O programa do PS?

António Costa continua eloquente no debate e no discurso, mas a sua mensagem, neste período de pré-campanha, parece mais virada para o passado do que para o futuro. Relembra a obra feita – modesta, que os níveis quase residuais de investimento público não permitem milagres – e o virar da página da austeridade. Pode congratular-se de ter conseguido, pela primeira vez na história da democracia, cumprir uma legislatura com um governo estável assente numa maioria parlamentar de esquerda. Mas a geringonça morreu, para todos os efeitos, em 2019, quando o PS recusou acordos com os partidos à sua esquerda, alinhando-se politicamente ao centro e contando com apoios tácitos, à esquerda e à direita, para fazer passar leis e orçamentos.

Sem ideias para o futuro, o PS parece apostado em repetir erros do passado. Como o de pensar que pode governar sozinho, contra tudo e todos, sem pontes com os outros partidos nem diálogo social. Quando António Costa saca do Orçamento de Estado chumbado pelo Parlamento e o apresenta como se fosse um programa de governo, é evidente o alheamento da realidade, num político que até costuma ser hábil a ler os sinais dos tempos.

As sondagens continuam a dar ao PS uma confortável vitória, ainda que longe da maioria absoluta. Mas o mais provável é que a disposição de forças no novo Parlamento não seja substancialmente diferente da que tivemos até agora. Um Rui Rio em boa forma deverá suster a queda do PSD. Também não será desta que a direita e a extrema-direita, demasiado fragmentadas e divididas, reforçarão significativamente a presença parlamentar. E o PAN, que parece ser a última esperança de um PS mais apostado em conseguir uma muleta parlamentar do que em arranjar parceiros de legislatura, não terá condições para absorver as eventuais perdas do BE e da CDU.

No complicado xadrez político que deverá surgir das eleições do dia 30, o orçamento chumbado será definitivamente uma carta fora do baralho. Assim como boa parte das figuras, umas notoriamente desgastadas, outras claramente incompetentes, que até aqui titularam as pastas ministeriais. Numa pré-campanha que está a ser mais rica do que é habitual em discussão política e ideológica, o PS não pode responder aos reptos dos outros partidos e da sociedade civil com o discurso tecnocrático ao jeito de Cavaco Silva e do seu proverbial “deixem-me trabalhar!” Renovação política e diálogo democrático precisam-se, na política à portuguesa. Quanto mais depressa o PS o entender, melhor.

2 thoughts on “O programa do PS?

  1. O António tem carradas de razão como sempre, mas não me parece que a costumeira arrogância do Costinha vá no sentido que as coisas deveriam ir, ou seja, na colaboração e entendimento indispensáveis. A velha fórmula. ou eu ou o caos, não vai funcionar, parece-me

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