A importância dos psicólogos escolares

psicologo-escolar.jpgO Ministério da Educação tem sido alvo, nos últimos tempos, de muitas e merecidas críticas. Por aqui, não têm sido poupados. Mas também é justo assinalar quando vemos nos seus responsáveis vontade de seguir por bom caminho.

O secretário de Estado da Educação, João Costa, defendeu nesta sexta-feira que os psicólogos escolares são essenciais para o sucesso académico e bem-estar dos alunos, garantindo que a estabilidade destes profissionais é uma prioridade do ministério.

“Estou aqui para poder afirmar, do lado do Governo, a centralidade que o papel dos psicólogos tem para a maior parte dos programas que estamos a pôr em prática”, disse João Costa, durante o V Seminário de Psicologia e Orientação em Contexto Escolar, que está a decorrer na Faculdade de Medicina Dentária, em Lisboa.

Perante uma plateia de milhares de psicólogos, João Costa deixou uma promessa: “uma das prioridades da secretária de Estado (adjunta e da Educação) Alexandra Leitão é a criação de maior estabilidade para a vida profissional dos psicólogos”, afirmou o governante, lembrando que “já estão colocados ou em processo de colocação” mais 200 psicólogos nas escolas.

Os psicólogos são indispensáveis na escola inclusiva e promotora de sucesso que se quer construir. E se esta é uma evidência que já não merece discussão, há em contrapartida diversos pontos que João Costa apenas aflorou ou nem sequer referiu, mas que é fundamental considerar.

Não é apenas o número de psicólogos existentes no sistema que interessa, mas a forma como estão distribuídos. Há ainda grandes carências destes profissionais, sobretudo nos agrupamentos de escolas geograficamente dispersas e onde os psicólogos, tal como alguns professores, são obrigados a repartir o seu horário de trabalho por diversos estabelecimentos, com todas as limitações que isso implica em termos de trabalho desenvolvido e de disponibilidade para acudir às muitas solicitações.

Embora este ano tenha sido possível colocar mais cedo os psicólogos em falta, a contratação precária não é a solução adequada para assegurar um serviço que requer estabilidade e continuidade. Os quadros das escolas e dos agrupamentos deveriam estar providos dos profissionais necessários para garantir uma resposta adequada às solicitações existentes. E estes trabalhadores, tal como todos os outros, têm direito à estabilidade profissional.

Finalmente, é preciso considerar que todas as ambiciosas metas que têm sido apontadas, tendo em vista o aumento do sucesso e a melhoria das aprendizagens escolares, pressupõem um reforço dos meios de diagnóstico, intervenção e acompanhamento associados aos serviços de psicologia das escolas: seja a intervenção precoce na detecção de problemas de aprendizagem, a referenciação e a inclusão de alunos com necessidades especiais, ou a promoção do sucesso escolar e a redução das retenções para valores residuais, tudo isto requer a presença e a disponibilidade de psicólogos e de outros técnicos e terapeutas especializados, que assegurem uma resposta permanente às necessidades dos alunos.

Contas bem feitas, cheira-me que o SE João Costa não fará a festa apenas com mais 200 psicólogos recém-contratados…

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A boa educação

Uma cria de gorila e uma criança, separadas por um vidro, ambas a evidenciarem um comportamento algo descontrolado.

Os pais da criança limitam-se a filmar a cena.

E a mãe gorila? Mostra ter mais juízo que os primatas humanos.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Mais psicólogos nas escolas

Uma das carências mais sentidas actualmente nas escolas portuguesas é a falta de psicólogos, que com o alargamento da escolaridade obrigatória e a aposta numa escola mais inclusiva e na intervenção precoce, passaram a ser cada vez mais solicitados para uma grande variedade de tarefas. E, na maioria das escolas, a não serem suficientes para a quantidade, a gravidade e a morosidade das situações em que são chamados a actuar…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: As exclusões no concurso de professores

Quando já aguardavam, a todo o momento, que saíssem as listas de colocação nos quadros de escolas e agrupamentos, os professores foram surpreendidos com a notícia de que haveria candidatos a serem excluídos devido a irregularidades na candidatura. Na maior parte dos casos, devido a contagens incorrectas do tempo de serviço…

Mais 200 psicólogos nas escolas portuguesas

poch.JPGSegundo a informação disponível no ‘site’ do POCH, foram aprovados quatro milhões de euros de despesa total para a integração, até ao final de 2018, de 108 psicólogos em escolas da região Norte, 1,9 milhões para integrar 52 psicólogos em escolas da região Centro e 1,5 milhões para 40 novos profissionais para o Alentejo.

“A integração de 200 novos psicólogos em escolas públicas visa apoiar o desenvolvimento psicológico dos alunos, a melhoria da sua orientação escolar e profissional, bem como o apoio psicopedagógico às atividades educativas e ao sistema de relações da comunidade escolar”, explicam os técnicos do POCH.

É indiscutivelmente uma boa notícia: a falta de psicólogos escolares é uma das maiores carências do sistema educativo português, e estes 200 profissionais que serão recrutados irão certamente ser úteis às escolas e agrupamentos onde forem colocados.

No entanto, é de lamentar que nem o jornal nem o site do POCH dêem informações mais concretas acerca da iniciativa. Destina-se a contratar novos profissionais, a juntar aos que já trabalham nas escolas, ou apenas a financiar a integração destes nos quadros dos agrupamentos?

Fazendo contas por alto aos 7,4 milhões de euros que irão ser gastos com esta medida, vê-se que ela permitirá pagar os vencimentos, durante dois anos, aos 200 psicólogos abrangidos. E depois de terminar o programa de financiamento, alimentado a 85% por fundos europeus, o que sucede? Mandam-se as pessoas embora? Ou presume-se que pagar necessidades estruturais do sistema com dinheiro proveniente de programas europeus é expediente que durará para sempre?

Não cometendo a irresponsabilidade de advogar que não se aproveitem todos os benefícios e ajudas ao desenvolvimento dados pela União Europeia, parece-me que vai estando na altura de se perceber que assumir a Educação como prioridade estratégica no desenvolvimento do país passa por assentar o investimento, não apenas na captação de subsídios europeus, mas também no reforço do sector ao nível do Orçamento de Estado.

 

Da baleia azul à dependência tecnológica

ivone-patrao.JPGEsclarecedora e oportuna a conversa da jornalista Bárbara Wong com a psicóloga Ivone Patrão, a propósito da actual geração de crianças e adolescentes que vivem, desde a mais tenra infância imersos em tecnologia. Sempre ligados à rede, acreditam que não precisam de saber as coisas, porque sabem onde estão quando precisam delas. E o facto de nunca desligarem, rouba-lhes espaço para pensar, reflectir, estar consigo próprios. E tira-lhes tempo para conviverem com a família e até para socializarem com os amigos próximos, sem ser por intermédio da tecnologia.

Alguns excertos de uma entrevista que vale a pena ler na totalidade:

Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

[Esta “geração-cordão”] é uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Psicólogos desempregados

psic-escolar.pngEm 2016 estavam desempregadas 109 mil pessoas com ensino superior completo. Maioria dos diplomados desempregados tem o curso de Psicologia.

Ser a Psicologia o curso que forma maior número de desempregados com qualificações superiores, num país com esta triste realidade, não faz qualquer sentido:

O bastonário da Ordem dos Psicólogos defende que na área da saúde era preciso triplicar os cerca de 600 profissionais existentes para ter uma cobertura aceitável e nas escolas seriam precisos mais 500.

Em declarações à agência Lusa, Francisco Miranda Rodrigues garante que nestas duas áreas “o mínimo dos serviços não está garantido”.

Na área da Educação, segundo o bastonário, está prevista a contratação de 200 psicólogos este ano para as escolas, ao abrigo do Plano Operacional de Capital Humano (POCH), no fim do qual o rácio de psicólogos nas escolas deverá passar dos atuais 1/1.700 para um psicólogo para cada 1.100 alunos.

“Está assumido num protocolo entre a Direção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos, a coberto de fundos comunitários, a contratação de 200 profissionais para as escolas, numa primeira fase. Mas ainda faltam mais 300”, afirmou o bastonário.

A promoção da escola inclusiva, o diagnóstico precoce das dificuldades de aprendizagem e das necessidades educativas especiais, a orientação vocacional e os desafios trazidos pelo alargamento da escolaridade obrigatória aos 18 anos, tudo isto são razões que justificariam uma maior presença de psicólogos nas escolas. Em vez disso, a criação de mega-agrupamentos e o pretexto da crise económica serviram antes para reduzir ainda mais o rácio destes profissionais nas escolas públicas.

Na Saúde, continuamos irresponsavelmente a apostar na excessiva medicalização das doenças e perturbações mentais, menosprezando o importante papel da psicoterapia no seu tratamento, mais eficaz a longo prazo e sem efeitos secundários.

No sector da Educação, não deixa de ser uma boa notícia o recrutamento de mais psicólogos. O que é negativo é que isto se faça através de contratos precários e sujeitos às vicissitudes dos programas comunitários, pois para dar frutos o trabalho dos profissionais desta área precisa de continuidade. E as necessidades das escolas são permanentes, pelo que os seus quadros deveriam ser dotados do número adequado de psicólogos. Parece-me assim que está a ir no bom sentido a proposta recentemente apresentada pelo grupo parlamentar do PCP:

O PCP defende que os estabelecimentos públicos de ensino pré-escolar, básico e ensino secundário tenham, nos seus quadros de pessoal e de acordo com as necessidades específicas da comunidade escolar, o número adequado de psicólogos.

Segundo o Partido Comunista, o número de psicólogos nas escolas portuguesas tem vindo a ser reduzido, existindo nas escolas cerca de 778 psicólogos para 1 280 000 alunos e há vários casos em que há apenas um psicólogo para 2000 alunos.

O PCP considera que estes trabalhadores são essenciais às escolas pelo que as verbas para a sua contratação devem ser previstas anualmente em Orçamento do Estado e não através de fundos comunitários.

O comprimido da inteligência

250px-Methylphenidate3Dan.gifO assunto já não é novo, mas a actualização das estatísticas do consumo dos medicamentos para controlar a hiperactividade em crianças e adolescentes mostra que o fenómeno soma e segue:

As vendas do medicamento habitualmente utilizado para tratar perturbações de hiperactividade e défice de atenção (PHDA), o metilfenidato, cuja designação comercial é ritalina, duplicaram entre 2010 e 2016. Segundo o Jornal de Notícias deste domingo, em 2010 venderam-se 133 mil embalagens daquele que é conhecido como “comprimido da inteligência”, porque ajuda as crianças a concentrarem-se e a melhorarem os seus resultados escolares. Um número que mais que duplicou em 2016, quando as vendas rondaram as 270 mil embalagens.

Ainda assim, o diário, que cita dados fornecidos pela consultora QuintilesIMS e pelo Infarmed (a autoridade que regula e supervisiona o mercado dos medicamentos) nota que em 2016 houve uma descida de vendas face a 2015, quando o número de embalagens vendidas atingiu as 283 mil. No entanto, o JN também nota que surgiu no mercado uma nova molécula para tratar as mesmas perturbações, a atomoxetina, cujas vendas mais que duplicaram de quatro mil embalagens em 2015 para nove mil em 2016.

Também aqui, os privados vão à frente. No ambiente supercompetitivo criado nalguns colégios, chega a haver turmas onde 80% dos alunos tomam estes medicamentos. É a maneira de ter alunos mais calmos, controlados e focados “nos estudos” e na obtenção de melhores notas.

Resta saber se o que se poupa em consultas de psicologia ou em acompanhamento mais individualizado – e mais caro – dos alunos por parte das escolas, não irá ser pago, mais tarde, em doenças ou perturbações mentais não tratadas, e apenas mascaradas, pelo uso e abuso da ritalina e de drogas semelhantes.