A invasão dos projectos

Os Projetos invadiram as salas de aula.

Temos o projeto da alimentação saudável, da velocidade leitora, o canguru matemático, o projeto da higiene oral, o projeto da higiene auditiva, o projeto do projeto, o projeto de turma, o projeto da reciclagem, o projeto da falta de projeto..

Depois ainda há o relatório, o relatório do relatório, a reunião e a reunião da reunião.

Também temos professores a trabalhar a centenas de Kms de distância das suas casas a ter de pensar projetos, o projeto rodoviário e o projeto onde aposto todas as fichas: o projeto da falta de pachorra para tanto projeto.

No fim há que avaliar os projetos e lá vem mais uma reunião .

Todos os projetos são aplicados em tempo letivo como se a aprendizagem e o tempo de qualidade necessários para consolidar as aprendizagens estivessem a atrapalhar os projetos. E como se as cabeças das crianças e jovens funcionassem como um interruptor de luz!

Depois espantam-se com os níveis de dispersão do miúdos e lá venho eu indignar-me com o absurdo dos medicamentos que as crianças tomam para se concentrarem.

É claro que ninguém é obrigado a aceitar tanto projeto. Mas há sempre aquele risco de se ser o “ ovo podre” por não aderir ao projeto .

Senhores que pensam a Educação, escolham UM BOM PROJETO e apliquem-no a sério.

Esqueçam a quantidade e apostem na qualidade.

Valorizem e respeitam os vossos Professores.

Estou tentada em juntar todos os meus alunos e ex-alunos e começar a invadir as vossas reuniões no ME, os vossos consultórios onde estão a tirar o siso a alguém para aplicar o meu projeto : Salta por uma boa razão.

Não se esqueçam que conto com o vosso entusiasmo e que é muito importante que todos participem.

Patrícia Coelho

Uma escola construída em torno de projectos desrespeita a autonomia científica e pedagógica dos professores, impedindo ou condicionando-os na escolha das melhores metodologias e estratégias pedagógicas. Escrevi-o há alguns anos, para escândalo de alguns projectistas que entretanto ganharam idade, mas juízo nem tanto: não é democrática a escola assente na ditadura dos projectos, que se sucedem e eternizam porque alguém decide que têm de ser aplicados.

No entanto, a ditadura dos projectos é uma peça-chave do experimentalismo permanente e irresponsável a que se pretende submeter a escola pública, impedindo a consolidação e aperfeiçoamento das boas práticas e fazendo tábua rasa de um princípio elementar da boa organização, seja na escola, na empresa ou na sociedade em geral: em equipa que ganha não se mexe. A “inovação pedagógica” é vista erradamente como um fim em si mesmo, raramente se avaliando, de forma séria, o que se ganhou e o que se perdeu com cada mudança. E quem quiser melhor que procure a educação privada.

Há outra razão fortíssima para continuar a fazer da educação este mundo sempre composto de mudança: é que o sector é subfinanciado pelo Orçamento de Estado, pelo que o funcionamento pleno das escolas está cada vez mais dependente de fundos europeus. Que apenas chegam, lá está, se cada nova despesa vier associada, não às necessidades permanentes da escola, mas à concretização de determinado projecto. O resultado prático é, obviamente, uma escola sem rumo, cada vez menos focada nas reais necessidades dos seus alunos e na construção de uma resposta educativa de qualidade; cada vez mais subordinada ao novo desígnio nacional que é gastar, da bazuca europeia, tudo a que temos direito.

8 thoughts on “A invasão dos projectos

  1. Deu para sorrir com este texto da Patrícia Coelho!
    Eu também sempre achei muita piada a um projecto cujo objectivo era o uso da língua francesa para se dar aulas de Ed. Visual, CN e História ao 2º ou 3º ciclo, já não me lembro.
    Também não me lembro do que aconteceu ao projecto.

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    • Esse projeto é o CLIL e está a ser implementado em várias escolas com sucesso. É para qualquer língua estrangeira.

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      • O sucesso, nestas coisas, é sempre relativo, sobretudo se a avaliação dos projectos for feita por quem os implementou, desenvolveu ou de alguma forma for parte interessada nesse sucesso.

        Aprender uma ou várias disciplinas numa língua estrangeira pode ter vantagens, mas também tem inconvenientes, que uma avaliação honesta e isenta não deixará de identificar e analisar.

        Ao contrário de Portugal, onde continuamos na fase dos projectos-piloto, em Espanha o chamado ensino bilingue tem tido aplicação em larga escala nalgumas comunidades e regiões, e os resultados estão à vista. Globalmente, estão longe de ser animadores.

        Ver aqui: https://escolapt.wordpress.com/2017/05/17/o-ensino-bilingue-em-espanha/

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      • Estava eu a escrever um texto sobre esta abordagem, quando…zás…..desapareceu tudo.
        Assim de repente, escrevia que as limitações à sua implementação eram óbvias. Duas razões fundamentais: professores de Biologia /Geologia ou História a comunicarem, por exemplo, em Inglês??!! ; e os conteúdos sócio-culturais , novamente refiro-me à l. inglesa servem para quê?
        Mal sabia eu a quantidade de materiais necessários para tal, incluindo questionnaires, webquests, self assessments, etc…etc…
        Resumindo, parece que as limitações desta abordagem ultrapassam os sucessos.
        Aqui chegados, fica muito bem em teses variadas:
        https://eg.uc.pt/handle/10316/35161

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  2. A importância que dão aos projetos revela bem o desnorte e a ignorância dos seus promotores.
    Escola é (existe para) trabalho com afinco na sala de aula, o único formato que permite a ocorrência de aprendizagens efetivas e duradouras (continuidade pedagógica).

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  3. Ninguém quer acabar com o Canguru Matemático mas o texto reflete e muito bem a triste realidade do ensino português: o tempo para que o foco seja a aprendizagem é a fatia mais magra, os miúdos vão para a escola para ocupar tempo, conviver e distrair. A quantidade de distratores que os convidam a desviarem se do foco é incomensurável.
    Os miúdos de hoje parecem “baratas tontas” a correr de atividade em atividade, de projeto em projeto, de treino em treino, etc … se os dias tivessem 48 horas ainda seriam pequenos.
    Fazem lembrar aqueles EE que passam horas e horas a trabalhar para ganhar muito dinheiro para dar às suas famílias o que houver de melhor , depois, … percebem que não deram o mais importante . Assim é hoje a nossa escola!!!
    Os pobres professores, onde eu me incluo, somos chamados a tudo, inclusive a assumir a “marcha” de fazer tudo e tudo para que os alunos estejam na escola ainda que o sucesso seja aparente e incluindo substituir o trabalho do aluno.
    E já não falo nos relatórios, nas reuniões, na imensidão de horas e horas a adaptar, reformular, discutir tudo o que a tutela decide inventar.

    Haja quem apareça e tenha a coragem de dizer que os professores teem que ensinar e os alunos teem que ser os pioneiros do trabalho na sua aprendizagem.
    A escola deve ser um lugar para trabalhar !!!!!
    Sem desvio do foco!!!!
    Cada um no seu papel!!!!!

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