Como avaliar o trabalho docente?

Alexandre Mano faz interessantes reflexões acerca da avaliação do trabalho docente, uma profissão em que os resultados dificilmente se conseguem medir objectivamente. Desde logo, porque boa parte do trabalho do professor é solitário e invisível: preparar aulas, materiais pedagógicos e instrumentos de avaliação, orientar e avaliar trabalhos de alunos, cumprir as exigências da burocracia escolar…

Na escola trabalha, em regra, longe dos olhares de colegas e direcção. E mesmo com os alunos a relação é ambivalente: a empatia é um ponto importante na relação pedagógica, mas no dia-a-dia de um bom professor impõe-se a necessidade de incentivar e motivar os alunos a querer saber e fazer mais, a ir mais longe na busca de conhecimento e na compreensão e aplicação do que se aprende nas aulas.

Em suma, ser bom professor não é assumir-se como o bonzinho que evita aos alunos esforços e canseiras e faz vista grossa às suas falhas e disparates; é cultivar na sala de aula aquele ambiente de ambição e exigência moderadas que leve cada um a progredir dando o seu melhor, sabendo-se à partida que nem todos aprenderão ao mesmo ritmo ou alcançarão os mesmos resultados.

Muitos alunos são capazes de reconhecer, à posteriori, os bons professores que tiveram no seu percurso escolar e o que estes fizeram por si. Mas como identificar, de uma forma mais simples e imediata, as boas práticas de cada docente?

A resposta mais comum a esta necessidade passa pela apresentação de “evidências”, mas esta solução mais facilmente identifica os habilidosos na produção de registos escritos e de folclore escolar do que a qualidade e a relevância científica e pedagógica das actividades desenvolvidas. Ou o efectivo contributo para a melhoria das aprendizagens dos alunos. E rapidamente desemboca num aumento exponencial da burocracia escolar.

Sem a preocupação de encontrar uma resposta definitiva, o nosso colega deixa o convite à reflexão…

Um pedreiro faz um muro e o muro lá fica; um marceneiro constrói uma mesa e passa-se o mesmo. O trabalho das artes manuais é duradouro.

Há quem seja avaliado pela performance. Um atleta, um advogado ou até mesmo um médico podem apresentar o resultado do seu trabalho em quantidades.

E há quem venda produtos. Para estes também se pode medir a capacidade de trabalho em horas e receitas.

E um professor? Como se mede o trabalho de um professor?

Vem esta reflexão atrelada ao facto de ter concluído a formação de uma turma do ensino profissional que acompanhei do 10º ao 12º ano. Consultados os meus apontamentos, foram mais de 500 horas com cada um dos alunos só em sala de aula, sem contar com outros contextos, como estágio, trabalho de projeto final, recuperações, etc.

Chegando ao fim deste ciclo, pergunto-me: o que fiz eu que fosse mensurável, que se possa quantificar, que objetivamente tenha feito a diferença?

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3 thoughts on “Como avaliar o trabalho docente?

  1. Palmas

    Finalmente, uma lúcida reflexão que põe a nu as insuportáveis bizarrices e injustiças que enxameiam a chamada ADD.
    De facto, o que é primordial – pri-mor-di-al – ecapa a uma avaliação séria : o nível de conhecimento relativamente às matérias que o docente ensina e a capacidade comunicacional ou o “saber ensinar” .
    Assim, tal como está a dita ou famigerada “avaliação” do desempenho :
    a) um Professor com uma sólida formação científica de nível universitário é barbaramente colocado ao nível do colega com manifestas e sérias dificuldades quanto às matérias que pretende ensinar (então no Secundário…)
    b) que distingue um Professor que domina magistralmente a Língua Portuguesa ( escrita e oral) de uma criatura que nem uma acta sabe redigir decentemente ?
    c) E, relativamente ao “valor,” responsabilidade e exigência do que ensina (ou “ensina” ), como é possível , para efeitos de ADD, colocar no mesmo plano um discreto Professor de Liceu e uns festivaleiros patuscos que “ensinam” aquelas lúdicas disciplinas ou guardam 3 crianças NEE ? Nessa inqualificável comparação, sabem quem, geralmente, fica em vantagem? Os festivaleiros, claro ! ( há casos absolutamente escabrosos que uma qualquer lei deveria impedir).

    Para terminar :
    Que tal um exame de conhecimentos susceptível de aquilatar o que foi referido acima, nas alíneas a) e b). Pelo menos, algo de objectivo seria tido em conta . ( isto é feito noutros países, senhores !)

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  2. Se bem entendi, a resposta do professor à questão “o que fiz eu que fosse mensurável, que se possa quantificar, que objetivamente tenha feito a diferença?” não aparece no imediato, acontece depois de um período médio de tempo, quando o aluno faz esta reflexão sobre o professor que teve. Não é caso único.
    “Mas como identificar, de uma forma mais simples e imediata, as boas práticas de cada docente?”, pergunta o A. Duarte.
    Essa é a questão.

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  3. “Alexandre Mano faz interessantes reflexões acerca da avaliação do trabalho docente, uma profissão em que os resultados dificilmente se conseguem medir objectivamente”.
    Em 2004 fiz mestrado em observação e avaliação e aprendi com a Maria Teresa Argilaga Anguera, atual vice-reitora da Universidade de Psicologia de Barcelona, amiga pessoal de Fernado Savater, da Universidade de Psicologia (Faculdade de Filosofia) da Universidade de Madrid, o seguinte: “o alvo da observação – avaliação – situa-se num eixo dicotómico que une dois polos, um de radical quantitativo (objetivo), designado de molecular, e um outro de radical qualitativo (subjetivo), designado de molar. Mais tarde fiz o Doutoramento precisamente sobre a ADD para desmontar isso mesmo. De facto, o alvo da observação (avaliação) daquilo que se dá pelo nome de “trabalho docente” é sempre de natureza molar. O trabalho docente não é difícil de medir objetivamente como o autor do artigo afirma. É impossível! Deia as voltas que quiser.

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