Escolas (quase) perfeitas

O cartaz anuncia um seminário idêntico a muitos outros que se vão fazendo com regularidade pelo país fora. Os centros de formação precisam de mostrar serviço. Um ciclo governativo está a chegar ao fim e os comissários políticos têm uma agenda a cumprir. O pessoal docente, que precisa de créditos para a progressão e de referências para o relatório de auto-avaliação, inscreve-se. Chamou-me este a atenção pelo título, que recorda uma verdade amarga que o favoritismo deste governo não se cansa de demonstrar: as escolas são todas iguais. Mas umas são mais iguais do que outras. São as escolas quase-perfeitas…

O que serão, então, estas escolas à beira da perfeição inatingível? São, naturalmente, as que cumprem com zelo as orientações da equipa ministerial, em particular do SE João Costa, o único que percebe, ou julga perceber, alguma coisa de Educação. As melhores de todas, as mais-que-perfeitas, vão ainda mais longe: adivinham os desejos, antecipam as vontades do senhor secretário e da equipa de dirigentes, consultores e comissários políticos que compõe a sua pequena corte.

Já as outras escolas, as escolas imperfeitas, as que não alcançam sozinhas o caminho do nirvana educativo, essas estão condenadas a seguir as passadas das quase-perfeitas. Pedem-lhes conselhos, espreitam-lhes os sites na internet e… assistem às prelecções dos directores e dos mentores dos projectos educativos. Tudo isto com o pano de fundo de uma autonomia anunciada, que permitiria a cada escola adequar-se ao seu meio, encontrar o seu caminho, desenvolver as suas soluções próprias, ajustadas às suas características e necessidades. Mas cedo se percebeu que não era isso que se pretendia. A falsa e perversa autonomia concedida às escolas deixa-lhes uma única opção: a de seguirem por vontade própria as determinações do ME, sem que este tenha de as obrigar seja o que for. As que o não fazem, rapidamente têm uma zelosa equipa de inspecção ou de “acompanhamento” à perna.

O Governo está a prazo, mas os evangelizadores da boa nova educativa prosseguem, imparáveis, a missão que lhes foi confiada. O esquema, repetido à exaustão, é revelador não só da pouca confiança que este governo tem nos professores (o que aliás, honra lhe seja feita, raramente se dá ao trabalho de disfarçar) mas também de como nem o seu próprio discurso sobre a autonomia das escolas é para levar a sério.

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