Um smartphone pode durar dez anos?

Chloé Mikolajczak defende que o smartphone onde provavelmente estarás a ler este artigo deveria durar dez anos. A bateria deveria ser substituída em cinco segundos, como acontecia nos telemóveis sólidos, fidedignos e prontos para emergências que descansam em tantas gavetas. Todo o equipamento, que seria construído sem recurso a trabalho infantil e respeitando as normas do comércio justo, deveria ser desmontável apenas com uma polivalente chave de fendas. E as peças estariam disponíveis, em poucos dias úteis, durante a década de garantia que o software também suportaria.

“Neste momento, mesmo que tentes manter os teus dispositivos o máximo de tempo possível, muitas das vezes não os consegues reparar porque a forma como são feitos torna a reparação muito difícil, muito técnica ou muito cara”, começa por dizer a partir de Bruxelas a coordenadora da campanha Repair EU, que reúne organizações, negócios de reparação, iniciativas de reparação comunitárias e instituições públicas.

Apesar de 77% dos cidadãos da União Europeia (UE) dizerem que preferem reparar os seus bens, apenas 11% repararam os telemóveis quando se estragaram, nota a activista. A campanha pressiona a UE a legislar o direito à reparação, “que começa onde termina o direito do fabricante de produzir um produto não reparável”.

Ainda esta semana me veio parar às mãos uma varinha mágica que deixou de cumprir o fim a que se destinava: triturar a sopa. Aparentemente, está a funcionar: o motor trabalha, a lâmina corta, o pé em aço inoxidável está como novo. Mas, na engrenagem metálica do aparelho, há duas peças de plástico que encaixam o eixo do motor e o da lâmina e que, com o uso, se desgastaram: o motor roda mas a lâmina não se mexe. Um exemplo óbvio de obsolescência programada: quem fabrica pequenos electromésticos não pretende que durem uma vida, mas sim que tenham de ser substituídos de tempos a tempos. Ainda que os novos aparelhos não sejam de melhor qualidade do que os anteriores. Por vezes conseguem ser ainda mais frágeis, para que não durem muito mais do que a garantia dada pelo fabricante.

Nos telemóveis as coisas são mais complexas e entram em jogo outros factores, tendo em conta que os modernos smartphones funcionam, para muita gente, como uma extensão da sua própria identidade. Armazenando agendas, contactos, palavras passe, dados biométricos, endereços na internet e uma infinidade de outras coisas que neles se guardam, sabem muitas vezes mais sobre os respectivos donos do que eles próprios.

Além de alimentar a dependência dos consumidores, o enorme mercado das telecomunicações vai crescendo em três dimensões: a capacidade de processamento dos telemóveis e outros aparelhos, as velocidades e larguras de banda das redes dos operadores e o software cada vez mais numeroso, diverso e sofisticado que os utilizadores vão instalando. Há uma pressão constante para a troca de aparelho, e isso faz-se de diversas formas: a impossibilidade de substituir componentes de desgaste, como as baterias, a degradação do desempenho a cada actualização do sistema operativo, o apelo das últimas modas tecnológicas ou puramente estéticas, sejam elas um ecrã xpto, uma infinidade de câmaras ou o acesso à novíssima rede 5G.

No entanto, para a grande maioria dos utilizadores, a maior parte das funcionalidades dos novos e cada vez mais dispendiosos smartphones são inúteis ou dispensáveis. Um telemóvel que durasse dez anos, permitindo substituir a bateria e outros componentes, não deveria ser uma quimera, mas antes uma meta que faz todo o sentido impor aos fabricantes destes equipamentos, cujo fabrico tem um pesado impacto ambiental, sobretudo devido à incorporação de diversos metais raros.

O uso consciencioso dos recursos naturais impõe o combate à obsolescência programada dos equipamentos eléctricos e electrónicos. Um desafio que não tem de ser visto como um ataque às indústrias, mas antes como uma necessidade de adaptarem o seu modelo de produção e de negócio aos novos tempos, nomeadamente investindo mais, como no passado se fazia, no fabrico de peças de substituição e no reaproveitamento dos equipamentos usados.

Abolir o plástico das palhinhas e dos cotonetes foi uma boa medida, mas não chega para evitar a destruição do planeta em que queremos continuar a viver…

Transição ambiental em tempo de guerra

Na balança entre custos económicos imediatos e custos ambientais severos no futuro, o mundo parece cada vez mais convencido da urgência de transição energética que consiga travar o processo de alterações climáticas actual. Mas, crises como a da guerra na Ucrânia – com repentinas variações de preços e mudanças drásticas na forma como os países avaliam as suas dependências – prometem tornar mais inconstante o rumo das políticas a seguir, com avanços, recuos e adaptações à medida das novas realidades encontradas no curto prazo.

A prazo, o caminho seguido, como confirmam os economistas do Ambiente contactados pelo PÚBLICO, parece só poder ser um. Para cumprir as metas de descarbonização que permitam travar o ritmo de aquecimento do planeta, é preciso substituir fontes de energia baseadas em fósseis por fontes de energia renováveis. Uma tarefa difícil, tendo em conta que, actualmente, no mundo, a energia proveniente de fósseis representa ainda 85% do total, as energias nuclear e hídrica se ficam pelos 11% e as energias provenientes do vento e do sol atingem apenas os 4%.

Uma mudança das actuais fontes de energia dominantes para outras é um processo que, não só exige bastante investimento, como acarreta perdas para alguns sectores, que têm de ser geridas no curto e médio prazo.

A guerra, com o seu longo e trágico cortejo de mortos e feridos, destruição e sofrimento, refugiados e desalojados, a sua profunda irracionalidade mesmo quando as razões para combater parecem fazer sentido, será certamente a actividade humana mais insustentável para o futuro da humanidade e a preservação do nosso planeta, tal como o conhecemos.

As questões energéticas, aliás, estão no centro do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, com a dependência europeia em relação ao gás russo a moderar e a condicionar as reacções de alguns líderes europeus. E as centrais nucleares ucranianas, que se tornaram alvos militares da invasão russa, recordam-nos também que, apesar dos consideráveis progressos que foram feitos no uso seguro da energia nuclear, um acidente ou uma acção destruidora intencionalmente provocada continuam a ter o potencial de provocar uma catástrofe com efeitos incontroláveis.

Apesar dos progressos ao nível da eficiência energética, a verdade é que continuamos a manter estilos de vida e hábitos de consumo que tendem a consumir demasiada energia. Proveniente, na sua maior parte, de fontes não renováveis. As deslocações desnecessárias de automóvel, que um melhor planeamento urbano e o recurso ao teletrabalho sempre que possível poderiam atenuar, o ar condicionado sempre ligado ou a iluminação artificial em pleno dia, o uso de máquinas de secar roupa quando no exterior da casa está um sol radioso: enquanto este paradigma não mudar será muito difícil, para não dizer impossível, apostar seriamente na transição energética, mesmo que apoiada no gás natural e no nuclear.

Retrocesso ambiental

A Comissão Europeia apresentou um projeto de rotulagem verde de centrais nucleares e a gás para facilitar o financiamento de instalações que contribuam para o combate às mudanças climáticas.

O texto proposto, debatido durante meses e ainda provisório, foi enviado aos Estados-membros em 31 de dezembro, pouco antes das 24:00, segundo as fontes contactadas pela agência de notícias AFP.

O documento estabelece os critérios que permitem classificar como “sustentáveis” os investimentos em centrais nucleares ou a gás para a produção de eletricidade, com o objetivo de orientar as “finanças verdes” para atividades que contribuam para a redução dos gases com efeito de estufa.

A França – que quer relançar a sua indústria nuclear, uma fonte de eletricidade estável e que não liberta carbono – e países da Europa Central, como a Polónia ou a República Checa – que devem substituir as suas centrais de carvão altamente poluentes – exigem esta solução.

O lobby do nuclear e das energias poluentes mostra a sua força, nesta tentativa de proteger indústrias poluentes e obsoletas, desvirtuando uma política energética europeia assente em energias limpas e renováveis. É simplesmente ridículo catalogar como “verde” a substituição do carvão ou do gasóleo por gás natural, mantendo em funcionamento centrais térmicas que continuarão a libertar dióxido de carbono para a atmosfera. Já para não falar no reforço da dependência energética em relação à Rússia, um parceiro que se tem mostrado pouco fiável mas que continua a ser o fornecedor quase exclusivo das redes de gás europeias.

Quanto à energia nuclear, e embora os reactores actuais sejam incomparavelmente mais seguros do que os instalados nas primeiras centrais, os riscos de potenciais incidentes serão sempre um motivo de preocupação. O encaminhamento dos resíduos radioactivos é outro dos problemas, para o qual ainda não se encontrou solução satisfatória. E não se diga que a energia atómica não é poluente: é verdade que não liberta gases com efeito de estufa; em contrapartida, dissipa grandes quantidades de calor para o meio envolvente, afectando sobretudo os cursos de água e perturbando os ecossistemas locais. Pesando bem os prós e os contras, fará sentido manter em funcionamento transitoriamente algumas das centrais nucleares existentes, mas não continuar a investir num tipo de energia que, pelo ritmo constante de produção, não consegue compensar as intermitências da produção solar ou eólica.

Este falso ambientalismo é conhecido internacionalmente como greenwashing: trata-se da apropriação de valores e princípios ecológicos, de responsabilidade ambiental e de desenvolvimento sustentável para branquear as velhas práticas de delapidação de recursos naturais e degradação do ambiente, tendo como consequências a perda de biodiversidade, as alterações climáticas e o esgotamento de recursos não renováveis. Ao serviço de interesses poderosos, a Comissão Europeia parece empenhada em promover mais esta mistificação.

A última moda é a “educação climática”

O ministro da Educação defendeu esta terça-feira a importância da educação climática nas escolas, sublinhando que os alunos são capazes de estimular as famílias e comunidades a aderir ao movimento de uma vida mais sustentável.

Durante um encontro promovido pela Comissão Europeia que reuniu alunos, professores e decisores políticos, o ministro português Tiago Brandão Rodrigues foi questionado sobre a “sua educação de sonho para iniciativas climáticas no futuro“.

“Uma educação de sonho para o clima é aquela que coloca os alunos no centro da mudança nas nossas sociedades”, disse, durante o encontro online “Educação pelo clima”.

Para Tiago Brandão Rodrigues a aposta deve passar por uma educação climática que forme os jovens “a serem os catalisadores dessa mudança, estimulando as suas famílias, as redes fechadas e as comunidades a aderirem ao movimento de uma vida mais sustentável”.

Como deveria ser mais do que evidente para um doutorado em Bioquímica, não é a “educação climática” nas escolas, o que quer que isso seja, que vai solucionar o complexo problema das alterações climáticas decorrentes da actividade humana, cada vez mais evidentes, severas e irreversíveis. Este ME evoca o pensamento crítico, mas os seus responsáveis rejeitam-no todos os dias, na forma acrítica e reverente como papagueiam a agenda educativa dos poderes globalizados.

A emergência climática dos nossos dias não se reverte com gestos simbólicos, mas irrelevantes face à dimensão dos problemas e do impacto ambiental da actividade humana. Não pode sequer ser compreendida fora do contexto económico, social e político das revoluções industriais, da explosão demográfica, do capitalismo globalizado e neoliberal que continua a subjugar a economia mundial em pleno século XXI.

Mudar para um ambiente e uma vida mais sustentáveis para o futuro do planeta implica transformar profundamente a forma como produzimos, consumimos e distribuímos a riqueza criada. E isso, é certo e sabido, não muda por haver mais ou menos consciência climática e ambiental. O único catalisador de mudanças nesta área, manifestamente insuficiente, tem sido a capacidade de transpor para o contexto da economia verde os clássicos modelos de produção baseados na acumulação de capital e na exploração do trabalho. Mas como não se quer enfrentar os poderosos interesses económicos e políticos que impedem as mudanças realmente necessárias, alimenta-se a ilusão de que serão as escolas a mudar a economia, a sociedade, a própria forma como vivemos – algo que nunca aconteceu na longa História da humanidade.

Na verdade, não é a insistir nesta pulverização do currículo em torno de temas da moda, tratados superficialmente, que se consciencializa as novas gerações para as mudanças necessárias. Para compreenderem o mundo em que vivem, como aqui se chegou e o que precisamos de mudar, é essencial o conhecimento científico estruturado que disciplinas como a História, a Geografia, a Economia ou a Biologia podem transmitir. Que integram aliás, nos seus programas, os principais problemas decorrentes do desenvolvimento económico e da actividade humana em geral, nomeadamente os climáticos e ambientais. Achar que o conhecimento disciplinar, maçudo e “enciclopédico”, se substitui com vantagem por umas pesquisas na internet, uns “intercâmbios” com outras escolas, uns trabalhos de grupo e uns recados para as famílias reflecte bem o paradigma educativo deste governo que o ministro, com a sua língua de trapos, se vai esforçando por proclamar.

A importância da educação ambiental

Jorge Paiva, um dos mais conhecidos e talvez o decano dos biólogos portugueses ainda em actividade, fala sobre a importância da educação ambiental. Em entrevista ao Sinal Aberto, confessa alguma desilusão por não sentir ainda, ao fim de uma vida inteira dedicada ao estudo e à preservação das espécies, a consciência ambiental necessária para obviar à extinção das espécies, às alterações climáticas e a outras mudanças que estão a destruir o mundo que iremos legar às próximas gerações.

A verdade é que, embora as questões ambientais tenham ganho peso nos currículos e nas práticas escolares, há ainda uma distância demasiado grande entre o que se diz, escreve e ensina e o que efectivamente se interioriza e põe em prática.

Com a lucidez e assertividade que lhe conhecemos, Jorge Paiva denuncia a sociedade consumista como o principal obstáculo a uma efectiva mudança de políticas e práticas do quotidiano, de modo a tornar sustentável o futuro do planeta. Na hora da verdade, os critérios que impõem o lucro a curto prazo tendem sempre a levar a melhor sobre as metas ambientais. E muitos dos avanços que se têm feito em relação à sustentabilidade ambiental só se tornam possíveis na medida em que se convertem eles próprios em negócios lucrativos.

Perante a inoperância dos políticos actuais, subordinados à agenda dos grandes interesses económicos, sublinha-se a importância de educar as novas gerações, na esperança de que possam, um dia, fazer a diferença. Nas questões ecológicas e ambientais como em tudo o resto, a escola pode ser um interveniente decisivo. Mas não conseguirá operar sozinha as mudanças que quase todos entendemos como necessárias. Sem as necessárias reformas económicas e políticas, as “mudanças de mentalidade” serão incapazes de, só por si, transformar a sociedade.

Ficam alguns excertos da entrevista e a habitual sugestão de leitura, aos interessados, do texto integral.

Eu não acredito em nenhuma das atitudes que os políticos têm tido, desde há mais de trinta anos, reunindo-se internacionalmente e resolvendo que vão actuar. Porém, na reunião seguinte, chegam à conclusão de que não fizeram nada. De maneira que andamos nisto, porque os políticos mundiais ainda não se consciencializaram, não têm consciência da realidade. É por isso que eu insisto na educação ambiental, sobretudo nas escolas. Mas, neste momento, estou desiludido porque, quando esses jovens chegam a adultos, a sociedade consumista já os tem manipulados. Até agora, praticamente, ainda não se fez nada de concreto. Ao menos, tomem uma atitude mais frontal, como o fez Donald Trump, declarando que não queria colaborar. Dizer que colaboram e, depois, não fazerem nada é uma farsa!

Há algum tempo, em conversa com uma professora e minha antiga aluna, observei que, ao estar no limiar da vida ou quando se chega ao fim, qualquer pessoa pensa se fez alguma coisa com utilidade. E eu tenho uma desilusão brutal! Pelo facto de ter feito mais de 2500 palestras em escolas, incentivando os alunos, os quais percebem o que está a acontecer, mas quando são adultos, a ocuparem determinados cargos, vejo que esqueceram tudo! Foram todos manipulados por esta sociedade consumista.

No geral, é assim. Não há educação ambiental em Portugal. Conheço países que investem nesta área. A geração jovem tem um bocadinho mais de consciência, mas ainda não é o suficiente.

Eu não gosto de “show off”. Por exemplo, houve aqui, num sábado, uma manifestação de apoio à menina Greta [Thunberg] a que eu não fui. Na segunda-feira imediata a essa manifestação, decorreu o cortejo da Latada, em Coimbra, de que resultaram 40 toneladas de lixo. E muitos desses jovens tinham estado a manifestar-se a favor do clima. Isto é “show off”. Eu não trabalho em “show off”!

Os “erros” do #EstudoEmCasa

sobreiro-caducaNo meu último artigo, manifestei receio sobre a possibilidade de se “normalizar” a solução improvisada para entreter alunos afastados da escola, a que, impropriamente, chamaram ensino a distância. Em tempo de confinamento drástico, essa solução foi um instrumento para preservar uma actividade mínima de ensino, cumprida com espírito de missão e contornando dificuldades múltiplas. Entretanto, este “ensino a distância”, de emergência, começa agora a ser sugerido como alternativa. Se a ideia colher, revelar-se-á perversa por tender, no limite, a substituir professores de corpo e alma por assistentes digitais, sem sindicatos, sem greves e com enormes vantagens económicas para o empregador, no que toca a custos operacionais.

Para o êxito da coisa terá contribuído a vertente “telescola”, protagonizada por professores do século XXI, aparentemente prosélitos das pedagogias não directivas e opositores das aulas magistrais. Cantam rap, dançam zumba e prestam-se a demonstrar as suas metodologias inovadoras nos programas de Cristina Ferreira e de Manuel Luís Goucha.

Para quem bate palmas, pouco importam a pobreza de muitas abordagens e os erros científicos. Vi uma aula de Português dominada pela leitura soletrada de um PowerPoint medíocre, onde Camões foi apresentado como coisa menor. Numa aula de História, a propósito do Renascimento, o astrónomo Nicolau Copérnico, polaco, foi associado a Itália. A Polónia, cuja origem vem do século X, foi citada como criada após a Primeira Guerra Mundial. A embaixada da Polónia protestou. Numa aula de Ciências Naturais, os transgénicos foram apontados como perigosos para a saúde e foi feita uma referência ao “uso inadequado de hormonas de crescimento nas explorações pecuárias”, quando, na verdade, as hormonas de crescimento estão proibidas para tal fim, no espaço europeu. O biólogo Pedro Fevereiro, presidente do Centro de Informação de Biotecnologia, antigo Bastonário da Ordem dos Biólogos e ex-membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, reagiu publicamente, dizendo que o que foi ensinado está errado, do ponto de vista científico, e constituiu doutrina, que não ciência. Por outro lado, numa outra aula, o sobreiro foi apresentado como árvore de folha caduca, quando é sabido que as folhas do sobreiro não caem no inverno.

Tenho concordado quase sempre, nos últimos tempos, com as análises e pontos de vista de Santana Castilho sobre temas educativos. Não é o caso da crónica semanal que ontem saiu no Público.

Saudei por aqui a ideia das aulas televisivas, implementada em tempo recorde, como resposta educativa mais adequada, durante o confinamento, a determinados públicos escolares, nomeadamente os alunos mais novos e os que não têm computador nem internet. Reconheci o esforço e a boa vontade dos colegas que, podendo estar a bom recato ministrando o seu ensino à distância, aceitaram o desafio da exposição mediática. Mas nunca esperei que as aulas da nova telescola revelassem um modelo perfeito de ensinar ou fossem isentas das pequenas falhas que podem acontecer e, qualquer aula normal. Encarei até o risco de suceder o que frequentemente acontece quando se tenta satisfazer as expectativas de todos, que é não agradar a ninguém.

Olhei por isso com condescendência para pequenas falhas como as que foram apontadas às aulas de História, e que na altura comentei aqui. Fiquei perplexo com aquela aula do primeiro ciclo em que se incluiu o sobreiro na categoria das caducifólias. Foi um erro grave, pois contraria não só o conhecimento científico mas até a experiência comum – alguma vez se viu um sobreiro sem folhas? No entanto, não é algo irremediável: como muito bem nota o Duilio Coelho, professor do primeiro ciclo e companheiro de andanças blogosféricas, o professor titular continua no seu posto para isso mesmo: corrigir o erro e explicar correctamente a matéria que foi mal ensinada.

Já a questão dos OGM não é tão linear como Santana Castilho pretende fazer crer. É um tema controverso, e não é pelo facto de haver uma inclinação crescente da comunidade científica a favor das manipulações genéticas na indústria agro-alimentar que devemos impor, nas aulas de Ciências, consensos que estão longe de ser alcançados.

O uso de transgénicos não se resume a saber se são seguros ou não a curto prazo. Ele envolve decisões que podem alterar de forma irreversível o nosso modelo de economia e sociedade. Implica, por exemplo, decidir se queremos patentear as tecnologias que irão permitir alimentar um mundo do oito ou nove biliões de seres humanos e com menos terra cultivável do que temos actualmente. Se queremos que decisões que podem reduzir a biodiversidade no planeta ou determinar a sobrevivência de milhões de pessoas possam estar dependentes do que gera mais “valor para o accionista”. Se mais dúvidas houvesse, bastaria olharmos as implicações da actual pandemia, cuja origem exacta está ainda por determinar, mas cuja factura já sabemos quem irá pagar: a sociedade, os cidadãos, os contribuintes. Não, decidir usar ou não os OGM não decorre de ciência pura nem tão pouco de “doutrina”: é uma discussão livre e informada que interessa a todos e que, por isso mesmo, deve começar na escola. Sem dogmas nem doutrinas, mas não esquecendo a visão macro do problema e fazendo uso de toda a informação disponível.

Quanto ao uso das hormonas de crescimento no gado, é verdade que ele está proibido pelas regras da UE, mas na aula em causa também não se disse o contrário. Contudo, esse uso é permitido em muitos outros países e nada nos garante que a decisão europeia não venha um dia a ser revogada. E aqui a única força que o pode impedir é uma opinião pública consciente e informada, capaz de se unir a nível europeu para defender uma coisa boa que a integração europeia nos trouxe: regras ambientais e de segurança alimentar mais rigorosas e exigentes do que na maioria dos nossos parceiros comerciais.

Apesar destas discordâncias, há um grito de alerta que SC deixa na sua crónica e que subscrevo inteiramente. O ensino remoto que vamos fazendo por estes dias é um parco remendo e não substitui a escola física nem a presença real de alunos e professores. O nosso brio profissional pode levar-nos a dizer que estamos, nas actuais e difíceis circunstâncias, a fazer o nosso melhor. Mas esse melhor é muito pouco, comparado com o que podemos fazer – e fazemos! – em ensino presencial.

Sob o pretexto das medidas sanitárias e explorando a lógica do medo, o ensino remoto vai, assim, fazendo o seu caminho, ante professores passivos e incapazes de criticarem e combaterem aquilo de que se arrependerão futuramente. A apologia das vantagens do ensino remoto ameaça transformá-lo no modelo pedagógico dominante. Isso, nas condições actuais de menorização social do professor, implica enfraquecer e degradar ainda mais a profissionalidade docente, que é o fundamento anímico para a existência da Escola.

Vai estudar, Greta…

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O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, sugeriu hoje à ativista pelo clima Greta Thunberg que vá estudar Economia, defendendo que não é preciso deixar de utilizar combustíveis fósseis.

Ao repto do governante norte-americano poderia facilmente contrapor-se a ignorância e a insensibilidade das elites políticas e financeiras em relação ao impacto ambiental brutal e irreversível do actual capitalismo neoliberal, desregulado e hiperconsumista.

É verdade que a nossa casa comum já está a arder, como diz a activista sueca – literalmente, como é bem visível nos incêndios australianos – mas também é certo que enquanto os interesses dos donos do mundo, que querem continuar a enriquecer, não forem travados, é ilusão pensar-se que alguma coisa de substancial poderá mudar na forma como irremediavelmente vamos destruindo o único planeta que temos para viver.

Uma resposta à altura ao secretário de Estado foi dada, via Twitter, por Yanis Varoufakis:

O que diz Mnuchin, infelizmente, faz sentido. Se Greta fosse estudar economia convencional, passaria vários semestres a estudar modelos de mercados onde nem uma catástrofe climática nem uma crise económica são possíveis. É tempo de transformar tanto a política económica como a economia.

Dez anos sem comboios

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Cumprem-se hoje dez anos desde que foram suspensas as ligações ferroviárias na Linha da Lousã. Foi a 3 de Janeiro de 2010 que circulou a última automotora entre Serpins e Coimbra. O encerramento provisório da linha destinar-se-ia à implementação de um ambicioso projecto, que envolvia a reabilitação do traçado, a sua electrificação e a introdução de novo material circulante, convertendo-se o velho ramal suburbano numa moderna linha de metro ligeiro: o Metro Mondego. Este sistema de transporte previa a ligação do ramal ao centro da cidade e à estação de Coimbra-B, onde seria construído um novo interface de transportes. O sistema seria ainda complementado pela construção de uma segunda linha urbana, ligando a baixa da cidade aos Hospitais da Universidade.

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Volvidos dez anos, é evidente a descomunal fraude a que sucessivos governos do PS e do PSD, com a indispensável cumplicidade de políticos locais, sujeitaram as populações dos concelhos de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã, em especial os muitos milhares que diariamente usavam o serviço ferroviário. Algo que era evidente logo no início, quando se lançou um projecto de milhões de euros claramente desajustado da realidade e das necessidades. Repare-se que ninguém, a não ser os políticos, reclamou uma linha de metro. O que se pretendia, isso sim, era a melhoria do traçado da linha, a sua electrificação e novas automotoras, de forma a melhorar a qualidade do serviço.

Ao contrário de outros ramais do interior do país, onde a falta de passageiros ditou o fim do serviço, na Linha da Lousã nunca houve falta de utentes. Para vencer as serranias do vale do rio Ceira e dos primeiros contrafortes da serra da Lousã, o comboio sempre se revelou um transporte mais seguro, rápido e fiável do que o autocarro. Foi por isso necessário inventar um pretexto mais rebuscado para fechar a linha, e ele surgiu com a proposta mirabolante do Metro Mondego, um projecto que durou o tempo suficiente para que fossem retirados os carris da quase totalidade da linha. Em seguida, a crise financeira foi o pretexto para a paragem das obras e a reavaliação do projecto. Depois de milhões de euros gastos em estudos, descobriu-se subitamente que o sistema de mobilidade projectado era financeiramente incomportável.

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Dez anos depois, sem comboio nem metro, pretende-se agora aproveitar o antigo canal ferroviário para criar um serviço de autocarros eléctricos a que chamaram Metrobus. Depois de ter levado à destruição da única ligação ferroviária ao interior do distrito, o conluio entre decisores políticos nacionais e locais prepara-se para desferir o último golpe contra a Linha da Lousã: o encerramento do troço remanescente, o que liga a estação central da cidade a Coimbra-B, onde param os comboios de longo curso e internacionais. Uma decisão sem qualquer fundamento lógico: quando noutros lados se vai pensando até em reabrir linhas encerradas, que sentido tem eliminar em Coimbra, e em contra-ciclo com o que se faz no resto da Europa, um movimentado percurso ferroviário?

Quando a redescoberta do potencial da ferrovia está na ordem do dia, quando se vai tornando consensual que, a todos os níveis – comodidade, segurança, sustentabilidade ambiental – o comboio eléctrico é a melhor solução de mobilidade terrestre, quando o próprio ministro do sector defende as vantagens do comboio chegar ao centro das cidades, como é possível defender o encerramento da estação central de Coimbra, impedindo os comboios suburbanos e regionais de terminarem aqui a sua marcha e obrigando os passageiros a fazer o resto do percurso de autocarro? Alguém proporia solução semelhante entre a estação lisboeta do Oriente e Santa Apolónia? A ligação do Metro do Porto entre Campanhã e o centro da cidade não coexiste perfeitamente com o serviço ferroviário entre Campanhã e S. Bento?

Na ligação entre as duas estações de Coimbra, não há qualquer razão para que os autocarros não circulem pela Avenida Fernão de Magalhães, uma das mais largas artérias da cidade, como aliás está previsto suceder em todo o restante percurso urbano do Metrobus. Isto se este serviço alguma vez vier a ser efectivamente implementado, pois a avaliar pelo que sucedeu até agora, existem todas as razões para duvidar.

Finalmente, note-se que mesmo sem Metrobus, já há muito existem autocarros eléctricos em Coimbra. A cidade foi pioneira na introdução, há mais de 70 anos, do único sistema de troleicarros que subsiste em funcionamento em Portugal. Recentemente, entraram em funcionamento autocarros eléctricos semelhantes aos que o Metrobus planeia introduzir: sem necessidade de catenária, funcionam com baterias que são carregadas durante a noite, como qualquer automóvel eléctrico.

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Se a batalha pela Linha da Lousã parece hoje perdida, nada justifica que se persista num erro para justificar outro erro. Os padrões de mobilidade e a forma como se equacionam as necessidades actuais e futuras são hoje diferentes de há 20 anos atrás. É necessário rever o sistema de mobilidade do Mondego, ouvindo os utentes e as populações locais, priorizando as necessidades das pessoas e não as ambições dos políticos. Acima de tudo, falando verdade. É perfeitamente possível e desejável compatibilizar a linha ferroviária existente com os restantes meios de transporte urbano, numa lógica de complementaridade que só pode ser benéfica para os utilizadores. Assim saibam os responsáveis estar à altura das suas responsabilidades…

Obsolescência programada

Num final de ano parlamentar bastante intenso, a discussão e votação das propostas de lei sobre o alargamento dos prazos de garantia e o do tempo de vida útil dos bens duradouros foi adiada para o próximo ano. Ainda assim, o PCP fez o seu trabalho de casa e preparou um vídeo onde, de forma clara e objectiva, explica as suas ideias acerca do combate à obsolescência programada. Um tema merecedor de ampla discussão pública, pois é demasiado importante para ser deixado apenas ao arbítrio da classe política e à influência dos lobbies do comércio e da indústria.

A defesa do ambiente, a protecção dos oceanos e da biodiversidade, o combate às alterações climáticas e a descarbonização do planeta são causas que, pelo menos no plano teórico, reúnem o consenso dos cidadãos informados e preocupados com o nosso futuro colectivo.

No entanto, falta compreender que estas coisas não podem ser apenas declarações de intenções: implicam mudanças efectivas nos modos de produção e nos hábitos de consumo, pois nem a exploração predatória de recursos naturais escassos e não renováveis nem o consumismo irresponsável são sustentáveis a prazo. Sendo coerentes, não podemos estar contra a exploração do lítio transmontano e, ao mesmo tempo, apoiar a exploração desenfreada deste mineral e de diversos metais raros de que depende o fabrico de telemóveis e outros equipamentos de alta tecnologia. Continuar a trocar de aparelho ao fim de dois ou três anos como pretendem muitos consumidores, indo atrás de uma necessidade artificialmente criada pelas marcas, é uma prática ambientalmente irresponsável e, a prazo, completamente insustentável.

Poderemos eventualmente considerar excessivos os dez anos de garantia previstos na proposta do PCP para determinados tipos de bens de consumo. O uso intensivo ou as características de determinados materiais ou tecnologias podem implicar uma menor durabilidade. Mas também há exemplos em sentido contrário: temos comboios com mais de 50 anos a circular diariamente que, com a manutenção adequada, continuam a prestar bons serviços aos utilizadores. Tudo passa por projectar equipamentos duráveis e resistentes ou, pelo contrário, apostar na sua substituição a curto prazo.

A prosperidade capitalista assenta na ideia de que, através do mercado livre, os produtores competem entre si para colocar à disposição dos consumidores os bens que estes necessitam. Satisfazer o cliente é, nesta perspectiva, a melhor garantia de que se continuarão a fazer bons negócios no futuro. No entanto, a obsolescência programada inverte esta lógica por completo, fazendo sentir ao consumidor que o produto que comprou há uns meses já não lhe convém: há outro mais recente, mais bonito, mais rápido, mais potente, com mais e melhores funcionalidades. Já não se busca a satisfação plena do consumidor. Na perspectiva do capitalismo hiper-consumista dos nossos dias, o que interessa é manter o consumidor insatisfeito. Para que nunca pare de comprar…

Aldeias a mudar de sítio

cheia.JPG“Vamos ter de nos adaptar aos recursos que temos. As aldeias têm de saber que estão numa zona de risco. Paulatinamente, as aldeias vão ter que ir pensando em mudar de sítio porque não esperamos que esta capacidade que temos possa vir a crescer.”

As declarações desbocadas do ministro do Ambiente partem de uma realidade insofismável: a maior parte da população e das infraestruturas do nosso país concentram-se no litoral norte e centro. Não acontece por acaso; é o resultado de ser aqui que, historicamente, as comunidades humanas encontraram melhores condições para sobreviver e prosperar: água mais abundante, terras mais férteis, clima mais ameno, melhores acessibilidades. Claro que a ocupação dos vales e o progressivo assoreamento dos rios, conjugados com os efeitos mais recentes das alterações climáticas e de alguma incúria na gestão de albufeiras, barragens e sistemas de contenção, estão a tornar mais frequentes e gravosos os efeitos das cheias.

Contudo, não me parece que mandar as aldeias “mudar de sítio” seja a coisa mais sensata que um governante possa fazer. Talvez faça mais sentido, da parte de quem governa, impor, por exemplo, um maior rigor no licenciamento de obras e edificações em leitos de cheia. Ou uma efectiva coordenação entre as entidades que gerem os caudais dos principais rios e zelam pelo bom estado dos diques e sistemas de rega.

Será preciso recordar que nos Países Baixos existem, não apenas aldeias, mas vilas, cidades permanentemente abaixo do nível do mar? E que apesar dos níveis de pluviosidade mais elevados do que os nossos, se conseguem manter as casas e as populações a salvo de inundações? As soluções tecnológicas existem. Nem sempre são é aplicadas eficazmente. E é aqui que há muitos erros a corrigir e responsabilidades a apurar…

Voltando às palavras do ministro: em vez de convidar as aldeias a mudar para sítios mais elevados, talvez fizesse mais sentido usar o seu poder e a sua influência para ajudar a impedir esse disparate ambiental que será o aeroporto do Montijo. Para que daqui a uns 20 ou 30 anos, quando a pista se encontrar à mercê das águas do Tejo, não tenhamos de ouvir um outro ministro a convidar os aviões a irem aterrar noutro sítio…