Não se pode criticar a Altice?

O primeiro-ministro, António Costa, criticou a Altice no debate do estado da nação, em vésperas da empresa comprar a TVI, mas deixou também um desabafo que tem outro peso quando é dito por um primeiro-ministro: “Por mim, já fiz a minha escolha da companhia que utilizo”.

No debate do estado da nação, o primeiro-ministro disse ainda temer que a PT “acabe por transformar este caso num caso Cimpor, com um novo desmembramento que ponha não só em causa os postos de trabalho, como o futuro da empresa”.

No último debate parlamentar em que tomou parte, António Costa foi um pouco mais longe do que costuma ser habitual em declarações de um PM visando uma empresa privada, o que não deixou de ser criticado pelo líder do PSD:

Pedro Passos Coelho manifestou perplexidade e criticou Costa pela intromissão em assunto da esfera privada. Passos considera “inaceitável” a “admoestação pública” no Parlamento do primeiro ministro à Altice. “Um péssimo sinal quando um primeiro-ministro e um Governo sente que podem desta maneira junto de uma empresa”, vincou Passos.

Claro que para Passos Coelho o tom dos comentários de Costa seria perfeitamente aceitável se estivesse a invectivar, por exemplo, dirigentes sindicais. Já o “respeitinho” com as empresas e os “mercados”, que os serventuários do neoliberalismo dominante não se cansam de recomendar, acredito que nalgumas situações possa ser conveniente por razões tácticas. Mas não aceito que a subserviência incondicional seja especialmente vantajosa na relação com gente que olha apenas o seu interesse a curto prazo e não respeita nem clientes, nem trabalhadores, nem o país que lhes deu todas as facilidades para o desenvolvimento dos seus negócios.

patrick.JPGPara quem já não se lembra, a administração da Altice, que agora tenta adoptar um discurso conciliador e low-profile, é a mesma cujo CEO, há dois anos atrás, não tinha problemas em assumir:

Eu não gosto de pagar salários. Pago o mínimo possível.

E despeço todos os que puder, poderia ter acrescentado.

Mais candidatos do que vagas para vinculação

fila1.jpgComo previsto, as 3019 vagas criadas pelo Ministério da Educação para os concursos de vinculação extraordinária ficaram muito abaixo do número de professores que reuniam as condições para entrar no quadro. Pelo menos metade destes docentes – apesar de contabilizarem pelo menos 12 anos de serviço e cinco contratos nos últimos seis anos letivos – terão de esperar por uma nova oportunidade.

De acordo com as listas provisórias de ordenação, divulgadas ontem no site da Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE), reuniram as condições exigidas perto de 10 mil candidaturas (9897, pelas contas do DN). Parte destas dizem respeito a professores que se candidataram a mais do que um grupo de recrutamento. Por exemplo: a Português (grupo 300) e a Educação Especial 1 (grupo 910). Mas mesmo considerando esta nuance, o número de candidatos elegíveis é sempre superior ao dobro das vagas.

Além da insuficiência de vagas, há ainda o problema da sua distribuição pelos diversos grupos de recrutamento. Se no 110 (1º ciclo) ou no 910 (Educação Especial 1), por exemplo, o número de vagas é elevado, já noutros grupos as vagas são residuais ou simplesmente inexistentes.

Confirmam-se assim as previsões iniciais que indicavam serem insuficientes os lugares postos a concurso, face ao número de candidatos elegíveis para o processo de vinculação extraordinária, pelo que o problema da vinculação dos professores contratados com longo tempo de serviço irá manter-se nos próximos anos.

A terminar, e para memória futura, registe-se o compromisso ontem assumido pelo primeiro-ministro António Costa:

António Costa garantiu nesta terça-feira no Parlamento que vai haver um novo processo de vinculação extraordinária de professores contratados. “No final de Maio, quando se concluir a avaliação das necessidades, vai haver novo processo de vinculação dos professores”, disse, em resposta à líder do BE, Catarina Martins.

Em resposta à líder do BE, Catarina Martins, o primeiro-ministro, António Costa, declarou não haver “nenhuma razão” para que os professores sejam os únicos que vivem, ano após ano, “na incerteza” sobre a sua situação profissional e “em que região do país vão trabalhar”, por exemplo.

“O núcleo central do corpo docente tem de ter estabilidade duradoura”, vincou o chefe do Governo, prometendo lutar por uma “mudança global no processo de contratação para dar estabilidade efectiva” aos professores.

Educação, uma nova prioridade?

natal-costa.JPGTodos os anos os primeiros-ministros dirigem uma mensagem de Natal a partir da residência oficial. Este ano, António Costa inovou e decidiu gravar a mensagem no Jardim de Infância do Lumiar, em Lisboa. Se António Guterres tinha a educação como paixão, António Costa quer seguir os passos do ex-primeiro-ministro socialista e aposta neste tema como prioridade e como base para a solução estrutural dos problemas do país.

A mensagem de Natal de António Costa fugiu este ano aos habituais problemas da austeridade, da dívida e do défice. Défice realmente preocupante, segundo o primeiro-ministro, só há um, e esse é o défice de conhecimento.

Para o combater, Costa defende a “democratização do conhecimento” e destacou duas medidas concretas do seu governo para a promover: o alargamento do pré-escolar a partir dos 3 anos e o programa Qualifica, de educação e formação dos adultos. Lembrou os bons resultados dos testes internacionais aos alunos portugueses para considerar que estamos no bom caminho, mas que ainda há muito a fazer para que possamos ter mais e melhor educação para todos.

É difícil, evidentemente, não concordar com o primeiro-ministro, cujas intenções foram de imediato apoiadas pelo Presidente da República. No plano dos princípios e das boas intenções os consensos parecem, assim, adquiridos. Falta o mais difícil, que é concretizar, na execução das políticas educativas, e para além das duas ou três medidas emblemáticas que têm sido anunciadas, a prometida igualdade de oportunidades no sistema educativo.

Não tem curso, mas sabe mentir

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© Henricartoon

Já cacei o Pikachu!

António Costa, sobre Passos Coelho: Quem anda à procura de encontrar o diabo mais vale dedicar-se à caça de pokémons.

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A emigração de professores

image-rca18q100_deligne-small.jpgO “convite” à emigração de professores desempregados foi feito em 2011 por Passos Coelho e agora repetido, em moldes algo semelhantes, por António Costa, no âmbito da visita oficial a França e da aposta se pretenderá fazer no reforço do ensino da língua portuguesa naquele país:

É obviamente muito importante para a difusão da nossa língua, e é também uma oportunidade para muitos professores de português que por via das alterações demográficas, hoje não têm trabalho em Portugal e que o podem encontrar aqui.

Ora bem, antes de embarcar no coro fácil de críticas há aqui duas ou três ressalvas a fazer: primeiro, o ensino de Português e a abertura de escolas portuguesas noutros países são importantes para a afirmação internacional da língua e da cultura portuguesas, e se, ainda por cima, criam postos de trabalho, isso é, obviamente, uma vantagem para o país e para os professores portugueses.

Segundo, estes lugares têm sido tradicional e prioritariamente ocupados, não por professores desempregados, mas por docentes dos quadros dispostos a assumir este desafio; terceiro, ao irem trabalhar para o estrangeiro, estes professores libertam vagas nas suas escolas de origem, criando maiores oportunidades de trabalho a quem prefere, apesar de tudo, continuar por cá.

Dito isto, obviamente que a decisão de emigrar deveria ser sempre uma opção individual feita de livre vontade. Aos governos não compete fazer convites à emigração, mas sim criar as condições económicas e sociais favoráveis à criação de emprego nos respectivos países.

António Costa fala claro

antonio-costa.PNG“E se há área em que é fundamental concentrar os recursos é na defesa e no financiamento da escola pública porque é a escola de todos, a que garante a igualdade de oportunidades a todos e aquela que permite a todos uma efetiva liberdade de poder aprender com a qualidade que todos temos de exigir”, disse António Costa.

Enquanto assim falar, com clareza e mostrando determinação, o primeiro-ministro estará a dar força ao seu ministro da Educação para prosseguir a política de corte gradual dos financiamentos aos colégios que duplicam a oferta da rede pública.

Depois da mobilização mediática de pais e alunos, que teve esta resposta, percebe-se que as batalhas decisivas irão travar-se na análise, caso a caso, dos diversos contratos. Será aí que cada colégio procurará demonstrar, escorado por autarcas, dirigentes locais do PS e outros notáveis ou influentes, que há razões muito especiais para que o seu contrato de associação se mantenha. E é na cedência ou não a este empresariado encostado ao Estado que iremos avaliar a verdadeira força e coragem do actual governo.