Colaborações: ComRegras

No Topo: Mais psicólogos nas escolas

Uma das carências mais sentidas actualmente nas escolas portuguesas é a falta de psicólogos, que com o alargamento da escolaridade obrigatória e a aposta numa escola mais inclusiva e na intervenção precoce, passaram a ser cada vez mais solicitados para uma grande variedade de tarefas. E, na maioria das escolas, a não serem suficientes para a quantidade, a gravidade e a morosidade das situações em que são chamados a actuar…

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No Fundo: As exclusões no concurso de professores

Quando já aguardavam, a todo o momento, que saíssem as listas de colocação nos quadros de escolas e agrupamentos, os professores foram surpreendidos com a notícia de que haveria candidatos a serem excluídos devido a irregularidades na candidatura. Na maior parte dos casos, devido a contagens incorrectas do tempo de serviço…

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Mais 200 psicólogos nas escolas portuguesas

poch.JPGSegundo a informação disponível no ‘site’ do POCH, foram aprovados quatro milhões de euros de despesa total para a integração, até ao final de 2018, de 108 psicólogos em escolas da região Norte, 1,9 milhões para integrar 52 psicólogos em escolas da região Centro e 1,5 milhões para 40 novos profissionais para o Alentejo.

“A integração de 200 novos psicólogos em escolas públicas visa apoiar o desenvolvimento psicológico dos alunos, a melhoria da sua orientação escolar e profissional, bem como o apoio psicopedagógico às atividades educativas e ao sistema de relações da comunidade escolar”, explicam os técnicos do POCH.

É indiscutivelmente uma boa notícia: a falta de psicólogos escolares é uma das maiores carências do sistema educativo português, e estes 200 profissionais que serão recrutados irão certamente ser úteis às escolas e agrupamentos onde forem colocados.

No entanto, é de lamentar que nem o jornal nem o site do POCH dêem informações mais concretas acerca da iniciativa. Destina-se a contratar novos profissionais, a juntar aos que já trabalham nas escolas, ou apenas a financiar a integração destes nos quadros dos agrupamentos?

Fazendo contas por alto aos 7,4 milhões de euros que irão ser gastos com esta medida, vê-se que ela permitirá pagar os vencimentos, durante dois anos, aos 200 psicólogos abrangidos. E depois de terminar o programa de financiamento, alimentado a 85% por fundos europeus, o que sucede? Mandam-se as pessoas embora? Ou presume-se que pagar necessidades estruturais do sistema com dinheiro proveniente de programas europeus é expediente que durará para sempre?

Não cometendo a irresponsabilidade de advogar que não se aproveitem todos os benefícios e ajudas ao desenvolvimento dados pela União Europeia, parece-me que vai estando na altura de se perceber que assumir a Educação como prioridade estratégica no desenvolvimento do país passa por assentar o investimento, não apenas na captação de subsídios europeus, mas também no reforço do sector ao nível do Orçamento de Estado.

 

Da baleia azul à dependência tecnológica

ivone-patrao.JPGEsclarecedora e oportuna a conversa da jornalista Bárbara Wong com a psicóloga Ivone Patrão, a propósito da actual geração de crianças e adolescentes que vivem, desde a mais tenra infância imersos em tecnologia. Sempre ligados à rede, acreditam que não precisam de saber as coisas, porque sabem onde estão quando precisam delas. E o facto de nunca desligarem, rouba-lhes espaço para pensar, reflectir, estar consigo próprios. E tira-lhes tempo para conviverem com a família e até para socializarem com os amigos próximos, sem ser por intermédio da tecnologia.

Alguns excertos de uma entrevista que vale a pena ler na totalidade:

Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

[Esta “geração-cordão”] é uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Psicólogos desempregados

psic-escolar.pngEm 2016 estavam desempregadas 109 mil pessoas com ensino superior completo. Maioria dos diplomados desempregados tem o curso de Psicologia.

Ser a Psicologia o curso que forma maior número de desempregados com qualificações superiores, num país com esta triste realidade, não faz qualquer sentido:

O bastonário da Ordem dos Psicólogos defende que na área da saúde era preciso triplicar os cerca de 600 profissionais existentes para ter uma cobertura aceitável e nas escolas seriam precisos mais 500.

Em declarações à agência Lusa, Francisco Miranda Rodrigues garante que nestas duas áreas “o mínimo dos serviços não está garantido”.

Na área da Educação, segundo o bastonário, está prevista a contratação de 200 psicólogos este ano para as escolas, ao abrigo do Plano Operacional de Capital Humano (POCH), no fim do qual o rácio de psicólogos nas escolas deverá passar dos atuais 1/1.700 para um psicólogo para cada 1.100 alunos.

“Está assumido num protocolo entre a Direção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos, a coberto de fundos comunitários, a contratação de 200 profissionais para as escolas, numa primeira fase. Mas ainda faltam mais 300”, afirmou o bastonário.

A promoção da escola inclusiva, o diagnóstico precoce das dificuldades de aprendizagem e das necessidades educativas especiais, a orientação vocacional e os desafios trazidos pelo alargamento da escolaridade obrigatória aos 18 anos, tudo isto são razões que justificariam uma maior presença de psicólogos nas escolas. Em vez disso, a criação de mega-agrupamentos e o pretexto da crise económica serviram antes para reduzir ainda mais o rácio destes profissionais nas escolas públicas.

Na Saúde, continuamos irresponsavelmente a apostar na excessiva medicalização das doenças e perturbações mentais, menosprezando o importante papel da psicoterapia no seu tratamento, mais eficaz a longo prazo e sem efeitos secundários.

No sector da Educação, não deixa de ser uma boa notícia o recrutamento de mais psicólogos. O que é negativo é que isto se faça através de contratos precários e sujeitos às vicissitudes dos programas comunitários, pois para dar frutos o trabalho dos profissionais desta área precisa de continuidade. E as necessidades das escolas são permanentes, pelo que os seus quadros deveriam ser dotados do número adequado de psicólogos. Parece-me assim que está a ir no bom sentido a proposta recentemente apresentada pelo grupo parlamentar do PCP:

O PCP defende que os estabelecimentos públicos de ensino pré-escolar, básico e ensino secundário tenham, nos seus quadros de pessoal e de acordo com as necessidades específicas da comunidade escolar, o número adequado de psicólogos.

Segundo o Partido Comunista, o número de psicólogos nas escolas portuguesas tem vindo a ser reduzido, existindo nas escolas cerca de 778 psicólogos para 1 280 000 alunos e há vários casos em que há apenas um psicólogo para 2000 alunos.

O PCP considera que estes trabalhadores são essenciais às escolas pelo que as verbas para a sua contratação devem ser previstas anualmente em Orçamento do Estado e não através de fundos comunitários.

O comprimido da inteligência

250px-Methylphenidate3Dan.gifO assunto já não é novo, mas a actualização das estatísticas do consumo dos medicamentos para controlar a hiperactividade em crianças e adolescentes mostra que o fenómeno soma e segue:

As vendas do medicamento habitualmente utilizado para tratar perturbações de hiperactividade e défice de atenção (PHDA), o metilfenidato, cuja designação comercial é ritalina, duplicaram entre 2010 e 2016. Segundo o Jornal de Notícias deste domingo, em 2010 venderam-se 133 mil embalagens daquele que é conhecido como “comprimido da inteligência”, porque ajuda as crianças a concentrarem-se e a melhorarem os seus resultados escolares. Um número que mais que duplicou em 2016, quando as vendas rondaram as 270 mil embalagens.

Ainda assim, o diário, que cita dados fornecidos pela consultora QuintilesIMS e pelo Infarmed (a autoridade que regula e supervisiona o mercado dos medicamentos) nota que em 2016 houve uma descida de vendas face a 2015, quando o número de embalagens vendidas atingiu as 283 mil. No entanto, o JN também nota que surgiu no mercado uma nova molécula para tratar as mesmas perturbações, a atomoxetina, cujas vendas mais que duplicaram de quatro mil embalagens em 2015 para nove mil em 2016.

Também aqui, os privados vão à frente. No ambiente supercompetitivo criado nalguns colégios, chega a haver turmas onde 80% dos alunos tomam estes medicamentos. É a maneira de ter alunos mais calmos, controlados e focados “nos estudos” e na obtenção de melhores notas.

Resta saber se o que se poupa em consultas de psicologia ou em acompanhamento mais individualizado – e mais caro – dos alunos por parte das escolas, não irá ser pago, mais tarde, em doenças ou perturbações mentais não tratadas, e apenas mascaradas, pelo uso e abuso da ritalina e de drogas semelhantes.

Juízes, intuição e preconceito

catarina-ribeiro.JPGCatarina Ribeiro, psicóloga do Instituto de Medicina Legal, estudou, para a sua tese de doutoramento, as perspectivas de procuradores e juízes que ouvem crianças no âmbito de processos de abuso sexual no meio familiar. E as conclusões a que chegou, sobretudo no caso dos juízes, são perturbadoras. Vejamos alguns excertos da entrevista ao Público:

Os procuradores parecem estar muito mais abertos ao conhecimento científico e muito menos autoconfiantes nas suas capacidades pessoais. Os juízes têm um discurso mais centrado nas suas capacidades, na sua superioridade, não só em relação aos procuradores, como em relação aos outros profissionais que trabalham este tipo de processos. “O juiz é o perito dos peritos”, diz um deles. “É um bocadinho como ser Cristo na Terra”, diz outro.

[…] temos estes profissionais que neste estudo verbalizam, na sua maioria, entenderem que têm boas capacidades para recolher o testemunho das crianças e que ao mesmo tempo revelam pouco conhecimento científico sobre as reais potencialidades do testemunho das crianças.

Há juízes que entendem que a criança tem de manifestar sofrimento e que esse sofrimento tem de ser visível naquele contacto imediato, por exemplo. Há magistrados que dizem: “Tenho de ver a criança chorar à minha frente.” Alguns acham que a criança tem de dar todos os detalhes, nomeadamente dizer as horas, os detalhes periféricos sobre o espaço.

Lembro-me de uma pessoa que disse: “Eu não preciso de peritos, porque aquilo que eles fazem eu também consigo fazer, porque sou um bocado psicóloga, sou muito intuitiva, sou muito sensível”. Houve outra que disse: “Eu mal vejo uma criança a entrar percebo o que ela está a sentir porque sou muito intuitiva.” Esta confiança cega na intuição é problemática.

Há um magistrado que diz: “As crianças vêem muitos filmes e têm muitas fantasias e portanto não podemos acreditar na maior parte do que elas dizem.” São perspectivas muito pouco fundamentadas. Alguns acham que as crianças mentem para castigar os adultos, por exemplo, quando isso é a excepção, não é regra. Alguns acham que as crianças não são capazes de produzir um testemunho real, que se lhe dissermos alguma coisa facilmente vão acreditar. A perspectiva sobre o testemunho da criança é essencialmente negativa.

Não sei onde nos poderá levar este aparente excesso de confiança dos juízes portugueses na sua intuição e nas suas enganadoras certezas. Também não gosto de generalizar, e quero crer que haverá, entre os nossos magistrados, pessoas com maior humildade e sensatez do que a amostra ouvida para este estudo revelou.

Mas incomoda-me que a vida e o destino de tantos miúdos, vítimas de violência, maus tratos ou abusos sexuais no seio da própria família possam estar à mercê de juízes cuja capacidade de julgar estará irremediavelmente contaminada pelo preconceito, pela ignorância e, talvez o pior de tudo, a insensibilidade que alguns depoimentos revelam.

Um processo especial de selecção e formação dos juízes que trabalham com processos envolvendo menores, incluindo psicologia infantil e outras matérias necessárias a um melhor entendimento da forma como as crianças sentem, pensam e verbalizam as suas vivências, parece-me fundamental para que estas vejam fazer-se, nos tribunais portugueses, a justiça a que têm direito.

Medicar ou tratar a hiperactividade?

É um tema já recorrente de discussão o elevado número de crianças e jovens a quem é diagnosticada uma Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA) e que, em consequência, são medicados com ritalina ou fármacos semelhantes para ficarem mais calmos e concentrados nas aulas.

Segundo o Correio da Manhã, são cerca de 7200 os novos casos anualmente referenciados no nosso país, um número provavelmente excessivo, e em que a PHDA poderá estar a ser sobretudo um sintoma de algo mais grave que esteja a afectar o bem-estar físico e psíquico do menor. E não sou eu que o digo, é Pedro Cabral, o neurologista pediátrico que escreveu ontem no Público sobre a hiperactividade, que o defende abertamente:

Uma criança que não pára quieta na sala de aula pode ter tudo e não ter nada. Se se mexe mais do que o esperado para a sua idade, pode ser que nunca tenha tido ninguém que lhe chamasse a atenção, pode sentir que não consegue acompanhar os conteúdos, pode estar preocupada com questões mais urgentes para ela, reais ou imaginadas (ser vítima de bullying no recreio, reconhecer risco de doença ou de separação dos pais, por exemplo). Ou pode simplesmente estar distraída, “ausente”, mas sossegada… A importância dos factores genéticos veio claramente a ser reconhecida. Portanto, num contexto de predisposição “hereditária”, que por si só pode perfeitamente não constituir um entrave ao aproveitamento/comportamento académico, um imenso conjunto de circunstâncias, em casa e na escola, pode fazer “emergir” o comportamento desatento, irrequieto, com o seu cortejo de consequências…

Receitar medicamentos às crianças logo que os problemas escolares se manifestam pode ser a forma fácil de controlar a situação – mais calma e atenta, a criança consegue melhorar o comportamento e os resultados escolares – mas não a resolve quando ela é um sintoma de outro tipo de perturbação que deveria ser percebida e adequadamente tratada.

Nos tempos que correm, a intuição diz-nos que uma grande parte daquilo a que se associa a hiperactividade é na verdade um crescimento sem regras nem limites que se vai proporcionando aos meninos e meninas no ambiente familiar. Habituados a ser o centro das atenções – muitos miúdos são simultaneamente o filho, o sobrinho e o neto único da família – crescem rodeados de familiares dispostos a fazer todas as vontades e a adaptar os ritmos da vida familiar às vontades do rebento, em vez de lhes irem ensinando as regras básicas de vida em sociedade que depois lhes irão ser úteis e necessárias na escola.

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Consumo per capita de metilfenidato (ritalina e drogas semelhantes)

Que a hiperactividade é em grande medida uma construção social e cultural das diferentes sociedades, comprova-o o facto de haver uma enorme variação no número de casos diagnosticados e medicados de país para país, como o gráfico demonstra. Se fosse, na maioria dos casos, uma verdadeira doença mental, a distribuição das ocorrências seria bem mais homogénea.

Talvez importe, assim, evitar olhares simplistas sobre a PHDA e analisar, caso a caso, o que revelam e o que escondem, em cada aluno, as manifestações de hiperactividade, desconcentração ou, às vezes, pura e simples falta de educação e do saber-estar básico e necessário à vida em sociedade. É necessário distinguir os problemas de ansiedade, depressão ou falta de auto-estima, os problemas familiares, as eventuais situações de bullying que poderão estar também a provocar os comportamentos desajustados.

E por último refira-se que há muitos hiperactivos que sempre o foram mas nunca foram diagnosticados e tratados e assim continuaram pela vida fora. São aqueles alunos irrequietos que todos os professores já tiveram mas que apesar das distracções conseguem “apanhar” e compreender as matérias, e com o tempo, e às vezes alguns castigos disciplinares, lá vão aprendendo a auto-controlar-se. Porque o maior problema, e aqui também os especialistas convergem, não é a hiperactividade, mas sim o défice de atenção que lhe está associado e que a maioria dos verdadeiros hiperactivos não consegue, sem ajuda, ultrapassar.