Polémicas de Verão: pirataria informática nos concursos

computer[1]Paulo Guinote manifestou ontem a sua indignação a propósito de um post no Facebook em que o sindicalista Luís Lobo acusa de fazer pirataria informática o blogue de Arlindo Ferreira, especializado em concursos e líder de audiências da chamada blogosfera docente.

Para quem não se apercebeu, embora hoje não se fale de outra coisa, ontem um senhor que é director do modelo de gestão que não é democrático (de nome Arlindo e que tem um blogue de que muita gente fala) e que é simultaneamente dirigente com redução da FNE, colocou online as listas de colocação do concurso interno de professores antes do próprio ME as ter divulgado oficialmente.

Desconhecia o texto, que sugere a prática de um crime informático na divulgação antes do tempo das listas de colocação do concurso de professores. Nela estariam envolvidos o autor do blogue e eventuais cúmplices, que poderiam inclusivamente estar a agir a partir do interior do ME, sendo pedida a intervenção das autoridades na investigação e eventual punição dos piratas.

Ora bem, creio que nem o facto de conhecer pessoalmente Luís Lobo ou a circunstância de ele ser dirigente do sindicato de que sou associado me devem inibir de reconhecer que não esteve bem. Primeiro pelo cariz de ataque pessoal, exagerado e perfeitamente escusado, nos moldes em que foi feito. Depois porque é contraproducente: havendo milhares de professores que seguem o Blogue de Arlindo e que valorizam o trabalho do seu autor, mais facilmente se viram contra o ressabiamento dos dirigentes da Fenprof, que Luís Lobo acaba por sugerir e corporizar, do que contra a alegada “pirataria” que tenderá a ser vista como mais um bom serviço prestado pelo blogger aos professores.

Dito isto, também não subscrevo uma posição que leio com demasiada frequência e que sugere que determinadas pessoas ou instituições – um blogue, neste caso – pelos relevantes serviços públicos que prestam, sem a tal estarem obrigadas, deveriam situar-se num patamar acima de qualquer escrutínio e de toda a crítica.

Na verdade, acho que se pode e deve questionar e criticar, e que é importante perceber que estar numa qualquer linha da frente em termos de notoriedade nos expõe ao fenómeno da crítica e do escrutínio público. O que se deve condenar – e isso faço-o, em qualquer circunstância – é o ataque pessoal, a calúnia, a suspeita sem fundamento e tudo aquilo que seja feito para denegrir ou desacreditar os opositores.

Sobre a trapalhada que foi a divulgação das colocações já escrevi atempadamente. Parece-me que houve acima de tudo incompetência a amadorismo da parte da DGAE. Mas também se pode legitimamente perguntar se é correcto divulgar informação que, embora conste dos sites oficiais, ainda não foi publicamente disponibilizada. Ressalvando que este nem foi o único blogue onde as listas foram divulgadas, diga-se que a guerra dos cliques e das visualizações não pode justificar tudo, e a obtenção de proventos económicos através de um site comercial, sendo em si mesma inteiramente legítima, surge neste contexto como uma variável a considerar.

Por outro lado, há a acrescentar que, se algumas páginas da blogosfera docente são mais visitadas do que os sites dos maiores sindicatos, isso talvez signifique que, em vez de invejar o êxito de certos bloggers, se devesse rever, isso sim, a estratégia comunicacional dos sindicatos com os professores. Melhorar a acessibilidade, actualizar o discurso, diversificar os conteúdos, fomentar a interacção com os utilizadores, introduzindo ferramentas como o chat ou a caixa de comentários e acrescentando serviços suplementares e diferenciadores para os associados: o caminho é aprender com os sites e blogues mais ambiciosos ou mais bem sucedidos, em vez de invejar o seu sucesso.

“Uma comuna, presidente do sindicato de professores”

mulheres-luta.jpgAlém de preservar a boa reputação do sistema de exames nacionais, há uma outra forte razão para exigir que seja apurada toda a verdade sobre a fuga de informação do exame de Português: a rapariga que, no áudio que circulou nas redes sociais, divulgava o que iria sair no exame, referia ter obtido a informação através de uma amiga, que por sua vez soube pela sua explicadora, que era, palavras textuais, “uma comuna, presidente do sindicato de professores”.

Apesar da opacidade em torno do processo de feitura dos exames, sabemos que não há sindicalistas envolvidos nas equipas que elaboram as questões ou compõem as provas. Quando muito, haverá dirigentes de associações profissionais e científicas no papel de consultores. Mas neste momento, e depois do que foi divulgado e amplamente comentado, está posto em causa o bom nome dos – sobretudo das – sindicalistas docentes, sejam ou não “comunas”.

Justifica-se assim, inteiramente, que Mário Nogueira, em nome da Fenprof, junte a sua voz à dos muitos professores que querem ver este caso inteiramente esclarecido e aplicada a devida sanção a quem tenha sido responsável pela divulgação antecipada das matérias que saíram no exame.

“As duas mulheres presidentes de sindicatos da Fenprof são a Manuela Mendonça, do Sindicato de Professores do Norte, e a Anabela Sotaia, do Sindicato de Professores da Região Centro. Nenhuma é professora de Português, nem nenhum alto dirigente da Fenprof dá explicações”, disse ao CM, frisando que põe “as mãos e os pés no cepo” por eles.

O responsável pede mão dura para os eventuais culpados: “O Ministério Público e a PJ têm de apurar tudo ao limite e punir de forma exemplar, quer seja falso e tenha havido uma montagem, quer se confirme a fuga de informação. Quem está por trás disto deve ser alvo de processo crime e ser afastado da administração pública”.

Mário Nogueira acredita que será relativamente simples para as autoridades chegar à verdade deste caso. “Os exames são do conhecimento de quatro ou cinco pessoas, por isso vai ser fácil saber, há casos muito mais complicados para a PJ deslindar”, disse o dirigente, que pede às autoridades para averiguarem “outras suspeitas que aconteceram no passado, para saber se alguém tem beneficiado alunos para aparecer nos lugares cimeiros do ranking”.

56 escolas não respeitaram os serviços mínimos

juizE por essa razão foram denunciadas pela Fenprof à Procuradoria-Geral da República e à IGEC.

São escolas que, apesar da clareza do Acórdão emitido, decidiram agir à margem do mesmo, contrariando-o e convocando todos os professores ou um número inusitado e desproporcional de docentes para o serviço em causa. Outras houve em que, apesar de não constarem do número fixado para os serviços mínimos, docentes em greve – designadamente, suplentes / substitutos – estão a ser ameaçados com falta injustificada, sendo, mesmo, convidados a apresentarem atestado médico (obviamente, falso), para não terem esse problema. Esta solução foi, aliás, sugerida pelo Júri Nacional de Exames, em ofício enviado a uma escola e que será também alvo de queixa junto da IGEC e PGR.

O director Manuel Esperança, do Agrupamento de Escolas de Benfica, foi um dos que na altura mostrou estar-se nas tintas para o respeito do direito à greve e do acórdão vinculativo do colégio arbitral sobre os serviços mínimos. Teve, ainda assim, a frontalidade de assumir publicamente a prepotência que outros directores preferem praticar dissimuladamente.

Pior esteve Filinto Lima, que preferiu fazer-se de sonso, alegando o “desconhecimento” ou o “lapso” de alguns colegas como justificação para a prática de ilegalidades e, virando o bico ao prego, criticar a Fenprof por, em vez de comer e calar, ter levantado a voz em defesa dos direitos dos professores.

Do andamento e do destino final das queixas ajuizaremos, em devido tempo, se as penalizações pelo incumprimento dos serviços mínimos existem para todos os intervenientes no processo, ou apenas para os trabalhadores. Se prevaricar compensa ou se, num Estado de Direito, o cumprimento da lei continua a obrigar todos os cidadãos.

Mário Nogueira em entrevista

mario-nogueira.JPGNo rescaldo de uma greve de professores mal sucedida, Mário Nogueira deu uma entrevista ao DN onde faz um balanço das lutas recentes dos professores, não fugindo também a falar um pouco de si próprio.

E se o mais fácil, nesta altura do campeonato, é criticar MN, fazendo dele uma espécie de bode expiatório dos inconseguimentos dos professores, talvez seja mais útil, sem branquear as merecidas críticas, tentar olhar de forma uma pouco mais serena e objectiva para a situação actual dos professores e dos seus sindicatos, em especial para a sua federação sindical mais representativa.

Acho curioso que nos perguntem se no contexto do país a greve se podia fazer ou não. A greve é um momento de afirmação de trabalhadores, neste caso professores, por aspetos que eles consideram ser seus direitos. Não me parece que a seleção nacional de futebol tivesse posto a possibilidade de deixar de jogar à bola. Não me parece que as festas de Lisboa ou o São João no Porto – e aí sim falamos de festividades – tivessem estado à beira de ser anuladas. E é legítimo.

Claro que, para quem é alérgico às greves, qualquer pretexto é bom para sugerir que uma greve não se deva fazer…

[…] muitas vezes os colegas dizem que a Fenprof não foi tão rápida a tomar posição sobre uma matéria como deveria ter sido. E não foi precisamente por isso. Se fosse um blogue poderia pôr lá qualquer palermice e a responsabilidade era da pessoa. Nós, sempre que temos de tomar posição, pedimos a opinião às direções dos sindicatos, depois reunimos o secretariado. Basta um sindicato não concordar para que a decisão não seja tomada. Temos de continuar até haver um consenso.

Um aparte de que alguma blogosfera docente não gostará, mas que pessoalmente não considero ofensivo. Porque sei que é mesmo assim que as coisas se passam. A Fenprof não é uma organização monolítica, como muitas vezes se pensa e quer fazer crer. Existem diferentes tendências e posições divergentes e construir consensos é tarefa complicada e muitas vezes demorada. Claro que, vendo de fora, a ideia que se tem é a de hesitação e de indecisão, deixando-se com isso passar o tempo certo para fazer as coisas certas. Já em relação aos blogues, seja palermice ou não o que escrevemos, fazemo-lo  em nome próprio, fazendo uso responsável da nossa liberdade de expressão, e não comprometemos com isso outras pessoas, como sucede quando se tomam posições em nome de qualquer colectivo.

Não fui dos que aproveitaram estar num sindicato a tempo inteiro para fazer o doutoramento ou tentar saltar para qualquer outra coisa, não procurei subir no aparelho de nenhum partido para poder ir para deputado. Quando sair daqui, a única coisa que vou ser é aquilo que era quando entrei: professor, no meu agrupamento. E o trabalho que me for atribuído serão aulas, serão apoios. Serão as outras coisas todas normais na escola. E é assim que deve ser.

Gostaria que MN honrasse estas palavras, que acredito serem sinceras. Porque acho que a escola é o local mais digno para um professor terminar a sua carreira. E porque frustraria as expectativas de alguns opinadores que já mostraram que se enganam, quando se dedicam a avaliar os outros, mais vezes do que eles próprios gostam de admitir.

Última sessão

sede-ME-5-outA Federação Nacional da Educação (FNE) e a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) foram chamadas para uma reunião no Ministério da Educação hoje às 15:00, disseram à agência Lusa os dirigentes de ambas as estruturas sindicais.

Adenda às 21:30h: ao final da tarde a FNE já tinha tomado a decisão final: vai manter a greve.

A Federação Nacional da Educação (FNE) anunciou hoje que mantém a realização na quarta-feira de uma greve nacional de professores.
Uma decisão anunciada após a reunião desta tarde entre o Ministério da Educação e a FNE.
Também a Federação Nacional de Professores (Fenprof) reuniu hoje com a tutela, mas ainda não divulgou se mantém a greve de amanhã.

Adenda às 22:20h: e a Fenprof também!

“Não foi possível chegar a um consenso. A greve mantém-se”, disse o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira (na foto), à saída da reunião com o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, que hoje decorreu ao final do dia.
Por seu lado, o ministro Tiago Brandão Rodrigues justificou a ausência de acordo com constrangimentos que ultrapassam o âmbito de ação do Ministério da Educação
“De forma importante pudemos dar passos, mas de forma responsável não foi possível ir mais longe”, disse o ministro.

A contraproposta negocial da Fenprof

logo_FENPROF[1]Na sequência da reunião de ontem à noite com os responsáveis do ME, que terminou sem acordo, a Fenprof pegou no documento com os compromissos do ministério – uma mão cheia de nada, como tem sido dito! – e acrescentou-lhe, a azul, algumas contrapropostas no sentido de tornar possível um entendimento mínimo e, consequentemente, a desconvocação da greve ao serviço docente marcada para amanhã.

É pegar ou largar, dirão os sindicalistas.

Duvido que o ME aceite pegar naquilo tudo, mas talvez encontre um ponto ou outro em que possa ceder…

Ficam os excertos com as alterações e acrescentos propostos. O documento integral encontra-se aqui.

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A greve mantém-se

Cartaz-GreveA Fenprof decidiu esta segunda-feira manter a greve de professores agendada para quarta-feira, depois de ao fim de mais de duas horas de reunião com a tutela não ter chegado a acordo sobre as reivindicações mais importantes para os professores.

O que neste momento ainda está em cima da mesa não é suficiente para que nós possamos levantar esta greve”, disse o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, à saída da reunião com o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão.

Adenda: apesar do desacordo, ainda há uma pequenina luz ao fundo do túnel…

Ainda hoje, a FENPROF vai enviar ao ME um documento com um conjunto de propostas que correspondem a um último esforço de aproximação e que serão divulgadas em breve.