Quem pediu rubricas de aprendizagem?

A utilização de rubricas no processo de ensino-aprendizagem como instrumento de avaliação está a ser o tema forte, na atualidade educativa. Porém, de atual nada tem. Já no século passado era de uso habitual noutros países. Estaremos, uma vez mais, a “importar” fora de validade? De um modo muito simplista, as rubricas podem ser encaradas como um instrumento para quantificar/classificar respostas de qualidade. As rubricas de avaliação ganham espaço no processo educativo, pelo facto de tornarem possível padronizar a avaliação, levando a que esse processo seja mais preciso e confiável e permitirem que os alunos entendam melhor o seu nível de sucesso, isto é, percebam o que lhes falta (no caso de faltar algo) para realizar determinada aprendizagem. O busílis do problema surge quando o Frederico tem de materializar as rubricas. Para cada aprendizagem a avaliar será construída uma rúbrica. Essa rubrica, geralmente, terá quatro indicadores ou descritores de níveis de desempenho.

Quando está a avaliar por rubricas, Frederico vai ter de identificar com precisão em que nível de desempenho se situa cada aluno, naquela aprendizagem. Ora, se temos 200 aprendizagens, Frederico irá ter 800 possibilidades de nível de desempenho (200×4) para as avaliar e não nos esqueçamos que avaliar implica partilhar informação com o aluno… Parece-lhe possível que Frederico consiga fazer isso em pouco mais de uma hora? Estamos convencidos de que não precisará ser professor para responder a esta questão.

Ah! Mas o mais difícil ainda está para vir… Aquilo que referimos foi para um aluno. Como vimos inicialmente, Frederico tem 200 alunos. Só por curiosidade, multiplique 800 possibilidades de nível de desempenho por 200 alunos. Qual o número que obteve? Um surpreendente 160 000 (cento e sessenta mil). Acha possível que, no desempenho da sua função, Frederico consiga manipular com rigor 160 000 entradas/registos de desempenho? Sabemos que Frederico, como muitos, é um excelente professor, mas estamos em crer que essa excelência não será suficiente para superar com rigor tal hercúlea tarefa.

Não temos dúvidas de que as rubricas de avaliação são um excelente instrumento. Todavia, talvez não seja este o momento mais oportuno para considerar as mesmas como a “purificação da avaliação dos alunos”. Continua-se a intoxicar o ensino, muitas vezes, com soluções que não foram testadas previamente, na nossa realidade. Não se sabe bem porquê… Ou talvez se saiba?

Nelson Brito explica genericamente, muito melhor do que os propagandistas do “MAIA”, como funciona a avaliação através das rubricas de aprendizagem. E pelo menos duas coisas ficam claras.

Uma é o encantamento dos dirigentes educativos por um sistema avaliativo que promete acabar com o insucesso escolar, levando ao extremo a velha máxima de que, se o aluno não aprende, a culpa é do professor. Agora já não por não ter ensinado bem, que ensinar parece ter-se tornado um arcaísmo na escola do século XXI, mas por não ter fornecido o adequado feedback avaliativo que permite ao aluno identificar e corrigir os erros e, ao seu ritmo, progredir.

Outra coisa que também se percebe é que para um professor “normal”, dos que têm um horário lectivo completo, com seis, oito ou mais turmas onde se incluem, na sua diversidade, uma a duas centenas de alunos, este sistema das rubricas, aplicado com o devido rigor, pura e simplesmente não é exequível. Não há tempo nem para elaborar as ditas rubricas nem para as aplicar devidamente em sala de aula. A não ser que se assuma o absurdo de colocar o ensino e a aprendizagem ao serviço da avaliação, subvertendo tudo o que deve ser uma educação de qualidade.

Produzindo uma avaliação padronizada, as rubricas adequam-se bem, por exemplo, à avaliação externa através de provas de aferição. Mas não faz sentido propor aos professores do país inteiro o colossal desperdício de tempo e energias que implica andarem a inventar “rubricas”, cada um para seu lado, para avaliar as mesmas aprendizagens essenciais.

Claro que aqui entra o discurso da “autonomia” e da “flexibilidade”. Sabem bem que as “rubricas” das escolas públicas mais selectas não podem ser iguais às das escolas dos TEIP. Assim, o segredo do sucesso do novo paradigma avaliativo não provém das virtualidades das “rubricas”; continua a estar onde sempre esteve: na “flexibilidade” para colocar a fasquia avaliativa mais acima ou mais abaixo, de forma a que todos a consigam ultrapassar. E se não funcionar com a “rubrica”, dá-se o jeitinho de outra maneira. Como sempre nos sugeriram que fizéssemos…

3 thoughts on “Quem pediu rubricas de aprendizagem?

  1. “Infelizmente, a tendência geral é de sobrecarregar cada vez mais as definições juntando constantemente novas componentes, omitindo o facto de que toda a técnica de definição dos objetivos avaliativos será aplicada em última instância não pelos investigadores que a concebem, mas pelos professores das diversas disciplinas, para a atividade dos quais a sua escolha apenas representa uma etapa limitada, que não lhes deve ocupar o tempo inutilmente, impedindo-os assim de desenvolver outras tarefas próprias da atividade do professor” (Birzea, 1986, p. 216).

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  2. “Produzindo uma avaliação padronizada, as rubricas adequam-se bem, por exemplo, à avaliação externa através de provas de aferição. ”
    Peguem-se nos critérios de classificação das provas de exame nacionais e estão lá grande parte destas rubricas com os respectivos níveis de desempenho. Há anos que é assim, pelo menos na disciplinas de Inglês e Alemão. As outras áreas disciplinares têm seguido o modelo, nomeadamente o Francês e o Espanhol.
    Pegue-se, de seguida, no Perfil dos alunos e lá estão também as rubricas a nível de competências e atitudes e etc. Criam-se níveis de desempenho diferenciados por advérbios de frequência.
    Depois de um copy e paste, dá-se uma olhadela e está feito.
    O holístico e o bom senso que ainda vai restando fazem o resto.
    Nada de novo.
    Avante com a reciclagem!

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