Os filhos da pandemia

Os filhos da pandemia não escrevem, não falam, não lêem, não compreendem, não interpretam, não pensam… O desinteresse pelas conteúdos curriculares e a alienação pelo conhecimento em geral são perigosamente alarmantes. Retirem-lhes o telemóvel e as redes sociais e ficaremos perante seres desprovidos de qualquer interesse. Se antes dos confinamentos, o vício da tecnologia já era preocupante, quase dois anos depois do primeiro encerramento das escolas, estes comportamentos de adição pioraram e nada voltará a ser como antes. Alguns leitores dirão que nem todos os alunos são assim. Nós dizemos que são cada vez mais. Já antes da pandemia, o neurocientista francês Michel Desmurget, no seu livro de 2019 intitulado A Fábrica de Cretinos Digitais, chamava a atenção para a descerebração provocada pelo uso e abuso dos recursos digitais por parte dos jovens. Associando o vício do digital ao crack, Desmurget alerta para algumas consequências do uso exagerado dos recursos digitais como a diminuição da capacidade linguística e comunicativa, da concentração e do conhecimento de contexto. Estamos perante um admirável mundo novo com o qual a escola e os professores não conseguem competir.

Não culpemos apenas a pandemia! Todos os problemas com que hoje nos deparamos vinham a dar sinais de alerta há muito tempo e nós, nas escolas, tínhamos a consciência plena de que o futuro do ensino público não se avizinhava sorridente. Se os professores ficaram ainda mais assoberbados de tarefas burocráticas e viram a sua condição profissional degradar-se de ano para ano, é dos alunos que importa cuidar. Conseguiremos, através das aprendizagens essenciais, recuperar estes indivíduos que viram as suas vidas viradas do avesso? Facilitaremos ainda mais do que antes, de forma a permitir que o insucesso não alastre? Como encontrar tempo para ensinar e avaliar eficazmente, não estando previstas nos horários dos professores as intermináveis horas gastas a avaliar? Como mostrar aos alunos e encarregados de educação a importância da escola e do professor, quando os nossos governantes são os primeiros a contar com o nosso espírito de missão? E quem são estes jovens que regressaram à escola, sem esperança nem motivação, tementes a um novo confinamento, incapazes de perceber ainda o impacto que estes dois anos virão a ter nas suas vidas?

A professora Carmo Machado escreve, na sua habitual crónica na Visão, sobre os alunos que há dois anos vêem a sua vida virada do avesso, por culpa da pandemia. Todo o texto, e não apenas o trecho que aqui transcrevo, merece leitura integral, pois entre o imenso linguajar reproduzido pelos media sobre as aprendizagens perdidas ou as mazelas na saúde mental das crianças e jovens privados da escola, pouco se ouve ou lê sobre o real impacto da pandemia na população em idade escolar. Menos ainda se refere uma realidade que todos os professores no terreno conseguem constatar: a regressão, não apenas nas aprendizagens, mas no próprio desenvolvimento cognitivo, físico e emocional dos nossos alunos começou antes da pandemia. Esta apenas veio acentuar e agravar problemas vindos de trás: os babysitters electrónicos que cada vez mais cedo acompanham os miúdos, os hábitos passivos, consumistas e sedentários induzidos precocemente, a falta de leituras, de convívio social e familiar, de conhecimento e de exploração do mundo em que vivem, e que cada vez mais conhecem como realidade virtual, mediada através dos ecrãs.

Carmo Machado escreve com o conhecimento da realidade preocupante que tem quem trabalha nas escolas: cada vez mais crianças a necessitar de terapia da fala na educação pré-escolar e no primeiro ciclo, não por terem perturbações ao nível da fala, mas simplesmente porque as famílias não os estimularam a falar nos primeiros anos de vida. Miúdos que chegam ao terceiro ciclo com maturidade e comportamentos típicos dos primeiros anos de escolaridade. Adolescentes prestes a concluir o ensino básico que mais parece estarem ainda a iniciá-lo. E no secundário, inúmeros alunos que não percebem o que lêem, que não compreendem o que lhes dizem, que não conseguem elaborar um pensamento ou expor uma ideia. Não estaremos obviamente a falar de todos os alunos, mas é certo que a pandemia teve também este efeito perverso: acentuou as desigualdades no acesso à educação e ao conhecimento. Continuamos a ter, felizmente, alguns bons alunos. Mas tendem a ser cada vez menos, e a diferença entre eles e os que pouco aprendem e de nada querem saber, essa não pára de aumentar.

Perante esta realidade, a nossa colega partilha com os seus leitores as suas dúvidas e inquietações, sentidas igualmente pela generalidade dos professores: que fazer por estes alunos? Vamos continuar a baixar a fasquia avaliativa, para que todos tenham sucesso, pois o insucesso seria ainda mais traumatizante? Será uma avaliação burocratizada, à moda dos Maias, que vai superar as dificuldades dos alunos, enquanto os seus professores assumem mais uma carga de trabalhos? Ou devemos dar-lhes mais do que eles aparentemente gostam, inundando a escola de gadgets e tecnologia? Continuaremos a apostar no suave milagre das flexibilidades, dos DACs, das escolas inclusivas e de todas as modas filosóficas e pedagógicas que vão chegando às escolas? Ou estará finalmente na altura de reflectir e discutir, séria e abertamente, os problemas e desafios da Educação do século XXI?

Praticamente ausente dos debates pré-eleitorais que marcaram a semana política, não parece que a Educação esteja no centro das prioridades ou das preocupações dos Portugueses. Infelizmente…

2 thoughts on “Os filhos da pandemia

  1. “Os filhos da pandemia não escrevem, não falam, não lêem, não compreendem, não interpretam, não pensam… O desinteresse pelas conteúdos curriculares e a alienação pelo conhecimento em geral são perigosamente alarmantes”. Se fossem só os filhos da pandemia…
    A boçalidade, o desinteresse por aquilo que nos diferencia, pelo intelectual aparece-nos como a verdadeira pandemia da ignorância endémica das mais elementares coisas da civilidade e da educação por parte de boa parte da população portuguesa.
    Não nos admiremos, assim, da assistir a debates televisivos vazios de conteúdo ideológico, de um arraial na pior aceção da palavra, encenado por estações televisivas num formato apenas destinado a atrair publicidade para o espetáculo lamentável a que se assiste.
    Não será, depois, de admirar a crescente taxa de abstenção nas urnas.
    Convido a refletir mais extensamente comigo sobre este assunto em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2022/01/a-falacia-da-democracia-portuguesa.html e nos artigos que se seguirão, inteiramente dedicados ao ato eleitoral.
    Votos de um excelente fim-de-semana!

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  2. Os textos da Carmo, do António e do Mosaicos são acutilantes, objectivos e bastante exactos na apreciação do infeliz panorama educativo e social que experienciamos. Apenas gostaria de ir um pouco mais longe. Como dizia Roosevelt, estas coisas não acontecem por acaso. A execrável situação referida tem vindo a ser paulatinamente construída pelo sistema, pois é esse tipo de pessoas que interessa multiplicar indefinidamente. São muito mais fáceis de manipular e arregimentar, dando um imenso jeito às elites que nos desgovernam. Portanto, para alterar tudo isso temos de mudar o sistema obviamente. Não há alternativa, como dizia a dama de ferro.

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