Escola a tempo inteiro?

Em Portugal, o programa da escola a tempo inteiro foi lançado sobretudo a pensar nos “benefícios para as famílias que trabalham” e não como uma “estratégia para incrementar a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos”. Esta é uma das constatações de um documento de trabalho da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), intitulado More Time at School , onde foram analisadas as experiências da Áustria, Portugal, Dinamarca, Chile, Colômbia e Uruguai.

O conceito de escola a tempo inteiro remonta ao primeiro governo de José Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação. No espírito neoliberal de fazer mais com menos, ainda que não necessariamente melhor, a ideia era colocar a escola a assegurar uma retaguarda à família, ocupando os filhos ao longo de toda a jornada de trabalho dos pais.

Discutir o essencial da questão, quando falamos dos alunos mais novos, do 1.º ou 2.º ciclo, que ainda não têm autonomia para ficar longas horas sozinhos em casa, esbarra numa inevitabilidade: os horários laborais da generalidade dos trabalhadores não se compadecem com manhãs ou tardes livres dos filhos, nem o nível de rendimento da grande maioria das famílias permite considerar a opção, tão comum noutros países do centro e norte da Europa, de um dos progenitores não trabalhar, ou fazê-lo a tempo parcial para acompanhar os filhos. Pelo que a discussão está na forma de ocupar essas horas em que as aulas curriculares já terminaram mas ainda é cedo para regressar a casa: mais escola, seja na forma de TPC, apoios educativos ou reforço das aprendizagens; actividades extra-curriculares – desporto, música, ateliers, etc. – ou simplesmente tempo livre para brincar, uma necessidade de que muito se fala mas que, na hora de planear os horários dos mais novos, tantas vezes fica esquecida?

Para isto, não há seguramente uma resposta definitiva, como o demonstra aliás o estudo da OCDE, que encontrou soluções distintas em cada um dos países analisados. Pelo que me interessa mais destacar, nas entrelinhas do estudo e da notícia, um dos problemas de fundo e dos desafios mais complicados que se coloca à escola dos nossos dias: as exigências contraditórias que lhe são feitas pelo poder político e a sociedade.

Na verdade, temos aqui mais uma demonstração evidente de que a escola, faça o que fizer, estará sempre sujeita a crítica. Se procura organizar, no tempo extra que os alunos lá passam, actividades de reforço, complemento ou recuperação de aprendizagens, estará a massacrar as pobres crianças com “mais do mesmo” e a impor-lhes uma carga de trabalho semelhante à que têm os adultos. Se o não faz, está apenas a proporcionar “guarda de crianças” aos pais que trabalham, não contribuindo para um maior “desenvolvimento” dos alunos ou o “incremento” das suas aprendizagens. Se tenta fazer mais, ou melhor, ou diferente, esbarra na falta de autonomia e de recursos.

É-se, como sabiamente diz o povo nestas situações, preso por ter cão e preso por o não ter…

One thought on “Escola a tempo inteiro?

  1. “Escola a tempo inteiro: em Portugal serve para apoiar as famílias, noutros países para reforçar aprendizagens”
    Na minha opinião, nem uma coisa nem outra.

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