Tornar mais atractiva a profissão docente

Não, não é com ordenados substancialmente elevados. Creio que a generalidade dos professores do ensino público não superior, entre os quais me conto, não se move por dinheiro. Move-se pelos princípios – a abnegação, a empatia e o amor ao saber – por trás da bela missão que abraçou, a de guardiões da civilização e do futuro. Move-se também por um emprego estável e respeitável.

Muito mudou desde os tempos em que fui aluno nos ensinos básico e secundário. A educação especial, por exemplo, a filosofia e o esforço de inclusão de todas as fascinantes variantes de ser humano foi um avanço que ainda hoje puxa uma lágrima aos meus olhos piegas.

Também mudaram o contexto social e tecnológico, os programas curriculares, a atitude dos encarregados de educação face às instituições e, naturalmente, a forma de os alunos viverem a escola no geral e as aulas em particular.

Quanto aos professores, adultos inteligentes com uma “quilometragem” crescente, mantiveram compreensivelmente uma personalidade moldada nos anos 1980 ou 1990, a qual tem sido pressionada e testada com as recorrentes alterações das políticas educacionais ao nível da organização (labiríntica) dos currículos, da estrutura (desinteressante) da carreira e das exigências profissionais (sobrecarga de trabalho burocrático), e que, a meu ver, não estão em sintonia com a evolução da sociedade.

Luís Aires é professor e reflecte, no Público, sobre o futuro de uma profissão em crise.

Julgo que tem razão quando refere que a generalidade dos professores não escolheu a profissão pensando em ordenados elevados ou outras compensações materiais. É claro que a carreira e o estatuto remuneratório não são algo despiciendo: devem estar ao nível da importância social da profissão, das exigências que se impõem aos profissionais e do grau de especialização, científica e pedagógica, que a estes é requerido. Mas tão ou mais importante do que o ordenado que se recebe ao fim do mês são as condições de ingresso na profissão, as perspectivas de estabilidade profissional e de progressão na carreira, os horários e condições de trabalho, o reconhecimento social e profissional e a qualidade do relacionamento interpessoal que se consegue manter nas escolas com alunos, colegas e pessoal não docente.

Algumas das propostas apresentadas estarão longe de consensuais, como a da existência de provas de acesso à profissão – Nuno Crato tentou mudar aqui alguma coisa, mas fê-lo com a sensibilidade de um elefante numa loja de porcelanas, criando fracturas que ainda hoje não cicatrizaram por completo e que farão com que este seja um tema tabu ainda durante muitos anos – ou a natureza das tarefas a atribuir aos docentes já próximos da idade de aposentação. Mas haverá outras com que quase todos concordarão, como a valorização da formação contínua enquanto processo de enriquecimento pessoal e profissional de cada docente, e não a vergonhosa caça ao crédito em se transformou.

A leitura integral do artigo, que recomendo, mostra que não é por falta de ideias e propostas que não se valoriza a profissão e a carreira docente, se melhoram as condições das escolas e se aposta num ensino que, sendo criativo e inovador no que verdadeiramente importa, mantenha níveis elevados de exigência, qualidade e rigor. A questão de fundo é, efectivamente, política. Luís Aires propõe planos educativos para dez anos, garantindo estabilidade nas políticas estruturantes, independentemente da cor política do governo de turno. Resta saber se os partidos que em Portugal partilham o poder concordarão em elevar a Educação a prioridade governativa, garantindo ao sector a visão estratégica e o investimento público que têm faltado nas últimas décadas. Nada indicia, infelizmente, que esteja para acontecer…

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