Ninguém quer trabalhar?

Sente-se transversalmente em todos os sectores muita dificuldade em recrutar pessoas, é um tema que não consigo explicar muito bem, nunca o sentimos antes e também estamos a passar por isso.

Rui Miguel Nabeiro reconhece as dificuldades de contratação de pessoal, mesmo na Delta, habitualmente reconhecida como uma das melhores empresas portuguesas para trabalhar. Mas acaba, na mesma entrevista, por ensaiar uma resposta à sua perplexidade:

Hoje vemos que os mais jovens já não querem seguir uma carreira numa empresa, querem é formar a sua própria empresa e isto é um valor incrível. Quando tirei a minha licenciatura toda a gente queria trabalhar para a PWC ou para a KPMG ou para um banco, hoje o sonho da maioria dos miúdos é formar a sua própria empresa e isso é um ativo importantíssimo, é uma riqueza.

Na verdade, não é possível andar continuamente a promover, nos media, nas escolas e nas feiras de emprego, o empreendedorismo, vendendo as vantagens de criar o próprio emprego, ser patrão de si próprio, realizar-se profissionalmente fazendo apenas o que gosta e quando quer, e depois esperar que a generalidade da população se conforme com empregos de 40 horas semanais, salários mínimos e horários rígidos.

Não estando em causa o quão ilusórias e frustrantes serão estas ideias com que andamos a iludir as novas gerações, a verdade é que não faz sentido que os modelos de sucesso que se apresentam, a jovens e menos jovens, sejam a influencer, o youtuber, o empresário de alojamentos locais, o investidor em criptomoedas e outros negócios de ocasião, fazendo crer que o futuro será isto, que acabaram os “empregos para a vida”, e depois esperar que o pessoal continue a fazer fila para entregar currículos nas empresas ou inscrições no centro de emprego.

Há aqui um paradigma claramente desajustado, numa sociedade que tem vindo a retirar valor e dignidade ao trabalho e reconhece agora, com o maior espanto, a falta de trabalhadores. Certo é que, se conjugarmos a quebra de natalidade, a aposentação massiva da geração numerosa que se abeira agora da idade da reforma e a emigração jovem, percebe-se facilmente que não é a questão de fundo não é o chavão mais do que batido do “ninguém quer trabalhar”: há é cada vez menos gente a entrar do que a sair do mercado de trabalho, e quem entra terá, cada vez mais, possibilidade de escolher as profissões, carreiras, salários e condições de trabalho mais aliciantes.

Será assim tão difícil perceber, que é preciso fazer um desenho?

Pensamento do dia

Sim, o planeta acabou destruído.

Mas houve um belo instante em que criámos imenso valor para os accionistas.

Uber Files

Uber aproveitou violência dos taxistas como trunfo para promover imagem

EUA: 550 mulheres processam a Uber por violência sexual

“Vendemos uma mentira às pessoas”, a Uber no seu melhor

A “nova economia” tem muito disto: agir na semi-legalidade ou aproveitar vazios legais, destruir a concorrência e conquistar quota de mercado com preços iniciais abaixo do custo, arregimentar aliados nos media e políticos influentes que decidam a seu favor.

Depois de conquistada uma posição dominante e a facturar em grande, não é raro ficarmos com um serviço mais caro, desregulado e de pior qualidade.

Ora a verdade é que nada disto é novo. Apenas a evolução natural num sistema económico capitalista, que gira apenas em função do lucro, quando o deixamos funcionar em roda livre. Hoje no transporte individual de passageiros, amanhã em sectores estratégicos da sociedade, como a Saúde ou a Educação, que continuam sob intensa mira dos investidores. Se os deixarmos.

O regresso da austeridade

O ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, deu conta esta sexta-feira dos planos do país para o regresso à austeridade em 2023, com a redução da dívida, afirmando ainda que isto é “um sinal para o Banco Central Europeu” (BCE).

Segundo o governante, citado pela agência noticiosa espanhola Efe, na apresentação de uma primeira versão do orçamento da Alemanha para 2023, este é “um sinal para o BCE”, referiu.

“Queremos que este orçamento envie uma mensagem e que seja esse o nosso contributo para a luta contra a inflação, com a redução da dívida”, destacou, sublinhando que “o BCE deve fazer o que considerar apropriado”.

Depois da contracção económica provocada pela pandemia, esperar-se-ia que o pós-pandemia pudesse abrir caminho a um período de recuperação económica. Havia até algumas perspectivas optimistas a este respeito: os investimentos para o futuro iriam privilegiar a transição energética, a economia verde e digital, gerando empregos mais qualificados e motivadores, aumentando a produtividade e os salários.

Tudo isto estaria muito bem, não fosse um pequeno-grande problema: os novos paradigmas de sustentabilidade ambiental e económica e uma mais justa repartição da riqueza entre capital e trabalho esbarram com os interesses dominantes no capitalismo global. Apesar do imenso poder e riqueza acumulados pelas várias oligarquias, estas continuam a querer sempre mais. E nenhuma aceita perder, sem luta, a favor dos seus rivais.

Na Europa, a guerra na Ucrânia é o sinal mais evidente da crise que chega e veio para ficar. É muito bonito apoiar a resistência das forças de Zelensky à invasão russa; menos agradável será percebermos o quanto esse apoio se irá traduzir em energia e alimentos mais caros, aumento de impostos para financiar o esforço de guerra, inflação persistente, reactivação de centrais a carvão e nucleares e no abandono das ambiciosas metas da descarbonização e da economia verde. Em crescente subalternização económica, militar e política, a UE torna-se um satélite do poderio decadente dos EUA, em vez de se afirmar como um modelo alternativo tanto ao poder americano como às autocracias corruptas e oligárquicas da Rússia e da China.

Motor incontestado da economia e das finanças europeias, a Alemanha acaba de dar o mote para os tempos que aí vêm: acabou-se o dinheiro barato, a taxas de juro quase simbólicas; os salários serão contidos abaixo da inflação, o que se traduzirá em perda de rendimentos das classes trabalhadoras, sobretudo das que têm menor poder reivindicativo: é preciso reduzir défices e dívidas públicas, o que significa cortes na despesa e no investimento público e os sempre impopulares aumentos de impostos. A verdade é que há uma crise económica, que não foi provocada pelos cidadãos, mas que sobrará para eles. Ainda não será desta que os ricos pagarão a crise.

Pensamento do dia

Não se precisa, nem nunca se precisou, de “educação financeira” para se “pensar criticamente” sobre o capitalismo. Temos história, sociologia, geografia, filosofia para isso.

A profundidade da “crítica” da “educação financeira” sobre o capitalismo é rasa como um pires.

Fernando Horta

Viciados em baixos salários

Portugal é um dos países da União Europeia (UE) com os rendimentos mais baixos. Aqui, numa década, entre 2011 e 2019, o rendimento real aumentou apenas para os menos qualificados, cerca de 5%. Já os salários dos mais qualificados, com um grau de ensino superior, ao invés, sofreram uma queda de 11%.

A nível de produtividade, o país tem perdido terreno face à média da UE, ocupa o sexto lugar a contar do fim, uma tendência de queda que nem o crescimento de qualificações das gerações mais jovens consegue inverter.

A pandemia mostrou os dois lados de uma moeda. Por um lado, cavou desigualdades sociais e laborais, afetando em especial os mais jovens, criando maior dificuldade na entrada no mercado de trabalho, e os menos qualificados, com o ensino à distância a provocar perdas de aprendizagem que podem ser irreversíveis. Por outro, o mercado de trabalho demonstrou um maior dinamismo de procura por empregos qualificados e digitais.

Estas são algumas das conclusões da edição 2022 do relatório Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal, da Fundação José Neves.

O relatório hoje divulgado dá expressão numérica a uma realidade bem conhecida: Portugal continua a ser, no contexto europeu, um país de baixos salários. Tivemos governos, como o de Passos Coelho, que prosseguiram activamente esta política, assentando no “empobrecimento” das classes trabalhadoras a base do aumento da competitividade da economia portuguesa. Com o advento da geringonça, alguns tímidos passos foram dados para reverter a tendência, nomeadamente com o aumento do salário mínimo, que não se reflectiu, contudo, no crescimento dos salários médios.

O que resulta evidente é que o sistema educativo foi mais eficaz a elevar as qualificações académicas e profissionais das novas gerações do que o sistema económico e financeiro a tirar partido da mão de obra qualificada de que foi passando a dispor. O resultado é o que se sabe: quem quer ser profissionalmente valorizado emigra; as empresas portuguesas, e nos últimos tempos até o próprio Estado, queixam-se de que “não há quem queira trabalhar”. Contudo, quando se dispõem a abrir os cordões à bolsa e a pagar condignamente, os trabalhadores aparecem. A solução é, portanto, óbvia. Mas esta é uma mudança de paradigma difícil de concretizar numa economia viciada em baixos salários…

Associa-se demasiadas vezes a inevitabilidade dos salários baixos à igualmente baixa produtividade da força de trabalho. Só que este não é, ao contrário do que demasiadas vezes se insinua, um problema dos trabalhadores em si – que mesmo com baixas qualificações são geralmente apreciados nos países para onde emigram – mas antes um problema de organização do trabalho. A fraca qualidade da gestão que se pratica em Portugal – e não parece que as elitistas “escolas de negócios” que se vão multiplicando pelo país estejam a mudar substancialmente a situação -, a falta de investimento público e privado e ainda o facto de os empresários serem, em média, ainda menos escolarizados do que os trabalhadores por conta de outrem: estes três factores condicionam, e de que maneira, o rendimento do trabalho.

Contudo, lendo estes e outros relatórios semelhantes, torna-se claro que o foco tende a ser desviado das questões essenciais. Esta Fundação José Neves é mais uma dessas organizações que pretende patrocinar uma Educação orientada, não para a formação integral dos cidadãos, mas para o desenvolvimento de “competências” adequadas às necessidades das empresas e da economia digital. Claro que a educação, tal como as tecnologias, são e serão fundamentais, mas os problemas económicos de fundo continuam a estar onde sempre estiveram: na dignificação do trabalho e numa mais justa repartição dos rendimentos, que nas últimas décadas se tem inclinado excessivamente a favor do capital em detrimento do trabalho, contribuindo para o agravamento das desigualdades. Mas as pseudo-fundações do regime não estão preparadas para ter esta conversa…

Pensamento do dia

Antigamente dizia-se dos pobres que o eram porque gastavam na tasca o pouco que ganhavam.

Da pobreza no século XXI, diz-se hoje que é consequência da falta de literacia financeira. E o ministro da Educação concorda.

Na minha ingenuidade, estava eu convencido de que um salário decente deveria ser a primeira e inalienável condição para qualquer cidadão se libertar da pobreza. Afinal de contas ninguém gasta, bem ou mal, o dinheiro que não tem.

Quando, na relação desigual entre capital e trabalho, se permite a acumulação de riqueza entre os detentores do primeiro, a consequência inevitável é o alastrar da pobreza entre os trabalhadores.

Não é um problema de literacias. É mesmo de (re)distribuição de riqueza.

Andam, seguramente, a mangar connosco. E pior, sentem que o podem fazer impunemente.

A segunda melhor empresa para trabalhar

São denúncias de assédio sexual, moral e manipulação na Farfetch. O programa A Prova dos Factos ouviu testemunhos de atuais e antigos funcionários da empresa luso-britânica: relatam um ambiente de humilhação e discriminação em alguns departamentos.

A multinacional luso-britânica Farfetch está a questionar a orientação sexual e a etnia dos candidatos a emprego. A resposta é, segundo a Farfetch, apenas para fins estatísticos, opcional e anónima. Contudo, a Comissão para a Cidadania e Igualdade (CIG) avisa que os anúncios de oferta a emprego “não podem conter” estas questões “sob pena de ilegalidade”.

Há uma semana atrás, o jornalismo “de negócios” garantia que a Farfetch era a segunda melhor empresa para trabalhar em Portugal.

Afinal, parece que há uma enorme distância entre o mundo das aparências e da boa imprensa e a realidade laboral que os trabalhadores de algumas empresas da nova economia têm de enfrentar.

Os ambientes super-competitivos, as práticas de gestão que normalizam a discriminação, a humilhação e o assédio dos “colaboradores”, o poder colocado nas mãos de gente ambiciosa, prepotente e mal formada, tudo isto pode criar ambientes laborais extremamente tóxicos, capazes de destruir a saúde física e mental dos mais incautos.

Décadas de divisionismo e enfraquecimento do movimento sindical, a par de autoridades fiscalizadoras a quem tudo isto vai passando ao lado perpetuam o quadro negro de um país onde os direitos dos trabalhadores continuam a ser quotidiana e impunemente desrespeitados.

Os negócios da guerra

A Rússia praticamente duplicou as receitas provenientes da venda de combustíveis fósseis a países da União Europeia desde 24 de fevereiro, quando iniciou a ofensiva militar contra a Ucrânia. Se, por um lado, o número de vendas destes combustíveis caiu nos últimos dois meses, por outro os preços aumentaram a nível global – e Moscovo, que originou essa subida ao invadir o país vizinho, está a sair beneficiada.

Sessenta e dois mil milhões de euros é o valor recebido pela Rússia durante os dois meses de guerra na Ucrânia pelas exportações de petróleo, gás e carvão, segundo uma análise ao transporte de cargas aéreas pelo Centro de Investigação de Energia e Ar Limpo (CREA, na sigla original).

Só a União Europeia importou combustíveis no valor de 44 mil milhões de euros neste período, contrastando com os 140 mil milhões na totalidade do ano passado, ou seja, 12 mil milhões por mês. Significa isto que o valor mensal das exportações russas quase duplicou, fixando-se neste momento em 22 mil milhões de euros.

Não são precisas contas muito complicadas para perceber que este jogo das sanções económicas contra um país do qual se depende economicamente rapidamente se volta contra o sancionador.

Tudo isto é o resultado de opções políticas e geoestratégicas tomadas há trinta anos atrás, quando o bloco socialista se desmoronou e a bipolaridade da guerra fria deu lugar a um mundo multipolar. Teceram-se loas à globalização económica e financeira, aprofundou-se a divisão internacional do trabalho, intensificaram-se as interdependências entre distintas economias e sistemas políticos. Recuperou-se a velha fábula liberal de que o mercado livre resolve tudo e acreditou-se, como se viu com a rápida integração da China e da Rússia na economia global, ser possível separar o desenvolvimento económico dos avanços na democracia política, no progresso social e no respeito pelos direitos humanos.

Subitamente, o enfrentamento da Rússia revela as fragilidades de um pequeno continente que concentra algumas das maiores economias mundiais: carece das matérias-primas, dos combustíveis e da produção industrial em que assentou a sua prosperidade económica e o bem-estar das suas populações.

Depois dos povos ucraniano e russo, que pagam em mortos e destruição o preço da guerra, também os restantes europeus serão chamados a prestar o seu tributo a este choque mortífero dos imperialismos e nacionalismos que se enfrentam na guerra da Ucrânia. A leste a a ocidente, as cleptocracias e oligarquias, os vendedores de armas e os de combustíveis, esses continuarão a enriquecer.

Sanções económicas

A como é que estará hoje o rublo?…

Do Facetoons