O regresso dos gangues juvenis

Em vez de entretido a mandar ouvir vozes dos alunos e a lançar, sobre as escolas, catadupas de projectos que ninguém encomendou, que dispersam esforços e retiram o foco do essencial, andaria melhor o Governo se estivesse atento, prevenido e actuante relativamente ao recrudescimento da violência juvenil. Mas se nem relativamente às escolas há interesse em saber o que realmente se passa, preferindo confiar-se na sorte e repetir mil vezes que “as escolas são seguras”, na esperança de que o desejo se torne realidade, o que se pode esperar de um Governo que continua a empurrar os problemas da violência e da criminalidade violenta com a barriga e a reagir, geralmente tarde e a más horas, em vez de agir preventivamente?

Os números negros da delinquência juvenil e da criminalidade violenta em geral baixaram durante o confinamento, mas isso não permite concluir que será mais segura, pacífica e ordeira a vida em sociedade no regresso à normalidade. Pelo contrário, aos antigos problemas, que não desapareceram, juntam-se as tensões acumuladas. Nos bairros sociais, nas famílias desestruturadas ou noutras situações problemáticas em que o sentimento de pertença dos jovens se constrói através da formação de bandos ou de gangues, a violência de grupo torna-se uma forma de afirmação. As identidades e rivalidades construídas através das redes sociais exteriorizam-se através da agressão. Com resultados trágicos, por vezes fatais, como sucedeu no recente caso do jovem assassinado por outros jovens a golpes de arma branca.

Numa muito bem documentada reportagem, o DN expõe uma realidade preocupante, da qual tendemos a conhecer apenas a ponta do icebergue: os homicídios que chegam às manchetes da comunicação social.

O homicídio de Rafael Vaz Lopes, de apenas 19 anos, foi resultado de uma escalada de violência que teve como primeiro campo de batalha as redes sociais, e depois passou para o mundo real. Não foi o primeiro caso a acabar com um miúdo a matar outro miúdo. Nem o primeiro a ter por detrás rivalidades entre grupos de jovens

“Estes grupos funcionam pela proximidade territorial e pelas redes sociais. Pela internet difundem o seu poder, a sua imagem, as suas façanhas criminais, ostentam os objetos dos roubos ou relatam os seus ataques. Nos fins de semanas as festas abundam e há sempre muito álcool envolvido. Em geral acabam em conflitos, há incursões de grupos nos bairros inimigos, muitas vezes envolvem ajustes de contas que podem ser tão triviais como por causa de alguma boca às namoradas ou algum comentário nas redes sociais, mas também roubos e agressões”, explica ao DN fonte policial que acompanha o fenómeno.

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O presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, sublinha que “houve uma acumulação de tensões e quando se descomprimiu, um pouco pelo desconfinamento, elas escaparam do mundo virtual”.

Sublinha que “a delinquência juvenil não tem tido uma política sustentada de prevenção e controlo” e que “com a pandemia os problemas acentuaram-se”. “Os jovens ficaram mais juntos, fortaleceram laços e fomentaram a presença nas redes sociais. A interação que antes era física passou para as redes sociais e agravou as rivalidades”, sublinha.

Para António Nunes “era por isso essencial que houvesse uma política pensada holisticamente para prevenir a delinquência juvenil, incluindo o impacto das redes sociais nos jovens com estes enquadramentos sociodemográficos. Os contratos locais de segurança, que podiam ter um papel importante nesta matéria, não têm pura e simplesmente nenhuma eficácia, não há ligação aos líderes informais, não há criação de mediadores nestes bairros”.

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Na comunidade onde estes miúdos vivem, como a Cova da Moura, há muitas interrogações e poucas respostas. O que leva miúdos a matarem-se uns aos outros? Qual o valor que dão às suas vidas?

Celso Lopes, da Associação Moinho da Juventude, uma das mais antigas do bairro que tenta promover atividades de apoio aos jovens do bairro, mostra apreensão. “Não entendo mesmo esta situação e todas as outras que possam ocorrer depois desta… porque o ciclo de dor e vingança só traz mais do mesmo. Pessoalmente tenho muitos amigos no Casal da Mira e várias outras pessoas da minha geração também o têm. Por isso, isto tudo é algo que eu sinceramente não consigo entender, não sei o que se passa na cabeça desta juventude e o que a leva a fazer algo desta natureza. Esta nova geração tem muito mais do que a minha teve, mas, infelizmente, não aproveita as chances e a vida doutra forma”[…].

Jakilson Pereira, da direção do Moinho, defende que “não se trata de um fenómeno geográfico local, enquanto bairro. É um fenómeno global das redes sociais. Os miúdos absorvem toda a violência dos filmes que vêm principalmente dos EUA e tentam provar o seu poder através da violência. Os pais trabalham de sol a sol na sua maior parte e não estão com os filhos, nem têm sequer noção das dinâmicas que eles vivem nas redes sociais”.

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Um magistrado que trabalha na zona da Amadora confessou ao DN ter “muita dificuldade em entender” que “o valor vida não seja tido em conta por estes miúdos”.

“Há um retrocesso significativo em termos de valores. Há valores básicos intemporais, como a vida e a liberdade, que não são assimilados por estes jovens”.

Porquê? “Penso que pode ter a ver com as dinâmicas sociais da zona onde vivem, pelo ambiente que os envolve e com que convivem normalmente e que é para eles a normalidade. A violência partilhada nas redes sociais, os jogos de computadores, podem ter outro tipo de impacto em jovens que vivem nestes ambientes, boa parte das vezes sem uma presença dos pais – que têm de trabalhar o dia inteiro -, com grandes dificuldades e uma grande carência afetiva que os leva a procurar estes grupos que funcionam como uma família. Nem estão preocupados com a banalidade da violência, pois aquela que vivenciam no seu dia-a-dia, quer no mundo real, quer nas redes sociais, filmes e jogos, torna-os insensíveis a valores transversais e intemporais, como a vida”.

2 thoughts on “O regresso dos gangues juvenis

  1. Ninguém com menos de 18 anos é delinquente. É aluno. Tal estatuto não implica a obrigação de eetudar ou respeitar os outros, mas tão-somente andar na escola. Assim, em vez de cumprir a sua função de socialização a partir de valores de trabalho e respeito, a escola torna-se um antro de má-educação, irresponsabilidade gozo. As vítimas são os professores, que têm que trabalhar em condições que não garantem a sua saúde mental, e os outros alunos que poderiam ter um bom ambiente de aprendizagem se não tivessem grunhos como colegas.

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