Erradicar a pobreza

A propósito do Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza, que a ONU celebra anualmente a 17 de Outubro, continuam a fazer-se em algumas escolas – embora não com a mesma frequência de há uns anos atrás – campanhas de recolha de alimentos e outros bens essenciais, com os quais se pretende assinalar a data.

Estas campanhas, cujo mérito não ponho aqui em causa, são no entanto completamente desajustadas em relação ao espírito e aos objectivos da iniciativa internacional. De facto, a recolha e dádiva de alimentos pode efectivamente mitigar a pobreza e a situação de necessidade em que se encontram tantos indivíduos e famílias. Mas não resolve o problema de fundo: os pobres continuarão pobres. Pelo contrário, na ausência de políticas sociais de efectivo combate à pobreza, pode mesmo ter o efeito adverso de ajudar, não à erradicação, mas à sua perpetuação.

Num mundo globalizado de crescentes desigualdades, mas onde o desenvolvimento económico e tecnológico não pára de aumentar, o combate à pobreza é possível, urgente e necessário. Mas tem de ser feito à escala global, com um conjunto de políticas e uma conjugação de esforços que não se limitem a acções pontuais de caridade ou solidariedade. A mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, esclarece bem os objectivos do Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza.

A mensagem publicada pelo secretário-geral para o Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza enfatiza como prioridade que os países promovam uma “recuperação transformadora”.

O chefe da ONU defende que o mundo não retorne “às desvantagens e desigualdades estruturais endêmicas, que perpetuaram a pobreza mesmo antes da pandemia”.

Em segundo plano, Guterres defende uma recuperação inclusiva, num mundo desigual onde a fragilidade de grupos já marginalizados cresce e coloca cada vez mais longe do alcance os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Um dos exemplos do cenário é o número de mulheres em extrema pobreza que supera o dos homens. Antes da Covid-19, “22 homens entre os mais ricos do mundo tinham mais riqueza do que todas as mulheres da África e a diferença só aumentou”.

Como terceira prioridade para a recuperação, o secretário-geral observa que o processo deve ser sustentável por haver necessidade de se construir um mundo resiliente, descarbonizado e com carbono líquido zero.

A mensagem aponta a pobreza como “uma acusação moral” dos tempos atuais, em um mundo que pela primeira vez registrou um aumento do problema em duas décadas.

Com o compromisso de ‘Construir Melhor para o Futuro’, o chefe da ONU destaca que deve ser promovida a maior inclusão das vozes das pessoas que vivem na pobreza, enfrentar as indignidades e eliminar as barreiras.

O líder das Nações Unidas ressalta ainda que falta mais união para acabar com a pobreza e criar um mundo de justiça, dignidade e oportunidades para todos.

2 thoughts on “Erradicar a pobreza

  1. Uma verdadeira utopia.
    Palavras que não passam disso, mas que são sempre bem vindas.
    A propósito, quase 2 milhões de pobres em Portugal.
    Fora os remediados.
    E é neste cenário que ouvimos os “liberais lusos” a clamar contra o estado social enquanto não se fazem rogados em relação aos apoios de Estado.
    Mais uma vez, e a propósito, não invistam no SNS e na sua boa gestão, não criem carreiras médicas e de enfermagem mais atrativas e decentes que vão ver no que isto vai dar.

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