Já saíram as Aprendizagens Essenciais

Discretamente, a DGE já começou a publicar na sua página as Aprendizagens Essenciais para as diversas disciplinas e ciclos de ensino.

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Segundo o texto introdutório, as Aprendizagens não revogam os documentos em vigor (programas, metas curriculares e documentos de apoio), apenas procuram responder a um “problema de extensão”, identificando “o conjunto essencial de conteúdos, capacidades e atitudes” em cada disciplina e ano de escolaridade, a fim de que haja tempo para consolidar aprendizagens, desenvolver competências e pôr em prática a diferenciação pedagógica.

Em síntese, temos programas que remontam, na maioria das disciplinas, aos anos 90 ou ao início deste século, metas curriculares que começaram a vigorar a partir de 2013 e documentos auxiliares de diversos tipos e proveniências destinados a operacionalizar a gestão dos programas e das metas. E é em cima de tudo isto que se colocam as Aprendizagens Essenciais.

Discordo profundamente desta forma de proceder solidamente enraizada entre nós: entendo que deveria existir um único documento curricular por disciplina, contendo os conteúdos a leccionar, as competências a desenvolver, as metas ou objectivos a alcançar e a definição clara do que seriam aprendizagens fundamentais, a adquirir por todos os alunos, bem como os conteúdos de desenvolvimento e/ou enriquecimento.

É de lamentar que, depois da única reforma educativa coerente e verdadeiramente consensual que tivemos em democracia – a que foi lançada por Roberto Carneiro – não tenhamos conseguido mais do que uma sucessão de políticas e políticos à frente do ME que, se por um lado se têm mostrado suficientemente ambiciosos para quererem deixar a sua marca no sistema educativo, por outro não evidenciam a coragem política de revogar o que consideraram desadequado, lançando a educação portuguesa nesta espécie de eduquês às camadas que rapidamente se torna incoerente, confuso e contraditório.

O ME esclarece que esta “base comum de referência”, agora em fase de divulgação, não é um programa mínimo: não esgota as actividades que alunos e professores deverão desenvolver, quer no âmbito de cada disciplina, quer na articulação transdisciplinar. E só se aplica, para já, às escolas e aos anos de escolaridade envolvidos na experiência pedagógica da flexibilidade curricular.

Contudo, quando se acrescenta que a avaliação externa – exames e provas de aferição – irá ter como referencial de base as AE, aí temos o convite claro, a todas as escolas, para que comecem a ter em conta, na planificação das actividades lectivas, os novos documentos orientadores do desenvolvimento do currículo.

 

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Sete ideias para descomplicar a educação

collaborative-work[1]Descomplicar a educação, eliminando o excesso de burocracia, uniformizando e simplificando os processos administrativos, focando os professores no trabalho com os seus alunos e melhorando gradualmente as condições pedagógicas em que se realiza. É disto que precisamos, não de flexibilidades que ninguém pediu, autonomias que nos deixam à mercê da boa vontade e dos humores do sr. vereador, projectos curriculares que nos desgastam irremediavelmente na redescoberta da roda inventada há milhares de anos.

Esqueçam as velhas sebentas da profissionalização em exercício dos anos 90 e as falhadas experiências pedagógicas das áreas-escolas e áreas de projecto, deixem de dar ouvidos à velha cassete dos mestres de Boston passados de validade e ouçam os professores. Os verdadeiros, os que trabalham diariamente nas escolas básicas e secundárias. Com alunos reais, não com manuais de teoria da educação, estatísticas em folha de excel ou relatórios da OCDE.

Em sete pontos, algumas ideias para uma escola muito melhor do que a que temos hoje, sem perder muito mais tempo, nem gastar muito dinheiro.

1. Matrizes curriculares claras e coerentes. Acabem com a contagem ao minuto dos tempos curriculares e com as aulas de 90 minutos criadas por um anterior governo do PS e que foi das piores e mais tristes ideias que já se puseram em prática na educação portuguesa. Definam matrizes curriculares simples, baseadas em tempos de 50 minutos, que deixem espaço às ofertas locais e ao enriquecimento curricular sem ser em detrimento do currículo nacional.

2. Esqueçam novas disciplinas. Valorizem efectivamente as disciplinas que já existem, sobretudo aquelas que mais têm perdido com as reformas, as autonomias e as “minutagens” dos últimos anos, e que são mais do que suficientes. Percebam que uma disciplina escolar deve ter por base um corpo de conhecimentos definido e não a promoção de um programa ideológico, de um estilo de vida ou de um conjunto de comportamentos tido como política ou moralmente correcto.

3. Programas ajustados, exequíveis e objectivos. Eliminem a sobreposição de programas, metas, orientações e aprendizagens essenciais e reduzam tudo a um único documento, por disciplina, que explicite claramente as matérias essenciais de tratamento obrigatório. Certifiquem-se que conteúdos e objectivos estão ajustados ao tempo disponível e à idade dos alunos. E, já agora, obriguem os fazedores de programas a falar uns com os outros e a articular as aprendizagens nas áreas em que as diferentes disciplinas se tocam: não façam da inter e da transdisciplinaridade apenas um dever dos professores.

4. Soluções chave-na-mão para a burocracia escolar. Um sistema informático centralizado e público para gerir toda a área de alunos, e outro para a parte administrativa das escolas, em vez dos programas manhosos comprados no mercado informático e das múltiplas plataformas ministeriais onde se consome grande parte do tempo que as direcções deveriam dedicar aos assuntos pedagógicos. Um modelo-tipo para o regulamento interno, o projecto educativo e outros documentos estruturantes, elaborados pelo ministério, e que as escolas poderiam adaptar, no que entendessem necessário, às suas especificidades.

5. Definição clara do lectivo e do não-lectivo. Genericamente, toda a actividade directa com alunos e que envolva preparação prévia e/ou avaliação deve ser equiparada a uma aula, e é fácil perceber porquê. Mas isso deveria ser assumido e explicitado, preto no branco, pois só dessa forma se evitarão abusos.

6. Crédito horário adequado para todas as escolas. Os professores precisam de tempo para estar com os alunos, mas essas horas não devem ser roubadas ao tempo extra-lectivo dos docentes. Defina-se uma bolsa de horas com critérios mais generosos do que os actuais, procurando dar proporcionalmente mais às escolas em que as carências e necessidades são maiores, pois só assim se habilitarão as escolas a dar a adequada resposta a todas as necessidades educativas dos seus alunos.

7. Autonomia e flexibilidade no que realmente interessa. Que é construir respostas educativas diferenciadas para os alunos com dificuldades em aceder ao currículo regular. Incrementar apoios ao nível da educação especial. Facilitar a criação de turmas reduzidas, percursos curriculares alternativos, cursos de educação e formação, sempre que as características do público escolar o tornam aconselhável. Mudar, diferenciar, flexibilizar, articular em função do interesse  dos alunos e não para satisfazer desejos da equipa ministerial.

Matemática A: programas difíceis de cumprir

boy_math_hg_clrA Associação de Professores de Matemática (APM) sempre apontou o dedo ao programa e às metas curriculares de Matemática A do 10.º e 11.º anos do Ensino Secundário, aprovado em 2014 e aplicado no ano letivo de 2015/2106. Comparou-os com outras realidades, nomeadamente em relação ao que é feito nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Singapura, e afirmou que esse programa “é extenso, incompatível com a carga letiva atribuída, e com um nível de abstração e formalização acima de qualquer outro programa internacional”.

Para não correr o risco de ficar a falar sozinha, a APM realizou um inquérito junto dos professores de Matemática e os resultados, que a notícia do Educare analisa detalhadamente, não deixam margem para dúvidas: mais de 80% dos 562 docentes que responderam reconhecem que houve atrasos significativos na leccionação das matérias, programas não cumpridos na totalidade e recurso a aulas suplementares para tentar recuperar os atrasos.

Parecem acertadas as críticas que desde o início se fizeram a um programa inexequível e de uma exigência despropositada em relação ao nível de ensino em causa, imposto em 2014 pelo ministro Crato e a sua equipa. E claro que qualquer professor experiente sabe como é que, com um exame no final, estas coisas acabam: com a matéria dada a mata-cavalos, sendo sacrificada, porque o tempo não dará para tudo, a componente prática da disciplina: a resolução de exercícios, o esclarecimento de dúvidas, o uso regular da calculadora.

Quanto aos alunos, safam-se os mais bem preparados, os que se entendem melhor com a disciplina e sobretudo os que tiverem acesso a explicações particulares. Aos restantes, resta-lhes tentar chegar aos mínimos indispensáveis para concluírem, no próximo ano, a disciplina e esperar que a Matemática não lhes baixe demasiado a média do secundário.

Relativamente ao ME, penso que perdeu já demasiado tempo a imaginar flexibilidades curriculares que ninguém lhe encomendou, em vez de dar respostas concretas às inquietações de alunos e professores perante problemas reais dos actuais currículos. Como é o caso do evidente desajustamento dos programas e metas curriculares da Matemática A.

 

Novos manuais: uma falsa questão

chuva-livros.jpgAs escolas e os professores têm razões para sentir alguma apreensão com as mudanças curriculares que o ME tem vindo a anunciar. Sobretudo porque o tempo vai passando e, em vez de dados concretos sobre o que se pretende fazer, o que vamos tendo são informações desgarradas que se vão plantando na comunicação social, mais para lançar o barro à parede do que para discutir o que parece já estar decidido na cabeça dos decisores. Só não sabem ainda bem como o concretizar, levando de vencida as inevitáveis oposições e discordâncias.

Ainda assim, se há muita coisa potencialmente problemática nas intenções ministeriais, isto não é, ou não deveria ser, um problema.

Os manuais escolares não vão estar adaptados às alterações curriculares que o ministério da Educação pretende introduzir no próximo ano letivo, a chamada flexibilização curricular. 
Os livros começam a ser trabalhados pelas editoras pelo menos com um ano de antecedência e até agora a tutela ainda não forneceu qualquer indicação concreta sobre o que deverá ser alterado. Se a mudança nas disciplinas avançar mesmo no próximo ano letivo, como garante o Governo, alunos e professores arriscam-se a ter de usar manuais desatualizados. 

O manual é um instrumento de trabalho e de apoio às aprendizagens, não é o programa. Ao professor compete gerir a leccionação das matérias curriculares previstas no programa da sua disciplina, seleccionando as estratégias mais adequadas aos grupos de alunos que tem pela frente, usando o manual quando entender adequado, ou dispensando-o sempre que outros materiais pedagógicos ou metodologias se mostrem mais apropriados aos fins a atingir.

Por outro lado percebem-se, nas entrelinhas da notícia do Sol, dois tipos de preocupações: as dos que salivam perante a mínima oportunidade de declarar desactualizados os manuais existentes, para forçar a elaboração, a adopção e a compra de novos livros. E também as dos que vêm na subordinação do trabalho dos professores ao “projecto pedagógico” do manual uma forma de domesticar e desvalorizar o trabalho docente, fazendo tábua rasa da autonomia profissional do professor, concebido como alguém que se limita a debitar as matérias e a seguir acriticamente as estratégias de aprendizagem definidas pelos autores dos manuais.

Quem se lembra das OGPs?

menino+estudando+gif.pngO Ministério da Educação deu hoje orientações às escolas para flexibilizarem os programas e metas de matemática, que têm sido alvo de críticas pelos professores pela sua extensão e alegada inadequação à faixa etária dos alunos.

O gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues anunciou que acaba de enviar às escolas as orientações para a gestão das matérias a lecionar tanto no ensino básico como no secundário, após um trabalho desenvolvido com a Associação de Professores de Matemática (APM) e a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

Segundo o ministério, os principais problemas sinalizados pelas escolas prendiam-se com a extensão dos programas, que “não permitiam a consolidação das aprendizagens”, com a antecipação de matérias e com “a inadequação de alguns conteúdos às faixas etárias”.

Os programas instituídos pela anterior tutela mantêm-se em vigor, mas há aspetos que podem ser lecionados ao longo do ciclo de ensino e admite-se a possibilidade de haver objetivos a atingir “em anos diferentes do inicialmente previsto”.

O ministério determina ainda que conteúdos não fundamentais possam ser lecionados facultativamente, “em função das necessidades da turma e dos ritmos de aprendizagem”.

O ME retoma uma velha prática, muito comum nos anos 90 do século passado: faziam-se programas demasiado extensos e exigentes para determinadas disciplinas, que depois se verificava serem impossíveis de cumprir. Mas em vez de emendar os erros evidentes, e para não ferir susceptibilidades das sumidades pedagógicas que elaboravam tais programas, o ME publicava orientações para tentar tornar exequível a sua aplicação. Eram as OGP (Orientações de Gestão do Programa), que na prática suprimiam ou tornavam facultativas algumas matérias e aglutinavam ou simplificavam outras quantas. Implícita, ficava a sugestão de serem os professores incapazes de gerir autonomamente a leccionação do programa ou até de interpretar correctamente o documento, pelo que precisariam da cábula salvadora do ministério para perceberem o que deveriam fazer.

Pois agora segue-se o mesmo caminho, tanto para a Matemática do básico como para a do secundário, de remendar em vez de substituir aquilo que comprovadamente não funciona. Criam-se metas curriculares facultativas, o que é um contra-senso: ou bem que há um currículo nacional, e nesse caso as metas definem aquilo que todos os alunos devem aprender, ou se “flexibiliza” parte do currículo, e neste caso devem ser suprimidas as metas referentes às aprendizagens que deixaram de ser obrigatórias.

Discordo completamente desta solução de meias tintas, que passa uma esponja sobre a incompetência do Ministério em definir, de uma vez por todas, o que devem os alunos efectivamente aprender, atirando a batata quente, de novo, para as escolas e os professores. Que com a flexibilização anunciada serão, como sempre, os culpados de tudo o que possa correr mal: se os alunos tiverem maus resultados é porque não se “flexibilizou” o bastante, se obtiverem boas notas mas não aprenderem é porque não foram cumpridos os níveis de exigência de programas e metas que, para todos os efeitos, continuam em vigor.

Programas e metas de Matemática: carta aberta da APM

boy_math_hg_clr.gifOs programas e metas curriculares que Nuno Crato impôs no ensino da Matemática no básico e no secundário continuam a fazer estragos. A Associação de Professores de Matemática veio uma vez mais pedir a sua substituição, tal como o fazem milhares de professores da disciplina por esse país fora, deixando-o mesmo registado nas actas de conselhos pedagógicos, de turma e de departamentos.

A APM quer reforçar mais uma vez que está em total desacordo com os atuais programas e defende a sua suspensão e substituição o mais rapidamente possível. Vivemos hoje, com estes programas, uma situação a carecer de intervenção urgente no ensino da Matemática que, não só está a aumentar o insucesso, como, no caso do Ensino Secundário, a afastar os alunos da área das Ciências e Tecnologias e Socioeconómicas.

No caso do programa de Matemática A do ensino secundário, ainda só aplicado no 10.º ano, a APM considera que o programa de 2014 deve ser suspenso […]

No que se refere ao Programa de Matemática e Metas Curriculares para o Ensino Básico, a APM considera que são inapropriados em muitos aspetos fundamentais e de impossível cumprimento, manifestando uma vez mais a sua preocupação pelas inúmeras perturbações e problemas que a sua implementação tem vindo a causar, quer pela extensão, quer pelos conteúdos, e sobretudo pelas abordagens preconizadas. Por isso, a APM considera que as atuais Metas Curriculares devem ser substituídas por orientações curriculares por ciclo de ensino, dirigidas a cada domínio temático do programa; deve ser realizada a avaliação dos três anos de implementação do programa de 2013 e uma planificação para a execução de alterações curriculares que se entenderem necessárias, face a essa avaliação.

Estas alterações visam permitir favorecer um ensino da Matemática que privilegie, nos alunos, o desenvolvimento das capacidades matemáticas de resolução de problemas, raciocínio e comunicação em matemática, cálculo mental e capacidade de lidar com representações e conexões matemáticas com o mundo envolvente, não se limitando ao ensino de procedimentos, terminologias, formalizações e até alguns conceitos, muitas vezes precocemente introduzidos e totalmente desadequados aos ciclos de ensino a que se dirigem e que, entre outras consequências, aumentam o insucesso e favorecem atitudes negativas dos alunos face à matemática, afastando-os, cada vez mais, da disciplina.

O documento completo está aqui.

Grupo de trabalho para a Matemática

O Ministério da Educação anunciou nesta quinta-feira que convidou a Associação de Professores de Matemática e a Sociedade Portuguesa de Matemática para um grupo de trabalho destinado a melhorar o ensino da disciplina, na sequência de problemas identificados nas escolas.

O grupo é coordenado pela Direcção-Geral da Educação e as duas organizações já tiveram uma primeira reunião, para “ajudarem a resolver os problemas identificados pelas escolas, no que diz respeito ao currículo da disciplina”, revelou o ministério, em comunicado.

A APM tem assumido uma posição bastante crítica em relação aos novos programas e metas curriculares da disciplina de Matemática, ao contrário da SPM, organização onde em tempos pontificou Nuno Crato e que, também por esse motivo, quase sempre encontrou apreciações elogiosas a fazer em relação a decisões polémicas, precipitadas e voluntaristas tomadas pelo anterior ministro em relação ao ensino da Matemática.

E não acho, como parece pensar Paulo Guinote, que esteja em causa uma mera disputa de protagonismos entre as duas associações. Pois o que vou ouvindo aos meus colegas que leccionam a disciplina leva-me a perceber que existem efectivamente desajustamentos graves entre os conteúdos curriculares e as capacidades cognitivas dos alunos a que se destinam. Que há programas demasiado extensos e que a distribuição dos conteúdos a leccionar nem sempre é a mais coerente e equilibrada.

A APM sempre me pareceu, neste processo, ter os pés mais assentes na terra e reflectir, nas suas posições, as dificuldades concretas sentidas pelos professores que tentam aplicar os novos programas. Já da parte da SPM, nota-se sobretudo o elitismo preconceituoso com que procura fazer eco de uma visão idealizada do ensino da Matemática própria de políticos e académicos, mas que dificilmente encontrará adeptos entre os professores do básico e do secundário.

20141018-15127919-7361-imagen[1].gifEspera-se que o grupo de trabalho agora formado consiga pôr de parte estéreis sectarismos, contribuindo para corrigir os experimentalismos do governo anterior, revendo e corrigindo os programas de forma a torná-los exequíveis e adequados aos alunos a que se destinam.