Faltava a responsabilidade da escola

fogo.gifJá me estava a admirar que depois da tragédia de Pedrógão Grande e dos inúmeros disparates que se disseram e escreveram a respeito, ainda ninguém se tivesse lembrado da responsabilidade da escola, do que ela não faz e deveria fazer para se evitarem no futuro novas tragédias.

O argumento não é muito original: criar mais uma disciplina.

Mas a silly season parece este ano ter vindo mais cedo, e é o que se arranja.

O presidente da Associação de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (Asprocivil) defendeu hoje a criação de uma disciplina escolar de segurança que permitisse preparar crianças e jovens para agir em casos de calamidade.

Ricardo Ribeiro defende que esta disciplina deveria existir até ao 9.º ano e que deveria ser obrigatória.

“Da mesma forma que existe uma disciplina de religião e moral, deveria haver até ao 9.º ano, já para não dizer até ao 12.º, uma cadeira obrigatória que levasse a geração a ter indicações das boas práticas de uma cultura de segurança”, considerou à Lusa.

A vaga incendiária na comunicação social

A par das falhas na coordenação do combate aos fogos de Pedrógão Grande, da insuficiência ou ineficácia dos meios usados, do completo desleixo em relação a medidas preventivas que pudessem ter evitado ou minimizado o sucedido e de outros erros e negligências que os já anunciados inquéritos irão apurar, há um facto demasiado evidente: a comunicação social também não esteve bem.

Não digo que seja fácil cobrir um acontecimento com a carga destruidora e emotiva que uma tragédia desta dimensão inevitavelmente terá. Mas houve órgãos de comunicação que, na ânsia do sensacionalismo, passaram diversas linhas vermelhas da ética e deontologia da sua profissão. E, pior do que isso, chamados à atenção, houve aqueles que, em vez de corrigirem os excessos, reagiram com a arrogância de quem não aceita críticas, não ouve bons conselhos e não respeita sequer os direitos e os sentimentos das vítimas dos trágicos acontecimentos.

A postura reprovável dos media, ao arrepio das boas práticas da profissão, tornou-se especialmente evidente no episódio de fake news da queda do avião. Um após outro, jornais, rádios e televisões foram escorregando na casca de banana de um acidente aéreo que nunca existiu. Mas que, percebe-se, daria imenso jeito que tivesse acontecido…

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Oportuno e sempre inspirado cartoon de Antero Valério, retirado daqui.

E os exames foram adiados…

classroom without studentDepois de o primeiro-ministro ter avançado que as provas de aferição e exames seriam adiados para os alunos residentes nas áreas afetadas, o Ministério da Educação esclarece que, “tendo em conta os últimos desenvolvimentos”, as atividades letivas estão “suspensas por tempo indeterminado” nos municípios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Sertã e Pampilhosa da Serra.

Uma decisão acertada e tomada sem hesitações, perante a dimensão da tragédia que se abateu sobre as populações dos concelhos fustigados pelas chamas.

Soube-se entretanto que na Sertã houve estabelecimentos que abriram, mas apenas para acolher alguns alunos que os pais, inadvertidamente, mandaram para a escola.

Importante, contudo, e como já ontem frisei, é sobretudo perceber-se que adiar um ou mais exames não é o fim do mundo e, num caso como este, é obviamente a melhor coisa a fazer.

Os incêndios de Pedrógão vieram demonstrar que a realização das provas nacionais todas no mesmo dia não é, por muito que argumentem políticos e juristas, uma “necessidade social impreterível”. Neste caso, a necessidade fundamental era que os alunos dos concelhos afectados pudessem fazer as provas numa data diferente.

As leis fazem-se para as pessoas, não para conveniência da administração ou obtenção de ganhos políticos: perceber isto faz parte do longo caminho de descoberta plena do que é a democracia. Um percurso que, colectivamente, ainda estamos longe de concluir.

O país dos incêndios

incendio-pedrogao1Ainda lavram, incontrolados, os incêndios em Pedrógão Grande e concelhos vizinhos. Pouco haverá a acrescentar ao muito que já se disse sobre a imensa tragédia do fim de semana. Falta o mais importante, que é agir de acordo com o que há muito se sabe que está por fazer em matéria de ordenamento do território, de responsabilização dos proprietários, de coordenação de estruturas de protecção civil, de rentabilização do muito dinheiro que se esbanja, anualmente, em cada “época de incêndios”, para continuarmos, ano após ano, no lugar nada invejável de país europeu com mais área florestal ardida.

De facto, basta percorrer o IC8 para perceber a dimensão e a densidade da mancha florestal a que se convencionou chamar Pinhal Interior: perante o envelhecimento e a desertificação humana e a fraca aptidão agrícola da maioria dos solos, apostou-se na exploração florestal, sem tomar em devida conta as necessidades do ordenamento do território e de uma gestão adequada das florestas. Esquecem-se medidas básicas e fundamentais de segurança como a desflorestação e a limpeza das zonas adjacentes às estradas ou em torno das povoações que preservariam zonas seguras e caminhos de fuga às populações ameaçadas pelas chamas.

No meio da tragédia, que foi pasto não apenas para as chamas mas também para intermináveis serviços noticiosos que, a certo ponto, mais não faziam do que repetir até à náusea as mesmas imagens e informações, o destaque, pela negativa, coube desta vez à TVI e à sua jornalista-vedeta Judite de Sousa. Achando por bem deixar, por uma vez, o conforto dos estúdios e ir pavonear-se para o centro dos acontecimentos, não encontrou melhor sítio para fazer a sua reportagem do que ao lado do cadáver de uma senhora vitimada pelo fogo.

judite-pedrogao.jpgDuplamente lamentável, não só pelo triste exemplo ético e deontológico de uma jornalista que é também professora de jornalismo, mas também porque todos soubemos da sua imensa dor e sofrimento aquando do falecimento recente do seu filho. E nos recordamos de como foi alvo de inúmeras manifestações de apoio, compreensão e de solidariedade. O que teria sentido Judite de Sousa na altura, se um seu colega de profissão fosse fazer uma reportagem ao lado do corpo do seu filho?

O incêndio de Pedrógão e a pergunta que se impõe

incendio.JPGO Público faz a sua habitual mega-reportagem em torno dos exames nacionais, que desta vez inclui, além dos habituais conselhos e textos de auto-ajuda, uma entrevista ao próprio ministro sobre tão momentoso assunto da actualidade educativa. E Tiago Brandão Rodrigues não se faz rogado:

Tenho apenas uma palavra a dizer aos alunos que terão exames: tranquilidade. A tranquilidade de saber que o seu trabalho empenhado ao longo do ano tem agora mais um momento em que emerge. A tranquilidade de saber que os exames versam sobre o que já aprenderam e não sobre o que está por ensinar, pelo que a grande preparação é resultado do trabalho feito ao longo do ano.

Palavras sensatas: os exames são apenas mais um instrumento de avaliação, com virtualidades mas também com limitações. E tão errado é desprezá-los ou diabolizá-los como fazer deles o corolário ou o supra-sumo do processo de ensino-aprendizagem.

Mas a questão que gostaria de ver hoje colocada aos responsáveis do ministério, depois de ter tomado conhecimento de toda a dimensão da tragédia provocada pelo incêndio de Pedrógão Grande – os 58 mortos confirmados, mais de 50 feridos, famílias destroçadas, haveres destruídos, populações extenuadas – é esta:

O que está previsto em relação aos estudantes daquela zona que amanhã terão de fazer provas de exame?

Já alguém tratou de averiguar se estes alunos, mesmo os que escaparam fisicamente ilesos às chamas, terão as condições anímicas necessárias para o que lhes irá ser exigido?

Ou segue-se a lógica fria da lei, invocando as “necessidades sociais impreteríveis” das provas que “têm de se realizar na mesma data em todo o território nacional”?…

Adenda: foi confirmado pelo próprio primeiro-ministro que amanhã não haverá exames em Pedrógão Grande, sendo adiados para data mais oportuna. Concordo com a decisão tomada, mas lamento que só perante tragédias desta dimensão se perceba o que são de facto necessidades sociais impreteríveis. E que um exame pode e deve ser adiado sempre que valores mais altos se levantam.

Época dos fogos, balanço provisório

canadair210803.jpgDois aviões espanhóis e um italiano para ajudar ao combate aos incêndios em Portugal, eis o balanço, até ao momento, do apoio que a UE está a dar a Portugal no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil.

A Comissão Europeia pode bem alegar que nesta altura todos os países se vêem a braços com os seus próprios incêndios e poucos ou nenhuns meios podem disponibilizar, que o que todos vemos é que os países mais rigorosos com os défices dos outros são os que menos exigentes se mostram consigo próprios na altura de serem solidários e cooperantes.

Marrocos não pertence à União Europeia e disponibilizou prontamente dois aviões, tantos quantos os que a Rússia poderá vir a enviar também.

Por cá, e em relação à Madeira, onde ocorreram os fogos mais graves deste ano, segue-se o padrão habitual: muita autonemuia para as autoridades locais fazerem as coisas à sua maneira, não pedindo ajuda atempadamente, porque eles é que sabem. Depois de tudo ardido, o apelo à solidariedade nacional, ou seja, ao habitual cheque para pagar o resultado da incúria e da irresponsabilidade de quem permitiu que a avalanche do fogo penetrasse em zona urbana e assumisse a dimensão trágica e avassaladora que todos pudemos observar.

Mas o primeiro prémio da estação dos fogos talvez deva ir direitinho para todos os digníssimos magistrados judiciais que, perante incendiários reincidentes e/ou apanhados em flagrante delito, não tomam a elementar e profiláctica medida de os colocar em prisão preventiva até que as temperaturas desçam, mandando-os em paz atear novos fogos.

Época de incêndios

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