A escola no cinema: O Sorriso de Mona Lisa

O Sorriso de Mona Lisa

Título original: Mona Lisa Smile, 117m, EUA, 2003.

sorriso-mona-lisa.jpgEste filme transporta-nos ao ambiente conservador de um colégio para raparigas de alta sociedade dos EUA, onde a chegada de uma nova professora de História de Arte, jovem e idealista, causa alguma perturbação.

Disposta a desafiar o conservadorismo do colégio para meninas de boas famílias, a professora, aqui interpretada por Julia Roberts, inicia as suas alunas na arte moderna, ausente dos programas da instituição. Tentando levar as raparigas, que na sua maioria parecem desejar apenas tornarem-se boas esposas e mães de família, a terem ambições próprias e a lutar por elas, a professora entra em conflito com a cultura dominante na escola e no meio social das suas alunas.

Não sendo propriamente uma obra-prima nem fugindo por completo aos clichés e ao convencionalismo romântico deste tipo de filmes, O Sorriso de Mona Lisa conta-nos uma boa história e explora de forma interessante a relação entre um modelo de escola e o meio social e cultural que lhe está subjacente.

Ser feminista em 2016

499_10151487406494784_1485040396_nAos 18 anos, eu achava que era pós-feminista. Trinta anos depois, sou feminista, mais a cada dia, e não será por acaso que ouço cada vez mais mulheres declararem-se feministas. Certamente não ficaram todas malucas, ou sem homem, ou contra os homens, como os machistas, homens ou mulheres, gostam de acreditar. Falo em machistas homens ou mulheres porque há mulheres machistas, tal como há homens feministas. Machista é qualquer espécie de abuso ou coacção sobre as mulheres, perpetuando a imposição de um modelo.

Alexandra Lucas Coelho reflecte sobre a necessidade crescente das mulheres, e também de muitos homens, de se declararem feministas. Fala desse machismo insidioso, que há trinta anos se pensava em extinção mas que hoje ressurge em cada piropo ordinário lançado na rua e nos crimes de assédio e violência doméstica que quotidianamente vão sendo denunciados e que não raro terminam tragicamente.

Que o machismo, há muito se sabe, não é no essencial uma manifestação de virilidade ou autoconfiança masculina. Pelo contrário, o homem confiante e seguro de si não precisa de inferiorizar ou achincalhar as mulheres para se sentir bem consigo próprio. Já o machista, esse sente a crescente afirmação das mulheres no plano social e profissional como uma ameaça ao mundo dominado por homens em vive mentalmente:

Mulheres demasiado activas, demasiado combativas, demasiado lutadoras: nada disso fica bem a uma mulher, do ponto de vista machista. Aliás, em geral, numa mulher, muito é sempre demasiado. Uma mulher que fale de forma clara, tenha opiniões, se posicione ou lute é facilmente demasiado assertiva, quando não histérica, esganiçada, radical, maluca. Já um homem de convicções, como sabemos, será positivamente assertivo, corajoso quando combate, e se explode ninguém o dirá neurótico. Milhares de anos de sonsice desaguam aqui, frescos e prontos para mais um milénio. Depois de tudo o que sabemos, o próprio da mulher, para o bem e para o mal, é ser sonsa, ambígua, dissimulada, manobrar pela sombra, levar o seu homem com jeitinho, levar a água ao seu moinho sem muito barulho, como as mulheres sempre fizeram, segundo a história gravitacional dos homens. Nessa versão, mulher sempre foi cabra e anjo, puta e mãe, num slalon de esperteza e artimanha, esforço em silêncio, dor muda. A eles, o mundo, a força, a clareza, a guerra. A elas, artes de não se fazerem notar demasiado, além do que se espera delas.

Portanto, o ressurgir do feminismo em pleno século XXI resulta da persistência de atitudes e comportamentos machistas, que fazem com que a igualdade de direitos entre homens e mulheres – que é o que o feminismo defende, e não uma qualquer superioridade feminina – esteja ainda hoje por concretizar em pleno, na sociedade e nas mentalidades. Aqui chegados, o que é, então, ser feminista? Alexandra Lucas Coelho apresenta uma definição possível:

O que é ser feminista em 2016? Lutar contra o abuso e para manter todas as possibilidades em aberto, casar com homem, com mulher, com deus, com ninguém ou mudar de sexo. Para que a única resposta quanto ao que fica bem a uma mulher seja: o que lhe der na real gana.

Bela, recatada e do lar

A Veja, revista conservadora brasileira que não tem escondido a sua simpatia pelos políticos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, apareceu recentemente a endeusar a mulher do vice-presidente do Brasil e provável sucessor de Dilma.

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Marcela Temer, 43 anos mais nova do que o marido, é apresentada como o novo modelo da mulher brasileira: bela, recatada e do lar. Pretensão que a internet brasileira não tardou a ridicularizar…

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Os limites do multiculturalismo

ng4695922[1]Uma professora de direito no Instituto Universitário de Tecnologia de Sceaux, perto de Paris, em França, recusou-se a dar uma aula num auditório onde estavam presentes três estudantes muçulmanas que usavam o véu, um hijab que lhes cobria os cabelos e o pescoço.

A professora terá dito que era “feminista” e considerava o véu “um símbolo de opressão”, pelo que não lecionaria perante as estudantes que o usavam. As alunas recusaram-se a tirar o véu, e a docente terá decidido anular-lhes a aula. De acordo com a estudante que falou ao Figaro, a professora acabou por ser convencida a dar a aula por outros alunos, mas as estudantes que usaram o véu “não ficaram para a aula”.

Perante o aumento da população muçulmana em alguns países da Europa Ocidental e a forma como estas comunidades fazem questão de preservar não só a sua religião mas também as suas tradições e regras de vida em sociedade, vão-se testando os limites da proverbial tolerância europeia em relação a culturas e valores muito diferentes dos europeus.

A reacção desta professora foi provavelmente excessiva. Um hijab não é uma burka, tapa o cabelo e o pescoço mas não esconde o rosto da mulher nem limita o seu campo de visão. Não é muito diferente dos véus que usavam as nossas avós na viuvez ou quando iam à missa.

Mas se fosse mesmo uma burka, aí a rejeição das alunas seria já legítima?

Complicando um pouco mais a questão, assinale-se que na maioria dos casos, e sem negar a existência da pressão familiar, é a própria mulher que deseja apresentar-se em público daquela forma: é a sua educação, a sua cultura, a sua identidade que estão em jogo, e terá todo o direito de pensar que, seja a tapar-se porque os pais lho ordenam ou a andar de cabeça destapada porque os professores ou as autoridades públicas assim determinam, em qualquer dos casos está a ser desrespeitado o que para ela é o essencial: a sua própria vontade, a sua liberdade.

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O papel da mulher no Islão

É o título da conferência que estava a decorrer em Paris quando, subitamente, duas feministas irromperam pelo palco em protesto contra o evento, onde se discutia, entre outras coisas, se os homens devem ou não bater nas mulheres.

1442253272_femen-org[1]As duas mulheres, de 25 e 31 anos e de origem argelina e tunisina, tiraram a roupa e os véus, saltaram para o palco e gritaram palavras de ordem em francês e árabe. Nos corpos tinham escritos slogans como “ninguém me subjuga” e sou o meu próprio profeta”.

Parece que um dos dois clérigos presentes até exortava à não-violência contra as mulheres, dando o exemplo do próprio profeta, que nunca levantou a mão contra as suas esposas.

Mas a verdade é que os homens presentes, confrontados com o protesto, não se limitaram a expulsar as provocadoras. Deixando vir ao de cima o instinto cobarde típico das matilhas, também as agrediram, conforme um vídeo registado na altura claramente confirma.

Sinal de que bem podem o profeta e os seus seguidores pregar o que entenderem, que o que vai prevalecendo é por enquanto a mentalidade misógina e machista que nas sociedades muçulmanas mais tradicionalistas condena as mulheres a um estatuto sub-humano. E que mesmo nas sociedades ocidentais as tenta confinar a uma submissão inaceitável.