Quem atenta contra a Educação?

[…] Desde Durão Barroso e, sobretudo, dos tristemente inesquecíveis governos Sócrates, era então Ministra de Educação Maria de Lurdes Rodrigues, que a educação passou de secundária a um autêntico campo minado de que era urgente desconfiar. Os professores eram o problema, não a solução. As escolas não funcionavam. Havia que pôr esses malandros a trabalhar e a escola, pois claro, à imagem de um passado que gostaríamos esquecido, sim, tinha que ter um diretor. Era a solução. Muitos diretores, felizmente, souberam manter vivo esse espírito de colegialidade que é fundamento do trabalho de uma escola.

Daí para os dois grandes pecados da “gestão” da educação (sendo a ideia de gestão, como se uma escola fosse uma empresa, um problema inaugural): o “menos é mais” e o “mais é melhor”, sim, os dois ao mesmo tempo, foi o inevitável salto.

“Menos” em termos hierárquicos e de recursos (não, não é menos hierarquia, bem pelo contrário). Um macro agrupamento onde antes havia escolas em rede informal. Um diretor onde antes havia um conselho executivo eleito. Menos professores (e neste parâmetro Nuno Crato brilhou), etc, etc, etc…

“Mais” em termos organizativos e de procedimentos. Mais alunos por escola, mais alunos por turma, mais escola a tempo inteiríssimo, mais burocracia intermédia, mais disciplinas (e, obviamente, menos carga horária, havendo várias disciplinas em que o professor está apenas uma vez por semana com os 28 alunos durante hora e meia), etc, etc, etc…

A agravar tudo isto, a maneira como se conseguiu desde David Justino, via ratings, desertificar escolas, doravante Líbias do Lumpenproletariat, favorecer descaradamente as escolas privadas aos olhos de pais atemorizados – uma forma particularmente cruel de desigualdade social – e criando-se pequeníssimos oásis protegidos de imitação do privado. […]

Carlos Marinho da Rocha é professor na Escola Artística Soares dos Reis e responde, no Público, a um editorial miserável de Manuel Carvalho, que na altura também aqui comentei.

Recorda que a contestação ao trabalho extraordinário, com ou sem remuneração, é uma luta que a Fenprof vem travando, recorrendo inclusivamente à greve, desde 2019. Que as horas extra, podendo justificar-se em situações pontuais e excepcionais, não podem ser impostas como solução definitiva, ou por prazo indefinido, para a falta de professores. Assim o determina a lei e, antes dela, o deveria impor o bom-senso dos dirigentes e governantes.

No caso das escolas artísticas, as regras em vigor subestimam as necessidades de pessoal, levando à sobrecarga dos docentes em funções. Noutras escolas, a insuficiência de crédito horário vai determinando a invasão da componente não lectiva por tarefas que deveriam ser consideradas na lectiva. E a forma como são tratados os professores contratados ao nível remuneratório, da contagem de tempo de serviço e de falta de compensação ou apoio nas colocações longe de casa está a deixar muitos horários sem professor colocado. Tudo isto reflecte o desinvestimento em educação e o desprezo com que sucessivos governos vêm tratando os profissionais do sector.

Inverter a situação problemática que se vive nas escolas passa por uma mudança de políticas, pelo envolvimento dos professores nas reformas necessárias e, claro, pelo investimento na escola pública, a única que pode dar uma resposta adequada aos problemas e aos desafios que, agora e no futuro, se colocam no sector.

4 thoughts on “Quem atenta contra a Educação?

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