Colocações no ensino superior 2021

Depois da excecionalidade do ano passado, com o maior número de sempre de colocados na primeira fase do concurso de acesso, foram admitidos, agora, ao Ensino Superior 49 452 novos estudantes. Uma quebra de 3% face a 2020, mas, mesmo assim, o segundo valor mais elevado desde 1989. A que não é alheia a procura, mas também o facto de haver mais alunos a candidatarem-se com notas baixas. Para universidades e politécnicos, volvidos quase dois anos de pandemia, é chegado o tempo de discutir o acesso.

Isso mesmo confirma, ao JN, o ministro do Ensino Superior. Se, por um lado, há um “aumento relativo das colocações em formações de maior incidência de estudantes com notas mais elevadas”, por outro “há mais estudantes com notas inferiores a candidatarem-se, sobretudo em Lisboa e Porto”, diz Manuel Heitor. Estas instituições registaram uma quebra de 7% no número de colocados face a 2020. Mesmo assim, “o importante é que há mais alunos a concorrem ao Ensino Superior”.

Nesta primeira fase de acesso, candidataram-se 64 004 alunos (mais 2%, ao nível mais alto dos últimos 26 anos) a um total de 55 307 vagas (menos 1%, sobretudo em Lisboa e no Porto), com 77,3% a garantirem um lugar no Superior, contra 81,5% no ano passado, sendo o valor mais baixo, pelo menos, desde 2008. Em linha com o verificado em 2020, metade dos estudantes ficou colocado na primeira opção e 20% na segunda.

Já os cursos com maior concentração de melhores alunos viram o número de colocados subir 7%, para os 4893, sublinha o Ministério da Ciência e Ensino Superior em comunicado. Com Engenharias e Medicina no topo das médias, em linha com anos anteriores.

Depois da excepcionalidade das regras de acesso em 2020, devido à pandemia, já se sabia que 2021 seria ano de alguns ajustes no processo de candidatura e colocação no ensino superior.

O sistema continua a cumprir as finalidades para que foi criado, servir anualmente a cada universidade e a cada politécnico a lista dos seus novos alunos para os cursos a funcionar em 2021/22, escolhidos unicamente com base em classificações obtidas no seu percurso escolar no ensino secundário. Um sistema chave-na-mão que desresponsabiliza as instituições de ensino superior e é pouco condizente com a “autonomia” que, noutras matérias, gostam bem de defender. Mas que as livra de uma carga de trabalhos e responsabilidades, isso é inegável. E também por isso não se vê defender, por aqueles lados, mais do que ajustes pontuais a um modelo que mereceria já uma remodelação profunda.

De resto, mantêm-se e acentuam-se nalguns casos as tendências que se vêm desenhando nos últimos anos: algumas engenharias da moda rivalizam com os cursos de medicina no topo dos cursos mais pretendidos e, consequentemente, médias de entrada mais elevadas. O “país dos doutores” continua a confiar mais nas universidades do que nos politécnicos: estes são menos pretendidos, deixam vagas por preencher e acabam por ser, muitas vezes, segundas e terceiras escolhas dos candidatos. Continua bem patente o fosso entre o litoral e o interior, abundando aqui os cursos com poucas ou até nenhumas colocações, enquanto em Lisboa e Porto se atingem valores estratosféricos na entrada de alguns cursos.

O país continua a apostar no alargamento do acesso ao ensino superior, que com o actual número de vagas se torna acessível à grande maioria dos alunos que terminam o secundário, No entanto, e paradoxalmente, o regime de acesso promove um sistema de rankings universitários que hierarquiza os cursos e as escolas e, indirectamente, os alunos que as frequentam. Como se disséssemos que, embora todos os alunos possam ir para a universidade, só os diplomas de um punhado de instituições de referência é que serão devidamente valorizados. Sob a capa de um processo de selecção que pretende ser objectivo, transparente e igualitário continuam a cavar-se desigualdades no acesso à educação.

Listas de colocação e notas de candidatura no site da Direcção-Geral do Ensino Superior. Em alternativa, a base de dados do jornal Público facilita, num formato bastante acessível, análises e comparações.

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