Jornalismo de sangue

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Depois da análise ao sangue do candidato do PS à Câmara de Lisboa, esperam-se novas revelações do jornalismo-choque da TVI:

António Costa tem sangue comunista herdado do pai, militante do PCP, e sangue feminista do lado da mãe, Maria Antónia Palla, conhecida defensora, ainda no tempo da ditadura, dos direitos das mulheres.

Marcelo Rebelo de Sousa, por sua vez, tem sangue fascista, pois é filho de um ministro do governo de Marcelo Caetano.

A vaga incendiária na comunicação social

A par das falhas na coordenação do combate aos fogos de Pedrógão Grande, da insuficiência ou ineficácia dos meios usados, do completo desleixo em relação a medidas preventivas que pudessem ter evitado ou minimizado o sucedido e de outros erros e negligências que os já anunciados inquéritos irão apurar, há um facto demasiado evidente: a comunicação social também não esteve bem.

Não digo que seja fácil cobrir um acontecimento com a carga destruidora e emotiva que uma tragédia desta dimensão inevitavelmente terá. Mas houve órgãos de comunicação que, na ânsia do sensacionalismo, passaram diversas linhas vermelhas da ética e deontologia da sua profissão. E, pior do que isso, chamados à atenção, houve aqueles que, em vez de corrigirem os excessos, reagiram com a arrogância de quem não aceita críticas, não ouve bons conselhos e não respeita sequer os direitos e os sentimentos das vítimas dos trágicos acontecimentos.

A postura reprovável dos media, ao arrepio das boas práticas da profissão, tornou-se especialmente evidente no episódio de fake news da queda do avião. Um após outro, jornais, rádios e televisões foram escorregando na casca de banana de um acidente aéreo que nunca existiu. Mas que, percebe-se, daria imenso jeito que tivesse acontecido…

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Oportuno e sempre inspirado cartoon de Antero Valério, retirado daqui.

O país dos incêndios

incendio-pedrogao1Ainda lavram, incontrolados, os incêndios em Pedrógão Grande e concelhos vizinhos. Pouco haverá a acrescentar ao muito que já se disse sobre a imensa tragédia do fim de semana. Falta o mais importante, que é agir de acordo com o que há muito se sabe que está por fazer em matéria de ordenamento do território, de responsabilização dos proprietários, de coordenação de estruturas de protecção civil, de rentabilização do muito dinheiro que se esbanja, anualmente, em cada “época de incêndios”, para continuarmos, ano após ano, no lugar nada invejável de país europeu com mais área florestal ardida.

De facto, basta percorrer o IC8 para perceber a dimensão e a densidade da mancha florestal a que se convencionou chamar Pinhal Interior: perante o envelhecimento e a desertificação humana e a fraca aptidão agrícola da maioria dos solos, apostou-se na exploração florestal, sem tomar em devida conta as necessidades do ordenamento do território e de uma gestão adequada das florestas. Esquecem-se medidas básicas e fundamentais de segurança como a desflorestação e a limpeza das zonas adjacentes às estradas ou em torno das povoações que preservariam zonas seguras e caminhos de fuga às populações ameaçadas pelas chamas.

No meio da tragédia, que foi pasto não apenas para as chamas mas também para intermináveis serviços noticiosos que, a certo ponto, mais não faziam do que repetir até à náusea as mesmas imagens e informações, o destaque, pela negativa, coube desta vez à TVI e à sua jornalista-vedeta Judite de Sousa. Achando por bem deixar, por uma vez, o conforto dos estúdios e ir pavonear-se para o centro dos acontecimentos, não encontrou melhor sítio para fazer a sua reportagem do que ao lado do cadáver de uma senhora vitimada pelo fogo.

judite-pedrogao.jpgDuplamente lamentável, não só pelo triste exemplo ético e deontológico de uma jornalista que é também professora de jornalismo, mas também porque todos soubemos da sua imensa dor e sofrimento aquando do falecimento recente do seu filho. E nos recordamos de como foi alvo de inúmeras manifestações de apoio, compreensão e de solidariedade. O que teria sentido Judite de Sousa na altura, se um seu colega de profissão fosse fazer uma reportagem ao lado do corpo do seu filho?

Abusos privados

prof-musica.jpgUma instituição de ensino particular, ligada à Igreja, apanhou um professor de música a abusar sexualmente de uma aluna menor, mas não comunicou o caso às autoridades, para evitar um escândalo.

O caso é divulgado pelo Correio da Manhã (CM) que nota que o colégio particular do Porto expulsou o professor de música de 62 anos, mas que “abafou” a situação, não fazendo qualquer denúncia à polícia, como seria de esperar, perante o que é considerado um crime público.

À Polícia Judiciária terão entretanto, chegado três queixas de menores, com idades entre os 12 e os 16 anos, que acusam o professor de abusos sexuais.

Julgo que seria impensável, numa escola pública, haver esta cumplicidade e encobrimento de uma situação que, segundo as suspeitas da PJ, se arrastou durante anos. O que demonstra que há na nossa sociedade corporativismos bem mais fortes e poderosos do que o chamado corporativismo docente.

Registe-se também a forma cuidadosa como até o Correio da Manhã dá a notícia, mencionando a ligação do colégio à Igreja, mas evitando cuidadosamente identificar a instituição onde tudo se passou. Claro que se fosse uma escola pública, já teria equipas de reportagem à porta e o seu nome andaria nas parangonas de todos os jornais.

Respeitinho, ainda para mais em dia de visita do Santo Padre, é o que se quer.

Armando Baptista-Bastos (1934-2017)

Dizer de mim

A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio.

baptista-bastos.jpgUm homem é o que para os outros foi ou é, e, também, aquilo que o não deixaram ser. A minha vida permitiu-me acumular experiências, e tive a sorte de trabalhar, em dois diários, com grandes, extraordinários, profissionais. Os jornais, esses, acabaram e de forma triste e desamparada. Aos jornalistas, a esses, recordo-os sempre com estima e afeição. Sou um produto deles, e eles sempre olharam por mim com o cuidado suscitado pela amizade. Não exagero: o pulsar do meu coração não falha, quando leio ou assisto, pelas televisões, nos jornais, a reportagens que marcam o sobressalto daquilo que sinto. Esses sentimentos prolongo-os até hoje, numa memória constante que, amiúde, se confunde com o meu próprio destino.

Às vezes, apetece-me dizer estas coisas. Inspirações momentâneas, surgidas do que observo ou leio. Mas também desejo encorajar todos aqueles que, nos jornais ou nas televisões, têm sentido a frustração dos dias, a estranha paragem do tempo, a dor secreta da velhice. Nunca me queixei, nunca levei para casa a dor profunda e secreta do que me faziam. Fui fazendo. Algumas vezes disfarçando, nas frases, o sofrimento que ocultava com um riso só feliz na aparência. Tenho andado a remoer e a mastigar, com o esquecimento forçado e o sorriso aberto, as dores com as quais fui envelhecendo.

Tenho a cabeça e os sentimentos que nela se ocultam, sem se apagar, numerosos factos e histórias, afinal comuns a quem fez da vida um caudal de palavras e de frases. O culpado sou só eu. Mas só escrevo aquelas que não podem magoar ninguém. Sei que se chama a isto ter carácter. Salvei-me do recurso à canalhice, e tudo concorria para que assim não fosse. A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio, e só a escrevo em minúsculos episódios, como este, agora, e devo-o não só a mim, mas, sobretudo, àqueles que de mim gostam. Até já.

Correio da Manhã, 8/2/2017

Verdades alternativas

Não sei se chegou a ser a maior greve geral dos últimos cem anos, mas foi sem dúvida um gigantesco protesto por todo o Brasil contra as reformas planeadas por Michel Temer, amplamente ignorado ou minimizado pelos grandes grupos de media do país. Que, na bipolarizada conjuntura política brasileira, há muito escolheram o seu lado.

Movimentação de dimensão nunca vista tomou todo o território nacional, com centenas de categorias que cruzaram os braços nos 26 estados e no Distrito Federal, dispostas a barrar as reformas de Temer.

Adenda: também na imprensa portuguesa, solidária com a do país-irmão, nem uma palavra sobre a greve geral…

Aviação, overbooking e jornalismo de sarjeta

O caso do cidadão norte-americano que foi brutalmente agredido e retirado à força do interior do avião porque a empresa de aviação decidiu que necessitava do seu lugar mereceu condenação generalizada, e é lamentável, primeiro, que as punições para estas políticas de empresa atinjam apenas os que as praticam mas raramente cheguem aos responsáveis que as aprovam e incentivam e, em segundo lugar, que o boicote dos consumidores às empresas united pela pouca estima que mostram pelos seus clientes seja geralmente sol de pouca dura.

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Este caso levantou também um velho problema da aviação comercial, o overbooking, a prática generalizada que permite às companhias venderem mais bilhetes do que o número de lugares existentes no avião. Este procedimento, se fazia algum sentido no tempo do booking, ou seja, quando os clientes reservavam o seu lugar mas  podiam à última hora decidir não comparecer ao voo, é hoje uma prática comercial verdadeiramente fraudulenta, uma vez que a generalidade dos passageiros compra a sua passagem antecipadamente e não é reembolsado se desistir da viagem. A sua persistência é por isso uma demonstração clara de como a legislação comercial continua a fazer prevalecer os lucros das grandes companhias sobre os direitos dos consumidores. Na Europa o overbooking é um pouco mais restringido do que nos EUA, onde o poder das big corporations dita a sua lei, e não deixa de ser curioso ter sido banido pelo menos por uma companhia aérea low cost, enquanto as suas congéneres de bandeira, incluindo a TAP, continuam a ser alvo de queixas dos consumidores nesta matéria.

Finalmente, uma nota para o pasquim online que se tem erigido como o novo farol ideológico da direita portuguesa e que hoje decidiu seguir a imprensa tablóide dos States no vasculhar da vida privada e dos “antecedentes” do médico de ascendência vietnamita barbaramente agredido. Um triste exemplo do jornalismo de encomenda ao serviço de grandes interesses, que procura, perante a verdade incómoda, os factos alternativos que possam envergonhar a vítima. Que vai fazendo escola lá por fora e que uma direita moderna e convencida de que tudo lhe fica bem vai tratando de importar, disputando taco a taco, com o Correio da Manhã, o troféu do jornalismo de sarjeta. O Observador anda a ver mal as coisas, e obviamente notícias destas não merecem link.