A escola do Francisco

“Vivi 6 anos a pensar como iria correr a entrada na escola do meu filho Francisco, que tem Síndroma de Down. Desde os 5 meses que trabalhou mais de 6 horas por dias em terapias e programas de desenvolvimento como o objetivo de expandir as suas capacidades, de potenciar o seu desenvolvimento neurológico. Um lutador, de apelido Resistência… Chegado o momento de entrada no primeiro ciclo, optámos pela Escola Pública – EB de Paredes no Agrupamento Damião de Goes em Alenquer. Mais uma vez com todos os sonhos e com a certeza de que seria o melhor lugar para encontrar amigos, aprender, crescer e ter todo o apoio para esta nova etapa. Embora tenha achado estranho que a turma do Francisco, com mais algumas crianças ao abrigo do DL 54/2018 tenha sido a única turma de 1º ano sem professora atribuída no início do ano, rapidamente as duvidas amenizaram com a colocação imediata de uma professora – Liliana Gregório, embora com contrato de substituição temporária, previsivelmente até ao final do 2º Período, uma vez que a primeira professora colocada tinha colocado baixa imediata. Rapidamente todos os pais se esqueceram que aquela professora poderia não ficar até ao fim do ano, tal foi o SONHO que alimentou em cada família”, continua a Célia que, à beira do terceiro período viu os seus sonhos para o Francisco e a sua confiança na escola pública serem abalados.

Na Liliana tinha encontrado “uma professora com uma abordagem prática, com uma elevada capacidade para fazer as necessárias adaptações curriculares para as crianças com essas necessidades. Acima de tudo uma professora que acredita nos alunos, que os faz sentir isso, que os leva a darem tudo o que têm no processo de aprendizagem, que os faz sentirem-se especiais e, acima de tudo, felizes”. A Célia e todos os pais tinham-se esquecido que a Liliana era uma professora a prazo.

Uma escola pública universal e inclusiva, capaz de proporcionar plena integração, igualdade de oportunidades, atenção à diferença e ensino de qualidade existe há bastantes anos em Portugal, pelo menos no papel. Na realidade, nem sempre é assim.

Um dos problemas mais complexos surge, não vale a pena negá-lo, com o absentismo docente, até certo ponto uma realidade inevitável decorrente do envelhecimento da classe com a progressiva e consequente degradação da saúde dos profissionais. Mas também é verdade que determinadas escolas e turmas têm mais propensão para, digamos assim, adoecer os professores.

Sendo certo que a saúde dos professores é um direito no mínimo tão importante como o direito à educação dos alunos, importa que as escolas disponham, não só de mecanismos céleres e eficazes não só para substituir os professores doentes, mas também para conservar os professores substitutos que realizam, tantas vezes em circunstâncias difíceis, um excelente trabalho. Evitando-se assim as situações altamente lesivas da aprendizagem e do bem-estar emocional dos alunos que decorrem de terem dois, três e às vezes mais professores diferentes ao longo do ano lectivo. No primeiro ciclo e na educação pré-escolar, a monodocência e a tenra idade das crianças tornam o problema ainda mais complicado.

A chave do problema está, como não é difícil depreender, na muito falada, mas pouco exercitada naquilo que verdadeiramente interessa, autonomia das escolas. A contratação de professores continua a ser uma competência do ministério, não tendo sido delegada nem nas escolas nem nas autarquias. Sendo relativamente consensual que assim se deve manter, a verdade é que o sistema precisa de mais flexibilidade para permitir às escolas acautelar o superior interesse dos alunos. Em especial daqueles que mais precisam destes cuidados.

3 thoughts on “A escola do Francisco

    • Os sindicatos são contra, e eu também, a contratação de escola e as reconduções nos moldes manhosos em que se fizeram em tempos.

      Aqui penso que não é isso que está em causa, mas apenas permitir o prolongamento do contrato de alguém que está a fazer um bom trabalho que requer continuidade. A pessoa que já está colocada continua onde está, não tira o emprego a ninguém, e a que regressa por uns dias para meter novo atestado em seguida também não é prejudicada.

      Se não focamos a escola pública na necessidade de prestar um bom serviço educativo a todos os alunos, estamos a abrir caminho a tudo o que não queremos: a desvalorização social da profissão docente, reforçar a noção de que “o privado é que é bom”, nivelar por baixo a escola pública, baixar as expectativas dos pais que não desistem, apesar das dificuldades, de dar uma boa educação aos filhos.

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      • Sou favorável há manuntenção dos professores que se mostram uma mais valia para a escola.
        Mas abrindo a porta, é óbvio que passam a existir situações menos claras.
        Neste caso, também será do interesse destes alunos no próximo ano, quiçá ao longo dos 4 anos do 1º ciclo, manter esta professora.

        “Se não focamos a escola pública na necessidade de prestar um bom serviço educativo a todos os alunos, estamos a abrir caminho a tudo o que não queremos: a desvalorização social da profissão docente, reforçar a noção de que “o privado é que é bom”, nivelar por baixo a escola pública, baixar as expectativas dos pais que não desistem, apesar das dificuldades, de dar uma boa educação aos filhos.”

        Mas é este o cenário atual. Do que se alimentam os colégios privados de 2ª linha? Dos pais insatisfeitos com as suas experiências no ensino público…

        Um caso que me foi muito próximo, aqui pelo Porto, também com uma turma do 1º ciclo:
        1º ano de escolaridade – prof contratada, ótimo trabalho. Ficou o ano todo.
        2º ano de escolaridade – nova prof contratada, da variante EVT. Um desastre completo. Aprendizagens muito fracas dos miúdos. Saíram 6 alunos ao longo do ano, quase todos para o privado.
        3º ano de escolaridade – para amenizar a insatisfação dos pais, a direção coloca uma das professoras mais antigas da casa. Correu lindamente até começar a pandemia. Vem a pandemia, a titular entra de baixa. No final do ano saem mais 3 alunos.
        4.º ano – nova contratada, voltou a correr bem.

        Pelo caminho, dos 26 alunos iniciais, chegaram ao 4.º ano 17 alunos.

        Aliás, aqui no Porto ocorre algo estranho, miúdos que fazem o 1º ciclo em escolas públicas e que no 5º ano transitam para privadas, muitos mesmo.
        São várias as razões: pais que não acreditam na maior mistura social das escolas do 2º ciclo (há algumas eb1s que são mini colégios, também acontecerá em Coimbra, tipo escolas da Solum), pais que gostam de um contacto próximo com os professores (é mais fácil lidar com 1 prof titular do que com 7/8 professores), furos nos horários a partir do 5º ano, etc.

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