Trabalhar para ganhar a vida, ou gastar a vida a trabalhar?

Carreiras profissionais de 50 a 60 anos de duração, mudar de emprego 10 ou 12 vezes, fazer formação profissional continuamente, porque o mercado laboral não pára de fazer novas exigências. Eis o futuro delirante que nos oferecem as multinacionais, as fundações empresariais e as organizações internacionais.

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Incapazes de perspectivar o futuro fora das formatações mentais do capitalismo neoliberal e tecnológico dominante neste início de século, os doutrinadores da “era digital” não conseguem antever coisas tão simples como a escassez de trabalho no mundo informatizado, automatizado e robotizado que prevalecerá dentro de duas ou três décadas.

É preciso uma completa falta de juízo para imaginar septuagenários e octogenários a trabalhar ao ritmo imposto em muitas profissões. Mas já seria mais fácil se colocassem uma questão bem mais simples e que encontra resposta na realidade do presente: quantas empresas existem, nos dias de hoje, a recrutar novos trabalhadores com 50 ou 60 anos de idade? Irão recrutá-los, no futuro, quando tiverem com 70 anos?

Para quem exerce a profissão docente, todo este discurso chega a parecer surrealista, tamanha a exaustão profissional que vemos afectar a maioria dos professores com mais de 60 anos – e alguns bem mais novos. Está mais que demonstrado que há profissões – e a docência é uma delas – mais desgastantes do que a maioria. Nesses casos, é um completo disparate pensar que se poderia trabalhar até mais tarde. Quando muito, deveria pensar-se em começar mais cedo a carreira, melhorando as condições em que os jovens professores podem aceder e exercer a profissão.

Quanto ao problema das reformas e da insustentabilidade dos actuais regimes de segurança social, o que fazemos é andar às voltas, adiando a idade da aposentação e penalizando ainda mais quem já muito trabalhou e descontou. Claro que isto nada resolve em definitivo: o subfinanciamento do sistema de pensões é um problema que só será resolvido quando as máquinas que substituem o trabalho humano descontarem para a segurança social na proporção dos ganhos que proporcionam aos seus donos.

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A ilusão do voluntariado

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Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. “O que conta é a experiência”, podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Voluntários que aceitam trabalhar de graça, iludidos com a “experiência”, seduzidos pelo glamour do evento ou apenas com a possibilidade de entrar sem pagar bilhete.

Discursos “inspiradores” que nos ajudam a naturalizar a desigualdade, a especulação, o oportunismo, promovendo-os à categoria de novos valores universais.

Empreendedores que acreditam na multiplicação perpétua dos unicórnios e que a bolha das novas tecnologias continuará a inchar infinitamente.

Iniciativas e lucros privados altamente financiados com dinheiro público – 11 milhões de euros anuais que saem dos cofres públicos para pagar a festa.

Bem-vindos à nova economia do século XXI – e desculpem o indisfarçável cheiro a bafio…

Seis mil milhões e ninguém vai preso

bpncavaco[1]BPN: Seis mil milhões de prejuízo, zero presos

Dez anos após o anúncio da nacionalização do BPN, em 2 de novembro de 2008, a Justiça ainda não responsabilizou praticamente ninguém pelos desvios e burlas de milhões de euros que arruinaram o banco e justificaram aquela decisão política.

Se não me enganei nas contas, e mesmo tomando como fidedignos os números aldrabados que o Governo na altura apresentou, isto daria, não para uma, mas para DEZ recuperações integrais do tempo de serviço dos professores.

Claro que enquanto o nosso “modelo de desenvolvimento” continuar a basear-se em carregar às costas os bancos falidos, não sobrarão mais do que trocos para pagar a quem efectivamente trabalha, criando riqueza, conhecimento e progresso para o país.

Claro que sem penas de prisão efectiva, qualquer aprendiz de banqueiro irá ser tentado a fazer malabarismos com o dinheiro dos outros, enquanto multiplica o seu próprio capital e o faz desaparecer para o exterior através de convenientes alçapões financeiros.

Claro que sem fianças milionárias impostas aos artistas da alta finança que caem sob a alçada dos tribunais o dinheiro nunca mais aparece.

Devemos indignar-nos com a destruição das carreiras e a perda de poder de compra de quem trabalha, em benefício dos rendimentos do capital e da fraude financeira. Mas é bom termos presente que este é o resultado inevitável do sistema jurídico, económico e financeiro que as elites do centrão criaram para se protegerem.

Balanço de um fim de semana offline

Fustigado pela tempestade, aqui pelos meus lados especialmente assanhada, estive boa parte do fim de semana sem electricidade nem acesso à internet. Daí, sobretudo, a exiguidade das postagens…

E, no entanto, estar offline nem foi mau de todo. Deu para pôr alguma leitura em dia, recolocar em serviço um velho rádio de pilhas e reflectir um pouco sobre a fragilidade dos alicerces desta sociedade da tecnologia e da informação que vamos construindo.

Talvez os media lisboetas não se tenham apercebido em toda a sua dimensão do que foi a tempestade Leslie. Aqui, pela região centro, sentimo-la bem. E aos seus efeitos: estragos em habitações e automóveis, milhares de árvores derrubadas, ruas e estradas obstruídas com contentores de lixo, placas de sinalização e troncos derrubados e revestidas de todo o tipo de detritos.

Mas se a natureza surpreende por vezes pela violência destrutiva dos seus elementos, a acção humana espanta pela falta de prevenção e pela lentidão da resposta. Cerca de 300 mil pessoas que terão ficado, durante a noite de sábado e grande parte do dia seguinte, sem electricidade. E não vou aqui, do conforto do lar onde escrevo, criticar o trabalho das equipas de emergência que continuam lá fora, ao frio e à chuva, a dar o seu melhor para repor a normalidade na rede eléctrica. O que me parece é que a dimensão cada vez maior das avarias eléctricas é o resultado de uma política de energia mais preocupada em aumentar lucros e favorecer monopólios do que em investir na fiabilidade e na segurança das infraestruturas. Pois não se tratou apenas avarias em linhas isoladas que servem pequenas aldeias. Estou a falar de falhas cruciais em zonas urbanas densamente povoadas, onde deveriam existir redundâncias e as linhas deveriam estar mais protegidas das vulnerabilidades climáticas.

Com o regresso ao contacto com o mundo exterior, fui sabendo das novidades. A remodelação surpresa de quatro ministros que deixou intacto, como seria de esperar, o da Educação. E a melhoria da classificação de Portugal nos rankings das empresas de notação financeira. Uma novidade de que já se falava há uns dias, mas a que a imprensa de fim de semana deu o devido destaque.

Já não estamos no lixo, dizem-nos sorridentes. Pois, mas aqui para os meus lados ainda há muito lixo para remover das ruas…

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Geringonças e salários mínimos

geringoncaEm Espanha, o governo socialista concretiza entendimentos políticos à esquerda para aumentar o salário mínimo em 22%. Por cá, o governo PS refugia-se na posição dos “parceiros”, leia-se, representantes do patronato, para não ir além de 3,5%. Uma esmola de 20 euros mensais, e na condição de se portarem bem…

Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Segurança Social, não diz “não” a um aumento do valor do salário mínimo acima dos 600 euros. Em entrevista à Antena 1 (acesso livre), admite que o Governo tem “vontade política”, para que o salário mínimo vá além daquela fasquia, garantindo que é um tema que é analisado. Mas diz também que uma medida nesse sentido não pode ser garantida contra a vontade dos parceiros.

O governo espanhol vai aumentar o salário mínimo dos atuais 735,90 (pago em 14 meses ou 858,55 em 12 meses) para os 900 euros. A medida foi acordada entre um dos partidos que sustenta o executivo espanhol, o Unidos Podemos, e o PSOE, que compõe o governo, e está espelhada num documento de 50 páginas com importantes reformas para o Orçamento de Estado espanhol de 2019.

Orçamento de Estado, capítulo “Não Há Dinheiro”…

throwing-money-away[1]O acordo para a cimeira da tecnologia e inovação Web Summit continuar em Portugal por mais 10 anos prevê contrapartidas anuais de 11 milhões de euros por ano e a expansão da Feira Internacional de Lisboa (FIL), foi anunciado esta quarta-feira, numa cerimónia que decorreu na Altice Arena, no Parque das Nações, local que tem acolhido a cimeira nos últimos dois anos, a par da FIL.

Mais de metade dos fundos de pensões da banca já foi utilizada desde 2011, o que está a pesar cerca de 500 milhões de euros/ano na despesa pública.

As contas do Novo Banco apontam para a necessidade de o Fundo de Resolução colocar, em 2019, 726 milhões de euros. Se não houver alterações até ao final do ano, o Fundo injecta, em dois anos, 1,5 mil milhões de euros.

As Forças Armadas vão ter um reforço financeiro de 1,6 mil milhões de euros devido ao aumento do orçamento da Lei da Programação Militar (LPM) por parte do Governo, que irá vigorar entre 2019 e 2030, revela o “Correio da Manhã” (CM), na edição desta sexta-feira, 21 de setembro.

No meio de tanta farturinha, será que ainda se conseguem arranjar 50 milhões para um aumento de alguns euros aos funcionários públicos?

O internacionalismo monetário ataca de novo

fmi.JPGO descongelamento de carreiras na Função Pública levanta problemas de sustentabilidade da despesa pública (ameaça o défice) e qualquer trajetória de aumento do salário mínimo no privado, semelhante à que ocorre desde 2016, ameaça a competitividade da economia nacional. As conclusões pertencem ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que acaba de divulgar o Relatório do Artigo IV sobre Portugal.

Para preservar as contas públicas, a consolidação deve-se concentrar no balanço atual. As mudanças do lado da despesa devem ser complementadas por reformas estruturais no emprego e sistema de pensões do Estado com o intuito de alcançar um resultado sustentável no longo prazo. A passagem para as 35 horas semanais, que começou em 2016, as dificuldades em reduzir o volume de emprego nos últimos dois anos e o atual descongelamento de carreiras (ainda em debate) sugerem a necessidade de uma grande reforma da Função Pública […]. Por exemplo, o rácio aluno/professor nas escolas primárias é mais baixo relativamente à maior parte dos países da União Europeia, e até tem caído nos anos mais recentes”, referem os autores do relatório. Ou seja, é possível dispensar professores.

As “reformas estruturais” que o FMI sistematicamente recomenda aos países em dificuldades seguem um cardápio bem conhecido: emagrecer os serviços públicos, despedir funcionários, aumentar impostos e descontos obrigatórios sobre os rendimentos do trabalho, diminuir a taxação sobre os rendimentos do capital. Curiosamente, são coisas que os países ricos que financiam o fundo evitam fazer nas suas próprias economias.

E são também o exacto oposto daquilo que é praticado pelo FMI em relação aos seus quadros. Que têm, além de salários generosos e um amplo leque de benefícios sociais, isenção de impostos sobre os rendimentos e um regime de aposentação (incluindo a reforma antecipada a partir dos 50 anos) muito favorável. Nada como recompensar bem os servidores, para que estes nunca vacilem quando se trata de aplicar a austeridade aos outros.

Ou, como diz o povo, olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço…