O Código da Estrada do século XXI

Pois não é só a escola que não pode ficar parada no tempo…

sinais-transito.jpg

Vais para a aula? Não, vou para o Espaço de Aprendizagem Personalizado

Em Ponte de Lima, há uma sala onde se dão hoje as aulas do futuro. Acho que é mais ou menos este o mote destes projectos que ultimamente vão surgindo como cogumelos um pouco por todo o país. O vídeo da notícia segue abaixo, a peça de propaganda está aqui. Ambas no Youtube, sem direito a comentários, que a ideia a passar é: isto é uma maravilha, é o futuro, um dia as aulas vão ser todas assim. Um pensamento único para o qual não se pretende contraditório. Mas irão tê-lo.

Para já, registo a minha perplexidade : num país em crise, com os orçamentos escolares a funcionar abaixo dos mínimos, já alguém tentou fazer as contas ao custo do equipamentos e da tecnologia de uma sala de aula assim equipada? São, a brincar, dezenas de milhares de euros. De onde vem o dinheiro? Quem são os discretos financiadores desta farturinha? E que contrapartidas esperam ter?

Ainda dentro da questão financeira, que não deve ser o centro das atenções quando se fala de pedagogia, mas por vezes funciona como um detector seguro de como não bate a bota com a perdigota, pergunte-se: quanto custaria equipar desta forma todas as salas de aula de uma escola que pretenda ser “do futuro”, ou simplesmente, “do século XXI”? Alguém acredita que isto vai ser, alguma vez, generalizável e acessível a todos os alunos? Ou estamos apenas a fazer o número clássico, mas muito apreciado nalgumas escolas portuguesas, de manter uma ou duas salas especiais de corrida, equipadas com a última tecnologia educativa, com frequência seleccionada de alguns professores “inovadores” e turmas escolhidas a dedo?

Pedagogicamente, claro que a tecnologia permite novas abordagens aos conteúdos, tanto ao nível do que se consegue transmitir aos alunos como da forma como estes apreendem o conhecimento. E se este ponto para mim é pacífico, já acho mais preocupante a ideia, subjacente a muitas abordagens “inovadoras”, do aprender sem esforço, ou de um conhecimento já “mastigado” e pronto a consumir que se vai buscar “ao Google”. Ou ainda que é servido, na forma aliciante de um jogo, por uma aplicação específica. Sem rejeitar a tecnologia educativa, que uso quotidianamente, fico apreensivo com o folclore educativo que tantas vezes esconde a mediocridade dos projectos e a pobreza de recursos de certas “escolas virtuais”.

Da baleia azul à dependência tecnológica

ivone-patrao.JPGEsclarecedora e oportuna a conversa da jornalista Bárbara Wong com a psicóloga Ivone Patrão, a propósito da actual geração de crianças e adolescentes que vivem, desde a mais tenra infância imersos em tecnologia. Sempre ligados à rede, acreditam que não precisam de saber as coisas, porque sabem onde estão quando precisam delas. E o facto de nunca desligarem, rouba-lhes espaço para pensar, reflectir, estar consigo próprios. E tira-lhes tempo para conviverem com a família e até para socializarem com os amigos próximos, sem ser por intermédio da tecnologia.

Alguns excertos de uma entrevista que vale a pena ler na totalidade:

Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

[Esta “geração-cordão”] é uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Pensamento do dia

professora-alunos.jpgNo Google encontras mil respostas a uma pergunta.

O teu professor dá-te apenas uma: a resposta correcta.

A escola do século XXI ataca de novo

escola-sec-xxi.JPGCriatividade, pensamento crítico, competências sociais são argumentos cada vez mais valiosos no mundo do trabalho. E, se assim é, que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?

Justifica-se continuar a pedir a crianças e adolescentes que fiquem sentados numa sala de aulas, de forma passiva, enquanto o professor os inunda com saber enciclopédico debitado e factos a que podem aceder rapidamente em qualquer site ou vídeo na internet? Justifica-se que os alunos não possam falar uns com os outros para debater matérias?

A extensa reportagem do Expresso procurou encontrar, nalgumas salas de aula de escolas portuguesas, uma antevisão do que será a escola do futuro.

Algumas ideias são relativamente consensuais: a tecnologia permite o acesso directo e imediato à informação, crianças e jovens habituados à interactividade e ao multimédia nos seus computadores e telemóveis mostram dificuldades em se concentrarem e motivarem perante uma aula tradicional, metodologias mais activas de aprendizagem são em geral mais aliciantes para os alunos e resultam em aprendizagens mais significativas.

Que resposta dão, a estes desafios, as escolas visitadas pelos jornalistas do Expresso? Em primeiro lugar, muita, e dispendiosa, tecnologia: iPads, quadros e mesas interactivos, smart TVs. Que só é acessível a colégios de elite ou a escolas públicas que concorrem a projectos públicos e privados e que recebem financiamentos generosos para adquirir estes equipamentos. E logo aqui tenho duas objecções: primeiro, não é viável equipar desta forma a generalidade das escolas, e segundo, tenho muitas dúvidas do alcance de qualquer reforma educativa quando ela se faz a reboque da promoção dos interesses das grandes multinacionais da informática.

E depois, há uma contradição que ressalta a quem ler atentamente a peça do Expresso: começa por se fazer uma caricatura da aula expositiva, dita do século XIX, em que o professor debita “saber enciclopédico”. Mas depois, nos exemplos que vão sendo dados da forma como os alunos pesquisam, analisam e constroem o seu próprio conhecimento, o que vemos são sobretudo coisas para decorar: a morfologia do ouvido ou os nomes de diversas espécies de dinossauros. E formas pobres e redutoras de avaliar resultados, como as perguntas directas de escolha múltipla à maneira dos concursos televisivos, em que ganha o mais rápido a assinalar a resposta certa.

Também se encontram ideias boas, como os trabalhos de pesquisa e de projecto de natureza interdisciplinar, a aprendizagem colaborativa, a apresentação à turma do trabalho produzido por cada grupo. Mas nada disto é verdadeiramente novo, e se não é mais praticado mais vezes é porque um conjunto de factores se tornam impeditivos: o número excessivo de alunos por turma e de turmas por professor, a falta de espaços e equipamentos adequados nas escolas, os programas extensos, as metas prescritivas e a pressão dos exames e dos resultados sobre o trabalho de alunos e professores.

Conviria, por isso, deixarmos de nos focar tanto na tecnologia enquanto magia educativa, pois tanto é possível ter uma aula dita tradicional em que todos os alunos intervêm e participam na construção do seu próprio saber, como usar os meios tecnológicos para mais facilmente formatar mentes e conhecimentos.

Pessoalmente, agradar-me-ia pensar numa escola do futuro mais em consonância com um outro modelo de sociedade, menos competitiva e mais solidária, mais focada no ser do que no ter, mais igualitária e menos injusta e discriminatória. Quando vejo colégios que têm todos os gadgets educativos e uma impecável cartilha de competências para o século XXI, mas que não foram capazes de fazer o mais óbvio, que era começar por tirar aquela gravatinha ridícula aos miúdos do 1º ciclo, tenho sérias dúvidas acerca do real alcance destas reformas.

gravatinhas.jpgEm boa verdade, para mentes continuam focadas no liberalismo e na ordem social do século XVIII, a escola do século XIX seria já um indiscutível progresso.

Especialista educacional

generationgap.jpg– Bom dia! Sou especialista em trabalho de projecto, coaching, classroom labs, e-learning, flipchart, gamificação, soft skills, pensamento crítico, construtivismo, aprendizagem colaborativa, concept based learning….

– Ah, muito prazer! Também sou professor. E em que escola dá aulas?

– Bom, eu não dou aulas. Faço conferências e essas coisas…

Videovigilância escolar com imagem tremida

camaras-indiscretas.gifSão 1150 escolas de norte a sul de Portugal, outras tantas centrais de monitorização, 11 500 câmaras e mais de 56 mil sensores que integram, desde o início do ano, um dos maiores sistemas de videovigilância escolar da Europa. Este projeto, ganho por três empresas nacionais, conseguiu recuperar a baixo custo grande parte do anterior equipamento, instalado em 2008, que se tinha tornado obsoleto por falta de manutenção e esteve para ser totalmente desligado no início de 2016. Tinha custado quase 25 milhões de euros. Neste concurso, o governo gastou 1,5 milhões, mas faltou o contrato para as reparações e ainda há um número elevado de equipamentos com problemas.

Os problemas com o renovado sistema de videovigilância escolar, que ao fim de três meses de funcionamento já trabalha aos soluços ou não funciona de todo, reflectem os velhos vícios da gestão à portuguesa, que os dinheiros fáceis da União Europeia vieram acentuar: planeia-se com ambição, opta-se pelas melhores soluções tecnológicas e, quando tudo corre bem, até se consegue ter as coisas a funcionar sem grandes atrasos nem excessivas derrapagens nos orçamentos iniciais. O que falha é a fase seguinte, a de manter operacionais os sistemas, fazer a manutenção preventiva, reparar ou substituir os equipamentos que avariam e planear atempadamente a renovação do material.

Ora a verdade é que um milhão de euros por ano para assegurar a manutenção dos equipamentos de videovigilância de todas das escolas públicas do país não pode ser considerado um custo excessivo, sobretudo se compararmos com o investimento inicial de 25 milhões. Ou com o que custaria a vigilância física feita por guardas-nocturnos, que antigamente existia, e que a instalação de câmaras e sensores remotamente controlados permitiu dispensar.

O que a todo o custo deve ser evitado é o adiamento dos problemas e o empurrar de custos e responsabilidades para as escolas e para os minguados orçamentos, enquanto os males se vão agravando. Não é boa conselheira a tentação de ir resolvendo “os casos mais urgentes”, tapando os buracos que logo se vão reabrindo noutros sítios, em vez de procurar uma solução global, duradoura e, já agora, com custos controlados.