A prova de aferição de Português e Estudo do Meio

Das provas nacionais ontem realizadas, interessou-me sobretudo a de aferição do 2º ano, de Português e Estudo do Meio, uma estreia absoluta.

afericao2ano.JPGMesmo para quem nunca leccionou neste nível de ensino, parece uma prova demasiado puxada, e julgo que os colegas do 1º ciclo tenderão a confirmá-lo. Tanto ao nível da extensão dos textos, como de algum vocabulário utilizado. Algumas perguntas e exercícios também se afiguram de uma complexidade escusada. Compreender e interpretar o cartaz da imagem será talvez uma tarefa mais adequada para o 2º ciclo.

Também percebo que uma prova deste tipo, aplicada a nível nacional, tenha de ter alguma ambição, e não sendo para dar uma nota aos alunos, faça sentido ver quantos conseguem chegar mais longe do que o mínimo exigível.

Sendo assim, faria sentido, como defendi desde que este modelo de avaliação externa foi anunciado, que as provas se realizassem, não no 2º, mas no 3º ano, quando os alunos já progrediram mais nas aprendizagens e a avaliação das mesmas pode fornecer resultados mais interessantes.

Trabalho de projecto

trab-grupo.jpgQue se sugere ao ME, na linha das flexibilidades pedagógicas e das transversalidades colaborativas que o mesmo ME propõe aos professores portugueses, para que as nossas escolas entrem definitivamente no século XXI.

Porque é que estragam tanto papel nas provas de aferição?

O enunciado da prova cuja realização vigiei ontem tinha 6 páginas “propositadamente” em branco.

O envelope trazia 30 exemplares, quando sabemos que as salas de aula portuguesas têm, em regra, mesas duplas e comportam, no máximo, 15 a 16 alunos sentados individualmente. Metade dos enunciados vão, portanto, directamente para o lixo.

Não conseguem encontrar forma de fazer as coisas de outra maneira?

É que nós, nas escolas, conseguimos. Que remédio. Não temos as verbas ilimitadas para o papel e as impressões de testes e fichas de que o IAVE parece dispor. Nem a Editorial do Ministério da Educação a trabalhar para nós.

Que tal um trabalho de grupo para estudar o problema?

Uma aprendizagem colaborativa entre o IAVE, que faz as provas de exame, a DGE, paladina das novas metodologias de aprendizagem activa, a DGAE e a DGEstE, sempre preocupadas com a despesa pública em Educação. Em parceria com o Ministério do Ambiente, para dar substrato científico ao tema e, claro, com as Finanças, que não devem apreciar estes esbanjamentos.

A prova de aferição de HGP

Sobre a prova de aferição de HGP ontem resolvida pelos alunos do 5º ano, dir-se-á genericamente o mesmo que se dizia sobre um medicamento popular noutros tempos: é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal.

Mas basta ser proveniente do IAVE, um instituto público cujo responsável máximo não se coíbe de criticar e menorizar o trabalho dos professores sempre que acha que isso o engrandece ou enobrece a sua missão, para haver logo a curiosidade de ver, por exemplo, se as suas equipas dedicadas e especializadas na elaboração de provas cumprem escrupulosamente as recomendações que o IAVE faz aos professorzecos sobre a matéria.

De uma análise não exaustiva da prova, algumas impressões, para usar a peculiar expressão de João Costa, sobre a prova de HGP:

Todas, com excepção da última, são questões de resposta fechada, e na grande maioria escolhas múltiplas, ligações ou completamentos de espaços em que basta transcrever ou assinalar a resposta certa. Dá muito menos trabalho a classificar e obtêm-se resultados mais objectivos, o que é importante numa prova de aferição, mas parece-me que deixa de fora uma dimensão importante da avaliação escrita, que é aquela que envolve a elaboração da resposta.

A prova parece-me também demasiado extensa para os fins pretendidos. Provavelmente um formato mais curto, para 60 minutos de duração, serviria perfeitamente para os fins em vista e adequar-se-ia melhor ao nível etário e de conhecimentos dos alunos.

fig3.JPG

Do ponto de vista do rigor científico, notam-se ligeiras falhas, sobretudo ao nível da bonecada. Um mapa do Império Romano que ignora a Muralha de Adriano e coloca a Escócia dentro de um mundo a que nunca pertenceu. Ou, no cenário algo infantil da figura 3, e numa pergunta mal concebida, caçadores de mamutes coexistindo com agricultores e pastores: o anacronismo é dos pecados mais graves que se podem cometer em História, mas também facilmente evitável, se houver o devido cuidado a fazer as coisas e, naturalmente, se se dominam as matérias que se pretendem ensinar e avaliar.

Finalmente, as 16 páginas do enunciado da prova parecem-me pouco amigas do ambiente e puseram-me a pensar que, em muitas escolas deste país, um professor que fizesse testes deste tamanho esgotaria logo ali o crédito de fotocópias para o ano todo.

Provas de aflição

As provas de aferição vistas pelo humor do Antero Valério.

Tenham um excelente domingo!

Colaborações: ComRegras

No Topo: Aferição sem aflição

Apesar das críticas ao excesso de formalismo nalguns procedimentos, à deslocação forçada de alguns alunos e à falta de condições das escolas e de preparação dos alunos, parece que, de uma forma geral, as provas têm corrido bem.

Nunca me convenceu muito o mito de a avaliação externa ser traumatizante para as criancinhas. A ideia, que foi usada por uns para diabolizar os exames no 1º ciclo e por outros para criticar agora o aparato excessivo em torno das provas de aferição, esbarra na naturalidade e no à-vontade com que os miúdos vão fazendo, o melhor que conseguem, os exercícios que lhes são solicitados…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: A perpetuação da precariedade docente

Já não é novidade, mas nem por isso é menos injusta a decisão discriminatória do governo de excluir expressamente os professores do programa de integração nos quadros dos funcionários públicos contratados.

Sabemos que no concurso não deverão entrar para os quadros muito mais do que 3500 docentes. E mesmo os cálculos mais conservadores apontam para a existência, no sistema educativo, de cerca de 20 mil professores contratados com o tempo de serviço necessário para vincular…

Convergências

convergencia.JPGRegisto a coincidência de pontos de vista de Paulo Guinote e Santana Castilho em relação às provas de aferição.

Não sei se é apenas o facto de ambos comentarem declarações recentes do secretário de Estado João Costa que justifica este notório paralelismo de ideias, ou se existe aqui uma colagem que ao Paulo parece incomodar.

Acrescente-se, em abono da verdade, que o texto de Paulo Guinote foi publicado primeiro.

[…] se um governante na área da Educação pretende obter uma “fotografia” do funcionamento das escolas, claro que as pode visitar e falar com amigos, vizinhos, primos distantes. Mas tem um recurso que faz parte do próprio ME e que se chama avaliação externa das escolas e é feita todos os anos pela IGEC. […]

E ainda há a imensidão de dados disponíveis na plataforma MISI@ para a qual são exportadas todas as informações sobre a caracterização e funcionamento das escolas.

Tudo materiais recolhidos e sistematizados (ou sistematizáveis) que irão algo além de “impressões” trocadas a beberricar uns cafézitos enquanto se congeminam reformas educacionais maravilhosas com um punhado de amizades mais antigas ou mais ocasionais e instrumentais. E materiais que não implicariam quase paralisar as escolas do 1º ciclo durante uma semana e mobilizar dezenas de professores para a sua realização, incluindo vastos secretariados para recolher e processar os dados das provas. Mas, parece que só “a partir de agora vamos ter dados sistemáticos sobre o que existe”.

Paulo Guinote

O secretário de Estado da Educação sugeriu que as provas foram decididas por “impressões” colhidas em conversas com professores e em visitas que realizou e disse que servem para “tirar uma fotografia ao sistema” e para perceber “se um aluno teve ou não condições para realizar as tarefas”. Sucede que a Lei 31/2002 aprovou um sistema de avaliação, contínuo, estável e sistemático, compreendendo a autoavaliação e a avaliação externa das escolas que, entre outros objectivos, tem o de produzir “uma informação qualificada de apoio à tomada de decisão”. Acontece que o Despacho nº 13342/2016 reforçou as disposições daquela lei e estabeleceu, por remissão, que a avaliação em análise devia “contribuir para a regulação da educação, dotando os responsáveis pelas políticas educativas e pela administração das escolas de informação pertinente”. Ocorre que o ministério tem um sofisticado sistema de informação (MISI) que visa “facultar aos organismos centrais a informação necessária para a prossecução das suas atribuições”. Tudo visto, verifica-se que estão disponíveis milhares de páginas produzidas pelas escolas e pela IGEC, que dizem o que o secretário de Estado vai concluir.
O secretário de Estado da Educação garantiu que “a partir de agora vamos ter dados sistemáticos sobre o que existe”.

Santana Castilho

Diz que é uma espécie de exames?

educacao_fisicaConcordei, desde o primeiro momento, com a abolição dos “exames da 4ª classe”, essa invenção absurda de Nuno Crato. Apoiei a reintrodução das provas de aferição, embora me parecesse, e mantenho a opinião, que seriam mais úteis e significativas se fossem feitas no final do 3º e não do 2º ano de escolaridade. Também elogiei a decisão de estender a avaliação externa a todas as componentes do currículo, deixando de a centrar, exclusivamente, no Português e na Matemática.

Contudo, os procedimentos que estão a ser adoptados em relação às provas das expressões artísticas e físico-motoras deixam-me apreensivo: alunos sem aulas, professores desviados das suas tarefas lectivas para ir “vigiar” as provas do 1º ciclo, alunos deslocados para ir fazer provas noutras escolas, equipamentos que nunca foram usados nas actividades físicas a serem instalados à pressa para serem estreados nas provas de aferição. Nada disto me parece sério nem pedagogicamente correcto.

Ao contrário dos exames, as provas de aferição, que não contam para nota, deveriam realizar-se nos espaços onde os alunos têm aulas habitualmente e em contextos que lhes são familiares. E em provas que “não contam para a nota”, aliás, que nem têm nota, não deveria haver esta preocupação de estar a preparar alunos e instalações como se de verdadeiros exames se tratassem.

Parece-me assim acertada e oportuna a posição da Fenprof, crítica da encenação, do formalismo e do artificialismo de provas que cada vez mais se confundem com exames. E lembra aos professores que estarão, neste processo, a ser sobrecarregados com tarefas que vão para além do seu horário lectivo, o que têm a fazer:

Nestes casos, a Fenprof considera que, aos professores, deverá ser “pago como serviço extraordinário todo o que acrescer à atividade já programada. Nesse sentido, os sindicatos da Fenprof disponibilizarão minutas aos seus associados para que requeiram, na respetiva escola, esse pagamento”, lê-se também no comunicado.

Em jeito de conclusão, é criticada toda a “encenação” que envolve a realização destas provas que deveriam, no entender da Fenprof, “decorrer da forma mais natural possível”.

“Espera a Fenprof que, o que se passar este ano, sirva, essencialmente, para o Ministério da Educação identificar os erros que estão a ser cometidos e, assumindo as suas responsabilidades, desde logo, apetreche as escolas dos recursos que lhes são devidos ao longo de todo o ano e, simultaneamente, corrija os procedimentos que estão a ser adotados”, remata a nota enviada aos órgãos de comunicação social.