Matemática A: programas difíceis de cumprir

boy_math_hg_clrA Associação de Professores de Matemática (APM) sempre apontou o dedo ao programa e às metas curriculares de Matemática A do 10.º e 11.º anos do Ensino Secundário, aprovado em 2014 e aplicado no ano letivo de 2015/2106. Comparou-os com outras realidades, nomeadamente em relação ao que é feito nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Singapura, e afirmou que esse programa “é extenso, incompatível com a carga letiva atribuída, e com um nível de abstração e formalização acima de qualquer outro programa internacional”.

Para não correr o risco de ficar a falar sozinha, a APM realizou um inquérito junto dos professores de Matemática e os resultados, que a notícia do Educare analisa detalhadamente, não deixam margem para dúvidas: mais de 80% dos 562 docentes que responderam reconhecem que houve atrasos significativos na leccionação das matérias, programas não cumpridos na totalidade e recurso a aulas suplementares para tentar recuperar os atrasos.

Parecem acertadas as críticas que desde o início se fizeram a um programa inexequível e de uma exigência despropositada em relação ao nível de ensino em causa, imposto em 2014 pelo ministro Crato e a sua equipa. E claro que qualquer professor experiente sabe como é que, com um exame no final, estas coisas acabam: com a matéria dada a mata-cavalos, sendo sacrificada, porque o tempo não dará para tudo, a componente prática da disciplina: a resolução de exercícios, o esclarecimento de dúvidas, o uso regular da calculadora.

Quanto aos alunos, safam-se os mais bem preparados, os que se entendem melhor com a disciplina e sobretudo os que tiverem acesso a explicações particulares. Aos restantes, resta-lhes tentar chegar aos mínimos indispensáveis para concluírem, no próximo ano, a disciplina e esperar que a Matemática não lhes baixe demasiado a média do secundário.

Relativamente ao ME, penso que perdeu já demasiado tempo a imaginar flexibilidades curriculares que ninguém lhe encomendou, em vez de dar respostas concretas às inquietações de alunos e professores perante problemas reais dos actuais currículos. Como é o caso do evidente desajustamento dos programas e metas curriculares da Matemática A.

 

Novos manuais: uma falsa questão

chuva-livros.jpgAs escolas e os professores têm razões para sentir alguma apreensão com as mudanças curriculares que o ME tem vindo a anunciar. Sobretudo porque o tempo vai passando e, em vez de dados concretos sobre o que se pretende fazer, o que vamos tendo são informações desgarradas que se vão plantando na comunicação social, mais para lançar o barro à parede do que para discutir o que parece já estar decidido na cabeça dos decisores. Só não sabem ainda bem como o concretizar, levando de vencida as inevitáveis oposições e discordâncias.

Ainda assim, se há muita coisa potencialmente problemática nas intenções ministeriais, isto não é, ou não deveria ser, um problema.

Os manuais escolares não vão estar adaptados às alterações curriculares que o ministério da Educação pretende introduzir no próximo ano letivo, a chamada flexibilização curricular. 
Os livros começam a ser trabalhados pelas editoras pelo menos com um ano de antecedência e até agora a tutela ainda não forneceu qualquer indicação concreta sobre o que deverá ser alterado. Se a mudança nas disciplinas avançar mesmo no próximo ano letivo, como garante o Governo, alunos e professores arriscam-se a ter de usar manuais desatualizados. 

O manual é um instrumento de trabalho e de apoio às aprendizagens, não é o programa. Ao professor compete gerir a leccionação das matérias curriculares previstas no programa da sua disciplina, seleccionando as estratégias mais adequadas aos grupos de alunos que tem pela frente, usando o manual quando entender adequado, ou dispensando-o sempre que outros materiais pedagógicos ou metodologias se mostrem mais apropriados aos fins a atingir.

Por outro lado percebem-se, nas entrelinhas da notícia do Sol, dois tipos de preocupações: as dos que salivam perante a mínima oportunidade de declarar desactualizados os manuais existentes, para forçar a elaboração, a adopção e a compra de novos livros. E também as dos que vêm na subordinação do trabalho dos professores ao “projecto pedagógico” do manual uma forma de domesticar e desvalorizar o trabalho docente, fazendo tábua rasa da autonomia profissional do professor, concebido como alguém que se limita a debitar as matérias e a seguir acriticamente as estratégias de aprendizagem definidas pelos autores dos manuais.

Quem se lembra das OGPs?

menino+estudando+gif.pngO Ministério da Educação deu hoje orientações às escolas para flexibilizarem os programas e metas de matemática, que têm sido alvo de críticas pelos professores pela sua extensão e alegada inadequação à faixa etária dos alunos.

O gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues anunciou que acaba de enviar às escolas as orientações para a gestão das matérias a lecionar tanto no ensino básico como no secundário, após um trabalho desenvolvido com a Associação de Professores de Matemática (APM) e a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

Segundo o ministério, os principais problemas sinalizados pelas escolas prendiam-se com a extensão dos programas, que “não permitiam a consolidação das aprendizagens”, com a antecipação de matérias e com “a inadequação de alguns conteúdos às faixas etárias”.

Os programas instituídos pela anterior tutela mantêm-se em vigor, mas há aspetos que podem ser lecionados ao longo do ciclo de ensino e admite-se a possibilidade de haver objetivos a atingir “em anos diferentes do inicialmente previsto”.

O ministério determina ainda que conteúdos não fundamentais possam ser lecionados facultativamente, “em função das necessidades da turma e dos ritmos de aprendizagem”.

O ME retoma uma velha prática, muito comum nos anos 90 do século passado: faziam-se programas demasiado extensos e exigentes para determinadas disciplinas, que depois se verificava serem impossíveis de cumprir. Mas em vez de emendar os erros evidentes, e para não ferir susceptibilidades das sumidades pedagógicas que elaboravam tais programas, o ME publicava orientações para tentar tornar exequível a sua aplicação. Eram as OGP (Orientações de Gestão do Programa), que na prática suprimiam ou tornavam facultativas algumas matérias e aglutinavam ou simplificavam outras quantas. Implícita, ficava a sugestão de serem os professores incapazes de gerir autonomamente a leccionação do programa ou até de interpretar correctamente o documento, pelo que precisariam da cábula salvadora do ministério para perceberem o que deveriam fazer.

Pois agora segue-se o mesmo caminho, tanto para a Matemática do básico como para a do secundário, de remendar em vez de substituir aquilo que comprovadamente não funciona. Criam-se metas curriculares facultativas, o que é um contra-senso: ou bem que há um currículo nacional, e nesse caso as metas definem aquilo que todos os alunos devem aprender, ou se “flexibiliza” parte do currículo, e neste caso devem ser suprimidas as metas referentes às aprendizagens que deixaram de ser obrigatórias.

Discordo completamente desta solução de meias tintas, que passa uma esponja sobre a incompetência do Ministério em definir, de uma vez por todas, o que devem os alunos efectivamente aprender, atirando a batata quente, de novo, para as escolas e os professores. Que com a flexibilização anunciada serão, como sempre, os culpados de tudo o que possa correr mal: se os alunos tiverem maus resultados é porque não se “flexibilizou” o bastante, se obtiverem boas notas mas não aprenderem é porque não foram cumpridos os níveis de exigência de programas e metas que, para todos os efeitos, continuam em vigor.

Programas e metas de Matemática: carta aberta da APM

boy_math_hg_clr.gifOs programas e metas curriculares que Nuno Crato impôs no ensino da Matemática no básico e no secundário continuam a fazer estragos. A Associação de Professores de Matemática veio uma vez mais pedir a sua substituição, tal como o fazem milhares de professores da disciplina por esse país fora, deixando-o mesmo registado nas actas de conselhos pedagógicos, de turma e de departamentos.

A APM quer reforçar mais uma vez que está em total desacordo com os atuais programas e defende a sua suspensão e substituição o mais rapidamente possível. Vivemos hoje, com estes programas, uma situação a carecer de intervenção urgente no ensino da Matemática que, não só está a aumentar o insucesso, como, no caso do Ensino Secundário, a afastar os alunos da área das Ciências e Tecnologias e Socioeconómicas.

No caso do programa de Matemática A do ensino secundário, ainda só aplicado no 10.º ano, a APM considera que o programa de 2014 deve ser suspenso […]

No que se refere ao Programa de Matemática e Metas Curriculares para o Ensino Básico, a APM considera que são inapropriados em muitos aspetos fundamentais e de impossível cumprimento, manifestando uma vez mais a sua preocupação pelas inúmeras perturbações e problemas que a sua implementação tem vindo a causar, quer pela extensão, quer pelos conteúdos, e sobretudo pelas abordagens preconizadas. Por isso, a APM considera que as atuais Metas Curriculares devem ser substituídas por orientações curriculares por ciclo de ensino, dirigidas a cada domínio temático do programa; deve ser realizada a avaliação dos três anos de implementação do programa de 2013 e uma planificação para a execução de alterações curriculares que se entenderem necessárias, face a essa avaliação.

Estas alterações visam permitir favorecer um ensino da Matemática que privilegie, nos alunos, o desenvolvimento das capacidades matemáticas de resolução de problemas, raciocínio e comunicação em matemática, cálculo mental e capacidade de lidar com representações e conexões matemáticas com o mundo envolvente, não se limitando ao ensino de procedimentos, terminologias, formalizações e até alguns conceitos, muitas vezes precocemente introduzidos e totalmente desadequados aos ciclos de ensino a que se dirigem e que, entre outras consequências, aumentam o insucesso e favorecem atitudes negativas dos alunos face à matemática, afastando-os, cada vez mais, da disciplina.

O documento completo está aqui.

Grupo de trabalho para a Matemática

O Ministério da Educação anunciou nesta quinta-feira que convidou a Associação de Professores de Matemática e a Sociedade Portuguesa de Matemática para um grupo de trabalho destinado a melhorar o ensino da disciplina, na sequência de problemas identificados nas escolas.

O grupo é coordenado pela Direcção-Geral da Educação e as duas organizações já tiveram uma primeira reunião, para “ajudarem a resolver os problemas identificados pelas escolas, no que diz respeito ao currículo da disciplina”, revelou o ministério, em comunicado.

A APM tem assumido uma posição bastante crítica em relação aos novos programas e metas curriculares da disciplina de Matemática, ao contrário da SPM, organização onde em tempos pontificou Nuno Crato e que, também por esse motivo, quase sempre encontrou apreciações elogiosas a fazer em relação a decisões polémicas, precipitadas e voluntaristas tomadas pelo anterior ministro em relação ao ensino da Matemática.

E não acho, como parece pensar Paulo Guinote, que esteja em causa uma mera disputa de protagonismos entre as duas associações. Pois o que vou ouvindo aos meus colegas que leccionam a disciplina leva-me a perceber que existem efectivamente desajustamentos graves entre os conteúdos curriculares e as capacidades cognitivas dos alunos a que se destinam. Que há programas demasiado extensos e que a distribuição dos conteúdos a leccionar nem sempre é a mais coerente e equilibrada.

A APM sempre me pareceu, neste processo, ter os pés mais assentes na terra e reflectir, nas suas posições, as dificuldades concretas sentidas pelos professores que tentam aplicar os novos programas. Já da parte da SPM, nota-se sobretudo o elitismo preconceituoso com que procura fazer eco de uma visão idealizada do ensino da Matemática própria de políticos e académicos, mas que dificilmente encontrará adeptos entre os professores do básico e do secundário.

20141018-15127919-7361-imagen[1].gifEspera-se que o grupo de trabalho agora formado consiga pôr de parte estéreis sectarismos, contribuindo para corrigir os experimentalismos do governo anterior, revendo e corrigindo os programas de forma a torná-los exequíveis e adequados aos alunos a que se destinam.