Vacinar as crianças

Nota-se uma enorme divisão, se não na sociedade, pelo menos na opinião que se publica, a respeito da necessidade de vacinar ou não, contra a covid-19, as crianças dos 5 aos 11 anos. Colocada a questão ao nível do custo/benefício, até mesmo os especialistas se dividem, enquanto por outro lado se percebe que, a nível político, a decisão estava há muito tomada e apenas por razões logísticas não se inicia de imediato. Não sendo perfeitas, as vacinas existentes são de longe o meio mais eficaz de prevenir as formas mais graves da doença. E sabemos que as crianças, embora raramente adoeçam com uma infecção que afecta sobretudo pessoas mais velhas, são igualmente transmissoras, sendo o ambiente escolar, sobretudo no Inverno, propício aos contágios. O facto de os surtos nas escolas estarem este ano a ocorrer sobretudo no 1.º ciclo e pré-escolar, onde não há vacinados e o uso de máscara está ausente ou é facultativo, é significativo.

Ainda assim, o movimento de recusa é forte, aparentemente contaminado por um certo infantocentrismo que tem dominado as sociedades ocidentais envelhecidas. Se há uns anos atrás se endeusava a juventude, agora são os príncipes e as princesas o centro das atenções. Sendo cada menino ou menina um ser tão especial, que direito há de incomodá-los com uma pica, em nome de algo tão egoísta como… proteger os seus familiares directos de eventuais contágios?…

E, no entanto, basta espreitar o plano nacional de vacinação para constatar que quase todas as vacinas que dele constam são administradas nos primeiros meses ou anos de vida. Até aos 10 anos, tomamos praticamente todas as vacinas de que iremos necessitar ao longo da vida. A partir daí, serão sobretudo reforços das inoculações anteriores ou novas vacinas desenvolvidas contra doenças que, como a covid-19, se insinuaram nas nossas vidas.

Sugerir que as crianças, apenas por o serem, não deveriam receber a vacina anti-covid soa assim a argumento irracional. Estando provada a segurança das vacinas em causa, a questão essencial deveria ser a defesa da saúde pública, para a qual todos, miúdos e graúdos, devem contribuir. Mas mesmo que se insista em continuar a focar o problema no interesse e no bem-estar da criança, então há que considerar os prejuízos para ela advirão da propagação da doença entre os seus familiares. Será boa para a criança a eventualidade de ter o pai, a mãe ou algum dos avós hospitalizado? Há benefícios para os miúdos de vivermos em pandemia ainda muito mais tempo, sabendo-se que a vacinação em massa é, até agora, o único caminho para conter e superar a pandemia sem novos confinamentos?

As crianças fazem parte da sociedade e não devem ficar de fora de um dos mais fortes desafios colectivos que se coloca à humanidade nos tempos que vivemos. Como professor, repugna-se que se tente transmitir a ideia de que as crianças, pelo simples facto de o serem, não possam contribuir para o bem daqueles que as rodeiam, ou de que devam ser dispensadas de fazer tudo o que não resulte em seu benefício directo. Muito do que se faz nas escolas, por exemplo, não resulta no seu prazer e satisfação imediatos. Mas a escolarização em massa melhorou a vida presente e futura das crianças, em todos os países em que foi implantada.

Vacinem lá os príncipes e as princesinhas, que não dói nada…

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