Lesados do BES atacam de novo

lesados-1.jpgDisfarçaram-se de militantes do PS, envergando camisolas do partido ou ostentando ramos de rosas vermelhas, para tentarem chegar ao primeiro-ministro à sua chegada a Coimbra. E conseguiram. Mas António Costa desvalorizou o incidente, sublinhando que 99% dos “lesados” já chegaram a acordo.

Respeito o direito à indignação de todos os lesados pelas maquinações fraudulentas que deram descaminho às suas poupanças no antigo BES. Mesmo deste pequeno grupo que, ao contrário dos 99% restantes, não aceitou ser ressarcido de apenas uma parte do dinheiro que aplicaram nos produtos tóxicos vendidos pelo banco.

O que me continua a fazer confusão é nunca ter visto estes manifestantes à porta do dr. Salgado ou de qualquer um dos outros responsáveis pelo banco que os enganou. Afinal de contas, na hora de aplicar o seu dinheiro, confiaram na marca Espírito Santo e isso lhes bastou – não fizeram questão de ler as letras miudinhas da aplicação financeira. Porque não é o ex-dono-disto-tudo, que foi quem traiu a confiança depositada no banco que dirigia, incomodado por aqueles que lesou?…

Se foi a Ricardo Salgado e aos seus comparsas que os depositantes confiaram as poupanças – e foram estes que as dissiparam, em negociatas ruinosas e “liberalidades” com os amigos e a família – por que carga de água hão-de ser agora os contribuintes a ressarci-los até ao último cêntimo?

Na verdade, há um respeitinho que nunca se perde por certos berços e apelidos. Basta comparar a reverência que ainda se nota em relação aos antigos donos do BES e o tratamento nada cerimonioso que se reserva a um arrivista como Berardo. Como por estes dias alguém disse, muito acertadamente, vivemos num país em que até para ser ladrão é preciso ser de boas famílias.

Contudo, por mais esperas e arruadas que se façam aos governantes, há um ponto em que não devem subsistir mal entendidos: o dinheiro que os lesados exigem a António Costa não é do BES, nem do PS, nem do Governo – é o dinheiro dos contribuintes!…

Aberto aos domingos

supermercado.gifDomingo de Páscoa e muitos hiper e supermercados estiveram abertos ao público, o que levou o bispo do Porto a defender o fim do trabalho neste dia da semana. D. Manuel Linda considera que existe “um novo esclavagismo da laboração contínua”, algo que qualifica como a “expressão de um certo subdesenvolvimento humano e mesmo económico”. Em 2018, foram um milhão e 101 mil os portugueses que deixaram de ter folga ao domingo: um em cada cinco portugueses trabalha no que é considerado, nos países católicos, o dia tradicional de descanso.

Não faltou quem acusasse o bispo do Porto de estar, com esta intervenção em defesa do descanso dominical, a tentar desviar as atenções de temas mais incómodos com que a Igreja Católica tem sido ultimamente confrontada. Mas a verdade é que o assunto é pertinente: basta um pequeno périplo pela Europa a que queremos pertencer – e podemos até cingir-nos apenas aos países geográfica e culturalmente mais próximos de nós – para verificar que em lado algum o trabalho aos domingos assume a expressão que, entre nós, tem adquirido nas últimas décadas.

Basta atravessar a fronteira a um domingo para encontrarmos encerrados os hipermercados, supermercados e centros comerciais, bem como a generalidade do comércio de rua. Em Espanha, logo nos depararmos com aquele que é o padrão habitual do trabalho aos domingos na generalidade dos países europeus:  apenas funcionam os serviços que garantem a saúde, a segurança e a mobilidade das pessoas, bem como os que proporcionam actividades de lazer e fruição cultural – hotéis, restaurantes, museus, teatros, cinemas e outros espaços culturais e de diversão.

Em Portugal, optou-se pela liberalização dos horários, numa lógica de cedência aos interesses da grande distribuição e aos desejos dos consumidores, desprezando, neste processo, os direitos dos trabalhadores. Que não foram os únicos prejudicados, pois este alargamento de horários contribuiu fortemente para a crise do comércio tradicional. A concorrência desleal das grandes superfícies inviabilizou os negócios de milhares de pequenos comerciantes, levando ao encerramento das suas lojas e à desertificação dos centros urbanos, substituindo-se a tradicional ida à baixa pela romaria a uma dessas catedrais do consumo.

Habituados ao consumismo de fim de semana, mesmo quando não têm muito dinheiro para fazer compras, a obrigatoriedade do encerramento dominical de serviços não essenciais iria certamente provocar, se fosse imposta, uma contestação generalizada entre os consumidores. Mas há coisas que o Estado, dentro do actual quadro legal, deveria fazer. Por exemplo, garantir que todo o trabalho realizado aos domingos e feriados seja, como é de lei, pago a dobrar. Garantir essa elementar justiça de repartir com os trabalhadores as vantagens que as empresas obtêm por abrirem quando os outros estão fechados.

Podem criar quantas fundações quiserem…

…não é isso que vai construir uma imagem de responsabilidade social a quem não a tem. A gente que subiu na vida e pretende ser, agora, algo mais do que uma família de merceeiros ricos.

Pingodevergonha

O que lhes falta? Tratarem dignamente os seus trabalhadores, respeitando os direitos de quem contribui, dia a dia, para que o grupo do Pingo Doce tenha lucros de milhões – talvez este seja um bom ponto de partida…

Num comunicado enviado às redacções, o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP/CGTP-IN) dá conta da adesão «significativa» dos trabalhadores do Pingo Doce da loja da Estrada da Luz à greve agendada para o passado dia 28 de Março.

Explica ainda que, em piquetes à porta da loja, os trabalhadores procuraram transmitir aos clientes os problemas ali existentes, nomeadamente os baixos salários, os horários desregulados, a precariedade laboral e a «repressão/intimidação que a gerente de loja tenta exercer sobre os trabalhadores».

Neste contexto, a organização sindical sublinha que «o Pingo Doce lida mal com os direitos dos trabalhadores», acusando a empresa de ter chamado funcionários de outras lojas para substituir os que estavam em greve na da Estrada da Luz e de estar agora a proceder à transferência para outras lojas dos trabalhadores que aderiram à greve.

Trata-se de uma «retaliação por terem aderido à greve», denuncia o CESP, acrescentando que, se «não existe nada escrito que o comprove», a razão é dada a entender aos trabalhadores «de “boca”» e «não é a primeira vez» que acontece na empresa.

O sindicato criticou este «comportamento», que «só vem confirmar aquilo que o CESP já diz há muito tempo: a empresa não valoriza nem respeita os trabalhadores, aqueles que fazem com que a empresa tenha milhões e milhões de lucros por ano».

Generosidades…

Claro que ajudar vítimas de calamidades ou investir no desenvolvimento e na melhoria das condições de vida nos países pobres não é incompatível com o restauro de monumentos ou o mecenato cultural em geral.

No mundo abundante de riquezas e de recursos em que vivemos, há dinheiro e capacidade para fazer tudo isso e muito mais. Assim fosse mais aplicado em investimento produtivo e menos concentrado na especulação. Mais e melhor redistribuído por toda a humanidade e menos concentrado no 1% da população mundial que, quanto mais tem, mais quer.

A questão é, como sempre, de prioridades. Que parecem andar invertidas quando, para certos fins, o dinheiro jorra abundante, enquanto para outros nunca é suficiente. Ou chega sempre tarde e a más horas…

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O problema da produtividade

produtividadeÉ uma situação paradoxal: boa parte dos problemas estruturais da economia portuguesa radicam na falta de produtividade. Mas este fenómeno, que nos devia preocupar, sempre foi muito mal compreendido entre nós. Em grande parte porque, na sua génese, está sobretudo a incompetência e a mediocridade dos patrões. Por isso, falar verdade sobre esta matéria é algo que não tem interessado às elites políticas e económicas que dominam o país.

Na verdade, a baixa produtividade dos trabalhadores serve, desde que ouço falar destas coisas, para justificar os baixos salários: como quem diz, ganhas pouco porque também trabalhas pouco… No entanto, esta é uma narrativa com óbvias fragilidades.

Primeiro, porque a produtividade depende muito mais de quem gere do que da alegada “preguiça” de quem trabalha. Havendo boa organização do trabalho, instalações e equipamentos adequados e formação profissional dos trabalhadores direccionada para o bom desempenho das tarefas que lhes são confiadas, a produtividade aumenta naturalmente.

Depois, porque os mesmos trabalhadores que, para os patrões portugueses da velha guarda, têm fama de mandriões, são em regra dos mais apreciados e valorizados nos inúmeros países para onde têm emigrado.

Felizmente, o discurso falacioso sobre a produtividade começa a mudar. No recém-criado – por imposição europeia – Conselho para a Produtividade parece estar a irromper uma nova forma de ver as coisas, mais pelo lado do bom senso e do olhar lúcido sobre a realidade do que da irracionalidade económica ou do preconceito classista.

E começa logo por aqui: claro que se queremos trabalhadores produtivos temos de lhes pagar mais! Alguém será um bom profissional quando se sente explorado pelo patrão ou vive amargurado com as contas para pagar?…

Desde os anos 2000 que o crescimento da produtividade em Portugal desacelerou. A produtividade cresceu 13,3% em Portugal no conjunto dos últimos 18 anos – abaixo da média europeia.

Quando aconteceu a globalização, Portugal não conseguiu acompanhar essa mudança que aconteceu no mundo. E desde a crise económica que este ritmo de crescimento travou a fundo.

O Conselho para a Produtividade, coordenado pelos Ministérios das Finanças e Economia, aponta várias razões. A emigração de mão-de-obra qualificada nos tempos da crise, o crescimento do setor dos serviços, tradicionalmente considerado menos produtivo do que a indústria, e a digitalização da economia justificam esta estagnação.

Mas há outro fator crítico: os salários. O relatório do Conselho para a Produtividade conclui que os trabalhadores são mais produtivos quando têm salários mais altos. E não só. 

O relatório diz que a falta de qualificações dos empresários afeta a eficiência da empresa, assim como os critérios de escolha dos gestores, muitas vezes feita com base nas relações familiares e de amizade e não pelo percurso profissional – uma consequência do retrato empresarial português. 

O ministro da Economia não tem dúvidas de que, para a economia crescer mais do que tem crescido, precisa de um empurrão da produtividade. E diz estar consciente do que deve ser feito.

Está feito o diagnóstico. Resta agora ao governo e aos empresários escolherem os caminhos da eficiência

Obviamente, demitam-no!

tomas-correia.jpgDesde a condenação do Banco de Portugal, regulador e Governo andam num pingue-pongue sobre quem avalia a idoneidade de Tomás Correia, que em quatro anos fez desaparecer 804 milhões de euros dos associados da Mutualista. 

O país parece nada ter aprendido com os desfalques e a gestão ruinosa da banca privada, responsáveis pela maior crise financeira da nossa democracia. Há muito que Tomás Correia e a sua trupe deveriam ter sido afastados da administração do Montepio e seriamente investigados pela gestão danosa do banco e da associação mutualista.

Não sei que poderes tem Tomás Correia ou a que interesses poderosos serve de testa de ferro. Mas fico perplexo com a forma como se empurra com a barriga um problema gravíssimo e como em todos os lados – Governo, Banco de Portugal, supervisor – falta a coragem para fazer o que se impõe: declarar categoricamente que este homem não tem idoneidade para gerir nem uma chafarica, muito menos uma instituição com as responsabilidades do Montepio na actividade bancária e na economia social.

Num país onde se diz levar a avaliação do desempenho profissional muito a sério, onde abundam os treinadores de bancada sempre prontos a julgar o trabalho dos outros, como é possível que ninguém se atreva a avaliar a idoneidade de Tomás Correia? Como se aceita que o homem continue indecorosamente, ao mesmo tempo que ataca todos os que o criticam, a gabar-se da sua impunidade?

Na reunião desta terça-feira do Conselho Geral, Tomás Correia passou a mensagem de absoluta tranquilidade em relação à sua permanência no cargo, garantindo que está confiante que não haverá qualquer avaliação de idoneidade. Isto segundo uma fonte com conhecimento do processo, que frisou ainda que o presidente da mutualista  considerou um “ataque miserável” à sua liderança a contraordenação do Banco de Portugal.

Perante isto, resta questionar que poderes ocultos protegem o grande líder associativo, quando até o franciscano do regime, num atrevimento mais próprio duma organização mafiosa do que da humildade e despojamento da ordem em que professa, lança o desafio:

“Não é um secretariozeco ou um qualquer ministro que vai afastar os órgãos sociais democraticamente eleitos”.

O que é que “a gente” faz com os pobres?

soares-dos-santos.JPGA longa entrevista de Alexandre Soares dos Santos, o patriarca do grupo Jerónimo Martins, ao Observador, é interessante e reveladora. Com 85 anos, afastado da condução activa dos negócios do grupo, o empresário recorda a sua longa carreira à frente do negócio de família que transformou numa empresa multinacional e num dos maiores grupos económicos portugueses.

Com um discurso lúcido e sem grandes pruridos com o política e empresarialmente correcto, Soares dos Santos revela, um pouco mais do que é habitual neste tipo de entrevistas, o que lhe vai na alma. E há uma passagem, especialmente, que está a ser intensamente citada e comentada:

…os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média e depois subirem se possível. É para isso que a gente luta…

A afirmação inscreve-se num tipo de pensamento e de discurso caro a uma certa direita liberal e nesse sentido não causa estranheza. Pressupõe que para combater a pobreza é preciso criar riqueza. Uma responsabilidade das empresas, que ao contratarem trabalhadores, pagando-lhes salários dignos e dando-lhes perspectivas de carreira, permitem a ascensão económica e social de pessoas pobres, mas trabalhadoras.

Contudo, uma análise mais atenta permite ir um pouco além deste simplismo discursivo. Desde logo, a ideia de que os pobres fazem parte de uma espécie de ordem natural das coisas. Os pobres existem para que “a gente”, ou seja, os que já nascemos livres dessa condição, façamos algo por eles. A caridadezinha para ganhar o Céu, dirá o catolicismo conservador. Mas essa não é a visão de ASS, que prefere arranjar-lhes emprego nas suas empresas. Explorar a sua força de trabalho, dirão os mais cínicos. Ou os mais realistas. A verdade é que a ideia de que os ricos tenham de “transformar” os pobres implica que estes tenham de existir, quanto mais não seja, para dar sentido à existência dos ricos. E para que estes aumentem as suas fortunas.

Aqui, pode perguntar-se: será que a grande maioria dos trabalhadores do grupo Jerónimo Martins, que ganham o salário mínimo ou pouco mais, se libertam da pobreza pelo trabalho? Um grupo económico que lidera o ranking da desigualdade salarial (o filho de ASS ganha mais de 130 vezes o que recebe o trabalhador médio do grupo) será referência ou exemplo para alguém nesta matéria? Há uma evidente contradição entre o discurso meritocrático do “elevador social” e os hábitos de desvalorização do trabalho profundamente enraizados nalguns dos nossos maiores grupos empresariais.

Por último olhemos o topo da pirâmide social: a perpetuação da pobreza e mesmo da classe média pressupõe a existência dos ricos. Sabemos até, como já Almeida Garrett notava, que são precisos demasiados pobres para fazer um rico. Mas assim como há, entre estes, os que se acham predestinados a “transformar” os pobres, não deveria existir também forma de transformar os ricos em classe média? Estou a pensar sobretudo naqueles ricos que andam há anos a ser subsidiados pelo contribuinte.

A realidade é que, como nota João Quadros, cada vez que surge a oportunidade real de transformar um punhado de ricos, a viver nitidamente acima das suas – e das nossas – possibilidades, em classe média, logo se descobre que os passarões são demasiado grandes para cair. E nós pagamos para os segurar. Ou, como acrescenta Constança Cunha e Sá, porque os ricos “fizeram-se” para que a gente não os transforme em pobres