E recusarem-se a fazer?…

Fazer fichas com avaliação por rubricas/dimensões/domínios/competências, ou o camandro a trote, porque no fim só ajuda a aumentar a confusão, sem especial ganho para os alunos. É um dos exemplos da “sofisticação” metodológica que se diz ser no interesse dos alunos e da qualidade do feedback, mas que é uma rematada treta, mais ou menos embaixadores e arautos no terreno. Como se, na prática, fosse algo mais eficaz do que explicar a est@ ou aquel@ alun@ a matéria que revelou não ter percebido (ou estudado).

Há quem diga que é obrigatório. Mas ainda não vi oficialmente determinada, preto no branco, a obrigatoriedade de as escolas aderirem ao execrável projecto MAIA, nem de os professores terem obrigatoriamente de avaliar por domínios/competências/rubricas de aprendizagem. Aliás, os mentores destas coisas, que não primam propriamente pela coragem ou a frontalidade, são os primeiros a recuar estrategicamente quando vêem os seus “projectos”, cuja mediocridade conhecem melhor do que ninguém, a serem postos em causa.

Sei bem que as veleidades da gestão autocrática de muitas escolas e agrupamentos pouca margem de manobra deixa aos professores, mas também noto que muitos directores alinham decididamente em todos os “desafios” que o ministério lhes lança porque contam com um corpo docente maioritariamente amorfo, resignado e disposto a aceitar todas as cangas que lhe queiram pôr em cima.

Claro que é mais fácil culpar os sindicatos que “não fazem nada” – acusação geralmente feita pelos mesmos que noutros contextos, defendem que os sindicatos não devem imiscuir-se em questões pedagógicas – ou que nestas coisas é que faz falta uma Ordem, ou seja, uns fulanos a quem pagaríamos para defender a dignidade da nossa profissão, que nós não nos queremos dar a esse trabalho.

Só que não. Esta é na verdade uma luta que compete a todos os professores. O nosso compromisso profissional deve ser, em primeiro lugar, com os nossos alunos e, logo de seguida, com a comunidade educativa a que pertencemos. Não somos “funcionários do Governo”, como sugeriam no tempo de Passos Coelho, quando nos mandavam colocar “Governo de Portugal” nos cabeçalhos dos documentos oficiais, e pretendem agora, dissimuladamente, como a catrefada de burocracia que se lança sobre as escolas, numa tentativa de subalternizar ainda mais os professores, anulando a autonomia científica e pedagógica no exercício da profissão que se encontra – ainda – consagrada no ECD.

Todo o acréscimo de trabalho burocrático sobre os professores traduz-se, de uma forma ou de outra, em menos tempo disponível para e com os alunos. Razão mais do que suficiente para assumirmos, sempre que possível, a rejeição clara dos excessos de burocracia e controleirismo. Ou, em alternativa, formas criativas de contornar as más práticas a que nos querem obrigar.

14 thoughts on “E recusarem-se a fazer?…

  1. O projeto é de adesão voluntária e não poderia ser de outra maneira (escrito preto no branco no referido projeto). Para passar a obrigatório terão de ter o incómodo de o verter em lei.
    E para quê se por nepotismo o conseguem concretizar? Na minha escola não.

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    • Pois, o problema é que a adesão voluntária “das escolas” é em muitos lados, na prática, a adesão do director. Que “adere” porque fica bem visto pela tutela, mas depois o trabalho sobra é para os outros…

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  2. O MAIA não seria preciso que as escolas lessem bem as portarias 223 e 226. Lá está definido que os critérios de avaliação devem ser ponderados sobre os domínios(temas). Neste enquadramento, o docente deve ter informações sobre os alunos em cada um desses domínios(temas). Sobre os instrumentos diz que devem ser diversificados. Não percebo a polémica com um modelo de avaliação regulamentado e já é sugerido há muitos anos.

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    • Ou seja, como as escolas não fazem o que a legislação manda, não vamos sequer equacionar que a legislação seja pouco clara ou os procedimentos que sugere inexequíveis nas condições em que se trabalha nas escolas. Vamos em vez disso complicar ainda mais e esperar que corra melhor.

      Qualquer legislação decente começa por definir os conceitos que pretende regulamentar e os decretos que refere não o fazem. O que é, estou a citá-lo, um “domínio(tema)”? Não sabemos.
      Pode ser muita coisa, e tirando as línguas, onde isso está claramente explicitado, nas restantes disciplinas o que se faz é inventar “domínios”, que vão variando de umas escolas para as outras. Ah, já sei, é a autonomia das escolas, dir-me-ão. Mas a mim parece-me outra coisa: é que quem inventou a coisa também não sabe como se faz e prefere o papel cómodo de ficar a assistir e a criticar o que não lhe parecer bem.

      Claro que no meio disto tudo há as escolas que apenas querem cumprir ordens, mandam a autonomia às malvas e fazem copy/paste dos critérios de avaliação de alguma escola-modelo acarinhada pelo ME.

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      • Tem razão.
        O que são “domínios”?
        E tem razão outra vez. As LE há que tempos que funcionam por skills. E a terminologia “skills” é bem mais esclarecedora do que o que tem vindo a circular, misturando-se conceitos que acabaqm por causar uma enorme entropia e confusão.
        Por isso, para nós professores de línguas, esta questão não nos traz tantas angústias. O mesmo acontece com o Português, que as foi seguindo.

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      • No artigo 18,º da portaria 223 (a 226 é quase igual aí) tem lá domínio e tema. Acabei de dar um salto a Matemática do 8.º(aprendizagens essenciais) e estão lá os temas. Não me parece complicada a sua implementação.
        Como sou de línguas, desde 2000 que avalio por domínios. Defendo que os instrumentos de avaliação não são um fim em si, mas um meio para aferir o “estado do aluno”. Assim, devem ser feitos tendo em vista aquilo que se pretende verificar.
        Por outro lado, sou contra a rigidez que vejo por aí fora. O pedagógico aprova o que lhe compete, respeitando a particularidade de cada turma e métodos que @ docente entende adequados a cada contexto.

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        • Como digo, nas línguas tende a ser pacífico. Mas na maioria das disciplinas avaliar por temas implicaria fazer uma avaliação semelhante à que se faz nos cursos profissionais, onde se avalia por módulos. Pela razão muito simples de que um tema é geralmente um conjunto de matérias a leccionar durante um determinado período de tempo. Acabou, passa ao seguinte.

          Os próprios mentores, junto das escolas, das mudanças na avaliação desaconselham esta abordagem e acabam por sugerir que se inventem os domínios onde eles não existem, que são a maioria das disciplinas.

          Claro que para o legislador tudo isto passou ao largo…

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          • Sei que não é comportável trabalhar todos os temas em cada período/semestre. Por isso não me incomoda nada que cada tema tenha a sua ponderação nos critérios de avaliação e só no fim do ano é que se sabe como o aluno está nos temas todos (mas essa ideia ainda iria criar mais confusão).
            Não sou um especialista como os outros, mas (para mim – não quero impingir a ninguém) a aprendizagem tem 3 momentos: a apreensão (visual, texto, auditiva, numérica, etc.) da informação; o tratamento dessa informação e a apresentação do tratamento feito. De um modo simples: o aluno recebe/interpreta a informação; transforma-a/trabalha-a e apresenta-a nos mais variados formatos adequados ao contexto (nem que seja a fazer a dançar). Creio que não será difícil aplicar este princípio a todas as disciplinas.
            Outra coisa:
            Creio que ninguém discordará se disser que a informação (entregue ao aluno) de um teste (tradicional) é redutora se for apenas um número.

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          • Ai, António Duarte, que já estou a ficar confusa. O que não é mau.
            Apenas para dizer que talvez o problema seja leccionar uma LE, onde, como afirma, é tudo mais pacífico, incluindo a avaliação nos cursos profissionais. Os temas/módulos nestas disciplinas são, mais do que tudo, pretextos para se desenvolverem as competências comunicativas numa língua.

            Escreve o António “Pela razão muito simples de que um tema é geralmente um conjunto de matérias a leccionar durante um determinado período de tempo. Acabou, passa ao seguinte.”
            Discordo. Em qualquer área disciplinar isto não acontece ou não deveria acontecer. Está tudo interligado e nada é ou deve ser estático, como me parece óbvio.

            Já agora, aproveito para concordar com o comentador João: “Creio que ninguém discordará se disser que a informação (entregue ao aluno) de um teste (tradicional) é redutora se for apenas um número.”
            E acrescento mais, aquela tradição de se fazer 3 testes por período ou por semestre é outra mania para a qual não há mais paciência. E a coisa piora quando estas avaliações são marcadas logo no início do ano lectivo!! Como é possível? E como compreender depois as queixas de tantos colegas com a enormidade de tempo que levam a corrigir e classificar estes montões de testes?
            Olhem, simplifiquem.
            E de caminho, aproveitem algumas ideias das novas metodologias quenos podem poupar tempo para outras coisas mais importantes.

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  3. Em CP aprovam estas cioisas e depois plasma-se isso no Projecto Educativo dde Escola.
    E pronto.
    Agora, melhor do que se recusar a fazer estas coisas, o melhor é aligeirá-las de forma a se tornarem menos burocráticas, redundantes e redondinhas.
    As “rubricas” mais não são do que outra nomenclatura para o que tantos de nós já fazíamos. Daí o disparate destas coisas e a adesão acrítica a elas.
    Não alinho com o texto introdutório do tudo ou nada.
    Defendo fichas de avaliação por competências/skills. Por 3 ordens de razões:
    1- São mais fáceis de fazer;
    2- São mais fáceis de corrigir;
    3- Dão um bom feedback aos alunos sobre os seus maiores problemas, ao modo como alterar planificações e, essencialmente, como o aluno deve investir mais na melhoria das suas aprendizagens.
    Mas claro, isto são estratégias que se adquirem com a experiência, com os resultados e com a filtragem de metodologias que vão aparecendo. Nem tudo é mau e tudo pode ser trabalhado, aproveitando o que se vai justificando e pondo de lado o que é bacoco.
    Optar por manter tudo na mesma por ignorância, falta de leituras, por não se dar ao trabalho de mudar é, para mim, uma atitude que considero pouco inteligente e ortodoxa.

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    • Cara Fernanda, a questão de diversificar instrumentos de avaliação para mim é pacífica e só me irrita a atitude de quem acha que descobriu a pólvora, mandando fazer o que já há muito tempo se faz.

      De resto, tenho notado que a perspectiva maiata da avaliação não desperta grandes resistências ou dificuldades entre os colegas das Línguas, porque no fundo os domínios correspondem a algo que é natural e intuitivo na aprendizagem e na avaliação. Leitura, escrita, expressão oral e escrita, gramática, são coisas perfeitamente distintas e que faz sentido avaliar em separado. Mas este é um fato que não serve a outras disciplinas, onde estas divisões só se podem criar de forma artificial, complicando o processo avaliativo e o “feedback” ao aluno que se diz querer promover. Quando a carga horária é reduzida e o professor tem muitas turmas e pouco tempo lectivo com cada uma, ainda pior…

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      • Não direi que são “coisas perfeitamente distintas” porque estão interligadas.
        Agora, posso é seleccionar e ter como objectivo de uma qualquer avaliação um ou outro skill.
        As LE têm a vantagem de seguirem o Quadro Europeu de Referência para as línguas, de 2001, o que torna mais fácil a compreensão de conceitos que foram plasmados em programas e em matrizes de exames nacionais e internacionais.
        Já aqui tinha deixado um link.
        Faço-o novamente.
        Nota: Nas restantes áreas disciplinares também se tem trabalhado neste sentido. Diferente, naturalmente, mas no mesmo sentido. Basta ver as matrizes dos exames nacionais, penso eu.

        Um link mais “maçudo”:

        Click to access Quadro_Europeu_total.pdf

        Um link menos “maçudo”:
        https://www.uc.pt/candidatos-internacionais/oportunidades/1ciclo/quadro-europeu-linguas

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