Educar ou excluir?

harvard_shield_wreath.pngO que fazer quando uma centena de estudantes cria um grupo privado numa rede social para partilharem coisas que não querem divulgar publicamente e, entre eles, há uns dez que começam a publicar mensagens fazendo a apologia da pedofilia, do racismo ou do Holocausto?

Colocada a questão a qualquer um dos nossos pedagogos, decerto nos elucidaria sobre a necessidade de se fazer algum trabalho na escola para, começando por tentar perceber as reais intenções e convicções dos jovens, debater e desconstruir com eles o discurso de ódio e intolerância. Falar-nos-ia da necessidade de educar para a Cidadania, os Valores, os Direitos Humanos, a Sexualidade responsável, entre outras coisas que fazem parte do perfil do aluno e que, a par da leccionação das matérias académicas, compete também à escola ajudar a construir.

Pois bem, o problema que enunciei é real, mas não se colocou entre nós: surgiu na famosíssima Universidade de Harvard, com um grupo de caloiros. As mensagens trocadas pelos estudantes foram descobertas pelos responsáveis universitários, e a solução foi expedita e radical:

Após a universidade ter tido conhecimento das partilhas, dez membros do grupo – denominado “Memes de Harvard para adolescentes burgueses excitados” – receberam cartas da instituição, declarando que a sua admissão tinha sido anulada.

[…] de acordo com os estatutos da universidade, a Comissão de Admissão de Harvard “tem o direito de revogar a admissão de alunos” se o seu comportamento colocar em causa a “honestidade, maturidade ou o carácter moral” do estudante.

E assim se resolvem os problemas de ética e cidadania numa universidade cotada entre as melhores do mundo, que admitiu cerca de 2000 alunos escolhidos entre perto de 40 mil candidatos e onde as propinas ascendem ao valor astronómico de 2,5 milhões de dólares.

Excluir e rejeitar os que não partilham os nossos valores: eis o caminho fácil pelo qual a escola pública não pode nem quer enveredar.

Regresso ao passado

Segundo o New Yorker.

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Músicas do Mundo: Finbar Furey & Sharon Shannon – He’ll Have To Go

 

A escola no cinema: Páginas de Liberdade

Páginas de Liberdade

Título original: Freedom Writers, 123m, EUA, 2007.

freedom-writers.jpgO filme conta a história de Erin, uma jovem professora colocada numa escola secundária de um bairro problemático e da relação tensa  e difícil que tenta estabelecer com os seus alunos, grande parte deles jovens marcados pela pobreza, violência, marginalidade, discriminação.

Determinada a não desistir, e depois de alguns desaires iniciais, Erin consegue aos poucos ir ganhando a confiança dos jovens até ao ponto de os convencer a partilhar, através da escrita, os seus sentimentos e os problemas do quotidiano.

Bem realizado e interpretado, Páginas da Liberdade é um filme que tenta demonstrar como a dedicação de uma professora consegue levar os seus alunos a superar os seus medos, angústias e frustrações, tornando-se melhores pessoas e dando um novo rumo às suas vidas.

A Escola no Cinema: Clube dos Poetas Mortos

Clube dos Poetas Mortos

Título original: Dead Poets Society, 128m, EUA, 1989.

clube-poetas-mortos.JPGEis um clássico que dispensa grandes apresentações. Provavelmente já quase todos os leitores terão visto este filme, que ainda assim não poderia ficar ausente desta série de posts dedicada às visões cinematográficas sobre a escola.

A história desenrola-se a partir da chegada de um invulgar professor de Literatura a um colégio de elite norte-americano. A abordagem sedutora e anti-convencional do novo professor, a sua personalidade marcante e o contacto próximo com os alunos abrem a mente dos estudantes para a literatura a para a vida.

Numa história absorvente e bem contada há aqui e ali algum apelo ao sentimentalismo e diversas questões que o filme levanta nem sempre são completamente exploradas. Ainda assim, Dead Poets Society revelou-se um verdadeiro filme de culto logo após o seu lançamento e uma referência na abordagem cinematográfica da relação professor/alunos e do convencionalismo dos colégios internos elitistas e conservadores.

Músicas do Mundo: Faith Ako – Blue Bayou

Aviação, overbooking e jornalismo de sarjeta

O caso do cidadão norte-americano que foi brutalmente agredido e retirado à força do interior do avião porque a empresa de aviação decidiu que necessitava do seu lugar mereceu condenação generalizada, e é lamentável, primeiro, que as punições para estas políticas de empresa atinjam apenas os que as praticam mas raramente cheguem aos responsáveis que as aprovam e incentivam e, em segundo lugar, que o boicote dos consumidores às empresas united pela pouca estima que mostram pelos seus clientes seja geralmente sol de pouca dura.

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Este caso levantou também um velho problema da aviação comercial, o overbooking, a prática generalizada que permite às companhias venderem mais bilhetes do que o número de lugares existentes no avião. Este procedimento, se fazia algum sentido no tempo do booking, ou seja, quando os clientes reservavam o seu lugar mas  podiam à última hora decidir não comparecer ao voo, é hoje uma prática comercial verdadeiramente fraudulenta, uma vez que a generalidade dos passageiros compra a sua passagem antecipadamente e não é reembolsado se desistir da viagem. A sua persistência é por isso uma demonstração clara de como a legislação comercial continua a fazer prevalecer os lucros das grandes companhias sobre os direitos dos consumidores. Na Europa o overbooking é um pouco mais restringido do que nos EUA, onde o poder das big corporations dita a sua lei, e não deixa de ser curioso ter sido banido pelo menos por uma companhia aérea low cost, enquanto as suas congéneres de bandeira, incluindo a TAP, continuam a ser alvo de queixas dos consumidores nesta matéria.

Finalmente, uma nota para o pasquim online que se tem erigido como o novo farol ideológico da direita portuguesa e que hoje decidiu seguir a imprensa tablóide dos States no vasculhar da vida privada e dos “antecedentes” do médico de ascendência vietnamita barbaramente agredido. Um triste exemplo do jornalismo de encomenda ao serviço de grandes interesses, que procura, perante a verdade incómoda, os factos alternativos que possam envergonhar a vítima. Que vai fazendo escola lá por fora e que uma direita moderna e convencida de que tudo lhe fica bem vai tratando de importar, disputando taco a taco, com o Correio da Manhã, o troféu do jornalismo de sarjeta. O Observador anda a ver mal as coisas, e obviamente notícias destas não merecem link.