O ministro vaiado

Nas cerimónias oficiais do Dia do Exército, que decorrem este domingo em Aveiro, ouviram-se vaias ao ministro da Defesa, João Gomes Cravinho. Um grupo de dezenas de paraquedistas organizou o protesto nas redes sociais por não poder cantar o hino “Pátria Mãe”.

“Estou aqui pelos meus irmãos que foram impedidos de cantar o ‘Pátria mãe’, desfilar à paraquedista, marchar à paraquedista. Alguém de esquerda disse que é um grito racista e então todos pagaram por tabela. Ninguém pode expressar garbosamente em desfile”, afirmou à TVI José Espinhosa, soldado paraquedista que participou no protesto, acrescentando que as tradições militares não são negociáveis e ameaçando que, na próxima vez que sejam impedido de entoar o cântico, o protesto já não será ordeiro.

Os desacatos nas comemorações militares decorridas ontem em Aveiro parecem reduzir-se a algo aparentemente insignificante: uma revolta por uns militares em parada não poderem cantar o seu hino favorito e usar a boina predilecta. No entanto, se assim pensaram o ministro e os comandos militares, a verdade é que, para aqueles homens, tanto os que hoje servem como paraquedistas como os que já o fizeram anteriormente, aqueles elementos encerram um simbolismo profundo. A proibição soou-lhes a prepotência dos mandantes e humilhação sobre os comandados.

Escrevo sobre isto apesar de, por temperamento e maneira de ser, me situar habitualmente nos antípodas dos valores castrenses evocados pelos manifestantes. No entanto, apesar de nada me ligar a hinos ou a fardas, há uma coisa que percebo muito bem e que me aproxima deles: também eu me sinto vítima de dirigentes e governantes que pouco ou nada percebem do trabalho concreto desenvolvido, das condições em que é feito e das aspirações dos profissionais no terreno.

O que se passou ontem poderá ser um sintoma de que faltam nas forças armadas chefias militares e políticas que falem com os militares, que os motivem, que ouçam os seus problemas e que compreendam as suas necessidades. Tal como faltam, na Educação, dirigentes que se disponham a vir às escolas conhecer a realidade, não para implementar mais um projecto inventado nos gabinetes do ministério, mas para perceber os problemas concretos e os verdadeiros desafios que se colocam no quotidiano docente.

A diferença, aqui, talvez esteja no facto de os militares, como vimos ontem, serem capazes de protestar sem medo e a uma só voz, não tendo problemas em pagar da mesma moeda – com um merecido enxovalho público – a quem, por prepotência ou incompetência, humilhou os paraquedistas. E se os militares de serviço estão impedidos de o fazer, fazem-no os que já não estão no activo, numa acção de solidariedade que é uma lição para todos e, a eles, só lhes fica bem.

Entre os professores, ainda predominam os protestos em surdina, os desabafos inflamados nas redes sociais e, perante os governantes, sorrisos e aplausos. Queremos ser respeitados – alguns acham que com uma Ordem de Professores é que a coisa lá ia! – mas não fazemos por nos dar ao respeito, assumindo atitudes firmes e consequentes perante os algozes da nossa profissão. Incapazes de enfrentar as hierarquias e o poder político, acabamos por escolher um alvo à medida dos nossos inconseguimentos. Pois não sabemos já que a culpa de tudo e mais um par de botas é… dos sindicatos?…

2 thoughts on “O ministro vaiado

  1. A burocratização da nossa profissão vai de par com a sua desintelectualização. A Cidadania e Desenvolvimento que as escolas promovem é a que sacraliza a ideologia reinante. É fácil ser feminista, anti-racista e ecologista hoje, sobretudo se as questões de classe e do sistema capitalista não forem equacionadas: fazem-se umas actividades folcróricas, vê-se uns filmezecos, e não passa disso. Somos capazes de tecer loas a Aristides de Sousa Mendes (e ficamos chocados quando os alunos não sabem quem foi nem querem passar a saber), mas quem tem entre nós a coragem que os seus actos ensinam? Até fazer a merda de uma greve que junta FNE e Fenprof é o cabo dos trabalhos! Tão triste, tão triste…

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