Porque faltam professores

[…] desde a publicação da Lei de Bases, as políticas públicas de educação evoluíram de uma lógica de democratização da sociedade para políticas de quase mercado. A montagem de um controlo político sobre os profissionais proporcionada pela crónica baixa confiança da opinião pública, típica da generalização do bem educativo, e o desejo de alinhar a educação com expetativas, valores e preferências de uma classe social que “venceu na vida” por obra da “economia do conhecimento”, alterou a gestão das escolas, nas quais se confrontam desigualmente as famílias que reivindicam egocentricamente a resolução das suas necessidades educativas sem sentirem a necessidade de gerar empatia com os professores nem de cooperarem com estes, e as “outras”, das margens da sociedade, sem saber educativo nem político. Assim, uma nova gestão da produção da educação, que transformou os apreciados professores em “recursos humanos”, gerou uma administração do consumo da educação em favor dessas novas classes médias “clientes”, pouco interessadas na equidade escolar e na democratização do ensino. Por outro lado, um novo perfil de dirigentes extinguiu a colegialidade necessária às respostas complexas que o exercício desta nobre profissão exige, e a visão de mercado, concorrência e competição, com o seu julgamento de “reputação da escola”, reduziu a pedagogia aos indicadores de performance.

O controlo à posteriori, fundado nos modelos de eficácia e de qualidade, sem oferecer soluções, sanciona os atores profissionais, através de um regime de performatividade e de rendição de contas, substituindo a cultura do julgamento profissional por uma cultura de auditoria, ad nauseam. Ainda assim, está por provar que culpabilizámos e sacrificámos os docentes para conseguir melhores resultados de aprendizagem ou uma mais elevada performance do sistema: a escolha de políticas de conteúdo, a hierarquização das disciplinas, o vocacionalismo precoce, a preferência pelo “conhecimento básico”, a competitividade, o individualismo, a meritocracia e os ditames de um mercado de trabalho imaginário, com os seus rankings, managers e a omnipresente avaliação criterial, ainda não mostraram vantagem na aprendizagem e na formação das pessoas. Também não parece ter valor económico. […]

Cristina Sá Carvalho escreve, a propósito da falta de professores, um texto de opinião que surpreende muito positivamente pelo rigor, acutilância e profundidade da análise. Vai à origem do problema e fundamenta a análise e a crítica ao sistema educativo e à forma como se tornou uma máquina trituradora de vocações docentes, fugindo aos lugares comuns e à cassete neo-eduquesa que têm dominado as prosas jornalísticas dedicadas à Educação.

Ensanduichados entre um poder político que os despreza e deles desconfia, uma classe média que tem da profissão uma visão predominantemente utilitária e as classes baixas que continuam a desvalorizar a escola e os saberes que ela veicula, os professores exercem a sua profissão em condições cada vez mais penosas e ingratas.

A ideia de sacrificar os professores em prol de uma escola pública supostamente de qualidade já vem, pelo menos, do tempo de Maria de Lurdes Rodrigues. Assenta na ilusão de que é possível melhorar a escola contra os interesses e as vontades de quem nela trabalha. Mas a verdade é que nem a “escola a tempo inteiro”, a burocracia avaliativa, o emagrecimento curricular, os rankings, as inspecções ou as “aprendizagens essenciais” conduziram a mais e melhores aprendizagens. O retrocesso educativo é evidente e o efeito, tão perverso como previsível, de torpedear a dignidade e o exercício profissional da docência está agora bem à vista: muito poucos quererão, no futuro, fazer carreira numa profissão que destrata os seus profissionais da forma como o ministério e os seus sicários têm feito nas últimas duas décadas.

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