Porque é que os liberais te perseguem?

Quando apareceu, o partido Iniciativa Liberal apresentou-se como uma lufada de ar fresco na política portuguesa. Uma direita de cara lavada, liberal não só na economia mas também nos costumes, seduzindo, não com o ar sisudo ou o fato e gravata da direita tradicional, mas com um discurso moderno e arejado, recorrendo a slogans e frases chamativas, a memes e à linguagem gráfica usada em posters e cartazes estrategicamente dispostos pelas grandes cidades. O público-alvo é formado preferencialmente pelas gerações mais jovens, urbanas, instruídas e sensíveis aos sinais de irreverência e modernidade desta direita nova e gira, que fez o seu tirocínio no ocaso do socratismo.

Um partido com estas características entra naturalmente em disputa eleitoral, não só com as outras forças de direita, mas também com quem, à esquerda, tem conseguido afirmar-se entre o eleitorado jovem e urbano, arejado de ideias e assumidamente liberal, se não na economia, pelo menos nos costumes e nas formas de pensar: o Bloco de Esquerda, eleitoralmente a terceira força política em Portugal.

Sobre o liberalismo, entendamo-nos: foi, no seu tempo, uma ideologia inovadora e, pode dizer-se sem receio, revolucionária. Nas velhas sociedades de ordens do Antigo Regime, marcadas pelo poder absolutista e autocrático dos reis e dos seus favoritos, os privilégios de nascimento e condição, as amarras que os resquícios do feudalismo, nos campos, e o corporativismo, nas cidades, impunham ao trabalho e ao desenvolvimento das forças produtivas, o ideal de uma sociedade de homens livres, de um governo assente no consentimento dos governados, do império da lei sobre o arbítrio dos poderosos e dos privilegiados, era verdadeiramente revolucionário.

No entanto, se princípios afirmados pelo liberalismo, como a liberdade ou a igualdade de direitos, são hoje valores universais, a verdade é que a ideologia, no seu todo, é completamente desajustada ao mundo contemporâneo. Se exacerbar a liberdade individual fazia todo o sentido numa sociedade opressiva, hoje é apenas um instrumento para enfraquecer e destruir o Estado social, que é justamente o único garante de que os direitos dos cidadãos mais desprotegidos são respeitados e concretizados, não se ficando como letra morta numa folha de papel.

As políticas neoliberais que têm dominado a agenda dos Estados e das organizações internacionais são responsáveis pelo agravamento das desigualdades e pelo crescimento anémico da economia global, que nem assim consegue evitar a depredação de recursos naturais nem as alterações climáticas a uma escala cada vez mais acelerada. Já não são sobre a emancipação do povo, libertando-o da submissão a senhores e tiranos. A liberdade que agora se preza é a de os ricos acumularem ainda mais riqueza e a subtraírem ao pagamento de impostos e de salários decentes, na ilusão de que quanto mais comida houver na mesa dos abastados, mais migalhas sobrarão para alimentar os pobres.

Quatro décadas de políticas neoliberais traduzem-se em perspectivas de futuro nada invejáveis: um planeta devastado onde as novas gerações que irão ter, em média, um nível de vida inferior ao dos seus pais. A isto os novos liberais respondem que a culpa é “do socialismo”, enquanto nos tentam vender, com novas roupagens, a velha receita que nos trouxe ao ponto em que nos encontramos. Aos jovens, gostam de prometer empregos abundantes e elevados salários, ao mesmo tempo que se opõem ao aumento do salário mínimo. A moda agora é convencer todos de que pagamos demasiados impostos – e pagamos, como consequência de uma política de ruinosas privatizações de inspiração neoliberal – e de que só por isso os patrões não pagam salários justos aos trabalhadores.

Perante o discurso neoliberal apelativo e sedutor, dotado de uma lógica simplista mas eficaz, por vezes até irónico e bem humorado, a melhor resposta pode muito bem passar pelo uso do mesmo registo de linguagem, mas com uma nuance importante: falar verdade, evitando a demagogia de que os liberais usam e abusam. Acima de tudo, deixar clara uma ideia fundamental: não é a mão invisível dos mercados, deixados à solta, que nos irá conduzir a um futuro mais próspero. Historicamente, a melhoria de salários e de condições de vida e de trabalho resultou sempre da luta dos próprios trabalhadores. Nunca foi a magia dos mercados nem a generosidade dos empregadores a realizar o suave milagre. É esta a mensagem que, seja por que meio for, importa passar aos jovens. E aos menos jovens.

2 thoughts on “Porque é que os liberais te perseguem?

    • Achei divertido ver os liberais ofendidinhos pela ousadia do BE que andavam por estes dias a queixar-se no Twitter. Que é feito da ironia, do “sentido de humor” que manifestam quando se trata de criticar e ridicularizar os outros, mas desaparece instantaneamente quando são eles os visados?…

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