O powerpoint na sala de aula

Há professores que já não conseguem dar aulas sem ser com power point e alunos que não conseguem ter aulas sem ser a olhar um power point. A máquina domina o Homem, de instrumento passa a sujeito. O Homem passa a ser a máquina. Retrocesso distópico. Nada é tão bom numa sala de aula como uma aula magistral (sim, com diálogo, perguntas, críticas, nunca foi a caricatura hierárquica que fizeram dela para lançar o novo mundo das “competências” e do “aprender a brincar”), nada é tão bom como um professor que nos mergulha na curiosidade e saber, que anda pela sala, perde-se, faz-nos perder o fio à meada para depois nos envolver no conhecimento profundo, em que tudo se liga, tudo faz sentido, uma totalidade. Nada pode ser mais aborrecido numa sala de aula do que horas a olhar um power point, magistralmente mecânico, sem vida, ainda que cheio de animações. A vida animada do power point é o ocaso da docência enquanto “transmissão naquele aluno singular do melhor conhecimento produzido pela humanidade”.

Tendo a concordar, no essencial, com a posição de Raquel Varela, com algumas reservas que explicitarei. Ultrapassada a velha questão de centrar a aula no professor ou no aluno, em que alguns eduqueses da velha guarda e com o disco riscado por vezes ainda insistem, torna-se evidente que a aula não tem de girar em torno do professor nem do aluno – até porque, neste último caso, teríamos de decidir qual dos nossos alunos seria merecedor de atenção. Ao contrário do teóricos da pedagogia, para quem o aluno pouco mais é do que uma abstracção, ou dos psicólogos que atendem no seu gabinete um aluno de cada vez, nas salas de aula temos muitos alunos. E a aula deve chegar a todos. O que resulta, todos os professores experientes o sabem, não é centrar a aula no professor nem nos alunos, mas na relação pedagógica entre todos.

A essência do trabalho do professor está assim no orquestrar desta relação, o que em termos práticos significa dar a aula. Uma tarefa que nenhum powerpoint ou recurso similar consegue realizar plenamente, da mesma forma que nenhuma máquina de ensinar substitui o professor de carne e osso. Por outro lado, as apresentações multimédia, seja qual for o seu formato, podem tornar-se preciosos facilitadores do trabalho do professor, principalmente naquelas disciplinas em que, mais do que falar das coisas ou exercitá-las, há que mostrá-las aos alunos. Ler o powerpoint é absurdo; aliás, powerpoints recheados de texto em letra miúda não fazem sentido; mas apresentar o seu conteúdo, questionar os alunos, permitir-lhes que comentem, coloquem dúvidas ou novas questões são estratégias pedagógicas perfeitamente válidas e pertinentes.

No meu caso pessoal, professor de História, que é também a área de formação de Raquel Varela, é evidente que ainda sei como se dão aulas sem powerpoints, coisa que fiz durante a maior parte da minha vida profissional. Mas tenho consciência de que seriam aulas mais pobres em relação ao que conseguiria transmitir aos alunos apenas explicando oralmente ou trabalhando os conteúdos do manual. Do que me vou apercebendo à minha volta, e apesar de o recurso às apresentações se ter vulgarizado nas salas de aula do básico e do secundário, o uso que delas se faz parece-me ser, de um modo geral, adequado e comedido.

Onde talvez exista maior dificuldade em acomodar o powerpoint como recurso pedagógico é, isso sim, no ensino superior. Não quero generalizar, mas o que se vê cada vez mais, nos tempos que correm, são alunos universitários a partilhar pdfs ou versões impressas das apresentações das aulas e a fazer daquilo material de estudo. Como, no meu tempo, se usavam as velhinhas sebentas. Este sim, é um uso completamente desajustado das apresentações, que para serem concebidas e usadas desta forma provavelmente não funcionam bem nem na sala de aula, onde serão demasiado densas e maçudas, nem como material de estudo, que a um nível universitário deveria fazer-se através de obras de referência. Pelo que fico com uma dúvida persistente: não estará a universitária Raquel Varela a extrapolar, a partir do mundo que melhor conhece, para a realidade, necessariamente distinta, dos outros níveis de ensino?…

3 thoughts on “O powerpoint na sala de aula

  1. Também não quero generalizar mas, em muio ensino superior, há um grande recurso aos powerpoints.
    Pelo menos havia, como me era relatado por muitos alunos que preferiam estudar em casa do que ir às aulas. E eram bons alunos.
    Quanto ao seu uso nas escolas básicas e secundárias, há também quem use e abuse destes powerpoints até porque todos os manuais os têm já prontos a servir. As janelas de vidros das portas das salas de aula dão para se ter essa noção.
    O mesmo se vai passando em relação a filmes ou outros recursos da internet.
    Cabe ao professor saber seleccionar os recursos e materiais e , acima de tudo, estar atento à reação dos alunos/turmas.
    Se assim fôr, sabe-se quando mudar de estratégia.
    Se tivermos em atenção a teoria das inteligências múltiplas, que nos ajudam em muito a perceber as diferentes formas de ensino e de aprendizagem, então temos mesmo de variar estratégias, recursos e materiais.
    E quantas acções de formação contínua de professores existem que são baseadas em powerpoints? Houve uma em que a formadora, mais tarde inspectora pedagógica, mandava os professores lerem o que estava lá e ….olhem, pronto….era assim do princípio até ao fim

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  2. Raríssimas vezes usei powerpoints de editoras, porque, lá está, gosto de sentir a tecnologia ao meu serviço e do que pretendo fazer com os meus alunos; rejeito a ideia da aula estruturada em função do que alguém colocou numa apresentação e atrás da qual eu tenho de seguir.

    E sim, os piores exemplos que tenho visto de powerpoints mal feitos – ausência de imagens, formatações confusas e de mau gosto, demasiado texto, fontes pouco legíveis, slides com pouco contraste – são geralmente de doutores da faculdade e outros formadores encartados.

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  3. A propósito de avaliações, skills, domínios, recursos… sei lá mais o quê….
    Pois estava a ver pela 4ª ou 5ª vez aquele anúncio da NOS e do 5G, onde uma menina quer um boneco de neve e os pais fazem-lhe várias surpresas. O anúncio é longo, visualmente muito atrativo e com aquela versão deliciosa do ” I can’t help falling in love with you”.
    E pensei: olha que coisa mais linda para se utilizar numa aula –
    Domínio sócio cultural- Publicidade, Marketing
    Competências: Oralidade +Interação escrita
    Competência estratégica-Trabalho em grupo + trabalho individual
    Competência intercultural – Confronto de ideias e perspetivas distintas sobre
    a abordagem de um dado problema e ou maneira de o resolver……
    Enfim, mais ou menos isto. Mas a diversão, pelo menos minha, é garantida.
    E se não me divertir, é um aborrecimento…..

    Problema a equacionar- como propôr esta tarefa sem que a opinião pessoal da professora seja lida pelos alunos de modo a não os influenciar.
    Recurso:

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