Coligação do caos

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O cenário político temido por Theresa May e por todos os apreciadores das maiorias absolutas concretizou-se no Reino Unido.

Ou, em alternativa, teremos uma versão britânica da geringonça?

Para já Theresa May, cujo partido, embora tenha perdido a maioria absoluta, continua a ser o mais votado, diz que não se demite. Mas num cenário em que os Conservadores não encontrem apoios parlamentares que viabilizem um governo estável, a solução alternativa poderá passar por um governo trabalhista apoiado pelos pequenos e médios partidos que compõem o Parlamento britânico.

Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista a quem quase todos vaticinavam a morte política nas eleições de ontem, pode vir a ser a peça-chave para resolver o imbróglio político criado pelas contradições em torno do brexit e agora por este hung parliament ditado pelos resultados eleitorais.

As eleições francesas

macron-lepen.jpgDeram o resultado esperado, a vitória do politicamente correcto Macron e a passagem, com Marine Le Pen, à segunda volta, onde a esperada união de esquerdas e direitas democráticas deverá travar o passo ao populismo xenófobo da Frente Nacional.

Em frangalhos ficam a direita tradicional, republicana e gaulista, que não consegue chegar à última fase do processo eleitoral, e os socialistas, que vêem pulverizar-se os votos no seu candidato em benefício do banqueiro que eles próprios trouxeram para a ribalta política.

Jean-Luc Mélenchon, o representante das esquerdas à esquerda do PS francês, consegue um resultado que noutras circunstâncias se consideraria muito satisfatório, tendo em conta que provém de uma área política tradicionalmente minoritária. Seria certamente o meu candidato, se votasse nestas eleições.

Segue-se a votação final a 7 de Maio, dia em que, à esquerda e à direita, muitos eleitores votarão, sem convicção, no situacionista Macron, apenas para travar o passo à extrema-direita.

Holanda: a derrota do populismo e do trabalhismo na gaveta

BfcdEAvprlH8taNrHRV_fzn5rK_NaCqY85PoEFoORUL_qo71AS26nFAkhnYDNUDQLBiaP-h6bDEcoAQ2AdPAy-uid4W_ob2MHKDvXA=s0-d-e1-ft.gifForam pouco falados, por cá, os resultados das eleições holandesas. Ainda assim, duas ou três coisas haverá a destacar.

A subida do partido nacionalista e populista de Geert Wilders não foi afinal tão significativa como se antevia. É certo que o PVV ascendeu a segunda força política, mas o VVD, partido do actual primeiro ministro, Mark Rutte, manteve uma confortável supremacia, com 33 deputados contra 20 no novo Parlamento.

Verdadeira surpresa foi a queda livre dos Trabalhistas, até agora principais aliados dos Conservadores no governo de coligação, mas que no fundo tem sido a sina algo frequente dos partidos de centro-esquerda que se subordinam às políticas e aos interesses da direita. Com o PvdA a passar de 38 para 9 deputados, Jeroen Dijsselbloem, o conhecido ministro das Finanças holandês que acumula a pasta com a liderança do Eurogrupo, deverá ter de abandonar agora ambos os lugares.

No complicado xadrez político da Holanda, com um Parlamento de apenas 150 deputados e uma grande quantidade de pequenos e médios partidos, irá agora jogar-se o jogo dos entendimentos políticos destinados a viabilizar o novo governo.

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Duas derrotas podem fazer uma vitória?

IMG_20160626_233811-e1466979244201.jpgNem o PP coligado com Ciudadanos, nem este último junto com o PSOE, somam uma maioria suficiente de deputados que permita chegar aos 176 da maioria absoluta no congresso. Por sua vez, Sanchez não pode, sem perder a face perante a opinião pública, apoiar o PP de Rajoy. No entanto, também ninguém quer fazer umas terceiras eleições.

Os comentadores apontam a hipótese de um governo minoritário do Partido Popular, que seja viabilizado pela abstenção do PSOE e Ciudadanos. No entanto, a oposição do Unidos Podemos e dos partidos nacionalistas, junto com eventuais votos do PSOE, (somando 181 deputados) tornaria muito difícil um governo de continuidade das políticas do PP, mesmo que apoiadas pelo Ciudadanos (169 deputados).

Daí que só exista uma potencial opção estável: uma maioria progressista apoiada nos 156 deputados do PSOE junto com o Unidos Podemos (desde que Sanchez consiga renovar o PSOE).

As eleições espanholas de ontem não resolveram o impasse político de 2015 que, impedindo a formação de novo governo, obrigou à antecipação de eleições. E sublinharam a situação atípica e aparentemente sem saída que se vive, politicamente, em Espanha:

  • O PP foi o partido mais votado, mas não merecendo confiança aos partidos de esquerda nem conseguindo, com o seu aliado natural, o Ciudadanos, de centro-direita, chegar à maioria absoluta, não parece reunir condições para formar governo;
  • O PSOE perdeu votos e deputados, no que foi claramente uma derrota política que só não se tornou mais expressiva porque conseguiu, contra todas as expectativas, manter-se como a segunda força política;
  • O Unidos Podemos foi outro dos derrotados, ao não conseguir ultrapassar o PSOE e liderar uma nova esquerda com ambições para chegar à maioria absoluta e impor assim a necessária mudança de que a Espanha necessita, esgotado que está o modelo assente na alternância entre o PP e o PSOE.

Mas a verdade é que há, ainda assim, uma clara maioria das forças progressistas no novo parlamento espanhol: com o apoio dos pequenos partidos nacionalistas do País Basco e da Catalunha, o PSOE e o UP conseguem, se forem capazes de se entender, uma maioria de esquerda capaz de gerar uma solução governativa. E, paradoxalmente, o facto de ambos os partidos terem sido castigados eleitoralmente pode até converter-se numa vantagem: serão agora menos arrogantes e mais pragmáticos nas negociações e nas cedências que, de parte a parte, terão de fazer, para que um acordo político seja possível.

Uma geringonça de perdedores pode gerar, restando apenas saber até quando, uma coligação vitoriosa e uma solução governativa viável e eficaz: o que já sabíamos da experiência portuguesa recente poderá vir a replicar-se em Espanha.

Dia de eleições em Espanha

As sondagens voltam a dar maioria ao Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, mas longe dos 176 deputados necessários para a maioria absoluta. A grande novidade pode estar na segunda força política mais votada. Em dezembro foi o PSOE que ficou em segundo lugar, mas agora pode ser ultrapassado pela candidatura conjunta Unidos Podemos. Em quarto lugar voltaria a estar o Ciudadanos.

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Aparentemente, os seis meses de interregno desde as últimas eleições espanholas, não tendo sido suficientes para que surgisse uma solução governativa, também não irão gerar agora grandes mudanças. Uma maioria de direita será quase impossível de obter por um PP desgastado e um Ciudadanos incapaz de descolar da quarta posição, enquanto à esquerda os desentendimentos, nomeadamente na questão do referendo da Catalunha, continuarão a ser impeditivos de uma solução à portuguesa.

Contudo, a indecisão, a descrença e a desconfiança em relação aos políticos e aos partidos pode originar, além de um previsível aumento da abstenção, também oscilações de última hora nas intenções de voto que possam traduzir resultados algo diferentes daquilo que as sondagens têm projectado.

A ver vamos, mais logo.

Até tu, Irlanda?

Demorará vários dias até que o complexo sistema eleitoral irlandês termine a contagem dos votos das eleições de sexta-feira, mas as sondagens à boca das urnas parecem confirmar aquilo que já se esperava há semanas: o eleitorado penalizou duramente a coligação que aplicou a receita de austeridade recomendada pelos credores e dispersou o voto ao ponto de não haver maiorias ou coligações fáceis no Parlamento. A Irlanda segue os exemplos de Portugal e Espanha e enfrenta agora o seu próprio momento de indefinição política. Com a agravante de as duas grandes forças políticas viverem ainda marcadas pela rivalidade na guerra civil irlandesa de há quase cem anos.

Afinal até na Irlanda, o derradeiro exemplo da austeridade virtuosa que o sr. Schäuble e os seus comparsas europeus tinham para apresentar, o eleitorado se mostra descontente com o centrão dos consensos e das inevitabilidades, penalizando os grandes partidos até agora no poder, dispersando o voto nas recentes eleições e favorecendo, embora não de forma a facilitar alternativas de governo, os partidos mais pequenos e desalinhados do sistema.

O curioso, no caso irlandês, é que até haverá uma maioria de direita, só que formada por dois partidos historicamente rivais. As desconfianças mútuas não auguram um bom entendimento, e os trabalhistas, que estiveram na coligação até agora no poder, também foram penalizados nestas eleições. A sua entrada para um governo a três criaria uma grande coligação que faria do Sinn Fein, o antigo braço político do IRA,  a principal força da oposição, o que os partidos do sistema também não desejam.

Depois de Portugal e da Espanha, também a Irlanda parece demonstrar o cansaço dos eleitores com as maiorias absolutas e a vontade de obrigar os políticos ao diálogo e ao compromisso, desde logo na formação de uma solução governativa. Lá como cá, o que vier a governar pode nem ser o que teve mais votos, mas sim o melhor negociador, o que se mostrar capaz de viabilizar a melhor solução governativa. Que no caso irlandês até será, muito provavelmente, uma solução à direita.

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Os jovens e a política

russia-protest-pic_2100455b[1]Parece uma pescadinha de rabo na boca: os jovens não se interessam por política nem se dão à maçada de ir votar, pelo que os temas ou as promessas que poderiam ir ao encontro dos problemas e das expectativas dos mais novos também tendem a rarear ou a desaparecer do discurso político, gerando ainda maior alheamento.

O que é novo, ou se mostra agora de uma maneira mais evidente, é que essa abstenção pode ter como consequência o risco de irrelevância política dos jovens. Pedro Sales, que integrou a direcção de campanha de Sampaio da Nóvoa, sublinha: “Com o progressivo alheamento dos jovens, corre-se o risco de os partidos passarem a olhar para eles como instrumento de retórica, sobretudo para atingir o voto dos pais e dos avós.”
Disso são exemplos os únicos temas dirigidos à juventude que conseguiram ser centrais ao discurso políticos nas duas últimas eleições: a precariedade laboral, as políticas de natalidade e a emigração de jovens qualificados. Esses foram assuntos importantes, que afectam os eleitores sub-40, e que os maiores partidos, e os principais candidatos à Presidência, insistiram em manter no topo da agenda. Mas, como sublinha Sales, mais com o objectivo de “criar empatia” em quem realmente vota, os pais e avós.

Sem negar a evidência de que o abstencionismo é muito mais elevado na faixa etária dos jovens com menos de 25 anos, também é verdade que aqueles que votam tendem a direccionar mais o seu voto para partidos mais pequenos ou marginais no espectro político: tanto o CDS como o Bloco de Esquerda, segundo parece, captam mais votos entre os jovens do que no restante universo eleitoral.

Os vários analistas ouvidos para a notícia do Público salientam a ausência de causas mobilizadoras para os jovens no discurso político, mas o que mais me chamou a atenção foi Nuno Garoupa, o presidente da Fundação Manuel dos Santos, que não resistiu à tentação do discurso demagógico: “Não havia nas últimas eleições um único partido que dissesse que ia cortar nas pensões dos mais velhos para salvar as pensões dos mais novos. Porquê? Porque essa gente não vota. Nem a PAF nem o PS explicavam o que queriam para a segurança social por isso.”

Ora a verdade é que já são as “pensões dos mais velhos” que, em muitas situações, sustentam os mais novos, que não é só quando chegarem a velhos que se verão sem rendimentos: já os não têm agora, e em muitos casos nunca ganharam o suficiente para terem uma vida autónoma e digna, e esse é o resultado concreto do modelo de desenvolvimento promovido pelos partidos do centrão e as empresas do regime ao longo das últimas décadas. A falta de provisões para as pensões futuras não reside no que se paga aos mais velhos depois de uma vida de trabalho e da correspondente carreira contributiva. Está num conjunto de políticas que conduzem ao subfinanciamento da segurança social, ao mesmo tempo que aumentam os seus encargos actuais e futuros, mas agitar o papão do conflito de gerações é uma forma de evitar que se fale do que menos interessa a quem paga o ordenado ao Garoupa.

Aqui chegados, talvez estejamos perante outro poderoso factor de desinteresse dos jovens pela política, o sentirem-se perante um jogo viciado onde raramente se fala verdade e onde se tenta arregimentar o voto jovem com as causas, algumas delas quase ridículas, com as quais é suposto os jovens identificarem-se: o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo, a luta contra o pagamento de propinas, a defesa da pirataria na internet. Talvez os jovens com direito a voto queiram simplesmente que os políticos os comecem a tratar como adultos.