Exigimos aos pobres, quando os ricos passam sem saber?

– Disse aos do 4° ano que não os podia aprovar se não soubessem reconhecer as orações subordinadas, mas depois disto do Froilán não sei se fiz bem.

– Fizeste bem. Os teus alunos não têm a família de Froilán que, ainda que não saiba fazer nada de nada, lhe vai subvencionar a vida.

O percurso escolar do jovem Froilán, que já foi tema de outro post, está a ser tema de conversa entre os professores espanhóis.

Lá como cá, todos nos debatemos entre a dificuldade de conseguir que todos os alunos aprendam, a necessidade de construir respostas individualizadas num contexto de turmas heterogéneas e numerosas e o imperativo ético e deontológico de não andar simplesmente a certificar a ignorância: é necessário que os alunos adquiram conhecimentos, desenvolvam competências e, nos momentos de avaliação, as suas notas reflictam as aprendizagens efectivamente realizadas.

froilan3.jpgMas depois aparecem estes jovens de boas famílias, aos quais o poder do dinheiro permite superar a falta de “queda para os estudos”, e não podemos deixar de nos questionar: vale mesmo a pena andarmos a exigir tanto aos nossos pobres e esforçados alunos, se com os filhos das elites é o que se vê?

Claro que vale: desde logo porque aos filhos dos pobres e remediados ninguém lhes pagará uma vida de parasitas, como é comum fazer-se, nas velhas e novas aristocracias, aos filhos menos dotados…

Froilán e o direito ao sucesso

froilan.JPGO jovem Froilán de Marichalar é entre nós um ilustre desconhecido, mas o mesmo não sucede no país vizinho: é neto do antigo rei de Espanha e sobrinho do actual, Filipe VI. Quarto na linha de sucessão ao trono, rapaz bem parecido e namoradeiro, amante de farras e de touradas, aquele que tem sido apontado como neto favorito de Juan Carlos de Bourbon revela contudo um ponto problemático a seu desfavor: é pouco dotado para os estudos.

Os problemas escolares de Froilán começaram aos 12 anos, quando os fracos resultados levaram os pais a mudá-lo de escola. Contudo, parece que nenhuma escola se mostrou suficientemente boa para motivar o régio rebento, que passou por um internato inglês e dois colégios religiosos, sempre com notas fracas. Até que chegou ao equivalente ao nosso 8º ano de escolaridade, de onde já não conseguiu passar. Repetiu duas vezes, sem sucesso, o 8º ano e repetiria uma terceira vez se os pais, com o beneplácito dos avós, que têm pago as contas elevadas a este aluno problemático, não decidissem enviar o filho para um colégio de tipo militar nos EUA.

O sistema educativo norte-americano, ou a troca do colégio religioso pelo regime militar, aparentemente fizeram milagres: o aluno cábula e incapaz de se concentrar nos estudos fez aqui, em dois anos, o equivalente a cinco anos de escolaridade. E depois da cerimónia de formatura, regressou já a Espanha, em condições de frequentar a Universidade no próximo ano lectivo.

Em Madrid, Froilán irá estudar Administração e Gestão de Empresas numa selecta universidade internacional, The College for International Studies, onde a família pagará cerca de 20 mil euros anuais para usufruir de um ensino que lhe dá todas as condições para continuar no rumo do sucesso. Haja dinheiro, é caso para dizer, e quase todos os problemas encontram solução.

Trata-se de um centro muito exclusivo que tem apenas 200 alunos com um rácio de 15 alunos por professor. Uma formação semelhante à que recebia no “Pilar” e nos outros colégios privados de Madrid em que fez o seu agitado percurso escolar. Segundo se expõe na sua página web, “CIS é uma universidade, mas também uma Grande Família, na qual os alunos se sentem cómodos, cuidados e orientados na hora de tomar decisões académicas importantes”.

Ou, como já dizia no século XVII o grande poeta Francisco de Quevedo, poderoso caballero es don dinero…

Ainda o “pacto educativo”

laicaygratuita.jpgA noção de que a Educação é um sector estratégico onde os resultados só se colhem a longo prazo, e demasiado importante, também, para ser deixado ao experimentalismo permanente e irreflectido de políticos e cientistas da educação, tem levado a que, um pouco por todo o lado, se defenda a ideia do pacto educativo: um entendimento em torno da defesa de um núcleo duro de princípios e regras estruturantes do sistema educativo, geradores de amplo consenso social e político, que deveria manter-se independentemente das conjunturas políticas.

Em Espanha, também há apoiantes desta ideia. Mas a discussão parece-me, por lá, mais profunda e amadurecida do que sucede habitualmente entre nós. E nota-se que a comunicação social espanhola reflecte, não apenas as habituais visões governamentais e corporativas a que entre nós se costuma dar visibilidade, mas também leituras mais abrangentes e elucidativas das virtualidades e dos logros subjacentes à busca dos consensos educativos:

É evidente a necessidade de um pacto educativo. Mas este acordo para a educação não pode basear-se só em pactos políticos de gabinete que deixem de fora a comunidade educativa, colectivos e organizações educativas, se queremos alcançar uma lei com estabilidade para o nosso sistema educativo. O pacto deve fazer-se “de baixo para cima”, com participação dos cidadãos, já que a política educativa não pode ser senão política pública, quer dizer, aquela que é discutida, decidida e gerida pela cidadania. E quando se recorre a “especialistas”, o que se pretende é disfarçar a ideologia do grupo dos “eleitos” e dos que os designaram. Este procedimento representa una externalização para o âmbito do privado da função de desenhar o sistema educativo.

O artigo de opinião do El Diario enquadra a discussão em volta dos consensos educativos no problema mais amplo do financiamento público das escolas privadas, que em Espanha atingiu uma dimensão ainda mais avassaladora do que em Portugal, alimentando lucrativos negócios privados à custa dos cortes na escola pública. E recorda que tanto o Tratado da Constituição Europeia como os acordos internacionais de livre comércio impõem uma ambiciosa agenda neoliberal de privatização e mercantilização de serviços públicos, incluindo a educação.

Ora a primeira coisa a decidir, quando se fala em pactos educativos, é se queremos uma escola democrática, universal, inclusiva e baseada no interesse colectivo, ou uma escola diferenciadora, selectiva, perpetuadora das desigualdades, comandada pelo lucro e subjugada pelas forças dos mercados. E isto é justamente o que os partidos do sistema, comprometidos e corrompidos até à medula com o favorecimento dos interesses da educação privada, não querem sequer que se discuta, quanto mais que se mude.

Abanicos de papel

Algumas zonas de Espanha têm estado, nos últimos dias, debaixo de uma onda de calor. As aulas ainda decorrem, e nalgumas salas as temperaturas ultrapassam os 30º, sucedendo-se os casos de alunos que desmaiam e que inclusivamente chegam a ter de ser assistidos nos centros de saúde devido ao excesso de calor.

Chamadas a intervir, as autoridades educativas e de saúde desvalorizam o desconforto e os incidentes, rejeitando os apelos para que, no mínimo, se coloquem ventiladores nas salas de aula. E a partir dos seus gabinetes com ar condicionado dão um conselho às crianças: façam abanicos (leques) de papel.

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Claro que já há quem tenha notado: se alguns não se tivessem habituado, nas últimas décadas, a fazer abanicos com o dinheiro dos contribuintes, haveria verba para instalar ar condicionado em todas as escolas onde ele se mostra necessário.

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O ensino bilingue em Espanha

bilingue.jpgVem de longe a proverbial a dificuldade do povo espanhol em falar e compreender línguas estrangeiras. Ainda que já se notem, num país largamente vocacionado para o turismo, grandes progressos a este nível, subsistem, sobretudo na população mais idosa e menos escolarizada, grandes dificuldades de comunicação com os estrangeiros. Algo que cada vez mais os Espanhóis vêem como uma desvantagem comparativamente a outros países.

E se para grandes males grandes remédios, nos últimos anos ganhou terreno uma solução que os seus defensores pensam ser um verdadeiro ovo de Colombo para tornar os Espanhóis fluentes em Inglês, usando a língua de Shakespeare com o mesmo desembaraço com que falam e escrevem em Castelhano ou nas várias línguas regionais que com ele coexistem no país vizinho: o ensino bilingue.

O ensino bilingue é praticado em diversos colégios, geralmente privados, e consiste na utilização do Inglês, não só nas aulas desta disciplina, mas também em Matemática, Ciências, História, ou outras. Leccionar metade do currículo em Inglês, sobretudo sendo feito logo a partir dos primeiros anos de escolaridade, permitirá familiarizar as crianças com a língua inglesa de tal forma que a passariam a usar, no quotidiano, quase como uma segunda língua materna.

Na verdade, e a avaliar pelo que os professores vão relatando e comentando, as coisas não estão a correr tão bem como se pensava.

Para começar, é sempre mais difícil, para um aluno espanhol, aprender em Inglês, pelo que os alunos com dificuldades de aprendizagem evitam as classes bilingues, que tendem a ser frequentadas sobretudo pelos bons alunos. Isto está, na prática, a promover a segmentação dos públicos escolares, servindo a opção pelo ensino bilingue para criar escolas de bons e maus alunos. E nota-se sobretudo nas escolas públicas que recebem muitos alunos provenientes de meios desfavorecidos, ou com necessidades especiais ou outros problemas de aprendizagem, que vêem os restantes fugir para outras escolas, atrás do prestigiante ensino bilingue.

Mas nas escolas bilingues as coisas também nem sempre resultam como se esperaria. A verdade é que não é exactamente a mesma coisa explicar uma matéria de alguma complexidade, usando a língua materna, ou recorrendo ao Inglês. Mesmo supondo que os professores de Matemática, de Física ou de Biologia têm um domínio quase perfeito do Inglês, o que nem sempre sucede, eles terão de adequar o seu nível de língua à capacidade de compreensão dos alunos. E isso resulta em aprendizagens mais pobres do que as que se conseguiriam se fosse usado o Espanhol. Constata-se que mesmo os melhores alunos, que assistem sem problemas às aulas leccionadas em Inglês, não desenvolvem todo o seu potencial como sucederia se aprendessem as matérias mais complexas na língua que melhor dominam, e que é a que aprenderam a falar em pequenos.

Ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde os resultados dos testes PISA de 2015 foram considerados animadores, em Espanha isso não sucedeu, e a necessidade de melhorar as respostas educativas e os resultados escolares continua na ordem do dia. O ensino bilingue é uma tentativa nesse sentido, mas as realizações parecem ainda longe de corresponder às expectativas.

A escola no cinema: A Língua das Borboletas

A Língua das Borboletas

Título original: La Lengua de las Mariposas, 96m, Espanha, 1999.

lengua-mariposas.jpgNo dia em que se comemoram 86 anos da fundação da malograda II República espanhola, evoco um sensível e comovente filme que reflecte, no ambiente rural da Galiza, as profundas clivagens sociais e políticas dos anos 30 que haveriam de levar a uma sangrenta e prolongada guerra civil.

A Língua das Borboletas aborda a relação entre Moncho, um menino galego que, com sete anos, entra para a escola primária, e o seu idoso professor, Don Gregorio, um homem culto e progressista com quem aprende muitas coisas sobre a literatura, a vida e a natureza. Até mesmo sobre a língua das borboletas…

Mas a revolta nacionalista, no Verão de 1936, vai mudar por completo o mundo de Moncho…

Trailer do filme (em espanhol):

Filme completo (versão original, legendada em português):

A viagem de finalistas

camino-real.JPGA viagem de finalistas a Torremolinos que teve final antecipado para cerca de mil jovens portugueses, acusados de desacatos e vandalismo no hotel onde estavam alojados, segue um padrão que, infelizmente, se tem vindo a tornar habitual: hordas de jovens irresponsáveis e imaturos, álcool e drogas a potenciar uma dinâmica de grupo caótica e destruidora, famílias para as quais é mais fácil gastar mais de 500 euros nestes lamentáveis programas de festas do que cumprir a função primordial de educar os filhos.

Independentemente das razões que os finalistas possam ter em relação ao mau serviço do hotel, parece-me que há algo de profundamente errado quando jovens de 17 anos que ainda pouco sabem da vida, sobretudo no capítulo do trabalho, dos deveres e obrigações, já se acham no direito de partir, sujar, estragar e incomodar porque, dizem, isso é “normal” nas viagens de finalistas. Ora esta “normalidade” faz parte das coisas com que nunca nos deveremos conformar:

“Este tipo de comportamento é inadmissível”, diz ao PÚBLICO a psicóloga educacional Sónia Seixas. “Há uma coisa que temos de esclarecer: aquilo que é normal e aquilo que é frequente. Que eles considerem que é frequente, é verdade. Mas não pode ser considerado normal”, adianta.

Também a CONFAP não poderia deixar de intervir na polémica, perante um comportamento colectivo de jovens portugueses que põe em causa, de forma bastante óbvia, a educação que recebem das suas famílias. Ainda para mais quando o filho da sua vice-presidente também fez parte do grupo de desordeiros. E o que diz a confederação dos pais, para além de recomendar uma leitura mais atenta das letras pequeninas dos contratos? Ninguém consegue adivinhar onde está, como de costume para esta organização, o verdadeiro culpado de tudo o que de mal acontece às pobres criancinhas?

“Tanto quanto sabemos, terá sido uma dezena de jovens a ter comportamentos reprováveis”, afirmou Jorge Ascensão, convidando toda a sociedade a refletir sobre o modelo educativo em que assenta hoje a escola.

Na sua opinião, o modelo de educação está demasiado centrado “nas classificações e no acesso ao ensino superior”, pelo que se impõe uma discussão sobre valores e limites que os alunos devem ter quando não estão nas aulas.

Para Jorge Ascensão, os problemas noticiados quase todos os anos com viagens de finalistas são “sinais de alerta” que devem levar a uma reflexão, nomeadamente se faz sentido este tipo de organização no ensino secundário.

Claro que estes passeios não fazem qualquer sentido em termos educativos, nem as escolas têm alguma coisa a ver com a sua organização. E “quando não estão nas aulas” os jovens têm pais e mães que os deveriam educar nos tais “valores e limites” que devem ter na relação com os outros e no usufruto de tudo aquilo que a família, a escola e a sociedade colocam à sua disposição, e que é muito mais do que tiveram as gerações anteriores.

De resto, ao longo da sua escolaridade cada aluno participará nalgumas dezenas de visitas de estudo, onde a dedicação, o esforço e o profissionalismo dos seus professores permitem que, não só aprenda alguma coisa, como não tenham de se lamentar finais tristes como os das viagens de finalistas.