Ambientalismos

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Boneco oportuno de autor – até ver – desconhecido, em circulação nas redes sociais.

A corrida ao lítio

minas.JPGRaquel Perdigão explicou aos jornalistas que a exploração de lítico acarreta “riscos sociais, económicos e ambientais”, destacando a poluição devido às emissões de CO2 (dióxido de carbono) e de lençóis freáticos e preocupações com “a desflorestação das áreas que poderão sofrer essa extração”.

Os participantes exigem ao Governo e às entidades locais para que repensem os efeitos que a exploração de lítio terá para o país.

Samuel Infante, da associação ambientalista Quercus, entidade que está desde a primeira hora na luta “contra a corrida ao lítio”, disse que a ação realizada na Serra da Estrela serve para dizer que o país “não precisa desta corrida” a esta exploração e existem alternativas de desenvolvimento.

Claro que cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Será certamente irresponsável embarcar às cegas na febre do lítio que a elevada procura deste metal está a gerar a nível mundial. Faz todo o sentido exigir que se respeitem as melhores práticas, compatibilizando a extracção de um recurso natural imprescindível no futuro próximo com a preservação dos solos, da qualidade da água e dos ecossistemas naturais. Mas há uma enorme incoerência quando, em defesa do clima e do ambiente, se advoga a redução progressiva do consumo de energias fósseis e depois se recusa liminarmente, em nome de valores ambientais, qualquer exploração mineira de lítio no nosso território.

A verdade é que a aposta na mobilidade eléctrica implica a produção de milhões de viaturas equipadas com baterias, cujo componente principal é precisamente o lítio. Ora não sendo este elemento químico abundante no planeta, obtê-lo nas quantidades necessárias implicará a abertura de novas explorações mineiras em locais onde se sabe existir o mineral e ser viável a sua extracção.

Claro que aqui entra a clássica contradição que em inglês ganhou um acrónimo apropriado – NIMBY, not in my back yard. Estamos dispostos a aceitar a mineração do lítio, como no passado aceitámos a coincineração, os aterros sanitários, as estações de tratamento de águas residuais ou até os parques eólicos – desde que não seja ao pé da nossa casa.

O discurso do ecologista do século XXI, que não dispensa o telemóvel, o PC portátil e outros gadgets alimentados por baterias de lítio, não se afasta muito dos preceitos do capitalismo clássico e da sua divisão internacional do trabalho. No fundo o que se pretende é que as populações dos países ricos continuem a usufruir dos prodígios da modernidade, sem arcarem com os custos da sua produção. Que nas áfricas e nas ásias se continue a fazer a exploração barata dos recursos de que necessitamos, para que a nossa paisagem e o nosso estilo de vida se possam conservar inalterados.

Obviamente, não defendo a destruição de parques naturais, reservas ecológicas e agrícolas ou geoparques para que se instalem explorações mineiras um pouco por todo o lado. Havendo valores ambientais e culturais a preservar, é evidente que devemos preservar a nossa maior riqueza a longo prazo, que é o património. Mas convenhamos que a maior parte do nosso território, no interior do país, está longe de constituir um recurso viável para fixar e suster a população.

A desertificação humana, o abandono das aldeias e dos campos, a monocultura do eucalipto, o flagelo recorrente dos incêndios, não são de agora, e dão-nos um retrato realista de uma boa parte do nosso espaço rural: solos pobres, relevo montanhoso, falta de acessibilidades e infraestruturas. Em muitos casos, essa mirífica ruralidade que os ecologistas urbanos querem preservar são hoje cabeços pedregosos e escalavrados ou vastas monoculturas de eucalipto. Lixeiras, edifícios em ruínas, sucatas ilegais, construções clandestinas, pedreiras desactivadas: por todo o país temos exemplos de desordenamento do território que poluem o ambiente e desfeiam a paisagem. O que apenas comprova que, mais prejudicial do que as actividades humanas em si mesmas, é a falta de medidas que mitiguem o seu impacto ambiental. E, quando existem, uma fiscalização rigorosa que imponha o seu efectivo cumprimento.

Compatibilizar ambiente com desenvolvimento sustentável, aproveitamento de recursos com a sua preservação: o caminho pode não ser fácil, mas a verdade é que o actual modelo de desenvolvimento também está longe de promover a fixação de pessoas ou a criação de riqueza em muitas terras do interior, que continuam carentes da instalação de actividades que criem emprego e potenciem a economia local. Mais uma boa razão para se perceber que, também na questão da exploração do lítio, são de todo indesejáveis os fundamentalismos – sejam eles num ou noutro sentido.

A emergência climática segundo Guterres

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, assumiu que a sua geração falhou numa resposta apropriada ao desafio da emergência climática e que compreende agora que os jovens podem e devem liderar esta luta.

António Guterres falava no encerramento da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude 2019, que terminou este domingo em Lisboa, 21 anos depois de um evento semelhante e no qual participou e liderou como primeiro-ministro português.

O discurso redondo de Guterres nunca me entusiasmou. E nem mesmo agora, nas funções de secretário-geral da ONU e falando a propósito da emergência climática, me consegue seduzir.

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A ideia até é, aparentemente, lúcida e generosa. Os políticos da velhas gerações falharam perante os problemas climáticos que ameaçam o futuro da humanidade e da vida na Terra. Em nome da sua geração, Guterres faz o mea culpa – algo relativamente raro de ver nos políticos, seja qual for o seu quadrante – ao mesmo tempo que dirige um voto de confiança às novas gerações.

E porque é que isto não convence? Em primeiro lugar, porque é errado reduzir a emergência climática a um conflito de gerações. Se assim fosse, bastaria dar tempo ao tempo e, à medida que gente nova fosse assumindo responsabilidades nos governos e nos parlamentos, nas universidades e nas empresas, nas fundações e organizações internacionais, uma política ambientalmente responsável e sustentável impor-se-ia naturalmente.

Creio que nem os mais ingénuos acreditarão que isto aconteça. Nem todos os jovens, infelizmente, estão tão sensibilizados como gostaríamos para as causas ambientais. E resolver os problemas de extrema gravidade que hoje enfrentamos, como o aquecimento global, a poluição dos mares, a desertificação ou a perda de biodiversidade implicarão grandes consensos políticos que só se tornarão possíveis com a mobilização de gente de todas as gerações. 

Neste contexto, como interpretar o apelo por vezes quase patético à intervenção dos jovens, para que sejam eles a liderar a mudança climática? Penso que se trata de, perante um problema que os políticos não sabem nem querem resolver, aplicar uma receita intemporal mas quase sempre eficaz: mudar algo para que tudo fique na mesma. A agitação folclórica de umas manifestações pelo clima ou umas conferências pelo ambiente parece ser o pretexto para entreter o pagode, fazendo de conta que algo está a ser feito. Quando tudo o que verdadeiramente importa permanece igual.

A verdade é que, apesar da aparente contundência das palavras de ordem e das acusações, as manifestações pelo clima são inóquas. Dirigem-se palavras duras aos dirigentes políticos, mas a verdade é que as mensagens não acusam nem responsabilizam ninguém em particular. Dá-se por adquirida a superioridade moral dos jovens, acusando os mais velhos que lhes destruíram o planeta e comprometem o seu futuro. Mas como os jovens não mandam, nem irão mandar tão depressa, continuarão os mais velhos a fazer o que sempre fizeram. Tal como os jovens activistas, convencidos de que o seu papel é apenas o de exigirem que os outros façam alguma coisa, não se sentem confrontados com a necessidade de mudarem os seus próprios comportamentos, quando eles se revelam ambientalmente insustentáveis.

Quando uma universidade belga se prepara para atribuir um doutoramento honoris causaGreta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que tem liderado o movimento juvenil, percebe-se que as manifestações pelo clima parecem suscitar ainda mais entusiasmo entre a geração dos poderosos do que entre os jovens que reivindicam um planeta onde consigam viver.

Apagar ou não apagar manuais, eis a questão…

borracha.gifTenho-me abstido de escrever acerca de uma das pequenas polémicas mais acesas nos últimos tempos no mundo da educação: os manuais oferecidos aos alunos que devem agora ser devolvidos às escolas em condições de reutilização, sob pena de terem de ser pagos pelos encarregados de educação. E não tomei posição porque me sinto algo confuso e dividido.

Por um lado porque, como pai e encarregado de educação, participei, de borracha na mão, em várias maratonas caseiras de apagamento de manuais. Como os meus dois filhos têm uma diferença de idades relativamente reduzida, frequentaram as mesmas escolas e, nos seus percursos escolares, não apanharam de permeio nenhuma adopção de novos manuais, sucedeu que quase todos os que foram usados pelo mais velho vieram a ser aproveitados pelo mais novo. E isto pareceu-nos a todos, lá em casa, a coisa mais natural do mundo. Nunca fomos ricos e com ambos os pais a trabalhar a dezenas de quilómetros de distância de casa, com as despesas inerentes, não havia dinheiro a sobrar para despesas supérfluas que se poderiam evitar com uma tarefa que, não sendo propriamente agradável, também não é nenhum bicho de sete cabeças. E que, sendo dividida entre todos os membros da família, não leva demasiado tempo.

Também me faz confusão como nos dias de hoje o discurso dominante acerca da emergência climática e da urgência em adoptar políticas ambientalmente sustentáveis esbarra tão facilmente com a dificuldade que parece representar, para os pós-modernos, a aplicação prática de um princípio que em teoria todos parecem aceitar: reutilizar em vez de deitar fora o que ainda pode ser aproveitado. Alguns mimimis assanham-se nas redes sociais porque não querem ser “criados” de ninguém. Porque é que lhes custa tanto parar um bocadinho de dar ao dedo no telemóvel e agarrar na borracha?…

Há, no entanto, um ponto em que os críticos da reutilização terão razão: relativamente aos manuais do 1.º ciclo. Ao contrário dos restantes, estes não foram concebidos para serem reutilizados: têm espaços para escrever, desenhar, pintar e, nalguns casos até, para recortar. O que me parece pedagogicamente adequado, tendo em conta as especificidades desta faixa etária. Mas faz com que seja impossível, por mais esforços que se façam, restituir um destes manuais ao estado de novo. Aqui seria certamente sensato deixar estes livros às crianças e suas famílias em vez de exigir o esforço inglório de apagar manuais que de qualquer forma não ficarão em condições de ser reaproveitados.

Claro que, em última análise, estas confusões decorrem de políticas mal planeadas. Para começar, o absurdo pacto de regime que se criou em torno da vigência dos manuais. Para quê seis anos, se as legislaturas são de quatro e nenhum governo, até hoje, resistiu à tentação de tomar medidas com implicação directa nos manuais existentes? Se a ideia é reutilizar manuais, como aliás se faz na maioria dos países, é evidente que as actividades e exercícios devem ser feitos, não no próprio livro, mas num caderno à parte. Por outro lado, também não faz sentido decidir que vamos oferecer manuais escolares a toda a gente sem analisar bem as condições da implementação da medida nem fazer muito bem as contas ao que ela irá, efectivamente, custar.

Sobretudo porque, se a demagogia e o eleitoralismo tendem a favorecer quem governa, a factura acaba a ser paga, como sempre, pelos contribuintes…

Emergência climática

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Os jovens estiveram nas ruas de várias cidades do país, nesta sexta-feira, 24 de Maio, em luta por respostas políticas em relação ao estado de emergência climática. Mas, nas escolas, poucos foram os que sentiram a sua mobilização. Apenas duas escolas de Lisboa dizem ter tido faltas “massivas” de alunos por causa do protesto.

O calendário do protesto não terá ajudado à adesão – como, de resto, já antecipavam os directores durante esta semana. Com o ano lectivo na sua recta final, avaliações marcadas e os alunos do 11.º e 12.º anos com exames nacionais dentro de poucas semanas, o “enfoque” da maioria dos estudantes estará sobretudo na escola, entende Júlio Santos, director do agrupamento de escolas do Restelo, em Lisboa.

O movimento global de jovens, mobilizados em torno daquilo a que chamam, com toda a razão, a emergência climática, mostra-nos que não há uma idade mínima para começar a reflectir e a agir em defesa do futuro da humanidade e do planeta em que vivemos. E enquanto alguns retardados ainda se obstinam em questionar a existência real das alterações climáticas, estes jovens já estão noutra: o que está hoje em causa já não é provar aquilo que nenhum cientista sério contesta, mas perceber a necessidade de agir de imediato para suster o agravamento das condições climáticas, antes que as mudanças que já hoje são evidentes tomem um rumo descontrolado e irreversível.

Ainda assim, olho com algumas reticências um movimento que me parece reunir tanto a generosidade que a juventude, quando abraça grandes causas, é capaz de demonstrar, como a ingenuidade de um movimento de protesto que se arrisca a não passar disso mesmo: um extravasar de energias e vontades que se esgota em si mesmo antes que consiga alcançar os seus ambiciosos objectivos.

Antes de mais, não me agrada ver colocar a emergência climática, ou qualquer outra grande causa política e social, na perspectiva de um conflito geracional, de “jovens” contra “velhos”, sendo estes movidos pelo egoísmo e os interesses financeiros, enquanto aqueles agem de forma altruísta como salvadores do planeta. Percebo a eficácia, do ponto de vista mediático, desta polarização. Mas não só detesto maniqueísmos e discursos a preto e branco como entendo a defesa do planeta como uma obrigação de todas as gerações.

Há outra coisa que os jovens que organizam estes protestos – e os menos jovens que os apoiam e incentivam – parecem ignorar: é que a exploração desenfreada dos recursos do planeta é uma consequência do capitalismo globalizado que domina a economia mundial. Um mundo dominado pelo lucro e pela ganância, pela acumulação de riqueza e pelo agravamento das desigualdades. É preciso ter consciência de que, por muitas greves que se façam à sexta-feira, nada mudará enquanto a economia for comandada pelo lucro e não pela satisfação das necessidades humanas de uma forma ambientalmente sustentável.

Não se trata aqui de diabolizar o capitalismo: o seu triunfo permitiu o desenvolvimento de forças produtivas que contribuíram para elevar o bem-estar material da humanidade a níveis impensáveis no passado. O problema é que isso se faz à custa de um impacto ambiental que, se noutros tempos era circunscrito e limitado, hoje coloca em causa a nossa própria sobrevivência, a longo prazo, no único planeta que temos para viver.

Ora aproveitar o que de bom existe no sistema capitalista sem nos deixarmos dominar por ele passa por restabelecer o primado da política sobre a economia. Em vez de desregular e liberalizar, impor normas que controlem os danos ambientais da actividade económica, restringir o uso de combustíveis fósseis e de processos produtivos e os hábitos consumistas altamente lesivos do ambiente.

Hoje como no passado, os grandes poluidores, tal como os grandes exploradores, não modificarão as suas práticas movidos pelo altruísmo ou o bom senso, nem tão pouco por serem invectivados por milhares de jovens cheios de razões e convicções. Mudarão, apenas, quando forem obrigados a fazê-lo. Reconquistar o poder de mudar as coisas, retirando-o das grandes multinacionais e corporações e devolvendo-os aos cidadãos é, assim, o primeiro e indispensável passo para as profundas e necessárias mudanças que os jovens do novo milénio reivindicam. 

Greta Thunberg

As causas ambientais estarão certamente na primeira linha do debate e da acção política ao longo do século XXI. Mais do que confronto de ideias, assumir a absoluta necessidade de reduzir a pegada ecológica da humanidade é determinante para a nossa sobrevivência colectiva e um futuro sustentável do nosso planeta.

Dito isto, parece-me lamentável que as causas ecológicas precisem de recorrer à exposição abusiva de menores, como sucede com a conhecida activista sueca Greta Thunberg. O que vemos na imagem é a jovem a chorar, nitidamente perturbada, no final da sua intervenção no Parlamento Europeu.

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Greta sofre de depressão e de uma perturbação relacionada com a síndrome de Asperger. Uma razão acrescida para ser resguardada da exposição pública a que está a ser sujeita, quase como se fosse um animal de circo. É uma menor que precisa de ser cuidada e acompanhada, não de ser promovida a estrela mediática ou transformada no brinquedo novo de políticos oportunistas e dos media.

Não quero com isto dizer que não devam os jovens exercitar a cidadania activa, compreender os problemas e os desafios que ameaçam o seu futuro e intervir no espaço público em defesa de causas e ideais em que acreditam. Apenas me parece que neste caso se está a ir longe demais, usando e manipulando uma jovem generosa e obsessiva na sua luta ambiental, levando-a a assumir o peso de responsabilidades que não são suas. São, isso sim, dos adultos que se escondem na sua sombra.

Uma greve simpática

Pretensas greves em torno de causas tendencialmente consensuais, como a de ontem contra as alterações climáticas, ou a da semana passada em defesa da igualdade de género e dos direitos das mulheres, sendo iniciativas respeitáveis, têm um risco: contribuem para veicular uma ideia errada do que é efectivamente uma greve e para descredibilizar o exercício de um direito fundamental dos trabalhadores.

Na verdade, perante o genuíno entusiasmo e as sinceras convicções dos jovens unidos na defesa do planeta há um contraste que, subliminarmente, se pode projectar: reparem como a nova geração se une numa greve global por uma causa comum e universal, ao contrário dos malandros dos trabalhadores, que lutam apenas pelos seus interesses egoístas e corporativos…

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Estas greves, simpáticas para os governos porque não trazem consigo exigências concretas, nem têm um destinatário óbvio, nem comprometem sequer os próprios manifestantes a viver em consonância com os princípios que defendem, acabam por ser protestos simbólicos e, quase sempre, inconsequentes. Apesar do indiscutível mediatismo e do agitar de algumas consciências, tendem a cair rapidamente no esquecimento.

E há um sinal claro de que a iniciativa que ontem decorreu foi uma greve “boa”, que não incomodou os governos, nem os patrões, nem outros poderes instituídos: ninguém veio reclamar de mais uma greve marcada à sexta-feira…