Iniciativa Neandertal

Activamente patrocinada pelo partido chegano, defendida judicialmente por um advogado que é elemento destacado do partido, a causa dos pais de Famalicão que não querem aulas de Cidadania para os seus filhos tem um potencial mobilizador de todo o espectro da direita conservadora. A que nem a Iniciativa Liberal consegue resistir: nos dias pares, procuram dar de si próprios a imagem de um partido moderno, liberal não apenas na economia mas também nos costumes, apoiantes de causas e valores projectados para a modernidade e a cidadania do século XXI. Mas nos dias ímpares, e hoje é um deles, lá deixam vir ao de cima o conservadorismo hipócrita dos costumes, disfarçado de libertarianismo anti-Estado. Dizem eles que o Estado quer impedir os pais de educar os filhos. Na verdade, são estes pais em concreto que querem mandar na escola pública, atribuindo-se a si mesmos liberdade de escolha sobre as disciplinas do currículo escolar. Não é o Estado que quer ser dono das crianças ou interferir na vida familiar. É a família que se assume como dona dos filhos, ao ponto de confundir o seu dever e responsabilidade de educar com uma espécie de direito de veto sobre a vida escolar dos seus educandos. Mas é o que temos: demagogia, feita à maneira, com bons recursos de marketing e publicidade, continua a ser a especialidade desta iniciativa muito pouco liberal.

Dando de barato que estes pais, que não hesitam em instrumentalizar e prejudicar os filhos em defesa de uma causa pessoal, serão pais exemplares em tudo o resto, como não falta por aí quem defenda, há que alertar para o perigoso ressurgimento, em pleno século XXI, de uma ideia desenterrada do fundo das trevas: a de que é à família que compete educar e à escola instruir.

Numa sociedade ideal, até poderia ser assim. Na realidade, é muito diferente: há crianças negligenciadas e carentes de afecto familiar, mal alimentadas, ansiosas, abusadas. Há famílias que não cuidam adequadamente, que não educam, que não protegem os menores. Há casos de maus tratos, de problemas de saúde, de atrasos no desenvolvimento, de abusos sexuais e tantos outros que só são sinalizados em contexto escolar. E aqui, quando as famílias falham – e falham demasiadas vezes, essa é a verdade – quem senão o Estado e as suas instituições para zelar pelos superiores interesses da criança?

Por outro lado, por muito boa que seja a educação familiar, há sempre aspectos em que se complementa no contexto escolar, no relacionamento interpessoal com os pares e os professores, nas dinâmicas de grupo, nas actividades curriculares e extracurriculares. Mesmo quando a família transmite sólidos valores ou assertivas visões da sociedade e do mundo, crianças e jovens só têm a ganhar em confrontá-las com outras, diferentes ou divergentes. Ao contrário do que se tenta fazer crer, a educação para a Cidadania não serve para formatar ou doutrinar, mas para dar a conhecer a diversidade e desenvolver a tolerância na aceitação da diferença. Pais convictos de que educaram exemplarmente os seus filhos não têm de temer que o seu trabalho de uma vida seja destruído por umas aulas sobre a Constituição, a defesa do ambiente, a igualdade de direitos, a sexualidade ou a prevenção rodoviária.

Percebo que a guerra da família numerosa de Famalicão é essencialmente ideológica e política, mas a verdade é que ela acaba por visar também os professores em geral: todos eles são, ou devem ser, professores de Cidadania. Há claramente menosprezo e desconfiança do trabalho dos professores, algo que não é novo mas que, num caso destes, não deixa de ter subjacente uma estranha lisonja: estão a dar-nos uma importância que nunca teremos. Como questionava em tempos um colega espanhol, não consigo que acentuem correctamente uma palavra, e vou conseguir mudar a sua orientação sexual?…

4 thoughts on “Iniciativa Neandertal

  1. Vá ler a Constituição!

    Qual é o seu propósito nesta sanha? Ideológico, não é?

    O Estado não é paizinho dos cidadãos. Repito: vá ler a Constituição. O ministro está fora da Lei e o caro também.

    Gostar

    • Meu caro: este é um blogue dedicado à Educação, e o que se discute aqui é se um pai, porque não gosta do programa de uma disciplina obrigatória, pode forçar os filhos a faltar às aulas, sujeitando-os assim a perder o ano por faltas.

      Já que fala na Constituição, esta é justamente, sobretudo na parte dos direitos dos cidadãos, uma das matérias da disciplina de Cidadania.

      O resto é muito simples e nada tem de ideológico: o Estado gere a escola pública e os pais governam a sua casa e educam aí os filhos como entenderem. Nem o pai cancela disciplinas nem a escola decide a ementa do jantar ou os temas de conversa em família.

      Gostar

    • E se os pais não gostarem de que, em Português, se dê “Os Maias”? E se não gostarem de que, em Filosofia, se estude e critique as provas da existência de Deus? E se não gostarem de que, em Biologia, se dê a teoria da evolução das espécies? E se você se lembrasse que é um direito humano, consagrado na Constituição, o direito à educação? Uma criança e um adolescente não são propriedade dos pais. Tente ser menos estúpido e trauliteiro, ou vá para o Brasil ter com o Bolsonaro.

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.