Matéria não dada

examesA ver se nos entendemos: não podemos criticar os exames dizendo que se limitam a um despejar de conhecimentos previamente adquiridos e afanosamente memorizados e, quando se começa a mudar o paradigma avaliativo, apelando menos à memória e ao treino e mais à reflexão e à aplicação dos conhecimentos adquiridos, reclamar porque saiu um texto que não foi dado nas aulas.

É questionável que esta mudança se tenha dado da 1.ª para a 2.ª fase da mesma época de exames, o que põe em causa o princípio de equidade entre alunos que, para todos os efeitos, deveriam estar em igualdade de circunstâncias. Mas concordo com a tendência de mudança, que aliás já vem sendo feita há alguns anos, e não apenas em Português, e espero que tenha vindo para ficar.

Por outro lado, se consideramos que um aluno do 12.º ano é incapaz de compreender um excerto d’Os Lusíadas que não tenha sido previamente esmiuçado nas aulas de Português ou nos manuais de estudo, então talvez seja de questionar a relevância do que se ensina, aprende e, sobretudo, se avalia na disciplina.

Levando a reflexão um pouco mais longe, não seria despiciendo considerar a pertinência de voltarem a existir, como houve em tempos, duas disciplinas distintas de Português. Uma, mais direccionada para o uso correcto da língua, o desenvolvimento da capacidade de expressão oral e escrita e a compreensão da leitura. Outra, destinada aos alunos de Línguas e Humanidades, onde se fizesse uma aprendizagem mais aprofundada da nossa literatura. Julgo que o estudo dos Lusíadas, do teatro vicentino ou dos sermões do Padre António Vieira deve ter lugar nas escolas secundárias portuguesas. O que se deve questionar é se todos os alunos, de todos os cursos, o devem fazer da mesma forma e com a mesma profundidade.

Tal como o ensino da Matemática no secundário se desdobra em três disciplinas com distintos graus de complexidade, também o mesmo se deveria equacionar em relação ao Português. Pois o que temos hoje é, claramente, um sistema que desvaloriza as Humanidades, nivelando por baixo a formação destes alunos e dificultando a construção de percursos escolares verdadeiramente diferenciadores. Como existem na área das Ciências e das Tecnologias…

Os alunos que realizaram o exame nacional de Português do 12.º ano na 2.ª fase foram confrontados com um excerto da obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, que não tinha sido lecionado nas aulas e que não consta no programa da disciplina. Segundo o Público, uma professora alertou o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que defendeu a decisão com a necessidade de avaliar a capacidade dos alunos de demonstrar “capacidades de interpretação” em vez de apenas reprodução de conhecimentos.

Mas no exame da 1.ª fase, e em anos anteriores, os alunos nunca tiveram que interpretar estâncias d’Os Lusíadas que não tivessem sido analisadas durante as aulas.

“O facto de se entender que os suportes textuais apenas podem ser selecionados de entre aqueles que, no programa, são indicados para o trabalho em sala de aula colide com pressupostos que enformam os programas e o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, na medida em que acaba por se valorizar a reprodução de conhecimentos, em detrimento da capacidade de mobilizar esses conhecimentos e capacidades na interpretação de outros suportes da mesma obra, de outras obras do mesmo autor ou do mesmo género textual”, defendeu o IAVE.

Num email enviado ao IAVE sobre o exame de 2.ª fase de Português, que continha as estâncias 26 a 29 do Canto VI da obra de Luís de Camões, a professora e classificadora de exames manifestou “perplexidade e indignação”, considerando ser “absolutamente inacreditável que os alunos tenham de ler e compreender quatro estâncias de Os Lusíadas que não correspondem a nenhuma das indicadas nos programas de Português”.

“As estâncias analisadas em aula já são suficientemente difíceis”, considerou a docente, defendendo não ser necessário “aumentar o grau de dificuldade”. Cerca de 17 mil alunos realizaram o exame de Português do 12.º ano na 2.ª fase.

Aborto ortográfico

augusto_santos_silva.jpg“Portugal é um país estimado em todo o mundo, considerado em todo o mundo por muitas qualidades. E uma das qualidades que tem é honrar os compromissos que assume e, portanto, cumprir os tratados e acordos que livremente subscreve, incluindo o Acordo Ortográfico de 1990”.

As palavras de circunstância de Augusto Santos Silva em Cabo Verde parecem sensatas e politicamente correctas, mas não nos dizem toda a verdade. Os tratados e acordos internacionais deveriam servir, apenas, para regular as relações entre estados soberanos. Não para impor aos cidadãos, na ordem jurídica interna, leis irrevogáveis. Como cada vez mais se vai fazendo, instituindo uma prática que mina os fundamentos dos regimes democráticos.

A democracia deve estar acima da diplomacia. A vontade popular e a sua expressão parlamentar devem prevalecer sobre as imposições de directórios políticos. As línguas pertencem aos povos que as usam, não são propriedade de políticos insensatos e ambiciosos. E decisões erradas tomadas por maiorias circunstanciais devem poder ser revertidas quando se torna evidente que causam mais prejuízos do que benefícios.

Claro que, por cá, sempre se gostou de apostar na política do facto consumado e em empurrar os problemas com a barriga, à espera que o tempo ou a inércia acabem por os resolver. No caso do apropriadamente chamado aborto ortográfico, isso não sucedeu. Quase trinta anos depois, continuamos longe de um consenso nesta matéria, como se viu com a missão fracassada da última comissão parlamentar que se dedicou ao assunto.

O grupo de trabalho parlamentar criado para avaliar o impacto da aplicação do Acordo Ortográfico termina esta sexta-feira funções sem ter reunido consenso para uma possível alteração a esta convenção.

“Lamento que não tenha havido consenso sobre a necessidade de discutir” a hipótese de alterar ou aperfeiçoar o atual Acordo Ortográfico (AO), disse à agência Lusa o coordenador daquele grupo de trabalho, o deputado José Carlos Barros (PSD).

Deveria servir de lição para políticos de todos os quadrantes: das piores coisas que podem fazer é criar um problema real para resolver problemas imaginários – que neste caso existiam apenas na cabeça de alguns académicos e políticos em busca de notoriedade.

A verdade é que portugueses e brasileiros falam e escrevem de forma diferente. Nenhum acordo conseguirá mudar esta realidade, que tem de ser aceite tal como ela é. Uma maior aproximação linguística dependerá acima de tudo da intensificação do contacto cultural entre dois povos que andaram muito tempo por caminhos separados. Mas isso é algo que só trará frutos a muito longo prazo; nunca ao fim de um ciclo político de quatro anos. O que seria uma boa razão para que os oportunismos político-partidários se mantivessem afastados.

A importância do latim

frederico-lourenco.JPGO lento declínio do ensino das humanidades não é de agora, apesar de a intenção hipócrita de diminuir o seu peso curricular, ao mesmo tempo que se tecem loas ao humanismo, se ter tornado evidente com o actual governo.

Veja-se como as línguas clássicas, cuja aprendizagem era comum, entre os alunos de humanidades, ainda há duas ou três décadas atrás, estão hoje praticamente extintas no ensino não superior português. E nisto deveremos ser, tanto quanto julgo saber, caso único entre os países latinos…

Em nome de uma modernidade mal entendida, vamos paulatinamente esquecendo e desvalorizando as raízes históricas e culturais da nossa civilização e da nossa identidade colectiva. Como se estas pudessem ser substituídas, na aprendizagem escolar, por uns quaisquer módulos de “cidadania”.

Neste contexto, ganham sentido e pertinência as reflexões de Frederico Lourenço na entrevista que concedeu a propósito do lançamento da sua Nova Gramática do Latim.

O tempo é uma conquista consciente da minha parte. Só consigo fazer os trabalhos que faço porque abdico de muitas outras coisas. […] Tomei a opção de fazer aquilo que considero o “meu” trabalho, não só porque o considero mais importante do que outras atividades a que me poderia dedicar, mas também porque me dá gosto fazê-lo.

…arqueologia, história antiga e medieval, filosofia, teologia, linguística portuguesa. Nunca deixa de me surpreender que haja entre nós investigadores e professores dessas áreas que sabem pouco ou nenhum latim.

…as pessoas começam, na maior parte dos casos, a aprender latim já adultas, numa fase do desenvolvimento do cérebro humano em que já não se consegue aprender vocabulário quase por osmose, como é possível aos 10 anos. Por isso sou apologista de que o latim deve ser ensinado na escola, de forma lúdica mas progressiva, a partir dos 10 anos.

…o latim é uma língua em que tudo se pode exprimir, desde os palavrões mais crus até aos pensamentos mais sublimes. É a língua de Vergílio e da Vulgata, sim; mas é também a língua de grafitos obscenos escritos nas paredes por pessoas que davam os mais delirantes erros de ortografia.

A Ilustre Casa de Ramires está à venda

torre-da-lagaricaA Casa da Torre da Lagariça é uma construção cuja origem remonta à primeira metade do século XII, quando foi construído o torreão militar em plena época da reconquista cristã. Já no século XVII, os proprietários da torre decidiram construir à volta um solar em forma de L, não tendo alterado a torre.

O escritor Eça de Queirós visitou o local situado na freguesia de São Cipriano, em Resende, e inspirou-se para escrever A Ilustre Casa de Ramires, publicado em 1900. “E como o visconde [de Rio-Manso] aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal – ambos desceram ao pomar. O visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre”, lê-se, por exemplo, no capítulo VIII.

A torre é mais antiga que Portugal e o solar, erguido à sua volta, um exemplar típico das tradicionais residências da pequena nobreza rural. Em redor, uma pequena quinta com horta, pomar, jardins e uma mata.

990 mil euros é quanto custa, no site da Remax, a propriedade, naturalmente a precisar de obras e a merecer reabilitação, eventualmente no âmbito de um projecto de hotelaria. Haverá interessados, ou irá a velha casa juntar-se, a breve prazo, ao triste espólio do Portugal arruinado?…

Leituras: Uma aldeia transmontana

tras-os-montes.jpgPouco diferente da época remota em que a tinham funda­do como povoado, a aldeia era ainda uma rua de casas de pedra solta, cortada por meia dúzia de becos ladeados de pa­lheiros, estábulos, pocilgas, aqui e além um curral, um pal­mo de horta.

Ao cimo, junto da igreja e a única com reboco e cal, fica­va a casa dos Pimentéis, gente da pequena aristocracia da província, latifundiários, donos da «Casa Grande» de Caste­lo Branco e, desde gerações, também mais ou menos «do­nos» da Câmara e da influência política no concelho de Mogadouro.

Ao fundo ficava a capela. A rua, longa, quase a direito e nalguns pontos larga de dez metros, era de piso desigual, porque afloravam nela rochedos que nada conseguia desgas­tar. No começo do Inverno, seguindo a largura das casas até ao meio da calçada, cada um deitava montes de palha corta­da que depois, trilhada pela passagem da gente e das bestas, ensopada pela chuva, as penicadas e o lixo das casas, não tardava a fermentar. Nuvens de moscas e mosquitos cobriam tudo, mordiam com uma ferocidade de praga bíblica, mas o hábito da sujidade era consagrado pelo tempo, e o adubo indispensável para uma terra que a natureza fizera pobre. Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e a das casas — onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão — com as terríveis doenças que os afligiam.

Poucos eram também os que escapavam às «febres», a malária que os punha escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com calafrios que ne­nhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das chamas do inferno.

Morriam da malária e da cólera, do tifo, da tuberculose, do antraz, do vómito-negro, mas também do desleixo e do isolamento. Levavam-se os doentes a cavalo ou de liteira pa­ra Moncorvo, viagem dum dia inteiro por maus caminhos e, chegados lá, o único médico ou não estava ou dizia-lhes que esperassem; se não queriam ou não podiam fossem à Pes­queira, dois dias mais longe. Por isso se curvavam ao que lhes parecia a vontade do Senhor e este, misericordioso, às vezes aceitava-lhes as orações, obrava curas milagrosas. De milagres eram também capazes os ciganos, que sabiam dis­tinguir os carbúnculos e outras feridas ruins, e as faziam de­saparecer queimando fundo a carne com um ferro em brasa.

No Verão, porque a pouca água se tornava salobra, ha­via mais doenças e sobretudo os pequenitos morriam como passarinhos: levava-os o sarampo, as «bexigas», a soltura; acontecia fenecerem dum momento para o outro e dizia-se então que era um bem, uma caridade de Deus que os chama­ra a si para lhes poupar o sofrimento de viver.

J. Rentes de Carvalho, Ernestina (2009).

Leituras: A praia é de todos

banhistas.jpgNum qualquer domingo de Agosto é vê-los passar, os corpos que envergonhariam o Tarzan dos Macacos, tatuados, depilados, bron­zeados nas camas dos solários, exibindo com brio o resultado de dietas proteicas e serviço de ginásio. São corpos que dão trabalho a tempo inteiro, preparados para a exibição da força, sobretudo da força de vontade, da disciplina, da virilidade sem ruga e sem pêlo, de peitos lisos e glabros, pernas e braços pelados. Algumas barbas parecem desenhadas a pincel fino e tinta-da-china, com barrocos arabescos de personagem de banda desenhada; ou são farfalhudas como bichos, imitando barbas postiças. Os cortes de cabelo apropriam-se das irregularidades do punk, mas são de alta manutenção e carinhosamente feitos e refeitos a régua e esquadro. É um corpo em que todo o animalesco foi suprimido, mantendo-se a imagem idealizada do animalesco, propondo uma aparência quase robótica de combatente de jogo de vídeo, imaginado por um computador. Impera a tatuagem, o piercing declina, mas ainda marca presença. Cada um propõe uma leitura da imagem que esco­lheu para o ilustrar. Opta-se por tatuagens de catálogo, algumas pormenorizadas, que devem ter doído muito. Motivos geométri­cos, escorpiões e dragões, flores estilizadas, cometendo alguns o erro crasso de mandar gravar o nome da amada do momento, que depois custa milhares de euros a raspar. E eu penso na utilidade que teria, em vez destas tatuagens meramente artísticas, se cada um mandasse gravar em si informações relevantes como o nome, a ocupação e o número de contacto. «Reparação de máquinas de lavar loiça» ou «trabalhos de costura», «tintureira a domicílio», «Tânia, reiki e massagem terapêutica»; ou o mero aviso «sou muito bom rapaz»; ou algo íntimo, perene: «o meu sonho é trabalhar no Pingo Doce», que é, aliás, escrito mais próprio para uma t-shirt. A praia seria um funcional serviço de anúncios e a gente sempre ia despachando a lista dos afazeres.

O corpo ideal, que há duzentos anos era divino, escondido, desconhecido, secreto, branco, perfumado de óleos, empoado, ele­gante, erecto com requebros, recamado de sedas e veludos, orna­mentado de jóias e toucados, fitas e cabeleiras – transformou-se nesta parada nua de guerreiros e amazonas. Até há bem poucas décadas, o corpo era mantido na sua porcaria natural e nunca se tomava banho – a higiene era espiritual e fazia-se com missas e expiações. A gordura, que já foi formosura nos tempos em que fidalgos e abades eram anafados, é desde o Romantismo pura e sim­plesmente interdita. E é assim que, a partir de meados do século XX, proscrita a gordura, se prescreve o biquíni. O corpo passou a ter de estar em boa forma para ser exibido e socialmente avaliado, fazendo florescer à sua volta uma miríade de paraciências e indús­trias, mormente a da saúde, que se foi abarbatando com noventa por cento do espaço psíquico dos cidadãos. Claro que nem todos se achegam ao ideal. A maioria não pode, nem quer. Descansa e deixa-se ir. A praia relaxa e a todos acolhe com boa cara.

Luísa Costa Gomes, Da Costa, praias e montes da Caparica (2018).

Pactos de regime

acordo-ort.jpgPara os que defendem unanimismos e gostariam de, com a imposição do facto consumado, encerrar de vez a discussão em torno de uma péssima decisão política que compromete vários governos e maiorias, esta será certamente uma boa notícia.

A proposta de resolução do PCP para o recesso do Acordo Ortográfico de 1990 deverá ser chumbada amanhã, quinta-feira, pelos restantes partidos tendo em conta as posições afirmadas esta quarta-feira à tarde no debate em plenário. O diploma comunista foi apresentado com a discussão de uma petição subscrita por mais de 20 mil pessoas que pede a desvinculação de Portugal do acordo e dos protocolos modificativos.

PSD, PS, CDS e BE demarcaram-se do projecto de resolução do PCP, ainda que admitam a necessidade de o aperfeiçoar. Nem o PEV nem o PAN intervieram no debate.

Nesta matéria, apoio inteiramente a proposta do PCP que amanhã será chumbada pelo Parlamento e declaro-me adversário convicto de pactos de regime que, invocando variados pretextos, unem partidos à esquerda e à direita em torno de um mau acordo e de uma norma ortográfica que continua a ser rejeitada por um grande número de utilizadores da língua portuguesa.