Colaborações: ComRegras

No Topo: Mais psicólogos nas escolas

Uma das carências mais sentidas actualmente nas escolas portuguesas é a falta de psicólogos, que com o alargamento da escolaridade obrigatória e a aposta numa escola mais inclusiva e na intervenção precoce, passaram a ser cada vez mais solicitados para uma grande variedade de tarefas. E, na maioria das escolas, a não serem suficientes para a quantidade, a gravidade e a morosidade das situações em que são chamados a actuar…

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No Fundo: As exclusões no concurso de professores

Quando já aguardavam, a todo o momento, que saíssem as listas de colocação nos quadros de escolas e agrupamentos, os professores foram surpreendidos com a notícia de que haveria candidatos a serem excluídos devido a irregularidades na candidatura. Na maior parte dos casos, devido a contagens incorrectas do tempo de serviço…

Reprovar é “regredir 4 meses na aprendizagem”

Verdasca 2Julgava que reprovar era repetir, não quatro meses, mas um ano de escolaridade compelo. Mas se quem o diz é José Verdasca, o comissário político do governo para a redução do insucesso escolar, quem sou eu para o contrariar…

O coordenador do PNPSE explica a sua ideia em entrevista à TSF:

Chumbar não é “eficaz e, pelo contrário, tem efeitos negativos”.

O responsável dá o exemplo, frequente, de alunos que acabam uma disciplina com 3 valores, chumbam e no ano seguinte não passam do 2 porque “desmotivaram ou perdem autoconfiança”.

Além de não ser eficaz, Verdasca argumenta que chumbar custa muito dinheiro ao Estado e quem fica para trás são quase sempre os filhos das famílias pobres, pouco escolarizadas ou do Interior.

Começo por colocar reservas em relação a este “ficar para trás”, expressão mais habitual na ideologia educativa da direita e que tem subjacente a ideia de que, passando de ano os alunos que não adquiriram as bases mínimas para novas aprendizagens, estamos a fazê-los “andar para a frente”, combatendo de uma assentada a pobreza, a interioridade e a baixa escolarização das famílias.

Por outro lado, se “chumbar” é sempre mau, porque é que o governo não decreta o fim das retenções em todo o ensino básico, como já se faz há muitos anos no 1º ano de escolaridade? Verdasca não cai nessa esparrela, que retiraria argumentos políticos a este governo e aos que lhe sucederem para pressionar e responsabilizar as escolas e os professores pelo insucesso dos alunos. Quer-se que os alunos passem de ano, mas não que se diga, caso passem sem saber, que a culpa é do governo.

As reprovações devem ser, no fundo, evitadas ao máximo com medidas preventivas que são sempre mais baratas. Por exemplo, medidas como turmas mais pequenas quando se deteta um estudante em risco, assistentes em sala de aula, trabalho com as famílias ou mesmo um professor específico que usa um método de leitura adequado a cada aluno.

E meios para fazer tudo isto? Aqui entram os planos de acção estratégica, que tentam responder a esta ambição governamental que é também  o desejo de todos os professores, que os seus alunos tenham sucesso. Contudo, e pelo que se vai sabendo, a distância entre os recursos solicitados e aquilo que é efectivamente concedido não convida a excessivos optimismos.

Com mais meios, há mais sucesso

logo_amarelo_transparente.gifPlanos alternativos impulsionados pelo governo madeirense, dividiram alunos de duas escolas em turmas de acordo com o histórico de desempenho académico. Número de retenções caiu a pique e as notas mais altas subiram.

A taxa de retenção do 7.º ano, o único abrangido pelo programa, fixou-se nos 2,9%, contra os 20,8% verificados no ano lectivo anterior. Verificou-se também uma melhoria generalizada nas notas das cinco turmas do projecto: 34% dos alunos atingiu o nível 4 (apenas 13% em 2014/2015) e 6% terminou o ano com 5 valores (tinham sido 2% no ano anterior).

Na apresentação dos resultados do programa Caniço Mais, desenvolvido ao longo deste ano lectivo na escola madeirense do Caniço, não encontro grandes evidências de que o sucesso deste projecto dê razão à Secretaria Regional de Educação da Madeira, que com ele pretendia contestar a tese “politicamente correcta” de que todos os alunos podem aprender todas as matérias, nas mesmas condições e com os mesmos ritmos de aprendizagem.

Na prática, o que se fez foi construir turmas de 15 alunos, colocar nelas os alunos com mais dificuldades e introduzir pares pedagógicos nas disciplinas estruturantes de Português, Matemática e Inglês. E em vez de aulas de apoio para alunos mais fracos, pouco motivadoras e eficazes, apoio na sala de aula e ensino mais individualizado.

Estas medidas tiveram o mérito de diminuir o insucesso, tradicionalmente elevado no 7º ano em todo o país, para níveis residuais. O que significa que afinal de contas os alunos aprenderam todos ao mesmo ritmo, mas de formas diferentes e com mais ou menos recursos e apoios, consoante as necessidades.

O que o projecto madeirense mostrou foi que, com turmas mais pequenas e mais apoio aos alunos – coisa que não se consegue com um professor sozinho numa sala com 30 alunos – o sucesso escolar aumenta significativamente.

Obrigado por terem avisado, que por cá não imaginávamos que fosse possível.

Mais rapazes com NEE

Os rapazes continuam em maioria entre os alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), com uma proporção que, em 2015/2016, está nos 62,2%, segundo revelam dados preliminares divulgados recentemente pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. No presente ano lectivo, o número de alunos com NEE que estão a estudar em escolas regulares é de 79.077 e destes 49.221 são rapazes.

educacion%20inclusiva%20correcta[1]A hipótese colocada na notícia do Público para justificar a desproporção dos números é a de que talvez as necessidades educativas especiais, que servem para justificar apoios educativos individualizados ou adequações no currículo ou na avaliação, estejam a ser usadas como resposta a problemas de comportamento, motivação ou integração escolar. Verdade ou não, o certo é que os alunos com NEE estão a aumentar de ano para ano, o que também é devido, em parte, ao alargamento da escolaridade obrigatória.

De uma forma ou de outra, há uma realidade que parece indesmentível: é necessário apostar mais no diagnóstico precoce das dificuldades de aprendizagem e investir nas estruturas de apoio de que necessitam, tanto os alunos com carências mais graves e permanentes como os que, sendo devidamente ajudados, podem superar os seus problemas nos primeiros anos de escolaridade, de forma a conseguirem um percurso escolar bem sucedido.

A solução destes problemas exige mais professores, psicólogos e técnicos especializados, turmas mais pequenas sempre que necessário, respostas educativas diferenciadas e ajustadas às necessidades de cada um dos que mais precisam: dito assim até parece fácil, fazê-lo bem feito exigirá o esforço de todos nós, desde quem comanda o ministério até aos profissionais que dão o seu melhor, todos os dias, nas escolas.

O financiamento da educação especial

É daquelas discussões em que, como bem assinala a notícia do DN, os papéis parecem invertidos: o governo de direita “nacionalizou” os apoios educativos especializados a crianças com necessidades educativas especiais, integrando-os nas escolas públicas, onde são prestados por psicólogos e terapeutas dos Centros de Recursos para a Inclusão (CRI). E agora o Bloco de Esquerda quer “liberalizar” a prestação destes serviços, fazendo com que o Estado pague às famílias para que estas os possam contratar a entidades privadas.

A explicação é dada ao DN por Joana Mortágua, do Bloco, uma das autoras do projeto de resolução: a decisão do anterior governo, diz, esbarrou na realidade da falta de capacidade de resposta da rede existente. E muitas crianças, regra geral “as mais carenciadas”, acabaram por perder por completo – ou pelo menos ver drasticamente reduzido – o acompanhamento que recebiam até então: “A nossa opinião é que as escolas devem ter todas as capacidades e recursos de que as crianças necessitam”, ressalva. “O problema é que não têm. E no anterior governo, acharam que resolviam alguma coisa retirando o subsídio a milhares e milhares de crianças.”

A proposta do Bloco de Esquerda teve o apoio do PS no tempo em que este partido estava na oposição. Resta saber se, agora que está no poder, e perante uma medida que implica aumento de despesa, mantém a mesma opinião. Caso seja aprovada, será ainda necessário repensar o modelo de financiamento: é que ao entregar o dinheiro às famílias, muitas delas carenciadas, este era frequentemente gasto em despesas consideradas mais urgentes e os técnicos não eram remunerados pelo seu trabalho. Ou recebiam tardiamente. Ou então ficavam as próprias crianças sem receber os apoios, quando os prestadores dos serviços se fartavam de trabalhar de graça.

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Nenhuma destas situações é desejável, pelo que se espera que, havendo consenso político para melhorar o apoio educativo aos alunos que dele precisam, surja também o necessário bom senso para encontrar as soluções mais equilibradas em defesa, tanto dos direitos dos alunos, como dos profissionais ao seu serviço.

Reuniões de avaliação – II

PAPIE os PAPIs?

Já não são obrigatórios para “chumbar” os alunos.

Não servem para nada: deve dar-se aos alunos o que notamos que eles precisam e lhes podemos dar, no momento em que é necessário, independentemente de se ter preenchido a papeleta.

Porque é que perdemos tanto tempo com isto?

Ainda os cortes na educação especial

886[1]O corte de 30 milhões de euros na educação especial teve hoje direito a reportagem na edição impressa do JN e as televisões pegaram no assunto.

Claro que com as contas feitas à moda do MEC, dividindo os 78 mil alunos por 6200 professores, obtém-se um rácio aceitável. Só que no terreno as coisas não funcionam assim: nalgumas escolas isto dá um docente para 25, 30 ou mais alunos. Nem todos têm as mesmas necessidades de apoio, argumenta o MEC. Correcto, só que quando assim se reduz o número de professores necessários não há forma possível de gerir de maneira a que cada aluno tenha aquilo que precisa e a que tem direito. E que é decidido, não em função da grelha de Excel de um qualquer decisor ministerial, mas de acordo com a avaliação especializada a que cada aluno é submetido.

Tão ou mais grave do que a falta de professores nalgumas escolas é a carência de técnicos especializados fornecidos pelos CRIs e onde também houve cortes, o que põe em causa a continuidade do bom trabalho de psicólogos, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas destas instituições nas escolas portuguesas.

Sobre todos estes assuntos têm falado os pais, os responsáveis pelos CRIs, os professores e os sindicatos que os representam, os directores escolares. Apenas não se ouve uma palavra dos responsáveis do MEC, que apenas mandam dizer que não é verdade o que andam a dizer, que está tudo a funcionar bem, que não houve cortes, que os problemas pontuais que possa haver serão solucionados e coisas do género. Mas oficialmente ninguém presta declarações.

Ora eu acho há muito tempo que isto faz parte do timbre do ministro Crato e da sua equipa incompetente, um estilo low profile que é apenas a expressão da cobardia política que sempre demonstraram, o atirar a pedra escondendo a mão. Também se percebe que está uma campanha eleitoral a decorrer, que Nuno Crato há muito desbaratou a boa imagem que já teve entre os professores portugueses, que os seus secretários gostam pouco de estar debaixo dos holofotes e que todos foram aconselhados a não aparecer em público para não acirrar os ânimos. Mas mesmo assim é inadmissível que o ministro que em vésperas de sair anda a publicar decretos que comprometem a política educativa e a acção do futuro governo para os próximos dois ou três anos, porque considera estar na plenitude das suas funções, se recuse a vir a público esclarecer os cidadãos sobre os problemas pelos quais o seu ministério é directamente responsável.