A abelha MAIA ataca de novo

Nos dias 4 e 5 de junho, foi publicado no Observador, no Blog deAr Lindo e no site da Rádio Boa Nova (Oliveira do Hospital) um texto meu com apreciações críticas e interrogações sobre o projeto educativo MAIA. Pelas reações que recebi, nos dias seguintes à edição do texto, confirmei que muitíssimos colegas e outros cidadãos não docentes subscrevem as mesmas preocupações e dúvidas. A este propósito, leiam o artigo sério e clarividente de Paulo Guinote intitulado «Uma educação distópica», publicado no último número do Jornal de Letras (15-06-2022). Percebi também que o meu texto foi rececionado de forma virulenta pelos mentores do MAIA e por alguns dos seus discípulos, os quais preferiram injuriar aqueles que pensam como o autor, em vez de responderem às suas questões e contraditarem os seus argumentos. Nos sacrossantos grupúsculos do poder, os que questionam os enredos labirínticos destas pedagogias são acoimados de mentirosos, ignorantes e retrógrados. (Se vivêssemos no Estado Novo de Salazar ou Caetano, acusá-los-iam de «subversivos», «comunistas», perigosos «antissituacionistas» e haveriam de os sanear, prender ou degredar).

Os «cientistas» da educação instigadores do MAIA inculcaram nas suas mentes eruditas o dogma de que somente as suas teses educativas habilitam os alunos a pensarem e a desenvolverem o espírito crítico e que essas teorias têm a mesmíssima unanimidade e fiabilidade das leis produzidas pelas ciências exatas.

(Por exemplo, rejeitam que as suas práticas pedagógicas ampliem a burocratização da escola para níveis insuportáveis, corram sérios riscos de desvalorizarem o conhecimento científico estruturado e ousem transformar alunos e professores em «vendedores de banha da cobra», capazes de obrarem discursos persuasivos mas vazios e espúrios. E, num outro registo, não se pronunciam sobre as provas de aferição ou os exames nacionais dos últimos anos, cujas questões se tornaram demasiado básicas e, afinal, estão longe de apelar ao conhecimento e espírito crítico dos alunos, bem como à sua capacidade para produzirem textos bem escritos, fundamentados e estruturados).

Partindo desta premissa, concluíram que as teorias de avaliação / classificação que estão a impor, de modo estandardizado, aos professores de todos os cursos e níveis de ensino básico e secundário da escola de massas são tão absolutas e credíveis como as teses sobre a esfericidade da Terra.

É um estranho paradoxo, mas lá bem no fundo faz sentido: os pedagogos que se mostram mais “amigos” dos alunos e zelosos do seu superior interesse são também os maiores carrascos de quem, afinal de contas, trabalha para que os alunos aprendam – os seus professores. Quanto mais críticos da escola que temos, da escola tradicional, mais dogmáticos na defesa do seu modelo, da sua ideia, da sua tese.

O conhecimento de qualquer ciência, mesmo das mais solidamente ancoradas nas matemáticas e no raciocínio lógico, é por natureza provisório e relativo: todas as teorias são constantemente postas à prova; a descoberta de novos factos ou a realização de novas experiências podem obrigar a reescrever ou a relativizar o que antes se pensava inquestionável. É assim em todas as ciências, tanto as naturais e experimentais como as sociais e humanas.

Em todas? Bem, também aqui há uma irredutível aldeia gaulesa: no clube das ciências da Educação faz-se carreira a repetir as mesmas ideias do princípio ao fim… da carreira. E a atacar, muitas vezes de forma acintosa e arrogante, aqueles que, porque conhecem a realidade e sabem que a teoria do mestre é uma treta que não funciona e só complica, ousam questionar ou objectar. Vejo por aí bonzos que hão-de levar para a cova umas teorias que aprenderam em Boston e de que, quarenta anos depois, ainda se não conseguiram libertar. Não me incomodariam, se a doutrina fosse para consumo próprio. Mas não: é para obrigar os outros a fazer. Que, na sacrossanta universidade, o MAIA não entra.

Ficam ofendidos quando alguém chama “ciências ocultas” ou algo ainda pior à salganhada de mitos e preconceitos que tentam fazer passar por ciência. Mas a verdade é que nenhum cientista laboratorial é levado a sério se não testar experimentalmente as suas teorias. Nenhum historiador investiga sem aceder aos documentos históricos que fundamentam o seu saber. O arqueólogo, o biólogo, o geólogo, fazem o seu trabalho de campo. E o pedagogo do regime, além de ser habilidoso com as palavras, que mais sabe fazer? Que mais faz para nos convencer pela razão, em vez de, escorado no aparelho ministerial, nos forçar pela obrigação?

O que sobra a estes teóricos em auto-suficiência e arrogância falta-lhes em conhecimento da realidade. Apesar de ser arvorarem em maiores defensores e amigos das crianças, evitaram sempre o ambiente das escolas básicas e secundárias, ou fugiram de lá assim que puderam. Não vão às escolas, mas também não confiam em quem lá está. Resta-lhes a aceitação que sempre tiveram nos gabinetes ministeriais, o eterno argumento da autoridade e também, há que dizê-lo, a subserviência de demasiados professores e directores escolares.

Pela minha parte, quero aqui deixar bem expressa a minha repulsa por estas mediocridades eduquesas, tão incapazes de convencer como de conviver com a crítica, bem como e o meu apoio solidário ao colega Luís Filipe Torgal, cuja análise, tão sensata quanto lapidar, subscrevo inteiramente.

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