa para a educação e vai procurar convencer outros países a seguir o exemplo de Portugal. O director para a área da Educação elogia também o novo perfil do aluno, que corresponde em larga medida às competências-chave definidas pela OCDE para o século XXI. E deixa uma dica acerca do que ainda temos de fazer para melhorar o nosso sistema educativo: “Os resultados do PISA mostraram que os estudantes portugueses se tornaram bons na reprodução dos conteúdos. Mas ficam ainda aquém quando se trata de extrapolar aquilo que sabem de modo a aplicar os seus conhecimentos em novos contextos. E isto é cada vez mais importante.”

Elogios à parte, resta saber até que ponto devemos seguir, acriticamente, as avaliações e as recomendações da OCDE, uma organização demasiado comprometida com os grandes interesses económicos e os princípios ideológicos do neoliberalismo para aceitarmos de ânimo leve a bondade, a neutralidade e a tecnicidade das “políticas públicas” que tenta impor à escala global.

Na educação, como em tudo o resto, haverá sempre escolhas a fazer e falsos consensos que é necessário desconstruir. Sobre isso se continuará a falar e a escrever, também por aqui.

O sucesso escolar segundo João Costa

sucesso.jpgJoão Costa, Secretário de Estado da Educação, escreve no Público a propósito da divulgação recente dos resultados dos testes internacionais em que participaram escolas e alunos portugueses. Vale a pena ler atentamente, desde logo porque JC evita o simplismo e a demagogia comuns no discurso político sobre educação, propondo em vez disso uma reflexão sobre matérias necessariamente complexas.

Começa assim por constatar o óbvio, que é o facto de os resultados de Portugal terem vindo a subir de forma consistente ao longo de duas décadas, não sendo possível atribuí-los especificamente à acção de um certo governo ou aos efeitos de determinada política: a ter de ser endossado a alguém, o sucesso pertence em primeiro lugar aos alunos portugueses e, logo de seguida, aos professores que com eles trabalharam.

JC rejeita o discurso do passa-culpas a que nos habituámos com outros governos, para quem tudo o que corria bem era devido às sábias medidas de quem manda, e o que falhava era culpa dos outros. Na educação, o esforço tem de ser de todos e é mais importante colmatar em tempo útil as falhas detectadas do que andar a encontrar culpados ou a inventar desculpas. E não se acanha em sugerir novas linhas de acção a instituições mais habituadas a avaliar os outros do que a questionarem-se a si próprias:

[…] quando vemos que há uma progressão consistente dos resultados do PISA, mas os alunos portugueses não exibem o mesmo nível de progressão nos exames nacionais de 9-º e 12.º ano, devemos questionar as razões para esta assimetria e até avaliar os nossos próprios instrumentos de avaliação externa – um desafio para o Conselho Científico do IAVE.

Ou seja, e de forma mais directa, porque é que os testes internacionais revelam que os alunos de 15 anos estão a progredir nas Ciências, enquanto os exames do final do secundário os mostram a descer?…

Sempre que temos menos alunos retidos, sempre que a escola combate injustiças socias garantindo melhores aprendizagens para todos e em particular para aqueles que nascem em contextos em que tudo concorre para que a vida lhes corra mal, sempre que tal acontece, é o país que ganha. O sucesso escolar não tem dono, porque é um desígnio nacional e, por isso mesmo, é uma vitória para todo o país.

A terminar, o Secretário de Estado deixa-nos todo um programa de acção condensado em poucas palavras, que me serve para sublinhar um aspecto algo paradoxal da educação portuguesa que os testes PISA vieram revelar: a grande maioria das retenções atingem os alunos oriundos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos; contudo, o sistema educativo português é daqueles onde há mais alunos resilientes – os que superam as dificuldades e os condicionamentos do meio, realizando percursos escolares de sucesso.

Longe de diabolizar as retenções, parece-me cada vez mais que elas têm feito parte integrante do caminho português para o sucesso educativo: reter os alunos menos preparados tem servido, à falta de melhores recursos, para que criar melhores ambientes de aprendizagem aos alunos que progridem. No fundo, a generalidade dos alunos, bons e menos bons, está a fazer hoje mais e melhores aprendizagens do que há uma ou duas décadas atrás. O que estamos é a levar demasiado tempo a obter bons resultados, e isso leva-nos aos problemas estruturais da baixa produtividade e da falta de organização. Que são transversais na nossa economia e na nossa sociedade, e tardam demasiado em ser resolvidos.

Reconhecimento Público

super-professora.gifEnquanto os comentadores políticos reivindicam para este ou aquele ministro o maior mérito pelos resultados alcançados pelos alunos portugueses nos testes PISA ou os catedráticos da pedagogia discutem a maior ou menor eficácia das suas teorias, Manuel Carvalho, no Público, não tem dúvidas em atribuir a coroa de glória àqueles que, trabalhando diariamente com os seus alunos, os conduziram ao sucesso: os seus professores.

Num jornal tantas vezes injusto e preconceituoso em relação à classe docente sabe bem ler, uma vez que seja, o reconhecimento da realidade e o elogio, sem reservas, do bom trabalho dos professores portugueses.

Fazer o que eles fizeram nos últimos dez anos, perante um nítido envelhecimento da classe, num quadro de permanente instabilidade institucional, com cargas de trabalho não lectivo acrescidas, com as carreiras paralisadas, com perda de parte do seu salário por força das políticas de ajustamento, face a um ministério centralista, burocrático, opressivo e normalizador, num ambiente social tantas vezes degradado e com impactos directos na disciplina na sala de aula, não é pouco. É muitíssimo.

Os resultados do PISA obrigam o país a rever muitas das ideias feitas sobre a docência, sobre os objectivos da educação e fundamentalmente sobre o grau de exigência que devemos ter sobre nós próprios enquanto país. Nada disto se faria sem os professores – sem a sua competência e, fundamentalmente, sem a sua capacidade de resistir; nada disto aconteceria se os pais não continuassem a acreditar que a educação é o mais poderoso factor de sucesso para o futuro dos filhos. Mas nada disto seria igualmente possível se, nos últimos anos, não tivesse havido uma alteração no discurso sobre o que o país pode e deve esperar do seu sistema educativo. Sem o combate ao eduquês politicamente correcto que olha para as crianças e os jovens com a placidez hippie de um eterno bom selvagem, dificilmente Portugal poderia ser apontado como um exemplo de sucesso.

Os testes PISA e o insucesso escolar

pisa2.JPGOs alunos portugueses que em 2015 estavam no 10.º ano e que realizaram os testes PISA obtiveram uma média de 549 pontos na literacia em ciências, o que colocaria o país em 2.º lugar, logo atrás da Singapura, no conjunto dos 70 países e economias que foram avaliados no grande estudo internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Já os estudantes que então frequentavam o 7.º ano não foram além dos 376 pontos.

Não percebi se esta análise de Clara Viana é simplesmente parva ou se nos pretende tomar, a todos os que a lemos, por parvos.

Claro que se fizéssemos os testes PISA só com alunos de 15 anos que estão no 10º ano os resultados seriam melhores. Porque são, à partida, melhores alunos, e também porque, estando mais avançados nos estudos, já aprenderam mais coisas.

Os que reprovam são, em princípio, alunos mais fracos ou com maiores dificuldades. Se tivéssemos um sistema que, evitando ou impedindo as retenções, permitisse que eles acompanhassem os colegas com melhor desempenho escolar até ao 10º ano sem nunca ficarem retidos, não se transformariam, miraculosamente, em bons alunos.

O que teríamos era, nas contas apresentadas pela jornalista, uma média muito mais baixa no universo de alunos de 15 anos já a frequentar o secundário. Não estaríamos “logo atrás da Singapura” mas muito mais abaixo.

Podemos entender-nos quanto à necessidade de reduzir as retenções e de as substituir, sempre que possível, pela transição de ano acompanhada pelos necessários apoios pedagógicos. Ou por uma maior aposta em pedagogias activas e colaborativas que envolvam mais os alunos na sua própria aprendizagem. O que se dispensa é a manipulação e a demagogia barata com que se procura condicionar uma discussão que, embora no centro do debate político, deve decorrer com  seriedade e ponderação.

Na verdade, e como já outros salientaram, há pelo menos duas coisas que a melhoria consistente dos resultados da educação portuguesa nos testes e rankings internacionais evidencia: estamos a conseguir, aos poucos, emparceirar entre os melhores, e esse esforço é tanto mais notável quanto é notória a inconsistência das políticas educativas e tardia a expansão da escolarização entre a população portuguesa. Mas os progressos dos últimos anos têm sido conseguidos à custa de duas coisas: primeira, demasiado tempo dos alunos na escola e demasiadas aulas para aprender o mesmo que outros aprendem em menos tempo; segunda, o recurso rotineiro à retenção como resposta às dificuldades dos alunos que não conseguem progredir ao ritmo da turma.

Tornar mais produtivo o trabalho nas aulas e eficaz a detecção das dificuldades dos alunos e o apoio para a sua superação: conseguir fazer isto sem baixar o nível de qualidade que a escola portuguesa conseguiu já alcançar, eis o desafio que nos deveria, colectivamente, mobilizar.

Testes PISA: nós e os outros

Os resultados dos testes PISA fornecem um manancial de informação que pode ser olhada de muitas maneiras. E mesmo as maiores evidências podem levantar novas interrogações.

Sem muito tempo disponível, em período de avaliações de final de período, deixo análises mais reflexivas e detalhadas para próximos dias, e por agora vou pegar numa ferramenta simples, disponível no site do PISA, que permite fazer comparações directas da evolução dos resultados entre dois países. Pouco sofisticado, é certo, mas com a vantagem da simplicidade, que se presta pouco a mastigações em busca do politicamente correcto. Por exemplo, entre Portugal e Espanha:

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Os dois países ibéricos seguem praticamente a par, sobretudo a partir de 2009, ano em que os testes mostram que Portugal recuperou algum atraso inicial, superando mesmo o país vizinho em 2015. Mas as diferenças não são significativas.

Já em relação à Finlândia, o país que por vezes nos tem é apresentado como modelo educativo europeu, a divergência é evidente: nós subimos, eles descem. Resta saber se, no futuro, as linhas convergentes se chegarão a juntar – e se isso significará uma verdadeira marca de qualidade da nossa educação ou apenas o resultado de que a Finlândia já está noutra, e aí será caso para dizer destes indicadores, valem o que valem.

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Olhemos agora para a Suécia, a terra do cheque-ensino. Resolveram privatizar parte do sistema educativo, financiando escolas privadas com dinheiros públicos, em nome da liberdade de escolha, e aí está o resultado: até nós lhes passamos a perna:

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Finalmente, a comparação global: há efectivamente uma subida dos resultados portugueses, que convergem e no último ano ultrapassaram mesmo a média dos países da OCDE. Mas também é notório um facto indesmentível: a maior subida, em todos os indicadores considerados, ocorreu entre 2006 e 2009. Politicamente, correspondeu ao primeiro governo de José Sócrates e da sua controversa ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. A termos de atribuir méritos políticos por esta verdadeira alavancagem dos resultados internacionais dos nossos alunos, há uma candidata óbvia à medalha de ouro…

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Testes PISA: alunos portugueses a subir

Portugal teve os melhores resultados de sempre nos testes PISA, da OCDE, chegando aos 501 pontos em Literacia Científica, 498 em Leitura e 492 na Matemática.

Foram hoje divulgados os resultados do maior e mais conhecido dos testes internacionais que pretendem comparar o desempenho académico de alunos de todo o mundo.

Os testes PISA de 2015 foram aplicados a mais de meio milhão de jovens de 15 anos em 72 países e os dados disponíveis para Portugal comprovam a clara tendência para a melhoria da performance dos alunos: apesar dos cortes e da falta de investimento no sector, das sucessivas reformas e contra-reformas, do economicismo dos mega-agrupamentos e da concentração escolar desde o 1º ciclo, a verdade é que os alunos portugueses, e os professores que com eles diariamente trabalham, têm vindo a fazer o seu caminho rumo a melhores resultados escolares. Como os gráficos claramente demonstram.

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Seria de esperar, então, um contentamento geral com estes resultados que pertencem em primeiro lugar aos alunos que mostraram o que valem e, logo em seguida, aos professores que os ajudaram a chegar lá. Mas não: eis que o ministro da Educação, recém-chegado a estas lides, encontra aqui um pretexto, não para se congratular, mas para menosprezar o que foi alcançado:

Em Portugal mais de 30% dos jovens com 15 anos já apresentam uma retenção no seu percurso escolar e ainda demasiados deles, demasiados de nós, apresentam mais do que uma retenção.

Há ocasiões, na verdade, em que mais vale ficar calado…