Quem está a mentir?

Os professores foram formados para dar aulas só a bons alunos.

João Costa, 2022

Os professores portugueses são os mais propensos a adaptar o conteúdo e a estrutura da aula em função das necessidades, conhecimentos e capacidades de seus alunos.

OCDE, 2016

É insuportável, e exaspero ao pensar que vamos ter mais quatro anos disto, o discurso insidioso e preconceituoso da ala eduquesa do PS contra os professores.

Inúmeras vezes critiquei as políticas educativas do PSD, nomeadamente do ministério de Nuno Crato no governo de Passos Coelho. Combati, conforme pude, a examocracia galopante, a PACC, a promoção descarada dos contratos de associação. Estou nos antípodas de muitas das ideias que a direita defende e pratica no sector da Educação. Mas a verdade é que nunca senti em Nuno Crato ou na sua equipa o ressabiamento, o desprezo mal disfarçado pela classe docente que noto nestes socialistas pedantes e arrogantes, convictos de que, para propagarem a boa nova educativa e impor a educação de treta que tanto defendem, têm primeiro de terraplanar a cultura profissional, a auto-estima e a dignidade dos professores do básico e do secundário.

Resguardado à sombra do ministro, João Costa assumiu durante seis anos o papel do secretário de Estado bom, o amigo das escolas, o reformador flexível, autonomista e inclusivo da Educação, contrastando positivamente com a secretária de Estado má, a que cortava na despesa e fechava colégios privados, e com o nulo ministro. Mas bastou um mês de protagonismo à frente do ministério para se perceber, caso ainda houvesse dúvidas, a massa de que é feito…

10 thoughts on “Quem está a mentir?

  1. A estratégia tem sido sempre a mesma, a de desviar as atenções par aquilo que necessita, realmente, de mudar: modelo de gestão, ADD, flexibilidade, cidadania…
    Daí o MAIA porque os professores não sabem avaliar, o UBUNTU para aliviar a pressão dos alunos, as METODOLOGIAS ATIVAS, as COMUNIDADES DE APRENDIZAGEM…
    O tempo já se esgotou, há que o mandar à MERD@.

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  2. Quem está a mentir? O Costa fala da formação que recebemos. Não está a falar do que fazemos.
    O colega está a manipular.

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    • Caro Rui, vou admitir que tem razão na observação que faz. Ainda assim, questiono: é verdadeira a afirmação do ministro? Alguma vez a formação pedagógica foi orientada para os bons alunos?

      Se dissesse que era para o aluno médio, não andaria longe da verdade e não o iria contestar. Mas há sempre esta necessidade de distorcer os factos, de exagerar para tentar levar a água ao seu moinho. O Rui fala em manipulação; quer melhor exemplo de discurso manipulatório?

      No seu auto-deslumbramento de linguista hábil com as palavras; Costa deixa-se atraiçoar pelo seu próprio discurso. Numa só frase, descai-se e acaba por identificar os dois principais entraves ao modelo educativo que quer impor ao país: os professores – já o sabíamos – mas também, e surpreendentemente para alguns, os bons alunos.

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      • Acho que se mantém a manipulação. Por acaso já o ouvi ou li a dizer que as universidades formam para, acho que ele dizia assim, os alunos médios ou os ideais. E eu por mim falo, nunca recebi formação para trabalhar com os alunos ciganos ou com pais que não querem saber da escola.
        O colega pode ter tido essa fortuna que eu não tive. Admito isso.
        O ponto é que está a misturar afirmações sobre a formação para dizer que o ministro está a atacar os professores. Eu digo que ele está a ser crítico das universidades.

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        • Acredito que noutros contextos tenha dito outras coisas, mas a citação refere-se ao que foi dito na entrevista ao Expresso, destacada na primeira página e destinada a apresentação ao país do novo ministro. Foi o que saiu publicado, não estou a distorcer nem a inventar.

          Quanto à formação universitária, obviamente ninguém pode ensinar o que não sabe ou dar o que não tem. Se quem forma professores só tem experiência no ensino superior, onde só se chega passando por uma filtragem que é tanto mais selectiva quanto mais prestigiada é a instituição, é evidente que só conhece a realidade do aluno bom e do aluno médio.

          Em relação à alegada crítica às universidades, discordo do seu ponto de vista. Porque o que sai destas críticas nunca é uma reforma consequente da formação inicial de professores, mas a receita de “mais formação para os professores”, dada pelos mesmos que, pelos vistos, tão mal os formaram.

          Quando o ministro escora a sua política em gente que anda há 30 ou 40 anos a repetir o mesmo disco riscado – os bonzos dos mestrados de Boston, as brederodes, os domingos, os verdascas – como levar a sério a ideia de que quer reformar a formação de professores? Que sentido faz apostar sempre nos mesmos rostos e nas mesmas ideias e esperar resultados diferentes?…

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        • “… nunca recebi formação para trabalhar com os alunos ciganos ou com pais que não querem saber da escola.” DEVE SER LINDA ESSA FORMAÇÃO!!! Formação para quem não quer saber, esta agora!!!

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  3. Desde que estes senhores arribaram ao ME os professores ficaram com a ideia de que tudo o que vinham fazendo nas escolas, de acordo com o que aprenderam nos seus estágios e nas acções que frequentaram ao longo dos anos, deixou de estar certo e sem validade.

    Com vista a uma suposta inclusão estes senhores subordinaram os programas curriculares ao PASEO (perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória), impuseram a flexibilidade curricular através dos DAC (domínio de autonomia curricular) amarrando aprendizagens inicias a projectos multidisciplinares, mesmo que os alunos (mais novos) não apresentem os requisitos necessários e a maturidade para se envolverem responsavelmente neles.

    Esquecendo que muitos dos alunos que nos chegam são originários de famílias que vêm a escola como um depósito, muitas vezes desprovidos de educação e de vontade de aprender, inseridos ainda por cima em turmas extensas, o ME em vez de resolver estes problemas antigos – diminuição do número de alunos por turma, corresponsabilização das famílias para que de facto ajudem a escola na sua missão, exercendo a sua função de encarregados de educação – investe contra os professores, massacrando-os com burocracias insanas, amarrando-os a “novos” modelos pedagógicos e “novas” formas de avaliar como o projecto MAIA (monitorização, acompanhamento e investigação em avaliação pedagógica), como se esse fosse o foco do problema e eles os deficitários dessas pseudoformações.

    Com as políticas destes actores tão medíocres e prenhes de autoconvencimento e a pressão que exercem sobre as chefias e os professores em geral, está assegurado o fim do insucesso escolar, ainda que depois, ao esbarrar com a realidade da vida este não tenha qualquer correspondência com a sua verdadeira essência.
    Mas isso que importa? Não é afinal de ilusionismo que se trata?
    Verdade ou mentira?

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