Políticas públicas, fundações privadas

A Fundação Belmiro de Azevedo (FBA) ambiciona promover a mudança e a transformação nos percursos sociais e educativos dos jovens mais excluídos em Portugal, “adotando abordagens que influenciem positivamente e os motivem pela definição de expectativas em relação ao futuro”.

Na abertura da conferência internacional “Teacher Education – Building an Agenda for the 21st Century”, na Fundação de Serralves, no Porto, o presidente da FBA, Paulo Azevedo, salientou que a falta de capacidade financeira “condiciona os jovens” no acesso às melhores condições de ensino e no apoio aos estudos, e “acaba por espartilhar as suas escolhas logo nos níveis mais baixos do ensino”.

“Sabemos que o baixo nível sociocultural das famílias, a ausência de modelos e a priorização de necessidades básicas secundarizam, por vezes, a educação em determinados contextos. E sabemos também que a escola está desadequada à dinâmica da evolução da sociedade e às expectativas dos próprios jovens”, sublinhou o ex-presidente executivo da Sonae.

O sector da Educação parece ter mel, tantos são os grupos económicos, as fundações e os tanques-de-pensar que dele se acercam. Sempre muito desinteressados, muito altruístas, preocupadíssimos com a falta que uma boa educação faz aos pobrezinhos mas, acima de tudo, sempre disponíveis para influenciar decisores, fazendo valer os seus interesses privados na definição das “políticas públicas”.

Sim, porque a um grupo económico da dimensão da SONAE não faltariam recursos para construir escolas e universidades onde imperassem os valores e a cultura empresarial do grupo, nem mesmo para atribuir bolsas a estudantes talentosos que as quisessem frequentar. Mas é claro que se puderem usar a capacidade instalada da escola pública ao serviço dos seus interesses, subordinando-a à lógica do mercado de trabalho, é incomparavelmente melhor.

Chegados aqui, é altura de questionar: o que pretende Paulo de Azevedo com a conversa fiada que enche a notícia? Muito pouco na verdade; o discurso grandiloquente desagua em duas ideias que pouco têm de interessante ou original: o lugar-comum da melhor formação de professores, o que quer que isso seja; e nisto:

…no estudo de percursos educativos alternativos, com o presidente a dar o exemplo do ensino profissional orientado para o mercado de trabalho. “Queremos intervir por antecipação, enquanto os jovens estão na sua formação base, combatendo a desigualdade educativa e gerando impacto sistemático e sustentável”, frisou Paulo Azevedo.

Mais do mesmo, portanto. Enquanto os filhos dos administradores da SONAE vão estudar para o estrangeiro, a solução para os jovens com “falta de capacidade financeira”, para que não “espartilhem” precocemente as suas escolhas, é algo que já existe e absorve anualmente cerca de 40% dos alunos que ingressam no ensino secundário: os cursos profissionais. Para quem esperaria ver a SONAE a chegar-se à frente e a abrir os cordões à bolsa, dando o seu contributo para uma Educação à medida dos seus elevados princípios e propaladas ambições, é melhor que não se iluda: se Belmiro tinha fama de forreta, o filho parece confirmar o velho refrão de que quem sai aos seus não degenera.

One thought on “Políticas públicas, fundações privadas

  1. “E sabemos também que a escola está desadequada à dinâmica da evolução da sociedade e às expectativas dos próprios jovens”, sublinhou o ex-presidente executivo da Sonae.”
    O que se pretende mesmo dizer é:

    “E sabemos também que a escola está desadequada à dinâmica da evolução da nossa empresas e às expectativas de maiores lucros do nosso negócio”

    Gostar

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