A geração do milénio

joana-andrade-vicente.jpgJoana Andrade Vicente escreve no Público sobre os millennials, essa geração da internet que nasceu entre as décadas de 80 e 90 do século passado e entrou na adolescência na viragem do milénio ou já na primeira década do novo século.

Entalados entre o velho mundo analógico que muitos, imersos no digital desde os primeiros anos de vida, mal conheceram, e as prometidas oportunidades do admirável mundo novo que tardam em chegar, estes jovens sentem cada vez mais a incómoda sensação de serem uma geração perdida.

Os primeiros millennials já são agora trintões. Estão na idade de querer casa, carro, emprego estável. Mas poucos são os que têm condições para tal. Aos 30 anos, em Portugal, ainda se é considerado jovem, e grande parte destes ‘jovens’ não tem condições para sequer sair de casa. De acordo com dados do Eurostat, 60% dos jovens entre os 25 e os 29 ainda vive com os pais.

Apesar de se integrarem numa sociedade cada vez mais globalizada e com mais oportunidades (teoricamente), são a geração que mais tem sentido as consequências da grande recessão (entre 2008 e 2012). Não estão perto de se reformar, nem têm um emprego ‘para a vida’ como a geração dos seus pais.

Mesmo os que têm mestrado, um bom curso numa boa faculdade, boas notas e alguma experiência, afirmam que a sua expetativa salarial não ultrapassa os 1.000 euros. E estão dispostos a aceitar 700/800 euros a recibos verdes.

São já lugares-comuns as afirmações de que estes jovens globais, digitais, omnipresentes nas redes sociais e adeptos das compras online, dão mais valor às experiências e à partilha do que à posse de bens, ou que constituem a geração mais qualificada de sempre. Ainda assim, na hora de arranjar emprego, a grande maioria não consegue mais do que trabalhos precários e mal pagos, muitas vezes intervalados com longas permanências no desemprego. Este cenário, comum na maioria dos países europeus, agrava-se entre nós devido aos efeitos da severa e prolongada crise económica que ainda não debelámos por completo. E a autora que venho a citar atribui ainda a falta de oportunidades no mercado de trabalho a um outro factor:

Os sistemas educacionais não providenciam as habilitações adequadas para o mercado de trabalho vigente. Aptidões transferíveis como a comunicação e trabalho em equipa não estão a ser, de todo ou devidamente, ensinadas. Enquanto os jovens estão ansiosos por trabalhar, os empregadores não conseguem encontrar nestes as habilitações que os seus negócios requerem. Isto sugere uma incompatibilidade entre o que os empregadores estão à procura, e o que os trabalhadores têm para oferecer.

Tenho sérias dúvidas de que o problema estrutural do desemprego jovem resida neste défice de qualificações académicas. Por esta lógica, trabalhadores mais velhos haveriam de ser ainda mais penalizados, pois se os actuais universitários, com tantos trabalhos de grupo que fazem e com os quais são avaliados, não sabem trabalhar em equipa, que dizer de gente mais velha, fruto de um sistema bem mais individualista e ainda menos focado nas competências sociais?

As queixas recorrentes acerca da impreparação dos jovens parecem-me mais uma outra coisa: um mercado de trabalho viciado na precariedade, nos baixos salários e na exploração laboral, que tem dificuldade em encontrar trabalhadores com determinado perfil simplesmente porque não quer abrir os cordões à bolsa e pagar mais a pessoas que tenham as qualificações específicas pretendidas.

O resto do problema está num modelo económico que através da informática e da automação vai destruindo emprego a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho. E em políticos que se recusam a encarar a realidade, equacionando uma redução ou uma redistribuição do trabalho, e dos seus rendimentos, de forma a contrariar os desequilíbrios e as clivagens que cada vez mais se acentuam na sociedade pós-industrial.

Analisar questões económicas e sociais complexas da perspectiva do conflito de gerações pode ser aliciante e até ajudar a entender melhor uma parte dos problemas. Mas não é esse o fundo das questões, pelo que será sempre redutor ficarmo-nos por aí…

 

Ser professor na Grécia

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Aula para refugiados

A reportagem do Expresso na Grécia descreve a situação nada invejável dos professores gregos, sobretudo aqueles que, apesar da idade e da experiência, continuam a alternar entre colocações precárias longe de casa e períodos de desemprego.

A professora Vivian Kleideri é formada em Física. Tem 37 anos, dá aulas desde 2007, mas nunca teve um contrato efetivo. Desde 2010, com a chegada da crise, tem assistido a um agravamento da situação para si e para os seus colegas.“Não há qualquer planeamento na educação, o único objetivo é poupar dinheiro”, diz.

Vivian passou os últimos três anos a ser colocada em escolas de várias ilhas gregas, como a de Kalymnos, uma pequena comunidade de 16 mil habitantes, a mais de 400 km de Atenas. Lá, caminhava diariamente mais de 6 km para ir de uma escola do agrupamento para outra: “Não há transportes públicos a toda a hora, como aqui em Atenas… Eu saía de uma aula às 11h da manhã, por exemplo, e só tinha autocarro dali a um bocado, mas a minha outra aula começava entretanto na outra escola. Portanto, tinha de ir a pé.”

É assim a vida de um professor contratado na Grécia. Para além da instabilidade e dos baixos salários (o ordenado de Vivian para 35 horas semanais, por exemplo, nunca ultrapassou os 1000 euros, e o ano passado já foi de apenas 750), soma-se a responsabilidade de vigiar os alunos nos intervalos, já que as escolas não têm funcionários suficientes, e de acumular cada vez mais horas de aulas.

Desde 2009, o número de professores foi reduzido em 34%, com a aposentação dos mais velhos e o despedimento dos mais novos, o que se traduziu numa sobrecarga de trabalho para os que continuam a trabalhar. Pois a natalidade não baixou da mesma forma – pelo contrário, a Grécia tem recebido um número elevado de refugiados, cujos filhos acabam por frequentar também as escolas gregas. Mas a União Europeia vetou a contratação faseada de mais 20 mil professores que o governo pretendia lançar.

Há casais de professores a serem colocados em locais distantes separados da família. E há os que não constituem sequer família perante o cenário de caos e incerteza. Mas há também muitos que gostam de ensinar e se dispõem a fazer todos os sacrifícios por uma profissão que os preenche por completo. E pelos seus alunos, que nem sempre entendem a irracionalidade e a desumanidade do sistema:

“Eles não entendem [porque temos de nos ir embora]. Pensam que vamos para outra escola porque há lá outros miúdos de quem gostamos mais”

 

Entra um, saem dois

Era a regra imposta nos tempos da troika relativamente às admissões na função pública: por cada dois funcionários que saíssem, apenas um poderia ser recrutado. Como todas as regras cegas e estúpidas, sabemos agora nunca foi cumprida, nem mesmo nos anos negros em que vigorou o programa dito de ajustamento.

Relação anual entre as saídas definitivas e o novo recrutamento na Administração Pública foi, no máximo, de 1,6 saídas por uma entrada durante os anos da troika. Desde então, começou a baixar e já está em uma saída por uma entrada.

Como é evidente, se o princípio de redução de pessoal do Estado pode ser uma opção política legítima, a forma de concretização tem de ter em conta as reais necessidades dos serviços. Nalguns casos, até se pode justificar o encerramento de repartições e serviços inúteis e redundantes. Mas noutras situações o serviço público só pode ser devidamente assegurado com a admissão de mais pessoal qualificado.

Sem surpresas, a maior descida ocorreu no grupo que é também o mais numeroso, o dos educadores de infância e professores do básico e secundário: os cerca de 150 mil docentes existentes quando chegou a troika em 2011, passaram a 132.139 no final de 2016. Esta descida foi conseguida essencialmente à custa da aposentação de milhares de professores mais velhos e da não renovação de contratos aos mais novos. Os docentes do ensino não superior continuam, ainda assim, a representar cerca de 20% do emprego público.

Outros grupos numerosos, como os assistentes técnicos, administrativos e operacionais, até mesmo os efectivos das forças de segurança, também sofreram cortes que o governo actual vai, aos poucos, revertendo. Há de facto uma clara inversão de tendência a partir de 2015, como se vê no gráfico estatístico oficial.

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Mas também houve grupos profissionais na função pública onde a crise não chegou da mesma forma: entre os médicos, os magistrados e os professores do ensino superior e, de forma mais moderada, os técnicos superiores, os polícias do SEF ou os enfermeiros, a ordem foi para continuar a recrutar.

Cauteloso, o Ministério das Finanças não respondeu quando lhe perguntaram onde e quantos iria o governo continuar a contratar…

Imposto para robôs

robos.gifAgora que o próprio Bill Gates admite a necessidade de um imposto específico para robôs que substituam postos de trabalho humanos e que o Parlamento Europeu recomenda que se estude o problema e a melhor forma de concretizar a ideia, talvez possamos começar a aceitar o que há muito se tornou evidente: a revolução tecnológica em curso irá suprimir empregos a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho.

O milionário americano acredita que, se um trabalhador paga impostos sobre o seu rendimento, seria de esperar que os robôs que o substituem “fossem taxados a um nível semelhante”. Dessa forma, o dinheiro ganho pode ser utilizado para investir em carreiras onde “a empatia e compreensão humanas ainda são muito únicas”, como o apoio aos idosos ou aos jovens com necessidades especiais, explica. Bill Gates defende ainda que cabe aos governos apoiar os profissionais de baixos rendimentos afetados pela robotização do mercado de trabalho, podendo investir na educação e no aumento de serviços sociais de apoio aos desfavorecidos.

As declarações surgem no rescaldo do envio pelo Parlamento Europeu à Comissão Europeia de um relatório que pede uma maior legislação sobre o setor da indústria robótica e inteligência artificial, que a VISÃO noticiou na edição impressa da semana passada. A eurodeputada socialista responsável pela iniciativa, Mady Delvaux-Stehres, redigiu o documento face a preocupações com a relação entre robôs e seres humanos, e propôs também uma taxa sobre a utilização de robôs, para que se compensasse a perda de emprego resultante do aumento da sua presença. Os fundos seriam então orientados para formar os profissionais desempregados noutras áreas. As máquinas mais sofisticadas poderiam ainda ser consideradas “pessoas eletrónicas”, com um eventual regime de segurança social.

Na passada quinta-feira, 16, o Parlamento Europeu aprovou a resolução, mas não na totalidade. Incluiu o pedido (à Comissão Europeia) de um enquadramento ético para o desenvolvimento e utilização dos robôs e sugeriu a criação de um estatuto jurídico específico que os abranja. Foram mais longe – aqueles que tomam decisões autónomas devem ser classificados como “pessoas eletrónicas”. A iniciativa legislativa pede também a criação de uma agência europeia para a robótica e inteligência artificial.

O imposto sobre as máquinas que substituem os humanos é uma opinião que encontra algum eco pelo resto da Europa. Benoît Hamon, o candidato favorito da esquerda francesa às presidenciais, em abril, também propõe um “imposto sobre a riqueza criada pelos robôs”. Na página oficial da campanha, Hamon justifica esta medida com a redistribuição dos lucros, “que beneficiam essencialmente os acionistas”, por todos os cidadãos, servindo de pilar à sua proposta de uma “renda universal de existência”. Ou seja, um rendimento para todos os franceses.

Num futuro não muito distante – diria mesmo que já começou – a opção será entre taxas de desemprego estrutural da ordem dos dois dígitos ou uma redução generalizada dos horários de trabalho. Ambas as situações conduzem a baixos salários e perda de rendimentos, pelo que serão necessárias novas formas de financiamento para o orçamento crescentemente desequilibrado da segurança social.

Seja na forma dos actuais subsídios, seja na modalidade de um rendimento básico universal que alguns propõem, irá ser preciso muito dinheiro para pagar a inactividade forçada de grande parte da população. Parafraseando o dito de outros tempos, os robôs que paguem a crise!

 

Empreendedorismo é…

blog-do-empreendedor2[1]Uma ideia potencialmente boa que é completamente desvirtuada quando se pensa em dar dinheiro a desempregados para que se tornem empreendedores à força em vez de apostar em quem tem realmente vocação, conhecimentos e ambição de empreendedor.

O Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) já abriu as candidaturas para o NEET (sigla de “Neither in Employment nor in Education or Training” ou nem-nem), um programa com uma dotação de 5 milhões de euros, apoiado por fundos europeus, que visa estimular e apoiar o empreendedorismo.

Na verdade o empreendedorismo resulta muito mais em com adultos qualificados e empregados, com experiência profissional, do que com jovens desempregados e inexperientes. As boas ideias de negócio de que precisamos são sobretudo investimentos que tirem partido do know-how e da implantação no mercado de empresas já existentes, potenciando o seu crescimento, o aumento das exportações e a criação de emprego. Não são pequenos projectos virados para a “comunidade local” onde os desempregados brincam aos negócios uns com os outros e a serem patrões-de-si-próprios até que se acabem os subsídios ou as poupanças familiares.

Também quero crer que quem congemina e promove estas iniciativas não é tão idiota como parece, e sabe bem que o objectivo inconfessado disto tudo é promover o consumo interno por conta do dinheiro europeu, que aqui entra a fundo perdido, e abater, ainda que provisoriamente, uns milhares de jovens “empreendedores” à lista dos desempregados.

Galinha gorda por pouco dinheiro

calimeroFatal como o destino: quando o mercado laboral dá tímidos sinais de recuperação face aos números avassaladores do desemprego alcançados no período da troika austeritária, lá recomeça o choradinho das empresas que não conseguem contratar os trabalhadores pretendidos.

Claro que sempre foi comum o discurso do “não querem trabalhar”, apoiado em relatos de empregadores que se queixavam de terem muito trabalho por fazer e “não haver quem o queira”. Ia-se a ver e eram geralmente empregos precários, pagos miseravelmente ao dia ou à hora, trabalhando de manhã à noite em condições insalubres ou expostos às intempéries.

Mas não é disto que nos fala a notícia do Expresso. É de empresas que procuram atrair profissionais experientes, altamente qualificados e que já têm emprego. E que agora, e cada vez mais, notam que estes preferem conservar o lugar que têm, mesmo não estando completamente satisfeitos, do que arriscar a mudança de patrão. A principal razão para assim suceder parece-me óbvia, embora seja daquelas coisas que certo tipo de empresários mostram extrema dificuldade em compreender:

Há cada vez menos portugueses qualificados, e no ativo, com vontade de mudar de emprego e a culpa é dos salários que as empresas estão dispostas a oferecer. No último ano, segundo as contas do Guia do Mercado Laboral 2017, o estudo anual da consultora de recrutamento Hays que pormenoriza as tendências do mercado de trabalho qualificado em Portugal, 53% dos profissionais portugueses rejeitaram novas propostas de trabalho, mais 6% do que em 2015. Em 49% dos casos, a recusa teve como base um pacote salarial pouco atrativo. Turismo e Tecnologias de Informação são, segundo Paula Baptista, diretora-geral da Hays Portugal, as áreas mais críticas em termos de recusas de ofertas de emprego com 76% e 64% de recusas registadas no último ano, respetivamente.

A isto chama o povo, apropriadamente, querer galinha gorda por pouco dinheiro. Não querem investir na formação dos seus próprios trabalhadores, nem apostar em jovens recém-saídos das universidades. Querem aproveitar-se da experiência adquirida por trabalhadores qualificados em empresas concorrentes. E são forretas nos salários oferecidos, ficando provavelmente à espera de seduzir futuros colaboradores com as tretas habituais do desafio de abraçar um novo projecto, de vestir a camisola, de integrar uma equipa especial de corrida.

Como é natural também, as recusas em mudar de emprego quando a proposta não é suficientemente boa para se tornar irrecusável são mais frequentes nos sectores que mais têm criado emprego ultimamente, o turismo e a informática, e onde, por esse motivo, a possibilidade de escolha, por parte dos trabalhadores, também é maior.

Aparentemente, há uma cultura empresarial ambiciosa – ou apenas gananciosa – que mostra dificuldades em lidar com o facto natural e evidente de que os trabalhadores também têm os seus próprios interesses e ambições.

E o talento para contratar bons colaboradores não se evidencia da mesma forma quando a taxa de desemprego desce, nalguns sectores da actividade económica, a valores quase residuais, como quando ultrapassava, nos anos mais negros da crise, os 15% no conjunto da economia.

Uma economia sem trabalho

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Já me tinha parecido que o admirável mundo da nova economia que nos andam a preparar haveria de ser este, mas ainda não o tinha visto escrito com esta clareza, preto no branco, pelos defensores do sistema:

Haverá sempre necessidade de um pequeno núcleo duro de trabalhadores essenciais, talentos com grande procura e lugares de administração sénior, que as empresas pretenderão preencher com empregados a tempo inteiro, por motivos de qualidade, consistência e continuidade. Porém, fora desse núcleo duro, as empresas deparam-se com poderosos incentivos económicos e de mercado para manter baixo o número dos seus empregados a tempo inteiro. A melhor estratégia que os meus estudantes podem seguir é prepararem-se para serem trabalhadores independentes, não empregados a tempo inteiro.

Como ainda não inventaram humanos que só comam de vez em quando, rendas e prestações de casas que se paguem só nos meses em que tem trabalho ou filhos que se possam manter ou descartar à medida das disponibilidades financeiras, tenho as maiores dúvidas acerca da viabilidade de um mercado de trabalho baseado na precariedade, no desemprego e no subemprego de uma parte cada vez maior da população activa. Sobretudo quando, com excepção de um punhado de profissões de elite, a regra para os restantes tende a ser o alinhamento pelo salário mínimo.

É mau para as pessoas, que não conseguem auferir rendimentos suficientes para uma vida independente, mas também para a própria economia capitalista, baseada na produção e no consumo em massa: se não há dinheiro para comprar o que se precisa, as empresas não vendem os seus produtos. As sucessivas crises de superprodução, cada vez mais intensas e prolongadas, aí estão para demonstrar que o capitalismo não se regula sozinho, apenas produz uma crescente desigualdade social, o esmagamento das classes médias e a concentração da riqueza, à escala global, num número cada vez mais restrito de famílias e indivíduos.

Ao contrário de anteriores revoluções económicas e tecnológicas, que destruíam empregos tradicionais mas também os criavam em novas profissões, a Quarta Revolução Industrial configura-se cada vez mais como inimiga do trabalho humano: os robôs, os drones, os veículos automáticos tomam o lugar dos trabalhadores produtivos, enquanto a internet, os computadores e os sistemas informáticos permitem dispensar muitos profissionais no sector dos serviços.

E num mundo onde deixa de haver trabalho para todos – já hoje não existe! – não faz qualquer sentido querer escravizar os poucos que o conseguem obter, amarrando-os a jornadas laborais longas e intensivas. Ou descartando-os para a economia do biscate onde proliferam as uberes, as empresas de trabalho precário e a economia informal. E que aliena também os que ficam eternamente desempregados, os não-competitivos que não conseguem emprego e ficam dependentes da ajuda familiar, dos subsídios estatais ou da caridade privada – um fenómeno típico das sociedades pré-industriais ou dos primórdios da industrialização, que agora vemos renascer na multiplicação de instituições privadas de solidariedade social.

Soluções para isto? Tem de haver, e basicamente passam, ou por reduzir drasticamente os horários de trabalho, de forma a criar emprego para todos, ou por instituir um rendimento básico universal que permita desligar o trabalho daquela que tem sido, desde o aparecimento da economia produtora, a sua principal razão de ser: garantir a subsistência dos trabalhadores.

Qualquer das opções tem custos e dificuldades na sua implementação, sobrando sempre um problema básico a resolver: a necessidade de encontrar um modelo de financiamento do Estado que substitua a tributação excessiva que hoje se faz dos rendimentos do trabalho e a tributação quase nula dos rendimentos do capital imposta pelas regras do capitalismo globalizado.

Mas a coisa até seria simples: se os trabalhadores são substituídos por máquinas, estas devem a pagar a reforma dos trabalhadores que deixaram de ter trabalho. Na verdade, é a única coisa sensata a fazer, e o que se demora a perceber isto apenas demonstra o quão intoxicado está, o pensamento ocidental, pelos dogmas neoliberais.