O ministro que vai à manifestação

manif-cientista.JPGO ministro da Ciência, Manuel Heitor, considerou, este sábado, que há falta de ativismo científico na Europa, inclusive de manifestações de cientistas a pedirem mais dinheiro para o setor.

“Os cientistas não se envolvem”, afirmou o ministro à Lusa, assinalando que “não há manifestações de cientistas a pedirem mais dinheiro para a ciência”.

Manuel Heitor deu o exemplo dos agricultores que se manifestam em Bruxelas, onde fica a sede da Comissão Europeia, para exigir mais apoios financeiros para o setor.

Fazem-me alguma confusão quando são os próprios governantes que, em vez de resolverem eles próprios os problemas que passam pelo respectivo ministério, não só exortam os descontentes em vir para a rua manifestar-se como se dispõem a juntar-se a eles em público protesto, como fez ontem Manuel Heitor.

Antes de mais, registo que este seria um gesto impensável num ministro do ensino “inferior”, que nunca vimos sentir-se, perante os professores que tutela, como um entre deles. Algo que faz, com toda a naturalidade, o ministro do Ensino Superior em relação aos seus pares.

No resto, não tenho qualquer preconceito contra as manifestações, antes pelo contrário: são um instrumento essencial da luta política e social, uma expressão de liberdade e democracia e uma forma de pressão inteiramente legítima contra governos que tendem a esquecer-se de que é na qualidade de mandatários do povo, e não na de serventuários de inconfessados interesses, que exercem o poder.

Mas quando um ministro da Ciência recomenda “activismo científico” em vez de satisfazer as reivindicações dos cientistas que considera justas, cabe perguntar o que está ele a fazer no lugar que ocupa. Ou quem pretende, indirectamente, pressionar. As instituições europeias, de cujo apoio financeiro um país fortemente endividado como Portugal continua a depender fortemente para poder ter uma investigação científica digna desse nome? Ou o seu próprio governo, que tendo renovado a retórica em relação ao anterior, tem aparentemente prosseguido a mesma política ruinosa em relação à investigação e à ciência?

Do alto da sua ciência, conviria que o ministro nos viesse esclarecer…

Reprovações em Medicina

mastoideu.JPGAlarme na Faculdade de Medicina de Lisboa. Formados por excelentes alunos do Secundário, os únicos que conseguem superar as elevadas médias de entrada, os cursos de Medicina têm, habitualmente, taxas de insucesso residuais, mesmo nas cadeiras consideradas mais difíceis. Mas recentemente o improvável aconteceu: mais de 50% dos 357 alunos inscritos no exame de Anatomia Clínica reprovaram.

“Nunca tinha acontecido, pelo que foi objeto de reflexão”, afirma Ivo Furtado, regente da disciplina de anatomia clínica, que correlaciona o conhecimento do corpo humano com a prática médica. O caso foi de tal forma polémico, “por ser tão anómalo, que foi constituída uma comissão de análise, dirigida pelo presidente do Conselho Pedagógico da FML”, explica António Gonçalves Ferreira.

Como é que alunos brilhantes que querem ser médicos não conseguem correlacionar o corpo humano com a doença, precisamente o que vão ter que fazer para tratar doentes? A resposta demorou algumas semanas até ser encontrada, já este mês. Resumidamente: prova difícil e menos estudo. “A matéria foi dada com pormenor talvez excessivo, os alunos não acompanharam a disciplina nas aulas teóricas, a dificuldade das perguntas foi definida para cima, muitas perguntas e questões complexas para responder em quatro a cinco minutos na avaliação prática e imagens de imagiologia dadas com pormenor apenas nas aulas teóricas”, elenca António Gonçalves Ferreira.

A notícia do Expresso não entra em grandes detalhes, mas percebe-se que o problema se resolveu a contento de todos: uma correcção aos desvios estatísticos dos resultados permitiu situar o insucesso ao nível aceitável de 4,4%. E nem os alunos, que concordaram com a solução encontrada pelos professores, querem agora falar mais do assunto.

Claro que destes entendimentos entre universitários é normal sobrarem culpas para terceiros. Neste caso, para o Secundário, que não anda a preparar bem os alunos, pondo em causa a “grande capacidade” com que os estudantes que entram em Medicina são imediatamente rotulados:

O médico explica que “no secundário está tudo dividido por disciplinas e aqui é preciso manejar a matéria de maneira diferente: é preciso integrar conhecimentos e uma ginástica mental que nem todos têm”.

Ainda a conferência proibida

A insensata proibição da conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH, promovida por uma até agora desconhecida organização de direita teve, como seria de esperar, desenvolvimentos completamente opostos ao que seria esperado pela associação de estudantes e pela direcção da faculdade.

Num país que, na falta de melhores coisas para fazer, toma estas coisas demasiado a peito, o assunto foi de imediato discutido entre o reitor e o ministro, o Presidente da República pronunciou-se e Jaime Nogueira Pinto viu a Associação 25 de Abril disponibilizar a sua sede e a televisão dar-lhe tempo de antena para dizer de sua justiça.

Atabalhoadamente, a SIC, como se comentava no Twitter, enganou-se no fascista e colocou a foto de Vasco Pulido Valente a ilustrar a notícia.

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No meio disto tudo, sobrou a curiosidade sobre a organização promotora do evento cancelado, a Nova Portugalidade. Em busca do que é e do que não é, alguns internautas chegaram ao facebook do seu principal mentor, Rafael Pinto Borges, onde descobriram um sério candidato ao momento mais cómico e burlesco da semana.

Aí está o jovem nacionalista e ex-militante do CDS, no Cemitério do Vimieiro, a render homenagem ao “Professor Salazar”, depondo junto aos restos mortais do ditador um ramo das “suas flores predilectas”. A “chorar os mortos”, já que os vivos, como diria Salazar, o não merecem…

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Censura e cobardia na FCSH

j-nogueira-pinto.JPGUma conferência marcada para terça-feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e que tinha como convidado o historiador Jaime Nogueira Pinto, foi cancelada devido à pressão contra a entidade responsável pela organização, a “Nova Portugalidade”, considerada pela Associação de Estudantes como “nacionalista e colonialista”.

Leio e custa-me a acreditar que uma Associação de Estudantes tenha agora direito de veto sobre a realização de conferências académicas numa faculdade portuguesa. Que se arroguem o direito de fazer ameaças e, mais grave do que isso, que a direcção da faculdade ceda à intimidação e à prepotência, cancelando o evento.

Não sei se a associação de estudantes é, como sugere o conferencista agora desconvidado, “de orientação maoísta”, mas que esta prática censória de impor o silêncio e ameaçar com punições físicas aqueles de quem se discorda faz lembrar as piores práticas da revolução cultural de Mao e do seu “Bando dos Quatro”, isso é bem verdade.

JNP é um homem de direita que nunca escondeu as suas ideias, e logo por aí merece respeito num país de direitolas envergonhados que se acobertam sob a capa do “centrismo” e da “social-democracia”. É também um académico prestigiado e só ficaria bem aos dirigentes estudantis da FCSH ouvirem-no antes de se apressarem a rotular e a ostracizar. Se o consideram um adversário político, nada como conhecer as suas ideias, até para melhor as combater. A não ser que sejam tão frágeis as convicções esquerdistas dos contestatários que temam que os argumentos de Nogueira Pinto os façam perder a fé.

Sou ouvinte ocasional do programa Radicais Livres, na Antena 1, onde JNP discute temas da actualidade com o comunista Ruben de Carvalho. É um dos melhores programas do género na rádio portuguesa, proporcionando um debate baseado, não na ideologia ou na militância partidária, mas no enquadramento histórico, cultural e geopolítico dos assuntos tratados. Curiosamente, independentemente do posicionamento à esquerda ou à direita dos interlocutores, são muitas mais as concordâncias de pontos de vista do que as divergências entre ambos. Que é o que sucede habitualmente quando debatemos com conhecimento, ponderação e elevação em vez de apenas esgrimirmos slogans, insultos e preconceitos.

Praxes: e não se pode exterminá-las?

praxe-coimbra.jpgPoder, pode.

Mas não é, como tudo o que envolve culturas, relações sociais e mentalidades, trabalho para se fazer de um ano para o outro.

Nem envolve apenas as universidades e escolas superiores, embora estas tenham aqui um responsabilidade fundamental que duvido que estejam, pelo menos para já, interessadas em assumir.

Ainda assim, o estudo sobre as praxes que referi em post anterior, aponta alguns caminhos:

  • Acompanhamento jurídico e isenção de custas judiciais a todos os estudantes que recorram à justiça para denunciar crimes em praxes académicas;
  • Linha gratuita e permanente de apoio às “vítimas de violência” durante as praxes;
  • Introduzir o tema “praxe” nos currículos do secundário e ensino básico;
  • Organização de semanas de recepção aos alunos com “atividades lúdicas e festivais de integração”;
  • Programa nacional de tutorias no ensino superior, substituindo os padrinhos ou madrinhas dos caloiros por alunos do 2º e 3º anos responsáveis por acompanhar e integrar os “novos alunos”;
  • Impedir o financiamento público de atividades de praxe académica”, mesmo que esse financiamento seja “indireto” e “atribuído às estruturas informais e não legitimadas de praxe por via de associações académicas e de estudantes”.

Este apoio financeiro estará, segundo o Estudo, a ser dado sobretudo através do Instituto Português do Desporto e Juventude e por algumas câmaras municipais do interior do país. Mas o ministro, Manuel Heitor, desvaloriza este ponto, e destaca outro objectivo igualmente prioritário:

Sobre o financiamento público das praxes, um ponto criticado no estudo encomendado pelo governo, o Ministro do Ensino Superior defende que este é, mesmo que indireto, mínimo. Mais preocupante, para Manuel Heitor, é o financiamento das praxes por empresas de bebidas alcoólicas.

Quem tem noção da quantidade de casos de embriaguez e de comas alcoólicos que ocorrem durante as festas académicas não poderá deixar de concordar com o ministro.

Boas tradições

Não se diga que há por aqui qualquer espécie de preconceito em relação aos jovens universitários e à sua por vezes infeliz e desajeitada busca da “tradição”.

Deixo o exemplo de uma antiga e genuína tradição da cultura popular portuguesa recuperada pelos estudantes: as tunas, que nas últimas décadas têm ganho nova vida graças à energia e à irreverência dos novos grupos universitários.

A legitimação da praxe

Cerca de 80% dos dirigentes das instituições de ensino superior admitem reunir-se formalmente com as comissões de praxe. A maioria das universidades e politécnicos também permite que estas actividades se realizem dentro das suas instalações. Estes dois factores criam um efeito de legitimação da praxe, conclui um estudo feito por investigadores da Universidade do Porto (UP) e do ISCTE de Lisboa, a pedido do Governo, que é apresentado nesta segunda-feira.

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A conclusão dos autores do estudo é lógica e evidente: se as comissões de praxe vão buscar os alunos à saída das aulas para os levar para a praxe, se as associações de estudantes usam os seus recursos para apoiar essas actividades ditas integradoras, se não há outras alternativas para acolher os novos alunos e, finalmente, se os poucos caloiros que recusam participar são ostracizados pelos colegas, então pouco sentido fazem os lugares-comuns com que se tenta compor a imagem benigna da praxe.

E nem valerá muito a pena invocar os casos, felizmente raros, em que a humilhação, a submissão e a violência praxística provocaram mortes ou acidentes graves. Porque a essência da praxe não está aí, apesar de propiciar abusos que, em situações extremas, podem colocar em risco a vida ou a integridade física das vítimas. Até porque quem praxa sabe que o excesso de violência ou o forçar de situações que provoquem demasiado sofrimento ou constrangimento iriam fazer alastrar, entre os estudantes, o sentimento de repulsa pelas praxes que já existe em boa parte da sociedade portuguesa.

E transformar as praxes mais ofensivas e violentas nos casos de polícia que são verdadeiramente é algo que não interessa a quem defende a perpetuação destas pseudo-tradições: “comissões de praxe”, “veteranos” e até dirigentes estudantis que preferem cavalgar a onda da popularidade fácil entre os seus pares do que tentarem ver um pouco mais além:

A Federação Académica de Lisboa (FAL) recusou numa reunião com o ministro do ensino superior qualquer forma ou tentativa de “policiamento ou legislação” da praxe académica, que defende como reduto estudantil sem espaço para práticas abusivas.

É sintomático que os jovens universitários, confrontados com a necessidade de os poderes políticos ou académicos moralizarem de alguma forma uma actividade perturbadora que parece incapaz de se auto-regular, invoquem a maioridade dos participantes para rejeitar intromissões externas na praxe. Apetece perguntar: se são adultos, porque insistem em comportar-se como adolescentes retardados?

A maior parte das coisas que os praxados são mandados fazer são simplesmente estúpidas e pouco imaginativas. Prevalece o sentimento de superioridade e hierarquia, do estudante que foi praxado e por isso pode agora praxar, transmitindo os valores negativos da submissão, do conformismo e da subserviência. Existem as chamadas praxes de nojo e outras que enojam sobretudo pela coacção psicológica que exercem sobre quem aceita o desconforto e a humilhação como condições para se integrar no grupo. Além das que são simplesmente formas idiotas de passar o tempo.

Perpetua-se uma cultura de grupo que valoriza o estudante cábula e absentista das aulas, o “veterano” que acumula matrículas e repetências. E, havendo o ambiente propício para o efeito, há cursos e instituições superiores onde a praxe tende a prolongar-se pelo ano todo, criando um ambiente de irresponsabilidade e laxismo com efeitos inevitáveis no aproveitamento académico.

Embora os reitores prefiram geralmente assobiar para o lado perante estes problemas, a verdade é que eles revelam um panorama desolador, no ensino superior português, na qualidade da vida académica, do rigor e da exigência de alguns cursos universitários e politécnicos e de uma verdadeira integração dos alunos, que deveria fazer-se através da cultura, do desporto e de verdadeira camaradagem e solidariedade, como sucede nas universidades que se levam a sério.

A realidade é que nas universidades e escolas superiores onde prolifera a cultura da praxe são geralmente escolas que não estimulam os seus alunos e os deixam entregues a si próprios e com demasiado tempo livre. Não são obrigados a ir às aulas, não há comprometimento das faculdades e departamentos com o sucesso académico dos seus alunos, pouco interessa se passam, se chumbam, ou se estão a ter problemas. Em suma, falham naquilo que verdadeiramente integra os alunos e dá sentido à vida de estudante.