Dois testes por período? Não está escrito em lado algum!

fne-andaep-confap.JPGQuem o lembrou foi o próprio secretário de Estado da Educação. Prestes a entrarmos no último e decisivo momento de avaliação do ano lectivo, a mensagem do governante que surge como o principal promotor do sucesso educativo é clara:

O secretário de Estado da Educação frisou que é preciso pensar o desafio da finalidade da escola e que o objetivo da avaliação é aprender melhor. As consequências disto são o recentrar a avaliação no formativo, ter uma avaliação sobre todas as áreas do currículo, termos práticas de avaliação contínua e sabermos dar um bom estímulo à diversificação dos instrumentos de avaliação. “Avaliar só para testes é redutor”, afirmou. “E não está escrito em lado algum que deve haver dois testes por período”. Se queremos uma escola inclusiva, reconheceu João Costa, “os instrumentos de avaliação devem também ser inclusivos”.

Mas o sinal mais evidente da mudança de ventos foi dado, no evento organizado pela FNE, a CONFAP e a ANDAEP, pelo presidente do IAVE, Hélder Sousa. O rigoroso examocrata dos tempos de Nuno Crato mostra-se agora convertido às causas eduquesas da avaliação formativa, preocupado com as injustiças do sistema, com o excesso de testes e com os alunos que, “por uma décima” se vêem impedidos de perseguir os seus sonhos no ensino superior.

“Temos um sistema que não funciona”, começou por afirmar o Presidente do IAVE, e uma escola muito refém de conteúdos e muito condicionada pelo manual escolar. Em sua opinião, é urgente a mudança de paradigma na avaliação, até porque a maior prisão que os professores têm “é dar o programa”. O novo paradigma tem forçosamente que passar por uma avaliação mais formativa e mais contínua, libertando-se do peso excessivo dos testes, que são instrumentos que nem sempre são os mais corretos.

O Presidente do IAVE referiu que temos que acabar de uma vez por todas com “a semana de congestionamento de testes” nas escolas e lamentou que a construção de instrumentos de avaliação não faça parte da formação inicial dos docentes. Para Helder Sousa a mudança na avaliação terá que ultrapassar os constrangimentos do currículo, um secundário dependente do acesso ao ensino superior e uma avaliação de desempenho que vise estigmatizar os professores, não contribuindo para a melhoria das suas práticas pedagógicas em sala de aula e para o seu domínio científico.

Helder Sousa apresentou novos modelos de acesso ao ensino superior e acabou por admitir que “é demolidor, desumano e inaceitável que um aluno não entre na faculdade por uma décima”. Por outro lado criticou as escolas que começam logo no 1º ciclo a fazerem baterias de testes de exames, sugerindo que em vez disso poderiam treinar os seus alunos nos diferentes tipos de perguntas. “Mudar é uma tarefa em comum”, realçou. “E a educação é o maior património social e económico de um povo.” Por isso, não pode haver boa educação sem uma avaliação de qualidade.

Alguém que informe o sr. presidente que nenhuma escola faz os testes todos numa semana. E que, qualquer que seja o sistema de acesso ao ensino superior, basta haver mais candidatos do que vagas para que possa haver alunos a não conseguir, por uma décima, entrar no curso pretendido.

O resto é apenas a incoerência e o oportunismo evidente de quem confessa, agora, que eram erradas todas as políticas que ajudou a implementar nos últimos anos. Se os professores davam aos seus alunos baterias de testes ou faziam treinos intensivos para os exames era porque essas eram as práticas promovidas pelo anterior governo, que encontrou no IAVE de Hélder Sousa um fiel serventuário.

A confusão instalada

exercise1.gifJá se percebeu que é melhor começar a encarar as provas de aferição às expressões, no 2º ano, mais como um diagnóstico das carências das escolas e das incongruências do sistema educativo, do que como séria avaliação das competências adquiridas pelas crianças.

Sendo verdade que boa parte dos alunos não aprendeu nem praticou, ao longo do ano, as actividades que agora irão ser chamados a executar, então a prioridade não poderá ser avaliar se fazem bem aquilo que a escola não lhes ensinou. Tem de ser, isso sim, garantir que o currículo nacional é cumprido em todas as escolas portuguesas.

A partir desta terça-feira e até dia 9 pode haver alunos de 1.º Ciclo sem aulas ou com alterações “substanciais” nos horários devido às provas de aferição a Expressões, que vão ser feitas por cem mil alunos do 2.º ano. Os alunos do 2.º Ciclo também podem ter “furos” devido à afetação dos seus professores para acompanharem as provas.

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, garante “ser impossível” as escolas assegurarem a realização das provas sem alterar o dia a dia dos alunos, conforme pedido pelo Ministério da Educação. O problema será maior, explicou, em agrupamentos de menor dimensão, especialmente nas escolas de 1.º Ciclo com turmas mistas. Haverá alunos que terão de ser deslocados para outras escolas, devido à falta de condições para realizarem as provas.

A maioria das escolas não possuia, há um mês, todos os equipamentos necessários. “Na sexta-feira, ainda andavam a ser distribuídos bancos suecos”. Apesar disso, garante Manuel Pereira, “as provas vão realizar-se com alguns ajustamentos imaginativos – se não houver bancos suecos, haverá cordas”. O presidente da ANDE assume que as provas de aferição, que se realizam pela primeira vez a Expressões, irão testar “a falta de condições das escolas de 1.º Ciclo”.

A Confederação Independente de Pais considera que estas provas estão “cheias de imprecisões” devido a estes problemas. “Trata-se de uma prova cheia de imprecisões porque, afinal, muitos alunos vão ter que se deslocar para outra escola e muitos dos nossos filhos não tiveram durante o ano aulas de exercícios físicos”, lê-se no comunicado.

Feito!

Terminadas as avaliações do período, entramos na, julgo que inteiramente merecida, pausa lectiva. Ou, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, em férias da Páscoa. Que oficialmente, para os professores, não são férias.

Pessoalmente, creio que as muitas horas que trabalhamos a mais, nestas últimas semanas de cada período, nos dão bem o direito à meia dúzia de dias sem alunos nem tarefas na escola que sobram depois das avaliações terminadas.

Parece, contudo, que nem todos têm a mesma sorte. Que também há por aí um ou outro director que consegue esticar o período das avaliações de forma a obrigar os malandros dos professores a terem reuniões ainda na próxima segunda-feira…

Ah, o consenso!

estatistica.gifAs reservas mostradas pelo Conselho Nacional da Educação (CNE) sobre várias das alterações no acesso ao ensino superior podem fazer cair a proposta que está em discussão desde o final do ano passado. Em declarações ao PÚBLICO, o ministro Manuel Heitor afirma que “não toca no assunto” se não houver consenso sobre a matéria. Num parecer aprovado, esta segunda-feira, no seu plenário, os conselheiros consideram ser necessária “reflexão acrescida” da medida que prevê uma correcção das médias dos alunos que estudam em escolas que atribuem notas desalinhadas face aos resultados que estes conseguem depois ter nos exames nacionais.

Outra das alterações propostas pelo CNE, segundo o seu presidente, David Justino, preconiza que a conclusão do ensino secundário seja a “condição mínima” de acesso ao ensino superior, deixando cair a “barreira dos 9,5 valores”, que actualmente a nota mínima para a candidatura ao ensino superior.

Resolvem-se bem os problemas, quando dizem respeito ao ensino superior. Como em temas polémicos nunca há “consenso” e a autonomia universitária, ao contrário da das escolas básicas e secundárias, é para levar a sério, a solução é deixar tudo como está.

O problema de que falamos, recorde-se, é o das injustiças no acesso ao ensino superior. Algumas escolas, nomeadamente certos colégios privados bem conhecidos do norte do país, atribuem classificações internas altamente inflacionadas, de forma a favorecer os seus próprios alunos, que obtêm assim uma vantagem injusta na competitiva luta pelas vagas em Medicina e noutros cursos superiores com média de entrada elevada.

Não se podendo colocar um inspector em cada conselho de turma das escolas em causa, uma forma de minimizar o problema seria através de um algoritmo que corrigisse as notas dos alunos dessas escolas com base nos desvios estatísticos. O manancial de dados que tem sido recolhido nos últimos anos e o know-how acumulado pela DGEEC nesta matéria permiti-lo-ia fazer sem dificuldades. Mas claro que isso iria dar cabo de alguns negócios altamente lucrativos e destruir as elevadas expectativas de quem pagou para obter resultados. E o CNE é sensível a estas coisas, ainda que não o admita explicitamente, recomendando “reflexão”, que é a forma hipócrita de deixar tudo na mesma, cultivando o imobilismo que só é defeito quando o podemos criticar nos outros.

Aliás, invocando a autonomia das escolas secundárias e das universidades, propõe medidas que agravariam ainda mais o problema: reduzir o peso dos exames nacionais no acesso ao ensino superior – o que aumentaria ainda mais o peso de notas internas inflacionadas – e permitir a entrada na universidade a alunos com notas negativas nos exames nacionais.

A verdadeira autonomia universitária, a que responsabiliza a Universidade pela selecção dos seus alunos, em vez de se pendurar no trabalho dos professores “não superiores” e no “computador do ministério”, essa é que tarda em ser posta em prática: nem as universidades a querem, nem o CNE, tão assertivo noutras matérias, se atreve a defender.

De que século é o exame de condução?

driver.gifNão sei se é apenas impressão minha, mas noto nos professores espanhóis, que tenho andado a ler mais ultimamente, um sentido crítico e uma ironia corrosiva em relação às modas e aos desmandos que também vão campeando pela Educação no país vizinho.

E enquanto por cá a resignação e o desânimo muitas vezes prevalecem, por lá vou encontrando com facilidade, por exemplo no Twitter, colegas desassombrados e imaginativos que flagelam certeiramente as teorias de políticos e gurus da educação, não se intimidando com os lustrosos currículos de gente que há muito deixou de frequentar as salas de aula.

O pequeno texto que transcrevo a seguir foi traduzido e adaptado de uma série de tweets de ProfeJander e parte de uma ideia simples: e se aplicássemos algumas das teorias educativas da moda ao ensino e à avaliação da condução?

E os profes das escolas de condução, como é? Ninguém se mete com eles?
Porque… como é isso de um exame de condução igual para todos?
E a atenção à diversidade? Mas que avaliação do século XIX é essa?
Não podiam fazer exames parciais?

Não poderia a rapaziada trabalhar colaborativamente e apresentar, sei lá, um mural, a página web de uns travões, ou algo assim?
Não lhes vamos valorizar a atitude? Que tragam o material, que estejam atentos na aula, a assiduidade?

Vamos pôr nas mãos de uns tipos que apenas fizeram um exame máquinas de uma tonelada que andam a 200 km/h assim, sem mais?
Não vamos assegurar-nos da sua aprendizagem com um visual thinking, uma mindfulness, um miserável coaching? É “aprende isto” e já está?…

Classificações internas no secundário: o que nos dizem as estatísticas

dgeec.JPGUm estudo estatístico recente da DGEEC, sobre as classificações internas no ensino secundário, apresenta-nos algumas comparações interessantes entre cursos e subsistemas de ensino, com base na evolução dos resultados obtidos ao longo dos últimos anos. Os gráficos permitem mesmo desconstruir algumas ideias feitas acerca da avaliação dos alunos do secundário e, mostram como o sistema está longe de valorizar de forma equitativa o esforço dos estudantes e, mais preocupante, de garantir equidade e justiça no acesso ao ensino superior. Algo que já se sabia, aliás, mas que uma vez mais se vê, infelizmente, confirmado.

1. Os resultados dos exames não são indicadores fiáveis das aprendizagens dos alunos. Desde 2007 a 2016 as médias dos exames (CE) registam grandes oscilações, sem correspondência com os valores, mais estáveis, das classificações internas (CIF). O que se vê no gráfico são duas linhas com fortes oscilações e sem um padrão definido, que nos revela apenas em que anos as equipas que fazem os exames nacionais realizaram uma prova mais fácil, difícil, ou assim-assim…

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2. Os alunos de Humanidades são prejudicados nas classificações internas. E isso vê-se porque depois tiram, em média, melhores notas nos exames do que os alunos com idênticos resultados de frequência do curso de Ciências e Tecnologias. O mito de que os bons alunos vão para Ciências e os maus vão para as Humanidades não será, em parte, uma construção criada a partir das expectativas das escolas, dos professores e, eventualmente, dos próprios alunos?

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3. As escolas privadas tendem a inflacionar as classificações internas dos seus alunos, proporcionando-lhes médias finais, na conclusão do secundário, que os favorecem em relação aos colegas do ensino público.

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4. O favorecimento extremo aos alunos do privado restringe-se a um conjunto relativamente reduzido de 15 a 20 escolas, onde as notas chegam a ser entre 1,5 a 2 valores mais elevadas do que a média que seria expectável ao comparar com os resultados de alunos semelhantes nos exames nacionais. É a diferença entre um colégio que coloca dezenas de alunos em cursos como Medicina e uma escola pública onde alunos tão bons ou ainda melhores ficam a umas décimas da entrada no curso pretendido.

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5. No norte do país há mais competição no acesso ao ensino superior e as escolas são tentadas a inflacionar as notas dos seus alunos. Comparando quatro dos concelhos mais populosos de Portugal, dois a norte e outros dois no sul, a diferença de médias da CI é bem visível e, não sendo de agora, esta tendência tem-se acentuado.

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6. A disparidade de resultados entre o Norte e o Sul é fortemente induzida pelas práticas avaliativas de alguns colégios. Retirando o ensino privado e fazendo a comparação apenas com as escolas públicas as diferenças subsistem, mas são muito menos significativas.

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O que deve constar numa pauta?

proteccao-dados.JPGSegundo a Comissão Nacional de Protecção de Dados, apenas o ano, a turma, o nome de cada aluno e as respectivas classificações.

As faltas dos alunos, informação aparentemente inócua e que sempre constou das pautas de avaliação, devem ser omitidas.

Ora, a fim de cumprir o objetivo de publicitar as classificações em pauta, a escola deve apenas identificar o aluno, o ano, a turma e a respetiva classificação por disciplina. Não há qualquer necessidade de introduzir nessa pauta informações adicionais, tais como as faltas do aluno, a existência de eventual apoio social escolar ou outra informação que, existindo na ficha individual do aluno ou noutros registos, é excessiva para a finalidade de afixar as classificações.

E como divulgar os resultados da avaliação?

A tradicional afixação de pautas tem vindo a ser complementada com a sua publicação no site da escola onde são mais facilmente acessíveis ou, mais prudentemente, na página do Moodle ou semelhante, de forma a serem acedidas apenas pelos membros da comunidade escolar.

Mas esta exposição é considerada excessiva: a CNPD não quer que as pautas sejam publicadas na net e a única possibilidade que admite é a de um acesso reservado mediante o qual o aluno ou o encarregado de educação acede apenas à informação que lhe diz respeito, e nunca à dos colegas da turma ou da escola.

Não se favorece, neste âmbito, uma hipótese de transpor as pautas físicas para pautas digitais, pois a facilidade de copiar ficheiros eletrónicos, manusear a informação neles contida e poder conservá-la ou utilizá-la posteriormente, quando estão em causa dados da totalidade dos alunos, mesmo que pertencentes apenas a uma turma, por outros encarregados de educação, afigura-se excessiva e sem cobertura legal.

Estas e outras normas constam de uma deliberação da CNPD datada de Setembro de 2016, dedicada especificamente à protecção dos dados pessoais dos alunos e que pode ser consultada no site da comissão.

O que terá escapado à CNPD foi a necessidade de uma divulgação adequada do documento junto das escolas, já que muitas, eventualmente a maioria, não se aperceberam das novas orientações e só agora andam, apressadamente, a recolher pautas ou a refazê-las de forma a cumprir a deliberação em vigor.